Resenha Crítica | Mulheres do Século 20 (2016)

20th Century Women, de Mike Mills

O americano Mike Mills estava prestes a completar 40 anos quando finalmente decidiu se lançar como diretor de um longa de ficção com “Impulsividade”, vindo após seis anos dedicados à produção de curtas e documentários. Depois de dirigir Christopher Plummer na interpretação que lhe valeu um Oscar em “Toda Forma de Amor”, Mills retorna entregando aquele que é o seu melhor trabalho até aqui.

Em “Mulheres do Século 20”, a sua própria adolescência serve de base para construir uma narrativa em que enaltece a sua mãe Janet, interpretada como Dorothea pela magistral Annette Bening. No Sul da Califórnia dos anos 1970, essa mãe solteira de Jamie (Lucas Jade Zumann, de “A Entidade 2”) divide a sua casa com Abbie (Greta Gerwig, finalmente em um papel que não a obriga a repetir os cacoetes de sua Frances Ha), uma fotógrafa acometida por um câncer cervical, e William (Billy Crudup), um carpinteiro que desconhece a importância de medidas estáveis.

Embora não viva nesse mesmo teto, Julie (Elle Fanning) é uma das vizinhas de Jamie que está a maior parte de seu tempo livre na residência, inclusive dormindo todas as noites com ele sem que esteja em jogo algo além da amizade. Desenha-se assim com esse quinteto uma espécie de panorama daquele período, especialmente importante para os modelos de novas famílias que se formavam com o boom dos divórcios e para a multiplicação de mulheres que vislumbraram um destino além daquele de meras donas de casa.

Por se tratar de um projeto tão íntimo para Mike Mills, acaba havendo em “Mulheres do Século 20” certa superficialidade nos atritos entre mãe e filho, talvez por serem tão ratificados no curso do filme. Em contrapartida, existe um cuidado e carinho na construção de indivíduos que se atraem justamente por terem poucas coisas em comum.

Paulatinamente, Jamie, um garoto em progresso, vai constituindo a sua própria personalidade com o processo de troca sempre tão enriquecedor com pessoas mais maduras, ainda que não seja o único a experimentá-lo, como se testemunha quando outros laços se estreitam, como o de Dorothea com William ou deste com Abbie. Por essas interações que as inevitáveis rupturas do desfecho, acompanhadas pela bela música de Roger Neill, sejam tão comoventes quanto o de uma última despedida.

Resenha Crítica | Eu Te Levo (2017)

Eu Te Levo, de Marcelo Müller

Obviamente, Marcelo Müller já estava produzindo “Eu Te Levo” quando a crise de desemprego que atinge mais de 12 milhões de brasileiros se transformou em pauta diária dos jornais. Portanto, o realizador, que tem alguns créditos como roteirista e estreia agora na direção, vê o seu filme chegando aos cinemas contando com um interesse extra do lado de fora de sua ficção.

Isso acontece porque o personagem interpretado por Anderson Di Rizzi, Rogério, é um rapaz prestes a completar 30 anos que vive em Jundiaí em busca de uma vocação e que se vê aprisionado pelas pressões em ter uma estabilidade profissional. mesmo que para isso precise negligenciar a tão importante realização em ter prazer com aquilo que executa. No caso de Rogério, é de sua responsabilidade prosseguir tocando um pequeno comércio de materiais hidráulicos, herança deixada pelo seu pai recém-falecido.

Sem revelar nada para Marta (Rosi Campos), a sua mãe solitária e que se intromete com o fervor característico de quem tem filho único, Rogério inicia os estudos para se tornar um bombeiro. No entanto, é preciso que preste o concurso para a polícia federal, pois só assim conseguirá exercer posteriormente a função.

