Resenha Crítica | Dunkirk (2017)

Dunkirk, de Christopher Nolan

Nos primeiros minutos de “Dunkirk”, o jovem soldado Tommy (Fionn Whitehead) é o único a não ser atingido por balas disparadas por inimigos posicionados em localizações impossíveis de serem identificadas. Na corrida pela vida, nada mais resta do que explorar saídas para sair ileso de um massacre. Porém, poucas vezes no cinema de guerra produzido hoje o barulho de um tiro causou um efeito tão amedrontador quanto o que se ouve em “Dunkirk”.

Mais adiante, esse senso de perigo ganha em escala com a vinda sem aviso prévio de aviões equipados com bombas e metralhadoras que trucidam dezenas em um piscar de olhos. Trata-se de uma imersão em campo de batalha tão potente que logo você se verá fragilizado na poltrona, pois o que se testemunha aqui é de fazer a sala de cinema literalmente tremer – isso se ela evidentemente contar com um sistema sonoro exemplar.

Tudo isso para dizer que “Dunkirk” é um filme que ganha vida não exatamente por Christopher Nolan assumindo a direção e o roteiro, mas sim por Richard King. Celebrado editor de som três vezes vencedor do Oscar, King e a equipe que supervisiona são os verdadeiros responsáveis por “Dunkirk” ser um espetáculo que tanto sensibiliza alguns de nossos sentidos.

O compositor Hans Zimmer também não pode ser esquecido, pois a sua música aqui não necessariamente reforça a tragédia que explode na tela e sim a integra como um elemento do próprio desenho de som. Seria um filme perfeito caso seguisse compreendendo a batalha de Dunkirk como uma ópera trágica, mas não se pode deixar um blockbuster seguir um rumo experimental. A palavra, a circunstância privada ampliada como um drama coletivo precisa assumir o protagonismo.

Ciente das críticas que o acusam de ser o “autor” com os diálogos mais expositivos que se tem conhecimento, Nolan tenta buscar em “Dunkirk” um modo de se redimir. Pode não se explicar o que acontece, mas o seu texto apresenta zero progresso por trazer em cada uma de suas três linhas narrativas impasses concentrados em pequenos núcleos para representar as multidões.

É difícil concluir o que é mais frágil aqui: o piloto Farrier (Tom Hardy) à deriva, a fatalidade que vai abater um dos dois garotos que auxiliam Dawson (Mark Rylance) na recuperação de soldados perdidos no mar ou as conclusões estúpidas que os colegas de Tommy tomam a cada risco que os surpreendem, como a de acreditar que remover um único soldado de um barco o impedirá de afundar. Com bem menos, Joe Wright desolou muito mais em sua breve reimaginação de Dunkirk em “Desejo e Reparação”.

Resenha Crítica | De Canção em Canção (2017)

Song to Song, de Terrence Malick

Antes um cineasta bissexto, Terrence Malick é agora um sujeito que filma sem parar. Quem vê um filme com a sua assinatura não precisará mais aguardar quase uma década por mais. Na verdade, nem precisa esperar por um ano. Mas algo se perdeu, pois o que antes parecia ser algo confeccionado com muito cuidado e delicadeza hoje não passa de repetição. De engodo mesmo, para ser bem franco.

“De Canção em Canção” é ambientado na cena musical de Austin, Texas, mas bem poderia ser uma reunião de recortes abandonados na ilha de edição de outras obras igualmente insípidas de Malick, como “Amor Pleno” e “Cavaleiro de Copas”. Veja no vídeo abaixo um apanhado da carreira do cineasta e a minha impressão geral sobre “De Canção em Canção”.

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Resenha Crítica | Gatos (2016)

Kedi, de Ceyda Torun

Os admiradores de gatos devem ficar com um largo sorriso durante cada segundo diante do documentário de Ceyda Torum. Também pudera. Muito mais do que fofos, essas criaturas de quatro patas têm personalidades tão particulares que só ampliam o interesse por observá-las.

Porém, muito mais do que equiparar a câmera para compreender o universo desses animais, Torum encontra um meio de enaltecer a figura humana. Afinal, se não fosse a nossa generosidade, virtude tão subestimada pela descrença que temos por nós mesmos, é bem provável que os gatinhos que acompanhamos aqui não estivessem vivos para compartilhar as suas andanças pelas ruas de Istambul.

