Os 10 Melhores Filmes da 41ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Seguindo a tradição de edições anteriores da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o Cine Resenhas convocou alguns colegas de blogosfera e de encontros e desencontros durante a maratona de filmes para contribuir com o levantamento dos melhores da 41ª edição produzido a seguir. Dentro de uma programação com quase 400 títulos, chegamos à lista com os 10 mais celebrados – excetuando curtas e retrospectivas, as demais produções foram elegíveis para votação.

A ordem do décimo ao primeiro colocado foi estabelecida com base nas posições em que os filmes se apresentaram dentro de cada relação individual, devidamente disponível na última parte desta publicação. Ainda que não tenha sido necessário somar a quantidade de menções de cada um como critério de desempante (como aconteceu no ano passado, no qual “Elle” e “Martírio” contavam com a mesma pontuação, mas com quantidade diferente de citações), a informação está presente ao lado dos pontos obtidos.

O Cine Resenhas agradece a participação dos 19 convidados para este ano e aproveita para recomendar ao leitor a visita em seus endereços, devidamente lincados nas listas individuais.

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10º Lugar
The Square, de Ruben Östland 
36 pontos | 7 menções

Muito se falou como “The Square” questiona o limite da arte, e mesmo da arte performática e da própria liberdade de expressão. Mas embora esse seja um dos pontos centrais do filme, ele funciona melhor quando aborda as dinâmicas sociais de relacionamento. Com um humor ácido, pontuado pelo uso da música “Ave Maria”, que dialoga como o nome do protagonista do mesmo modo como suas ações criam antíteses com ele, a narrativa é mais eficiente em sua primeira metade, no sentido de deixar claro o que pretende dizer. O resultado é uma obra provocativa e instigante. + [Isabel WittmannEstante da Sala]

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9º Lugar
Arábia, de Affonso Uchôa e João Dumans 
41 pontos | 5 menções

Em momento de reformas trabalhistas baseadas na invisibilização daqueles que são os principais afetados por elas, um filme como “Arábia”, em toda sua profundidade, chega justamente para descortinar a barreira que políticas velhas liberais insistem em criar. Ao expor, de maneira simples e muito orgânica, as andanças de Cristiano por Minas Gerais, traz a realidade para que seja vista por todos, próximos e distantes, conhecedores e ignorantes daquele que é o cotidiano de tantos brasileiros. + [Cecilia BarrosoCenas de Cinema]

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8º Lugar
O Amante de Um Dia, de Philippe Garrel 
50 pontos | 8 menções

Garrel segue interessado pela dubiedade dos relacionamentos amorosos, pelas inconstâncias humanas a partir dos desejos de cada um, através daquele delicado toque anacrônico e melancólico, só que firmado nos dias atuais – algo já tanto reprocessado por ele mesmo, mas em ambientação sempre muito gostosa de revisitar. [Rafael CarvalhoMoviola Digital]

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7º Lugar
Três Anúncios Para Um Crime, de Martin McDonagh 
52 pontos | 7 menções

Sem abrir mão do seu humor desconcertante, desse em que o espectador repensa sobre a gargalhada sonora que deu no segundo seguinte, McDonagh ainda oferece um filme humano que jamais desacredita na possibilidade de redenção de seus protagonistas, inclusive Dixon, aquele modelo incorrigível no qual jamais depositaríamos qualquer possibilidade de recomeço. Por tudo isso, a sede de vingança vem a ser secundária quando o fardo de continuar seguindo em frente é mais tolerável. + [Alex GonçalvesCine Resenhas]

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6º Lugar
Loveless, de Andrey Zvyagintsev 
54 pontos | 8 menções

A obra termina, ao mesmo tempo, de forma pessimista, elegante e cíclica, revisitando os galhos secos, decorrentes da frieza natural do ambiente no qual foram impostos, que vimos no início. Galhos que representam uma árvore genealógica de frieza tão característica dos estereótipos russos, mas que retratam uma história que poderia ter acontecido em qualquer lugar. É um filme que te esgota, que rouba sua força vital não através da tensão, mas do desamparo. Se Alyosha é encontrado ou não, no final, não importa. Ele é um sintoma, desde sempre um fantasma, um equívoco, e essa constatação vem no meio da projeção, quando nos ocorre de que o garoto nem ao menos chegou a existir. + [Cauê PetitoNervos]

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5º Lugar
Scary Mother, de Ana Urushadze
56 pontos | 9 menções

“Scary Mother” não é um filme convencional, nem uma abstração intragável. É sim uma convincente amálgama do real e o imaginário, comunicando sua narrativa ao espectador através de pequenos detalhes e sugestões, assim como sua protagonista encontra inspiração nos azulejos manchados de seu banheiro. Há algum momento ou outro redundante ou autoexplicativo, mas a experiência satisfaz por permitir que o público faça suas interpretações e por isso se coloque no lugar da própria Manana. Não é de se assustar que tenha sido escolhido como representante da Geórgia nos Oscar de 2018. + [Caio VechiatoCinematecando]