O convívio com o jovem Cris (Giovanni Gallo), vizinho a quem dá carona para São Paulo que também faz algo às escondidas, permite ao protagonista repensar ainda mais a sua posição no mundo, fazendo crescer um conflito interno entre um desejo de liberdade que o faria abrir mão de tudo ou a de seguir um rumo aborrecido e sem surpresas. É uma jornada amarga, como bem ilustra a fotografia em preto e branco de Jacob Solitrenick, diretor de fotografia com o qual Anna Muylaert trabalhou em seus primeiros filmes.

Mesmo diante de um drama crível que poderia (ou está sendo vivido) por qualquer um, Müller acaba recorrendo a intervenções em formas de personagens secundários que enfraquecem a dramaturgia de “Eu Te Levo”, seja no relacionamento padrão com uma mulher, Ana (Gabriela Palumbo), que conheceu por intermédio de Cris, seja numa interação verbal conflituosa com um sujeito que trabalha com ela sobre a ação por vezes irresponsável de policiais. Uma premissa boa a oportuna lamentavelmente desperdiçada pela falta de um ponto de destino mais sólido.

Resenha Crítica | A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell (2017)

Ghost in the Shell, de Rupert Sanders

Em uma contemporaneidade na qual a tecnologia avançou ao ponto de viabilizar a confecção de robôs com capacidade de obedecer a muito mais que uma dúzia de comandos, os laços da realidade com a ficção científica andam se estreitando cada vez mais. Baseado tanto no mangá de 1989 escrita por Masamune Shirow quanto no longa animado de 1995, “A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell” trata essencialmente dessa questão, ambientando a sua história em um futuro indeterminado, mas próximo.

Interpretada por Scarlett Johansson, a protagonista Major é a primeira de sua espécie, com uma anatomia robótica denominada como uma “concha” que abriga o “fantasma” de um ser humano. No caso, o cérebro de uma jovem que teria sido uma das vítimas de uma explosão e que agora recebe a sua segunda chance para servir a um propósito maior.

Com a parceria de Batou (Pilou Asbæk) e a supervisão de Aramaki (Takeshi Kitano, que não se presta a falar em inglês), Major lidera uma missão para interromper os crimes cibernéticos de Kuze (Michael Pitt), que estaria se infiltrando como um hacker na consciência de humanos constituídos de ciber-cérebros. Porém, o curso dessa caçada a reconecta com o seu eu anterior, o qual desconhecia por apenas ter fragmentos de memórias.

Mesmo não debutando do modo mais promissor com “Branca de Neve e o Caçador”, o inglês Rupert Sanders prova que é dono de um apuro estético dos mais arrojados, recriando um cenário futurístico à lá “Blade Runner”. Além da imaginação para apontar abismos sociais, dos edifícios periféricos aglutinados à uma metrópole tomada por hologramas gigantes, impressiona a caracterização de personagens, como as gueixas robôs que cometem um ataque terrorista.

Porém, o deslumbre visual, por vezes comprometido por um excesso de profundidade de campo que borra a bela cenografia digital, não reduz o fator humano tão importante em premissas como a de “A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell”. Mesmo polêmica, a escalação de Scarlett Johansson não traz prejuízos para um elenco essencialmente globalizado (com destaque para a francesa Juliette Binoche e a romena Anamaria Marinca em um papel que merecia ser mais amplo), correspondendo dramaticamente ao peso de se viver em um contexto no qual até mesmo a nossa consciência é ofertada e manipulada.

Resenha Crítica | Silêncio (2016)

Silence, de Martin Scorsese

Já levado ao cinema pelo cineasta Masahiro Shinoda em 1971, o livro “O Silêncio”, de Shûsaku Endô, era um dos projetos dos sonhos de Martin Scorsese, tendo desenvolvido em parceria com Jay Cocks os primeiros esboços do roteiro há mais de 20 anos. Muito mais do que a dificuldade de levantar o orçamento (algo em torno dos 45 milhões de dólares, um valor razoável dentro do que Scorsese ultimamente trabalha), o seu “Silêncio” também foi alvo de inúmeros adiamentos e de conflitos com o estúdio Paramount, encerrando aqui o contrato com o cineasta.