Há comentário na íntegra feito com exclusividade no canal do Cine Resenhas no YouTube e até aproveitei para apresentar aos seguidores a Amélie Huppert, gata que está na família desde janeiro deste ano. Como vocês verão, não foi fácil gravar com ela.

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Resenha Crítica | Fala Comigo (2016)

Fala Comigo, de Felipe Sholl

No passado, não era visto como um escândalo o relacionamento de casais em que um componente tinha o dobro da idade de seu parceiro, especialmente se o mais velho fosse um homem. Já agora, em que a questão da maioridade tem mais ênfase na sociedade, uma união como tal passa por uma série de julgamentos, inevitavelmente incluindo a condição de pedofilia ou abuso.

No fim das contas, é mesmo possível existir o amor entre indivíduos com uma diferença de idade tão gritante? Poderia um adulto relevar a inexperiência de vida de um jovem para assim selarem uma união estável? Reconheceria o mais novo no mais velho algo uma figura protetora como um pai ou uma mãe?

A maior virtude de “Fala Comigo” está em nos fazer passar por esses e outros questionamentos a princípio sem meias palavras. Melhor: dirigido e roteirizado por Felipe Sholl, a história propõe uma inversão ainda mais polêmica para espectadores castos, pois aqui é uma mulher mais velha que inicia uma relação com um homem mais novo.

Diogo (o estreante Tom Karabachian, filho do músico Paulinho Moska e afilhado de Adriane Esteves) tem 17 anos e descobre a sua sexualidade com um jogo erótico perigoso. Ao acessar a lista de clientes de sua mãe psicanalista Clarice (Denise Fraga), ele faz ligações para Ângela (Karine Teles) e se masturba ao ouvir a sua voz, catalogando as experiências em A4 com o seu gozo – Sholl assumiu a influência vinda do personagem de Philip Seymour Hoffman em “Felicidade” para inserir em seu protagonista esse hábito privado.

Claro que em algum momento tal prazer secreto seria revelado e Diogo o faz ao finalmente saber com quem está lidando, uma mulher na faixa dos 40 anos deprimida com o fim de um casamento e com tendências suicidas. Ao intervir na tentativa de Ângela em tirar a própria vida, o garoto acaba sendo exposto, mas não como se espera, pois ela encontra em seu obsessor alguém com quem realmente pode ter uma nova chance no amor.

A princípio uma presença excessivamente secundária, a personagem de Denise Fraga vai aos poucos ganhando um destaque para dar voz àqueles que contemplam com estranheza esse amor que se forma. Ele é realmente inadequado, mas é também possível e complementar para o seu filho e a sua paciente.

É importante observar que Sholl, evidentemente torcendo para a felicidade de Diogo e Ângela, não trata a atração de seus personagens como um fetiche. Ao diretor de fotografia Leo Bittencourt (mais habituado inclusive a registros documentais, como “Morro dos Prazeres”), orienta que registre não os corpos se tocando, mas a reação de êxtase.

Pena que a conclusão de “Fala Comigo” seja o que há de menos complexo no todo. Despudorado na investigação da intimidade e incisivo no que se compreende sobre relacionamentos, a resolução para tudo é fácil demais para algo que estava se construindo com tantas barreiras.

Resenha Crítica | Mulher do Pai (2016)

Mulher do Pai, de Cristiane Oliveira

Muito além de uma fase de descobertas, a adolescência é também o momento em que os planos para o futuro começam a ser raciocinados, norteando decisões sobre vocação, família e independência. Mas nem todos conseguem traçar os próprios passos, muito pelo contexto em que estão inseridos.

Estreia de Cristiane Oliveira na condução de um longa de ficção, “Mulher do Pai” concentra em Nalu (Maria Galant) o peso de abrir mão de sua própria liberdade para exercer o papel praticamente de uma dona de casa. Isso acontece por conta do falecimento de sua avó Olga (Amélia Bittencourt), deixando como herança a responsabilidade de cuidar sozinha de seu pai cego Ruben (Marat Descartes) e da casa que habitam.

Ambientada na fronteira entre o Brasil e o Uruguai, a trama se apropria dessa geografia para tratar justamente das transições de Nalu, principalmente da inocência da juventude para a aridez do amadurecimento. São impasses lidados como dilemas no texto também assinado por Cristiane Oliveira, pois Nalu aos poucos vai percebendo a invasão de um espaço que anteriormente não tinha interesse em ocupar, dada com a intromissão de sua professora Rosario (Verónica Perrotta) como uma figura materna indesejada.