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4º Lugar
O Dia Depois, de Hong Sang-soo 
58 pontos | 9 menções

Falsas identidades que levam a falsas percepções de narrativa. A esposa confunde a amante, a novata fica confusa a respeito de quem é, de fato, seu chefe e o chefe é mais um daqueles machos hongsangsoonianos (essa expressão existe?) idiotas que se escondem sob uma falaciosa superioridade em face das mulheres ao seu redor. Neste sentido, não deixa de ser um binômio construção-desconstrução de personalidades que é operado pela estrutura narrativa não-linear. [Yuri DeliberalliDiscurso Cinematográfico]

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3º Lugar
Visages, Villages, de Agnès Varda e JR 
71 pontos | 10 menções

As discussões entre Varda e JR são hilárias e cheias de afeto e todo esse carinho é impresso na telona. Além das risadas garantidas, o documentário também se encaminha para um lado mais profundo, quando os entrevistados dessas pequenas cidades narram suas histórias. A cada local que passam, Varda e JR deixam um registro de sua visita e logo partem em busca de novas histórias e imagens. “Visages, Villages” é divertido porque cativa o espectador por conta do carisma de seus diretores, mas também desperta emoção ao registrar, de forma imagética, sentimentos de ilustres desconhecidos comovidos pelas proezas de dois grandes artistas. + [Vitor BúrigoCINEVITOR]

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2º Lugar
Custódia, de Xavier Legrand
79 pontos | 11 menções

O espectador é levado a fazer os cálculos do desfecho sem se perder. É como se a gente já conhecesse histórias semelhantes, ao mesmo tempo que queremos que nada de ruim aconteça. Eu espero que “Custódia” chegue facilmente no nosso circuitão comercial, porque o filme é tão bom quanto necessário no momento presente. + [Adécio Moreira Jr., Poses e Neuroses]

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1º Lugar
As Boas Maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra
89 pontos | 14 menções

O trabalho de Marco Dutra e Juliana Rojas está em constante evolução. Dos primeiros curtas aos longas realizados solo ou em parceria, a dupla de cineastas construiu uma carreira sólida, explorando os limites do cinema de gênero, algo raro na produção do nosso país e encontrando uma assinatura que cria um elo entre todos os trabalhos que lançaram até agora. Nesse sentido, “As Boas Maneiras” é o filme mais bem resolvido dos dois, que namoram com um cinema mais popular, mas não abrem mão das próprias marcas e da ousadia.  + [Chico FiremanFilmes do Chico]

 

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Os 10 melhores filmes da 41ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo segundo Alex Gonçalves, editor do Cine Resenhas:

01. Três Anúncios Para Um Crime, de Martin McDonagh
02. Loveless, de Andrey Zvyagintsev
03. A Sombra da Árvore, de Haffsteinn Gunnar Sigurdsson
04. Scary Mother, de Ana Urushadze
05. Happy End, de Michael Haneke
06. Custódia, de Xavier Legrand
07. Bikini Moon, de Milcho Manchevski
08. A Trama, de Laurent Cantet
09. Não Me Ame, de Alexandros Avranas
10. As Boas Maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra

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Os convidados:

Adécio Moreira Jr. | Poses e Neuroses

01. Pororoca, de Constantin Popescu
02. Custódia, de Xavier Legrand
03. Assim é a Vida, de Eric Toledano e Olivier Nakache
04. As Boas Maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra
05. Três Anúncios Para um Crime, de Martin McDonagh
06. Feio e Cega, de Tom Lass
07. Lucky, de John Carroll Lynch
08. Ana, Meu Amor, de Cãlin Peter Netzer
09. Aos Teus Olhos, de Carolina Jabor
10. The Square, de Ruben Östland

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Adriano Garrett | Cine Festivais

01. 24 Frames, de Abbas Kiarostami
02. Arábia, de Affonso Uchôa e João Dumans
03. As Boas Maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra
04. Custódia, de Xavier Legrand
05. O Dia Depois, de Hong Sang-soo
06. Aqueles Que Estão Bem, de Cyril Schäublin
07. Cocote, de Nelson Carlo de los Santos Arias
08. Napalm, de Claude Lanzmann
09. Três Quartos, de Ilian Metev
10. Scary Mother, de Ana Urushadze

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Caio Vechiato | Cinematecando

01. Visages, Villages, de Agnès Varda e JR
02. Sem Data, Sem Assinatura, de Vahid Jalilvand
03. Babylon Berlin, de Achim von Borries, Henk Handloegten e Tom Tykwer
04. Uma Questão Pessoal, de Pablo e Vittorio Taviani
05. O Outro Lado da Esperança, de Aki Kaurismäki
06. Scary Mother, de Ana Urushadze
07. Lucky, de John Carroll Lynch
08. Aos Teus Olhos, de Carolina Jabor
09. O Trabalho, de Gethin Aldous e Jairus Mcleary
10. A Oeste do Rio Jordão, de Amos Gitaï