O apego excessivo pelo processo de pós-produção fez com que “Silêncio” sofresse consequências severas em seu lançamento. Além do fiasco de bilheteria, com faturamento risível de 7 milhões de dólares nos Estados Unidos, a produção sequer foi lembrada na última award season, sendo apresentado com atraso para os votantes de associações e sindicatos, resultado somente em uma menção ao Oscar de Melhor Fotografia.

Inspirando-se em figuras reais, Shûsaku Endô construiu “O Silêncio” como uma espécie de diário, com longos capítulos escritos como relatos deixados em manuscritos do século XVII. Como filme, essa subjetividade respira por narrações em off pontuais e certa complacência do próprio Scorsese por um credo do qual compartilha.

Rodrigues e Garupe (Andrew Garfield e Adam Driver, em papéis originalmente pensados para Gael García Bernal e Benicio Del Toro) são dois missionários intrigados com o destino do Padre Ferreira (Liam Neeson, substituindo Daniel Day-Lewis), há um ano desaparecido no Japão. Com a autorização do Padre Valignano (Ciarán Hinds), iniciam uma expedição em busca de seu paradeiro, enfrentando todos os riscos de serem descobertos em uma nação absolutamente intolerante com a fé católica.

Encarados como apóstolos de Jesus Cristo, Rodrigues e Garupe logo testemunham as consequências de estenderem os seus ensinamentos, com devotos sendo encaminhados à Nagasaki para serem exterminados com os métodos mais cruéis imagináveis. Mas será Rodrigues quem realmente experimentará as maiores provações de uma verdadeira via-crúcis.

Não há aqui qualquer sutileza em aproximar o protagonista de um ser divino sobre a Terra, deixando em seu encalço inclusive Kichijiro (Yôsuke Kubozuka), um pescador que presta serviços como guia com todas as características de um Judas Iscariotes. Também caricatural é a figura do Inquisitor (Issey Ogata), com moscas o rondando enquanto discursa sobre o seu impedimento de enraizamento de uma crença ocidental.

É por essas e outras que “Silêncio”, afora os seu primoroso empenho técnico, soa no mínimo inadequado, tratando sobre a intolerância religiosa com dilemas mal ajambrados. Não faltam ao filme comentários sobre uma idolatria ao divino que involuntariamente recai em uma devoção ao homem ou mesmo a infiltração de uma vantagem comercial do que se autodenomina como um bem-estar social ao indivíduo. Entretanto, Scorsese não se nega a enaltecer Rodrigues, mesmo que para isso se furte de prestar alguma solidariedade ao sem número de pobres camponeses sacrificados pelos tormentos de seu “herói”.  

Comentários Sobre a Primeira Leva de Filmes da Sessão Vitrine Petrobras

Desde fevereiro acontece a Sessão Vitrine Petrobras, que tem a intenção de ofertar ao público um catálogo bem diversificado da recente cinematografia nacional por um valor mais acessível. Com ingressos vendidos por até R$ 12, cada título é fixado durante duas semanas em uma mesma sala e horário, dando uma trajetória mais segura para produções alternativas constantemente massacradas na disputa por um espaço no circuito comercial.

A seguir, comento sobre cinco filmes assistidos presentes na programação. “A Cidade Onde Envelheço” e “Waiting for B.” já se despediram dos cinemas, enquanto “Jonas e o Circo Sem Lona” pode ser visto até a próxima quarta-feira, 29/3. “O Ornitólogo” e “Divinas Divas”, ambos assistidos no 24º Festival MixBrasil de Cultura da Diversidade, serão as próximas estreias – o documentário de Leandra Leal terá a sua data definida mais adiante.

Para conhecer mais sobre a iniciativa, clique aqui.