A melhor provocação feita por “Mulher do Pai” está em explorar os limites do relacionamento entre pai e filha. Há anos vivendo na escuridão e com garotas de programa ocupando secretamente a função de parceiras esporádicas, Ruben acaba respondendo de modo bem inadequado à puberdade de Nalu, trazendo tensão ao marasmo.

Lamentavelmente, é o máximo que o filme tem a oferecer em sua tentativa de sair do lugar comum. É como se o desencanto de Nalu por tudo que a cerca fosse traduzido com acontecimentos mal-ajambrados, como o relacionamento com um rapaz “de fora” e o destino ao qual ela finalmente opta por rascunhar.

Os Melhores Filmes de 2017 | Primeiro Semestre

Metade de 2017 acaba de ir embora e, como é tradição, já traço aqueles que considero os grandes filmes que foram lançados no Brasil no primeiro semestre. Porém, assim como no ano passado, passei a considerar não somente o que é exibido no circuito comercial do país, como também o que de inédito na tela grande vem entrado em plataformas streaming e em homevideo.

Para se ter uma ideia, mais de 500 títulos foram lançados nos últimos seis meses em mídias digitais, mais que o dobro do que vimos no cinema. Portanto, não estranhem a presença de alguns títulos que talvez tenham passado batido – recomendo que acessem esta lista que atualizo frequentemente no Letterboxd para saberem o que chega em direto em DVD, na Netlix, no TeleCine e por aí vai.

Além do top 10, veja a seguir outros bons filmes já assistidos ao longo de 2017. Para saber mais sobre alguns deles, basta clicar no sinal de adição ou nos títulos “linkados”.

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OUTROS DESTAQUES

A Jovem RainhaA Qualquer Custo • Antes que Eu Vá • Axé: Canto do Povo de Algum Lugar • BeduínoCatfight • Certas Mulheres • ColossalEstrelas Além do Tempo • Fragmentado • Martírio • Moonlight: Sob a Luz do LuarMulheres do Século 20Na Vertical • O Idealista • O Novato • Okja • Paris Pode EsperarStefan Zweig: Adeus, Europa • Strike a Pose • Vermelho RussoVidaWaiting For B. 

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#10. Sob a Sombra, de Babak Anvari

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#9. La La Land, de Damien Chazelle +

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#8. Lion: Uma Jornada Para Casa, de Garth Davis +

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#7. Até o Último Homem, de Mel Gibson +

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#6. Animal Político, de Tião +

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#5. Krisha, de Trey Edward Shults

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#4. Armas na Mesa, de John Madden +

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#3. Eu, Daniel Blake, de Ken Loach +

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#2. Frantz, de François Ozon +

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#1. A Criada, de Park Chan-wook +

Resenha Crítica | Os Pobres Diabos (2013)

Os Pobres Diabos, de Rosemberg Cariry

Seja na ficção, no documentário e até mesmo na literatura, o cineasta Rosemberg Cariry sempre se debruçou sobre questões do sertão brasileiro que muitas vezes não adentram este nosso eixo Rio-São Paulo. Portanto, mesmo com quatro anos de atraso, o lançamento de “Os Pobres Diabos” em nosso circuito alternativo é algo a se celebrar.

A demora até colabora de algum modo, pois desde a ditadura que não se via a arte em um estado tão frágil quanto a que testemunhamos hoje com a instabilidade de nosso cenário político, com ideologias díspares separando a classe (vide o adiamento do mais novo Cine PE) e o clima de incerteza que corrompe o Ministério da Cultura com as duas trocas constantes de gestão. De um microcosmo, “Os Pobres Diabos” parece estar tratando sobre cada ponto do mapa brasileiro.

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Aqui, vemos o Gran Circo Teatro Americano em crise, pois a sua itinerância tem sido ameaçada com a baixa procura do público. Ao fixar as lonas na cidade de Aracati, vemos as peripécias da trupe, precisando de boa lábia para convencer a companhia de eletricidade a manter a energia ligada e que chega até mesmo a ofertar entrada gratuita em troca de gatos que são engaiolados para virar espetos.