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Cauê Petito | Nervos

01. Loveless, de Andrey Zvyagintsev
02. Scary Mother, de Ana Urushadze
03. Custódia, de Xavier Legrand
04. Três Anúncios Para Um Crime, de Martin McDonagh
05. As Boas Maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra
06. Dhogs, de Andrés Goteira
07. Feio, de Juri Rechinsky
08. Bikini Moon, de Milcho Manchevski
09. Sexo, Piedade e Solidão, de Lars Montag
10. Happy End, de Michael Haneke

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Cecilia Barroso | Cenas de Cinema

01. Cocote, de Nelson Carlo de los Santos Arias
02. Arábia, de Affonso Uchôa e João Dumans
03. Pororoca, de Constantin Popescu
04. Pela Janela, de Caroline Leone
05. Antônio Um Dois Três, de Leonardo Mouramateus
06. O Amante de Um Dia, de Philippe Garrel
07. O Pacto de Adriana, de Lissette Orozco
08. As Boas Maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra
09. A Trama, de Laurent Cantet
10. Grão, de Semih Kaplanoğlu

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Chico Fireman | Filmes do Chico

01. O Amante de Um Dia, de Philippe Garrel
02. As Boas Maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra
03. Pela Janela, de Caroline Leone
04. Cocote, de Nelson Carlo de Los Santos Arias
05. Custódia, de Xavier Legrand
06. 24 Frames, de Abbas Kiarostami
07. Três Anúncios para um Crime, de Martin McDonagh
08. O Dia Depois, de Hong Sang-soo
09. A Telenovela Errante, de Raúl Ruiz e Valeria Sarmiento
10. O Outro Lado da Esperança, de Aki Kaurismäki

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Christian Barroso | Mostreiro

01. Visages, Villages, de Agnès Varda e JR
02. O Amante de Um Dia, de Philippe Garrel
03. Scary Mother, de Ana Urushadze
04. O Dia Depois, de Hong Sang-soo
05. Cocote, de Nelson Carlo de los Santos Arias
06. Loveless, de Andrey Zvyagintsev
07. A Telenovela Errante, de Raúl Ruiz e Valeria Sarmiento
08. As Boas Maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra
09. Custódia, de Xavier Legrand
10. Ana, Meu Amor, de Cãlin Peter Netzer

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Davi Mello | sem tambor, nem trompete

01. 24 Frames, de Abbas Kiarostami
02. Visages, Villages, de Agnès Varda e JR
03. Tempo de Qualidade, de Daan Bakker
04. O Vale das Sombras, de Jonas Matzow Gulbrandsen
05. Cocote, de Nelson Carlo de Los Santos Arias
06. Irmãos do Inverno, de Hlynur Pálmason
07. Esplendor, de Naomi Kawase
08. The Square, de Ruben Östland
09. As Boas Maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra
10. O Amante de Um Dia, de Philippe Garrel

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Hélio Flores | Mostreiro

01. Visages, Villages, de Agnès Varda e JR
02. O Dia Depois, de Hong Sang-soo
03. As Boas Maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra
04. O Amante de Um Dia, de Philippe Garrel
05. Abaixo a Gravidade, de Edgard Navarro
06. Zama, de Lucrecia Martel
07. Essa é a Nossa Terra, de Lucas Belvaux
08. A Trama, de Laurent Cantet
09. Outrage Coda, de Takeshi Kitano
10. Lucky, de John Carroll Lynch

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Isabel Wittmann | Estante da Sala

01. Visages, Villages, de Agnès Varda e JR
02. As Boas Maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra
03. A Sombra da Árvore, de Haffsteinn Gunnar Sigurdsson
04. Scary Mother, de Ana Urushadze
05. O Dia Depois, de Hong Sang-soo
06. Loveless, de Andrey Zvyagintsev
07. Praça Paris, de Lúcia Murat
08. Operações de Garantia da Lei e da Ordem, de Júlia Murat
09. The Square, de Ruben Östland
10. Mulheres Divinas, de Petra Biondina Volpe

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Marcelo Ferreira | CINESe7e

01. Pororoca, de Constantin Popescu
02. The Square, de Ruben Östland
03. Loveless, de Andrey Zvyagintsev
04. O Outro Lado da Esperança, de Aki Kaurismäki
05. 1945, de Ferenc Török
06. Além das Palavras, de Urszula Antoniak
07. Happy End, de Michael Haneke
08. Espinho, de Gabriel Tzafka
09. O Vale das Sombras, de Jonas Matzow Gulbrandsen
10. Não Me Ame, de Alexandros Avranas

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Paula C. Ferraz | Sinny Assessoria