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A Cidade Onde Envelheço, de Marília Rocha

Este primeiro longa de ficção de Marília Rocha inicialmente seduz pela perspectiva um tanto estrangeira que confere dentro de uma reconhecível Belo Horizonte, trazendo não somente uma portuguesa, Francisca (Francisca Manuel), adaptada à cidade, como a presença de uma amiga também portuguesa, Teresa (Elizabete Francisca), que está de passagem. Em meio a temas como apego, a cultura de um novo lar e a expectativa para um futuro que nem sempre proporciona os novos ares ambicionados, Rocha consegue incluir o espectador na naturalidade com a qual a relação entre essas duas mulheres se desenha, mesmo em uma narrativa absolutamente desprovida de conflitos.

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Waiting for B., de Abigail Spindel e Paulo Cesar Toledo

Exibido no último Festival MixBrasil de Cultura da Diversidade, este documentário acerca dos fãs que acamparam durante dois meses para assistir ao show da Beyoncé em 2013 no Estádio do Morumbi é daqueles que desfazem qualquer preconceito com jovens com uma devoção extrema por uma artista. Isso acontece porque os codiretores Abigail Spindel e Paulo Cesar Toledo fazem um mapeamento perspicaz da vida privada de cada um deles, inseridos em cenários que nem sempre autorizam que externem quem verdadeiramente são, encontrando em um talento da música uma opção de fuga da realidade. Muito além disso, “Waiting for B.” é extremamente divertido ao acompanhar uma pequena comunidade se formando dentro de uma cabana em que confidências, piadas e demonstrações de amizade são trocadas sem reservas.

+ Entrevista com Abigail Spindel

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Jonas e o Circo sem Lona, de Paula Gomes

Com 13 anos, Jonas Laborda acredita ter herdado no quintal de sua casa as habilidades necessárias para já pensar em uma carreira como artista circense. Paula Gomes acompanha esse garoto no instante em que ele ambiciona algo além de apresentações em que seus amigos são a única plateia, estudando meios de convencer a sua mãe de que está preparado para ingressar um circo itinerante. O que causa estranheza em “Jonas e o Circo sem Lona” é uma tentativa de borrar os limites do documentário, com uma escolha de condução que às vezes o confunde com ficção. Nada parece autêntico, principalmente por soar encenado algo que deveria primar pela veracidade. Só a fala de caráter metalinguístico que fecha o filme proporciona alguma comoção.

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O Ornitólogo, de João Pedro Rodrigues

Desde os seus primeiros curtas, o português João Pedro Rodrigues tem versado de modo espinhoso sobre desejos reprimidos, por vezes os explorando com um interesse antropológico. Ornitólogo do título, Fernando (o francês Paul Hamy) acaba tendo um acidente durante uma expedição, sendo resgatado por duas garotas chinesas perdidas que aos poucos demonstram intenções que levam a trama para caminhos obscuros. Uma sexualidade mais explícita passa a se misturar com um misticismo que deve fazer muito sentido para o seu realizador, homossexual e ateu convicto. Já o resultado prático soa desconexo e aborrecido até para quem acompanha com uma curiosidade bizarra algo como “O Fantasma”, exemplar que rendeu a Rodrigues um reconhecimento mundial.

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Divinas Divas, de Leandra Leal

Uma das melhores e mais versáteis atrizes do cinema brasileiro, Leandra Leal faz de “Divinas Divas” o seu debute na direção. Algo que não cumpre por mero capricho, pois a história que está compartilhando repercute intrinsecamente em sua vida privada e trajetória profissional. Trata-se de redescobrir as Divinas Divas, grupo de artistas travestis que estouraram a partir dos anos 1960 e que receberam no palco do Teatro Rival (do avô de Leandra, Américo Leal) uma de suas primeiras chances. São figuras cheias de personalidade com as quais Leandra nem sempre consegue dar conta de lidar, algo que não reduz a sua sensibilidade em prestar um tributo merecido à Rogéria, Jane Di Castro, Divina Valéria, Camille K, Eloína dos Leopardos, Fujika de Halliday, Brigitte de Búzio e Marquesa, que faleceu após as gravações.