No centro de tudo, há um triângulo amoroso. Comprometida com Zeferino (Gero Camilo), Creusa (Sílvia Buarque) também levanta as suas saias para Lazarino (Chico Díaz). É uma relação que parece não ter solução e que espalha as atrações que protagonizam, amparadas por uma tradição burlesca que não encontra respaldo da audiência.

Nesta que marca a sua terceira parceria com Chico Díaz (também protagonista em “Corisco & Dadá” e “Lua Cambará – Nas Escadarias do Palácio”), Rosemberg Cariry parte de um tom cômico talvez inédito em sua filmografia. Faz toda a diferença, pois, embora não particularmente engraçado, “Os Pobres Diabos” conquista com ele uma dose de esperança necessária em tempos de crise. Os aplausos podem ser tímidos e o vendaval tudo vai soprar, mas o atração precisa ir adiante.

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Resenha Crítica | Soundtrack (2017)

Soundtrack, de 300ml

Há coisas incomuns rodeando o drama “Soundtrack”. Interpretado por Selton Mello, Cris desembarca em uma estação internacional de pesquisa no Ártico com o propósito de fazer um experimento fotográfico composto de selfies em paisagens gélidas. Já a princípio, notamos alguns indícios de instabilidade desse protagonista, que sente o ambiente que está habitando como se fosse um cego.

A verdade é que o sentimento de estranhamento é uma consequência da própria natureza da produção, sendo ela brasileira com características estrangeiras. Dirigido pela dupla 300ml (como preferem ser apresentados os publicitários Bernardo Dutra e Manitou Felipe, os mesmos do curta “O Código Tarantino”), “Soundtrack” é inteiramente falado em inglês, tem três intérpretes estrangeiros dos cinco que compõem o elenco e oferece uma premissa intimista que em nada reflete as pautas que movem a cinematografia nacional.

De algum modo, são escolhas que nebulam as verdadeiras motivações de um artista em terra estranha, com dois detalhes de sua vida que abrem um leque de possibilidades sobre o que se passa em seu interior. O primeiro vem a ser o fato da perda de uma mãe sem visão. Já o segundo, ilustrado por um flashback que dura segundos, há o contato com um homem em seu apartamento cuja identidade nunca é elucidada.

A princípio contrariado com a presença de Cris, Mark (o excelente Ralph Ineson, de “A Bruxa”) acaba tendo um fascínio por sua figura, exercendo uma função fraternal para um sujeito que desconhece o solo congelado que está pisando. Estabelece-se assim uma troca de experiências, com um compreendendo a função do outro mesmo tendo perfis por vezes antagônicos.

Há inconsistências em “Soundtrack”. Tecnicamente bem acabada, a produção é centrada em um estúdio que reproduz perfeitamente o cenário inspirado em locações na Islândia com toneladas de neve e computação gráfica, mas comete o erro primário de jamais colocar os intérpretes em uma temperatura de fato baixa para que possam soltar vapor condensado enquanto falam, condenando a ilusão sobre o lugar em que dizem estar. Também incomoda quando a música não é usada de modo homogêneo, com as suas inúmeras interrupções abruptas.

De qualquer modo, o interesse não se dissipa diante desses e outros pormenores, especialmente pelo interesse crescente que desenvolvemos diante dos protagonistas e a sensação que vivenciam de enclausuramento. Há também uma conclusão que engrandece a história, dando uma resolução extrema de um ofício que nem sempre preserva aquele que a executa intimamente.

Resenha Crítica | Armas na Mesa (2016)

Miss Sloane, de John Madden

Se há controvérsia quanto a ausência de bons papéis femininos em Hollywood, Jessica Chastain ao menos tem sido uma das atrizes a saber driblar tal escassez. Criando uma tradição em incorporar mulheres com temperamentos fortes, Chastain é presenteada em “Armas na Mesa” com uma oportunidade de rever atributos de sua Maya de “A Hora Mais Escura”, longa em que entregou a melhor interpretação de sua carreira. Já como Elizabeth Sloane, ela dá formas para aquela que é a personagem mais fascinante do ano.

O britânico John Madden (“Shakespeare Apaixonado”) já havia dado pra Chastain uma das primeiras chances de ouro para se transformar em uma atriz de primeiro time com “A Grande Mentira”, ótimo drama de espionagem produzido em 2010 em que a ruiva fazia a versão mais jovem de Helen Mirren. Neste reencontro, a potência é multiplicada com a apresentação de uma personagem central ardilosa, astuta e com intenções questionáveis que só contribuem para a sua tridimensionalidade.