01. Custódia, de Xavier Legrand
02. Arábia, de Affonso Uchôa e João Dumans
03. Pela Janela, de Caroline Leone
04. A Noiva do Deserto, de Cecilia Atán e Valeria Pivato
05. Visages, Villages, de Agnès Varda e JR
06. A Sombra da Árvore, de Haffsteinn Gunnar Sigurdsson
07. Temporada de Caça, de Natalia Garagiola
08. Loveless, de Andrey Zvyagintsev
09. O Vale das Sombras, de Jonas Matzow Gulbrandsen
10. Djam, de Tony Gatlif

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Paulo Costa | Cine&Cia

01. Custódia, de Xavier Legrand
02. Três Anúncios Para Um Crime, de Martin McDonagh
03. The Square, de Ruben Östland
04. Com Amor, Van Gogh, de Dorota Kobiela e Hugh Welchman
05. Berenice Procura, de Allan Fiterman
06. Daphine, de Peter Mackie Burns
07. Human Flow – Não Existe Lar se Não Há para Onde Ir, de Ai Weiwei
08. Severina, de Felipe Hirsch
09. Golias, de Dominik Locher
10. Crianças da Noite, de Andrea de Sica

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Pedro Strazza | O Nerd Contra-Ataca

01. Visages, Villages, de Agnès Varda e JR
02. Arábia, de Affonso Uchôa e João Dumans
03. As Boas Maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra
04. O Dia Depois, de Hong Sang-soo
05. O Amante de Um Dia, de Philippe Garrel
06. A Trama, de Laurent Cantet
07. Zama, de Lucrecia Martel
08. Outrage Coda, de Takeshi Kitano
09. A Telenovela Errante, de Raúl Ruiz e Valeria Sarmiento
10. Lucky, de John Carroll Lynch

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Rafael Carvalho | Moviola Digital

01. As Boas Maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra
02. Scary Mother, de Ana Urushadze
03. O Dia Depois, de Hong Sang-soo
04. Loveless, de Andrey Zvyagintsev
05. Visages, Villages, de Agnès Varda e JR
06. Zama, de Lucrecia Martel
07. Custódia, de Xavier Legrand
08. O Amante de Um Dia, de Philippe Garrel
09. A Telenovela Errante, de Raúl Ruiz e Valeria Sarmiento
10. Cocote, de Nelson Carlo de Los Santos Arias

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Tiago Paes de Lira | Tem Um Tigre no Cinema

01. Human Flow – Não Existe Lar se Não Há para Onde Ir, de Ai Weiwei
02. Visages, Villages, de Agnès Varda e JR
03. Custódia, de Xavier Legrand
04. Os Versos Esquecidos, de Alireza Khatami
05. Scary Mother, de Ana Urushadze
06. Doce País, de Warwick Thornton
07. Feio e Cega, de Tom Lass
08. Pororoca, de Constantin Popescu
09. Em Que Tempo Vivemos?, de Walter Salles, Jia Zhangke e outros
10. O Dia Depois, de Hong Sang-soo

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Vinícius Colares | Mostreiro

01. As Boas Maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra
02. O Dia Depois, de Hong Sang-soo
03. Bikini Moon, de Milcho Manchevski
04. Três Anúncios Para Um Crime, de Martin McDonagh
05. Zama, de Lucrecia Martel
06. The Square, de Ruben Östland
07. Pororoca, de Constantin Popescu
08. Os Versos Esquecidos, de Alireza Khatami
09. Gabriel e a Montanha, de Fellipe Barbosa
10. Com Amor, Van Gogh, de Dorota Kobiela e Hugh Welchman

 

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Vitor BúrigoCINEVITOR

01. Custódia, de Xavier Legrand
02. Três Anúncios Para Um Crime, de Martin McDonagh
03. The Square, de Ruben Östland
04. Loveless, de Andrey Zvyagintsev
05. O Pacto de Adriana, de Lissette Orozco
06. As Boas Maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra
07. Scary Mother, de Ana Urushadze
08. A Trama, de Laurent Cantet
09. Gabriel e a Montanha, de Fellipe Barbosa
10. A Sombra da Árvore, de Haffsteinn Gunnar Sigurdsson

 

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Yuri Deliberalli | Discurso Cinematográfico

01. O Amante de Um Dia, de Philippe Garrel
02. Zama, de Lucrecia Martel
03. O Dia Depois, de Hong Sang-soo
04. Caniba, de Lucien Castaing-Taylor e Verena Paravel
05. 9 Dedos, de F. J. Ossang
06. Arábia, de Affonso Uchôa e João Dumans
07. Essa é a Nossa Terra, de Lucas Belvaux
08. Ramiro, de Manuel Mozos
09. Os 7 Desertores. de Paul Vecchiali
10. Visages, Villages, de Agnès Varda e JR

Resenha Crítica | Gosto Se Discute (2017)

Gosto Se Discute, de André Pellenz

O diretor André Pellenz, responsável pelos fenômenos de “Minha Mãe é Uma Peça: O Filme” e “D.P.A.: Detetives do Prédio Azul – O Filme”, decidiu tomar uma medida antes que seguisse os mesmos rumos de colegas como Moacyr Góes e, mais recentemente, Roberto Santucci: encontrar um tempo de respiro entre os sucessos assegurados de público para se envolver com um projeto em que pudesse deixar um pouco mais de sua marca. “Gosto Se Discute” pode até ter toda a embalagem de um produto popular, mas há aqui um pouquinho do envolvimento autoral de Pellenz.