+ Entrevista com Leandra Leal

Resenha Crítica | Com os Punhos Cerrados (2014)

Com os Punhos Cerrados, de Luiz Pretti, Ricardo Pretti e Pedro Diogenes

A Alumbramento surgiu com um modelo de produção que alude muito ao cinema de invenção (ou marginal, como popularmente é chamado), apropriando-se da democratização do digital para dar luz à narrativas que não atendem a estruturas convencionais de cinema, na qual a palavra é expressa com uma prosa particular em atos não muito bem demarcados.

Por isso mesmo, o alcance é restrito, com produções recebendo poucas chances no circuito comercial após uma trajetória por festivais em que os nichos estão mais visíveis para propostas experimentais por vezes radicais. Com atraso de três anos, “Com os Punhos Cerrados” pode ser visto nesta semana em São Paulo unicamente no Cine Olido, às 17h30, e seduzirá somente aos que apreciaram feitos anteriores dos realizadores, como “Estrada para Ythaca” e “Os Monstros”.

Aqui, os irmãos Pretti e Pedro Diogenes se desdobram em inúmeras funções em algo com espírito coletivo, respondendo inclusive pelo protagonismo nas atuações como um trio que se ocupa com transmissões de uma rádio clandestina, ouvida desde do aparelho de taxistas até dos alto-falantes expostos em postes de Fortaleza. O propósito é recitar conteúdos de caráter subversivo, bem como problematizar questões de cunhos artístico e político.

Com muita boa vontade, é possível identificar na “anarquia” dessa ação um comentário justamente sobre a condição de como um feito artístico libertário como “Com os Punhos Cerrados” se infiltra clandestinamente na sociedade. Porém, a experiência é como impor que algo seja comunicado quando não há receptores que se mostram muito interessados no processo de captura.

Isso acontece justamente pelo caráter masturbatório do texto, com direito até mesmo à nudez frontal de Samya De Lavor (que debutou aqui antes de sua participação em “Boi Neon”) como uma consequência para discursos mais pretensiosos do que propriamente efetivos em seus tons críticos. Nada mais do que um filme feito para satisfazer unicamente aos seus realizadores e que nada acrescenta para as possibilidades de uma cinematografia ainda em progresso.

Resenha Crítica | Fragmentado (2017)

Split, de M. Night Shyamalan

Desacreditado pelos grandes estúdios e até mesmo por alguns de seus fãs hardcores, M. Night Shyamalan teve um momento muito difícil após o fracasso da ficção científica “Depois da Terra”, o último prego de um caixão que poderia sepultar para sempre a carreira de um diretor exaltado em seu ápice como o novo Steven Spielberg. Depois de parar de enganar a si mesmo de que tudo não passava de uma consequência da perseguição da crítica especializada, o indiano restabelece uma conexão mais honesta com a sua habilidade em criar bons mistérios.

Bancado do próprio bolso, “A Visita” foi uma evidência de retorno à boa forma, contando com a confiança de Jason Blum, um produtor de filmes baratos de terror, para pregar algumas surpresas com uma história em que a sua própria casa serve de cenário principal. Pois “Fragmentado”, que chega agora aos cinemas brasileiros após faturar mais de 135 milhões de dólares somente nos Estados Unidos contra um orçamento de 9 milhões, é um passo adiante de um talento que quase se perdeu.

Embora protagonista, James McAvoy interpreta um papel que depende de duas perspectivas de terceiros para se construir. A primeira é de Karen Fletcher (a excelente veterana Betty Buckley, com quem Shyamalan trabalhou em “Fim dos Tempos”), psiquiatra há anos que desenvolve com ele uma solução permanente para que encontrar alguma ordem dentro das 23 personalidades que já apresentou. Nas sessões, quem assume o controle (ou a “luz”) é Barry, um aspirante a designer de moda.