De tão hipnotizante, Elizabeth Sloane/Jessica Chastain vai fazer até o mais ignorante quanto ao burocrático universo dos lobistas embarcar nele em um piscar de olhos. No entanto, Sloane não é uma profissional qualquer, agindo sem qualquer escrúpulo se a missão é movimentar peças de um tabuleiro para determinar os rumos que querem traçar algumas autoridades e políticos.

O próximo cliente da firma para a qual trabalha, George Dupont (Sam Waterson), quer contar com ela para convencer a maioria do eleitorado a votar a favor de uma lei que restrinja o acesso à armas de fogo. Sloane não despreza somente a proposta, como decide mover parte de sua equipe para a firma rival comandada por Rodolfo Schmidt (Mark Strong), estabelecendo uma batalha que parece reviver o velho embate entre Davi e Golias, com ela usando toda a sua artilharia para atingir os seus propósitos.

Como bem ilustrado em flashforwards que tomam o curso dessa narrativa, há coisas que pela primeira vez não resultaram como o programado por Sloane, tendo assim de prestar contas em sessões de tribunais para um juiz (John Lithgow) claramente empenhado em desmoralizá-la ao extrair dela detalhes pouco lisonjeiros de sua intimidade e método de trabalho. Ainda assim, a sensação é a de que Sloane está sempre a um passo a frente daqueles que a rodeiam e, consequentemente, do público.

Antes um advogado, Jonathan Perera estreia como roteirista a partir de um texto engenhoso em todas as suas extensões, seja na fluência com a qual bola diálogos e interações de um cenário do qual pouca familiaridade temos, seja no encontro da humanidade de uma série de personagens aparentemente frios por dedicarem cada segundo em que estão acordados ao trabalho que exercem. Nem dois lances previsíveis envolvendo a novata Esme Manucharian (Gugu Mbatha-Raw) e a ambiciosa Jane Molloy (Alison Pill), respectivamente a nova e a antiga braço direito de Sloane, abalam o pavio de uma bomba sempre prestes a explodir.

Se não bastasse, “Armas na Mesa” ainda nos deixa em estado de inquietação pela escolha de uma conclusão que só embaraça as nossas certezas sobre a verdadeira natureza de Sloane, obra de uma ficção que deixa como rastro uma série de cutucadas sobre uma nação tão obsessiva com a “segurança” de deitar a cabeça em um travesseiro com a ciência que por baixo dele há uma arma carregada para disparar contra qualquer ameaça. Uma constatação em forma de tapa na cara que talvez seja a única justificativa para um filme tão bom ter amargado um fracasso comercial tão incompreensível nos cinemas americanos.

Melhores de 2016: Filme

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Em distopias, o amor surge como o instrumento de salvação de um planeta que ruma para o fim da humanidade. Em “O Lagosta”, essa máxima é revirada. Estaria o amor realmente presente na repetição das convenções, que padroniza a constituição de uma família como o alcance da felicidade plena? Estamos todos condicionados a compartilhar um lar e a intimidade com aqueles que nos interessam por mera compatibilidade ou por sentimentos que superam as distinções vigentes?

É uma surpresa que uma premissa repleta de tantas estranhezas consiga transcender com questionamentos que não apenas nos dizem respeito, como contaminam o nosso âmago, trazendo ainda uma conclusão desconcertante e desesperançosa que revê as contradições complexas de um ser humano por traz de suas decisões, regidas mais pela necessidade de preenchimento do que por amor. É um alívio que Yorgos Lanthimos não tenha recuado nem um pouco na autoria que imprime em seu cinema ao elevá-lo a um novo patamar em um idioma não materno.

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OUTROS DESTAQUES:
A Garota de Fogo • Aquarius • Cinco GraçasCoração de Cachorro • Decisão de Risco • Elle • O Quarto de JackSpotlight: Segredos Revelados • Tangerine

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VEJA O TOP 50 AQUI

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Em 2015: Whiplash: Em Busca da Perfeição
Em 2014:
Nebraska
Em 2013:
A Hora Mais Escura
Em 2012:
O Artista
Em 2011:
Incêndios
Em 2010:
Os Homens Que Não Amavam As Mulheres
Em 2009:
A Partida
Em 2008: 
O Nevoeiro
Em 2007:
Possuídos