Para que o seu roteiro ganhasse vida, Pellenz precisou trabalhar não somente com um orçamento reduzido, mas também com um cronograma puxado. Em coletiva para a imprensa, confirmou que o texto guarda inspirações de vivências particulares, todas expressas a partir do protagonista. Porém, autoria aqui é apenas uma formalidade, pois “Gosto Se Discute” é totalmente desprendido de qualquer personalidade.

Vivido por Cássio Gabus Mendes, Augusto é o centro pelo qual orbita a história. Dono de um restaurante outrora prestigiado, Augusto hoje enfrenta uma concorrência direta com os food trucks, com aquele em frente ao seu estabelecimento sendo coordenado por Patrick (Gabriel Godoy), de quem foi chefe.

Com o negócio minguando, acarretando em uma crise que o faz inclusive perder temporariamente o paladar, vem ao seu socorro Cristina (a youtuber Kéfera Buchmann, que está bem), representante do banco que é sócio do restaurante para instaurar uma auditoria em busca de estratégias de renovação, do ambiente ao cardápio. Claro que a relação profissional será conflituosa, pois Augusto e Cristina sempre divergem quanto a evolução do endereço.

“Gosto Se Discute” poderia inclusive se apropriar do atual fenômeno dos realities culinários, como o MasterChef, para fazer graça, mas, assim como no recentemente lançado “Duas de Mim”, o plot não passa de uma desculpa para um sem número de piadinhas de rixas que de nada extraem de nós além do enfado. A essa insipidez, vem uma estética televisiva, que pouco faz com a escassez cenográfica e, pior, nenhum sentido aguça com os pratos que contaram com a consultoria da chef Bel Coelho. Bem 1 estrela.

Resenha Crítica | Mobile Homes (2017)

Mobile Homes, de Vladimir de Fontenay

.:: 41ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Uma imagem que sempre provocou estranheza, quando não um efeito cômico, apresentada com certo costume na produção internacional falada em inglês é da residência completa em uma caminhão de transporte, quase uma casa de bonecas em tamanho gigante. Pois como bem antecipa o título em inglês deste segundo longa-metragem do francês Vladimir de Fontenay (o primeiro em direção solo), adentraremos aqui um pouco nesse universo dos lares manufaturados.

Ali (Imogen Poots) e Evan (Callum Turner) formam um casal sem nenhuma base que vive o dia presente tentando garantir que no seguinte tenha um teto para dormir ou um restaurante à beira de estrada para comer e fugir sem pagar. Nem o fato de existir um filho, Bone (Frank Oulton), força a busca por um mínimo de estabilidade. Porém, o choque de realidade bate quando um acidente acontece, com Ali precisando fazer as coisas por conta própria.

O envolvimento de Ali com Robert (Callum Keith Rennie), boa-praça que atua em uma empresa de casas modulares, vai evidenciando a metáfora óbvia do roteiro. Trata-se dessa dificuldade de enraizamento, de viajar quase à deriva sem estabelecer conexões emocionais com as pessoas e os locais que habitam.

Mesmo com talento estético perceptível, principalmente pela melancolia que extrai das paisagens mortas canadenses, Fontenay parece depositar em Imogen Poots o fardo de ser a única emissora de uma emoção verdadeiramente genuína. É o que assegura o interesse por “Mobile Homes”, pois a atriz inglesa é daquelas de uma beleza singular que comunica um universo de possibilidades em sua face, fazendo com que sejamos cúmplices de sua Ali mesmo em suas medidas mais inconsequentes.

Resenha Crítica | Não Devore Meu Coração! (2017)

Não Devore Meu Coração!, de Felipe Bragança

.:: 41ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Frequentemente generosos com filmes brasileiros exibidos em festivais internacionais, a imprensa especializada não recepcionou bem “Não Devore Meu Coração!” quando foi exibido nas últimas edições dos festivais de Sundance e Berlim. Já em sua première em São Paulo na Mostra, não se ouviu aplausos no rolar dos créditos finais, uma formalidade comum até mesmo no mais desapontador dos filmes com a presença da equipe.

Isso talvez se deva porque há prós e contras na mesma medida nesta primeira experiência de Felipe Bragança na direção solo de um longa-metragem. Com o reacender das luzes, é difícil traçar de imediato uma reação mais favorável ou desfavorável ao longa, que deve a sua inspiração aos contos de Joca Reiners Terron.

Em tom de realismo fantástico, a história começa com Joca (Eduardo Macedo), um rapaz de 13 anos, sendo encantada por Basano (Adeli Benitez), menina indígena paraguaya que está prestes a completar 15 anos. O amor impossível entre dois pré-adolescentes divididos por suas culturas e conflitos históricos vai sedendo espaço para a continuidade de uma guerra sustentada pelos adultos.