Já as demais faces desse homem são conhecidas por Casey (Anya Taylor-Joy), Claire (Haley Lu Richardson) e Marcia (Jessica Sula), três amigas adolescentes que são sequestradas por ele quando é Dennis, fanático por limpeza que vive nos cômodos do subsolo de onde atua como líder de manutenção. Enquanto estudam meios de se livrarem do cárcere, Dennis dá lugar para outras personalidades, como a do garoto de 10 anos Hedwig e da controladora Patricia.

Como o esperado, Shyamalan opera a partir dessa premissa com os elementos do horror psicológico, exigindo a paciência do espectador para compreender personagens, suas motivações e traumas em detrimento de uma ameaça física e explícita, esta reservada para um outro estágio da narrativa. Exatamente por isso, é Casey a figura que aos poucos passa a ser o coração que pulsa “Fragmentado”.

Ainda melhor que em “A Bruxa”, Anya Taylor-Joy compreende perfeitamente as nuances de Casey, tornando por vezes dispensáveis o uso de alguns flashbacks que preenchem as lacunas sobre o seu passado e inadequações. É uma criação singular de Shyamalan para inserir em um campo em que ela se vê como uma criatura acuada diante de bestas em suas mais diversas representações. Desde “A Vila”, em que a fábula sobre isolamento ganha na contemporaneidade americana um sentido ainda mais crível com todos os seus muros e temor por estrangeiros, que Shyamalan não entregava algo tão relevante e assustador.

Resenha Crítica | Power Rangers (2017)

Power Rangers, de Dean Israelite

Para crianças e adolescentes que viveram nos anos 1990, “Power Rangers” era um verdadeiro evento. Quem estudava no período matutino, o desejo era de que as aulas acabassem imediatamente para assistir a vigésima reprise de um episódio. Já para os alunos do período vespertino, abandonar a etiqueta para almoçar em frente a tevê era uma infração diária.

Além do mais, era uma opção de entretenimento voltado tanto para garotos quanto para meninas com sobrevida fora da tela, pois os brinquedos feitos dos personagens eram itens obrigatórios na casa de qualquer um. Portanto, a tentativa de resgate dos Power Rangers nos cinemas 20 anos após o fiasco de “Power Rangers: Turbo” vem a ser o principal atrativo da realização comandada por Dean Israelite, de “Projeto Almanaque”.

No entanto, Israelite, com base em um roteiro escrito por John Gatins (indicado ao Oscar por “O Voo”), parece mais preocupado em entregar algo muito mais interessado em abranger uma nova legião de fãs do que contar com o benefício de já ter um público assegurado pelo poder da nostalgia. De tão preocupado em entregar uma história de origem, essa versão de 2017 parece menos um filme sobre os Power Rangers e mais uma ficção científica teen na maior parte do tempo confundível com qualquer outro exemplar.

O desregrado Jason (Dacre Montgomery, um Zac Efron genérico e simpático que o orçamento permitiu contratar) é o protagonista e inevitável Ranger Vermelho aqui. Preso em um programa de reabilitação após se envolver em um acidente automobilístico, o rapaz acaba fazendo amizade rapidamente com Billy (RJ Cyler) e Kimberly (Naomi Scott), também fãs de algumas transgressões.

As habilidades sobre-humanas são herdadas quando invadem uma mina de ouro local, cada um levando consigo uma pedra preciosa com colorações diferentes que os transformam em guerreiros em luta para salvar o planeta que habitam. Simultaneamente, caem de paraquedas nesse balaio Zack (Ludi Lin) e Trini (Becky G.), outros jovens que formarão o quinteto esperado de rangers.

Mesmo com um primeiro ato falho em uma apresentação de personagens em que nem todos são contemplados com a mesma atenção, é possível dizer que “Power Rangers” caminha de modo promissor com a sua intenção de fincar as suas garras em uma geração moderna. Já adiante, parece existir uma falta de cuidado em finalmente mostrar as novas faces de Zordon (Bryan Cranston), o robô Alpha 5 (voz de Bill Hader) e a vilã Rita Repulsa (Elizabeth Banks).

Extremamente tedioso, o segundo ato de “Power Rangers” peca principalmente por alongar as informações sobre as responsabilidades que esses jovens precisarão assumir, preparando um processo de adequação em forma de aquecimento que só adia a ação que tanto aguardamos. É como se Dean Israelite castrasse todos os atrativos do seu material, ignorando que está andando em círculos.

Só lá nos 25 minutos finais as engrenagens começam a agir para dar algum movimento a “Power Rangers”, com todas as criaturas bizarras ganhando vida pelo cajado de Rita Repulsa enquanto os rangers vão descobrindo o potencial de destruição de seus veículos, que unidos formam o Megazord. Muitos fãs vão vibrar nesse clímax, mas a sensação é de que o produto deixa a desejar diante da imagem meramente ilustrativa de sua embalagem.

Melhores de 2016: Filme Nacional

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Há 20 anos sem protagonizar um longa-metragem brasileiro (o último pôster que estampou foi o de “Tieta do Agreste”, de Carlos Diegues), Sonia Braga é o coração que pulsa “Aquarius”. A veterana atriz se entrega de corpo e alma à Clara, um papel que não se exime de também compreender a vivacidade que há na velhice e que ainda a presenteia com instantes de fortes explosões dramáticas, especialmente quando a sua relação com o personagem de Humberto Carrão passa a ter as máscaras da cordialidade caídas.

Além da contribuição inestimável de Sonia Braga, Clara expõe outras dimensões quando problematizada pelo texto, tendo em seu encalço uma figura de grande influência tentando persuadi-la ao mesmo tempo em que os abismos sociais são deflagrados em uma Recife com territórios literalmente demarcados. Trata-se do investimento em um discurso que dá ao todo um excesso que poderia ser eliminado, mas que não nos faz desviar do principal atrativo de “Aquarius”: os valores de gerações que se atraem ou se repelem a partir da defesa de seus interesses particulares.

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OUTROS DESTAQUES:
Espaço Além: Marina Abramovic e o BrasilNise: O Coração da Loucura • O Roubo da Taça • O Silêncio do Céu

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Em 2015: Que Horas Ela Volta?
Em 2014: 
O Lobo Atrás da Porta
Em 2013: 
O Abismo Prateado
Em 2012:
Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios
Em 2011:
Malu de Bicicleta
Em 2010:
Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro
Em 2009: 
Salve Geral

Melhores de 2016: Animação

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Antes de aceitar o desafio em dirigir “Kubo e as Cordas Mágicas”, Travis Knight já tinha uma vasta experiência como animador, sendo o principal responsável por dar movimento para as criações de “Coraline e o Mundo Secreto“, “ParaNorman” e “Os Boxtrolls”. Essa bagagem só vem a somar para “Kubo e as Cordas Mágicas”, pois Knight e a sua equipe são muito imaginativos na arquitetura de personagens, ambientes e até mesmo dos climas tempestuosos que os rondam. Mas é o texto da dupla Chris Butler e Marc Haimes que realmente faz “Kubo e as Cordas Mágicas” sair da mesmice, indo até o fim diante de temas como família, sacrifício e misticismo nipônico a partir de vieses um tanto rígidos, mas recompensadores.

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OUTROS DESTAQUES:
Anomalisa • Sing: Quem Canta Seus Males Espanta • Snoopy e Charlie Brown: Peanuts, O Filme • Zootopia

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Em 2015: Shaun, O Carneiro – O Filme
Em 2014: 
Frozen: Uma Aventura Congelante
Em 2013: 
Universidade Monstros
Em 2012:
O Mundo dos Pequeninos
Em 2011: Rango
Em 2010: Como Treinar o Seu Dragão
Em 2009: Up – Altas Aventuras