No centro dela, há o irmão mais velho de Joca, Fernando (Cauã Reymond), um agroboy e também importante componente de uma gangue de motociclistas em uma fase de grandes dilemas, principalmente pelas pressões enfrentadas ao assumir uma linha de sucessão. Além da ausência de uma figura paterna, César (Leopoldo Pacheco), que o traumatiza, há uma mãe, Joana (Cláudia Assunção), que ele culpa por arrastá-lo para um ambiente em que não visualiza um futuro e a rivalidade entre gangues.

Cauã Reymond, um ator que tanto cresce pelo seu interesse em estabelecer parcerias com realizadores de cunho autoral, está muito bem em seu personagem, mas há algo em seu arco que estagna “Não Devore Meu Coração!”. Isso acontece porque há realmente uma inocência encantadora quando a narrativa é centrada no romance entre Joca e Basano, de quem teve o seu coração roubado de um modo quase literal. Porém, há um público que estará mais inclinado a simpatizar com Fernando justamente pelo teor menos fantasioso de seu drama, confirmando assim o caráter divisivo provavelmente não planejado por Felipe Bragança.

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+ Entrevista com Felipe Bragança
+ Entrevista com Cauã Reymond
+ Entrevista com Ney Matogrosso

Yonlu

Resenha Crítica | Yonlu (2017)

Yonlu, de Hique Montanari

.:: 41ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Quem fizer questão de ver “Yonlu” no escuro, ainda assim já saberá no prólogo da narrativa sobre uma informação que o tornou conhecido pela maioria: o suicídio que cometeu com apenas 16 anos, em seu próprio apartamento em Porto Alegre. Assim, o que o diretor e roteirista Hique Montanari fará a partir disso é investigar todo um processo de depressão e as singularidades desse personagem, um músico promissor descoberto postumamente.

É o cenário de 2006, em que os computadores se transformaram em idem doméstico obrigatório, especialmente em família com adolescentes, e a comunicação à distância se dava mais em fóruns do que em redes sociais ou aplicativos de smartphones. Vinicius Gageiro Marques, como se chamava Yonlu, se apropriava desses recursos, fazendo amizades com usuários de outros países e buscando por plataformas para compartilhar as músicas que compôs.

Porém, se essa abertura para amizades virtuais evidenciava um garoto que poderia muito bem ter manejo para relacionamentos interpessoais no “plano real”, ela também demonstrava alguém fechado em si mesmo, com uma tendência enorme para atingir um nível irreversível de depressão. É o que paulatinamente vai acontecendo com o Yonlu vivido por Thalles Cabral, que encara o plano de interromper a própria existência como uma medida para a tristeza implacável proporcionada por um isolamento que o corrompeu e que encontra online uma contribuição assustadora para colocá-lo em prática.

Há boas intenções de Hique Montanari para a sua versão ficcional de Yonlu e o suicídio aqui não é debatido e encenado com essa poesia sedutora tão associada como dispositivo e largamente questionada com a vinda do seriado “Os Treze Porquês”. Ainda assim, é impossível relevar uma série de outras opções narrativas e visuais sustentadas pelo realizador.

Os primeiros dois atos de “Yonlu” mais parecem uma coletânea de clipes musicais e o que resta de dramaturgia não dá conta de entregar um personagem de contrastes, pouco correspondendo aos perfis de jovens deprimidos. Também pouco comunica o ritual repetido pela câmera nos espaços, como se com isso quisesse apontar sobre os riscos que há em não remover os filhos das privações perigosas de um quarto o dia todo de portas fechadas – os pais de Yonlu, mesmo obviamente isentos de qualquer culpa, são aqui exibidos como aqueles de um comercial de margarina.

Portanto, afora por nos (re)aproximarmos de um talento que tão cedo partiu, deixando como legado uma produção musical realmente consistente e que tanto se comunica pela abordagem das frustrações da tenra idade, “Yonlu” falha não somente como tributo, mas principalmente como uma obra cinematográfica que poderia exercer uma função social para uma geração mais delicada como nunca e que por vezes incorre a uma solução permanente para um problema temporário.

Resenha Crítica | Pela Janela (2017)

Pela Janela, de Caroline Leone

.:: 41ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Exibido em competição no último Festival de Gramado, “Pela Janela” saiu da premiação sem nenhuma vitória, gerando inclusive uma discussão entre jornalistas, com um lado defendendo que, mesmo “Como Nossos Pais” sendo um grande filme, a falta de reconhecimento ao trabalho da estreante Caroline Leone foi criminoso. Trata-se de um drama costurado com uma delicadeza que busca flagrar a vida como ela é na velhice e, por isso mesmo, longe de ser uma unanimidade.

Conhecida do teatro e da televisão, Magali Biff está com presença marcante nos últimos dois anos no cinema. Espetacular em “Deserto” e “Açúcar”, a atriz tem em “Pela Janela” a primeira oportunidade na tela grande de ser o centro de todas as atenções como Rosália, uma mulher com 65 anos que desmorona quando é dispensada como líder de uma fábrica de reatores eletrônicos.

É doloroso o desamparo enfrentado por Rosália, que nada mais tinha em sua vida algo para se sentir preenchida além do trabalho. Para confortá-la, há o seu irmão José (Cacá Amaral), que a incentiva a acompanhá-lo em uma viagem a trabalho de São Paulo a Buenos Aires.

A partir daí, vai depender do próprio espectador se sensibilizar ou não com “Pela Janela”, pois a possibilidade de solução fácil para a solidão da protagonista, justamente a oferta de uma rápida viagem, faz com que a narrativa mergulhe no característico road movie de autodescoberta. Mas não exatamente daquele modelo em que se experimenta fortes emoções, pois Rosália pouco externa o brilho que ainda lhe resta. Uma contenção em que uma parte da plateia descobrirá um universo de significados, enquanto a outra pode sair dele na mais completa indiferença.

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+ Entrevista com a diretora Caroline Leone
+ Entrevista com a atriz Magali Biff
+ Entrevista com o ator Cacá Amaral

Resenha Crítica | Não Me Ame (2017)

Love Me Not, de Alexandros Avranas

.:: 41ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Há quatro anos, Alexandros Avranas contribuiu com “Miss Violence” a fazer com esse dito novo cinema grego se enraizasse no circuito alternativo mundial, trazendo a violência nua e crua como um reflexo de uma nação em crise econômica e moral. A recepção é sempre controversa, dependendo da disposição de cada um para apreciar uma narrativa por vezes sádica em sua exposição.

Ao menos a princípio, Avranas parece mais empenhado em fazer do seu “Não Me Ame” um thriller hitchcockiano do que necessariamente uma obra com essa observação nada lisonjeira do ser humano e o meio em que vive. Em sua primeira metade, acompanhamos a tensão entre três personagens ocupando um único espaço.

Uma mulher (Eleni Roussinou, atriz que tanto comunica com a sua face em seu primeiro trabalho desde “Miss Violence”) e o seu marido (Christos Loulis) contratam uma desconhecida (Célestine Aposporis) para ser uma barriga de aluguel. A fidelidade do casal é testada, com a hóspede vai paulatinamente adotando um comportamento que ofende o aparente recato da esposa.

Exatamente na vinda da segunda metade de “Não Me Ame”, Avranas prepara um ponto de virada que direciona essa simples premissa para algo perturbador, operando circunstâncias e consequências que não devem ser antecipadas para o espectador. Transforma-se em algo tão controverso quanto “Miss Violence” e que endereçará a Avranas uma série de acusações de misoginia.

É um risco que vale a pena correr, pois embora “Não Me Ame” de fato ultrapasse um limite, não há como não encontrar na indignação como reação imediata a possibilidade de repensar o preço que se paga pela cobiça. Uma ambição pela sustentação de um status social que incorre não somente ao assassinato da própria identidade, como também o daquela ilusão de que há amor mesmo nos planos mais perversos executados com um cúmplice.

Resenha Crítica | Berenice Procura (2017)

Berenice Procura, de Allan Fiterman

.:: 41ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Já adaptado para o cinema com “Achados e Perdidos”, o escritor Luiz Alfredo Garcia Roza tem um fascínio tão particular pela cenário carioca que quase o transforma em um noir com uma explosão de neon. É essa a atmosfera preservada por Allan Fiterman em “Berenice Procura”, versão do romance homônimo de Roza publicado em 2005.

Como em um típico mistério, a história começa com um corpo sem vida abandonado na praia de Copacabana. Não se faz mistério quanto a identidade dele: Isabelle (Valentina Sampaio), uma trans que colecionou amantes, admiradores e detratores a partir de suas apresentações artísticas no clube noturno gerenciado com mão de ferro por Greta (Vera Holtz).

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A princípio uma mulher um tanto perdida como a mãe de Tiago (Caio Manhente), a esposa de Domingos (Eduardo Moscovis) e até mesmo como taxista, função “herdada” de seu pai, a curiosidade de Berenice (Cláudia Abreu) a faz não somente a assumir por conta própria a investigação de quem está por trás do crime ao ter ciência do envolvimento de seu filho com Isabelle. Ela também passa a ser os olhos que guiarão o público nos desdobramentos do mistério.

Verdade que Allan Fiterman, com base no texto de Flávia Guimarães e José Carvalho, não é um Guilherme de Almeida Prado ao assumir as rédeas de um thriller, pois não há muitos personagens para se apontar os dedos em “Berenice Procura” e a vocação detetivesca da protagonista toma um tempo muito breve na narrativa. Incomoda também a inserção de Russo, personagem que Emilio Dantas vive com todos os trejeitos de seu Rubinho da novela “A Força do Querer”.

Por outro lado, é a evolução surpreendente de um cineasta cujo filme anterior foi a comédia “Embarque Imediato”, com domínio perceptível da mise-en-scène (há um jogo de luzes que reparte a tela como se fosse um split-screen) e o entendimento das consequências dos crimes passionais, principalmente no contexto do universo LGBT – diretor de “Tatuagem”, Hilton Lacerda supervisionou o roteiro. Está quase tudo no lugar em “Berenice Procura” e a sua conclusão, mesmo previsível para alguns, é particularmente impactante.

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Resenha Crítica | Vida Fácil (2017)

Easy Living, de Adam Keleman

.:: 41ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Sempre se fala que o decorrer da adolescência e o fim dela são as fases mais complicadas do ser humano. É onde se experimenta as primeiras vezes, bem como se constitui a própria personalidade e valores. Tudo colabora para o amadurecimento, mas as crises de um país, os seus manuais de como ser bem-sucedido e o custo alto de vida andam retardando esse processo, com indivíduos buscando o seu lugar no mundo já bem maduros.

Esses fatores, somados a uma dose de autoindulgência, formam quem é hoje Sherry Graham (a bela Caroline Dhavernas, muito parecida com uma jovem Lara Flynn Boyle e com papel recorrente na cancelada “Hannibal”). Vendedora de cosméticos, Sherry mora em um motel à beira da estrada, é incapaz de encontrar um homem disposto a ter um relacionamento sério, ambiciona por um negócio que não tem verba para viabilizar e, o mais grave, abandonou a sua filha na casa de sua irmã mais velha, Abby (Elizabeth Marvel), fazendo visitas esporádicas.

Estabelecido esse quadro geral, o diretor e roteirista de primeira viagem em longa-metragem Adam Keleman vai aos poucos traçando um caminho de mudança possível para Shelly, demonstrando que há em seu íntimo um desejo de se transformar uma pessoa melhor. Mas tudo é complicado, pois, como sabemos, há sempre fatores externos que emperram o nosso progresso.

Trata-se de uma história com uma personagem de fácil identificação, justamente por se encontrar em uma estagnação crível. A ela, Keleman também acrescenta algumas pequenas doses de sarcasmo, como a de trazer Shelly em narrações em off de leituras de livros de autoajuda. Mesmo a saída fácil do clímax é contornada com esse humor improvável, dando alguma autenticidade a um filme que poderia se conformar com a banalidade da chamada crise dos 30 anos.

Resenha Crítica | Três Anúncios Para Um Crime (2017)

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, de Martin McDonagh

.:: 41ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Vencedor do Oscar pelo curta-metragem “O Revólver de Seis Tiros”, o britânico Martin McDonagh seguiu para os longas mantendo as narrativas com um humor negro bem particular, privilegiando protagonistas com um caráter bem dúbio geralmente em busca de algum porto seguro mesmo envolvido com alguma atividade ilegal ou medida inapropriada. Foi assim com “Na Mira do Chefe”, com “Sete Psicopatas e um Shih Tzu” e agora com “Três Anúncios Para Um Crime”.

Vencedor do prêmio da audiência nos festivais de Toronto e San Sebastián e de melhor roteiro em Veneza, “Três Anúncios Para Um Crime” é um salto enorme de Martin McDonagh comparado aos seus feitos anteriores. E isso acontece porque nunca foi tão bem ajambrado na consequência mordaz provocada pelo seu humor quanto aqui.

Em um grande momento no cinema como há muito não se via, Frances McDormand interpreta Mildred, uma mulher que se entregou a completa amargura desde o assassinato brutal e sem solução de sua filha Angela (Kathryn Newton). Por conta própria, banca o aluguel de três outdoors para em cada um expôr as seguintes frases: “Estuprada enquanto morria”, “Mas ninguém foi preso” e “Por que, chefe Willoughby?”.

Vivido por Woody Harrelson, o chefe Willoughby é aquela figura incorruptível de Ebbing, cidadezinha pertencente a Missouri. Portanto, é visto como um homem exemplar pelos habitantes, que logo se enfurecem com Mildred, especialmente o oficial Dixon (Sam Rockwell, que não pode ser esquecido na temporada de premiações), um sujeito racista, homofóbico e completamente imaturo.

O que não falta em “Três Anúncios Para Um Crime” é uma galeria extensa de grandes personagens, incluindo ainda o publicitário Red (Caleb Landry Jones), o ex-marido de Mildred, Charlie (John Hawkes), e James (Peter Dinklage), que vai tomando uma participação cada vez maior em toda essa história. Mas é essencialmente um filme sobre Mildred, Willoughby e Dixon.

Sem abrir mão do seu humor desconcertante, desse em que o espectador repensa sobre a gargalhada sonora que deu no segundo seguinte, McDonagh ainda oferece um filme humano que jamais desacredita na possibilidade de redenção de seus protagonistas, inclusive Dixon, aquele modelo incorrigível no qual jamais depositaríamos qualquer possibilidade de recomeço. Por tudo isso, a sede de vingança vem a ser secundária quando o fardo de continuar seguindo em frente é mais tolerável.