Jovem Mulher

Resenha Crítica | Jovem Mulher (2017)

Jeune femme, de Léonor Serraille

.:: INDIE 2017 Festival Cinema ::.

Bem como “Vida Fácil“, produção independente americana dirigida por Adam Keleman e exibida ao longo da 41ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, “Jovem Mulher” tem uma premissa que parte de um sintoma hoje global: o da dificuldade de trintões em conquistar alguma estabilidade na vida. E o preço que se paga é alto, especialmente por muitas oportunidades dependerem da maneira como se corresponde às expectativas dos outros.

Paula (a excelente Laetitia Dosch, que esteve em “Meu Rei” e “Um Belo Verão”) é mesmo uma jovem mulher. Adulta, parece uma adolescente desolada ao ter um choque de realidade quando é chutada para fora do apartamento em que vivia com o seu namorado (Grégoire Monsaingeon), que vem a ser também um ex-professor. Com apenas alguns tostões no bolso e o gato de estimação, ela é forçada a retornar à Paris para tentar se refazer.

A chance de recomeço não a faz evitar os passos tortos. Como se dá ao assegurar para si dois empregos na base de algumas mentiras, trabalhando em um período em uma loja de roupas de um centro de compras e em outro como a babá de uma menina, Lila (Lila-Rose Gilberti). Haverá também uma tentativa de reconexão com a mãe (interpretada por Nathalie Richard) que a rejeita, além de uma amizade forjada com Yuki (Léonie Simaga), que a confunde com uma colega dos tempos do colégio.

A diretora e roteirista de 31 anos Léonor Serraille conduz “Jovem Mulher” tentando se equiparar com o espírito de sua protagonista, não abrindo mão do humor mesmo em circunstâncias mais densas. Porém, como estreante, denota uma falta de apuro na construção de algumas relações, geralmente dependendo de acasos ou de uma cumplicidade desproporcional ao perfil mais duro de alguns personagens secundários. Mas nada que comprometa as virtudes de seu filme, obtendo com elas a Caméra d’Or na última edição do Festival de Cannes diante de uma concorrência que incluiu títulos como “Terra Selvagem”, “A Noiva do Deserto”, “Oh Lucy!” e “Patti Cake$”.

Resenha Crítica | Mulheres Divinas (2017)

Die göttliche Ordnung, de Petra Biondina Volpe

Há tempos o debate sobre a posição da mulher na sociedade e a sua luta por igualdade entre gêneros não era tão acalorado como hoje em dia. Se hoje é mais do que natural a mulher ter direito a um emprego, a possibilidade de uma vida independente e fora de uma estrutura familiar padronizada e o de se expressar com liberdade é porque lá atrás se lutou muito para essas e tantas outras conquistas.

Por tudo isso que já se alcançou e por tudo o que ainda se luta, como a igualdade salarial e o fim do assédio sexual, um filme como “Mulheres Divinas” chega em um momento mais que oportuno, enaltecendo a garra de anônimas que agiram como verdadeiras heroínas ao não se conformarem com os papéis impostos pelos homens que por tantos séculos desempenharam. E há um atrativo: é um relato muito mais vivaz que o de “As Sufragistas”, lançado em 2015 e que também deu luz à questão do direito ao voto feminino.

A maravilhosa Marie Leuenberger interpreta Nora. Mãe de dois garotos e casada com Hans (Maximilian Simonischek), essa mulher na faixa dos 30 a tantos anos enfrenta as atividades de uma dona de casa com um desencanto que só se torna aparente ao ter conhecimento de um comitê que se organiza para garantir às mulheres o direito ao voto. O assustador de tudo isso é que estamos na Suíça em pleno ano de 1971, período em que a causa já era consolidada em vários pontos do globo.

Também roteirista, Petra Biondina Volpe não se desvincula daquela narrativa um tanto padronizada esperada de um tema como esse, indo dos monólogos sem fim à morte de uma figura importante na trama como uma espécie de sacrifício para o sucesso de uma luta. Por isso mesmo, entrega um filme melhor do que as expectativas quando passa a focar mais na transição de Nora de uma mulher reprimida para outra em que pela primeira vez reconhece os próprios potenciais e desejos, de alguém que se posiciona firmemente diante dos embates e que se fortalece quando adota uma perspectiva menos puritana sobre o seu próprio corpo.

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Lançamento em streaming:
Disponível a partir do dia 8 de março
 | NOW (R$14,90) | VIVO PLAY (R$ 11,90) | Google Play (R$9,90) | YouTube (R$9,90) | iTunes (R$11,90)

Resenha Crítica | Historietas Assombradas – O Filme (2017)

Historietas Assombradas – O Filme, de Victor-Hugo Borges

Febre na tevê fechada entre a garotada, a série animada “Historietas Assombradas (para Crianças Malcriadas)” conta por ora com duas temporadas que agitam bastante os números de audiência da Cartoon Network e mesmo na TV Brasil. Trata-se inclusive de uma surpresa, vendo que “Historientas Assombradas” só veio a realmente ganhar vida três anos após a feitura de seu piloto e preserva uma estética gótica muito particular, uma espécie de Tim Burton para crianças.

Mesmo com esse histórico de sucesso, a primeira aventura no cinema de Pepe (dublado por Charles Emmanuel) e sua turma não vingou. Durante a sua passagem no circuito no mês de novembro, “Historietas Assombradas – O Filme” só atraiu aproximadamente 30 mil espectadores, comprovando um público-alvo não totalmente fidelizado.

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Embora “D.P.A.: Detetives do Prédio Azul: O Filme” tenha sido um dos únicos filmes nacionais deste ano a bater a marca de um milhão de espectadores (o outro foi “Polícia Federal: A Lei é Para Todos”), há tanto nele quando em “Historietas Assombradas – O Filme” o velho problema de transição: originalmente com histórias que se resolviam em episódios breves, ambos aborrecem agora mais longos.

A partir do momento em que Pepe descobre de sua avó adotiva Ramona (Nádia Carvalho) que os seus pais biológicos estão vivos, “Historietas Assombradas – O Filme” vai acompanhando o garoto em uma jornada por suas origens em 90 minutos arrastadíssimos, sem que com isso consiga fisgar uma plateia de iniciados ou pregar alguma surpresa em quem já é veterano nesse universo. De atraente, ao menos há a caracterização pitoresca de cada personagem, todos com um jeitinho brasileiro e traços bem diferentes das criações fofinhas dos sucessos americanos.

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Lançamento em streaming:
Disponível a partir do dia 14 de dezembro
NOW (R$11,90) / VIVO PLAY (R$ 11,90) / Google Play (Compra R$ 24,90 Aluguel R$6,90) / iTunes (Compra US$6.99 Aluguel US$2.99)

 

Resenha Crítica | Cora Coralina: Todas as Vidas (2016)

Cora Coralina: Todas as Vidas, de Renato Barbieri

Um aspecto extraordinário sobre Cora Coralina é a poesia que percebeu na rotina, na simplicidade de uma existência vivida em Goiás e no desinteresse por qualquer artificialismo como fonte de inspiração. Isso nunca impediu que produzisse uma obra encantadora, carregada daquela riqueza singular de quem observa com muita perícia até mesmo a mais banal das circunstâncias.

Outro aspecto que jamais deixou de evidenciar em seu texto é a sensação de que parecia viver em um único corpo a vida de várias mulheres. É exatamente o que o realizador Renato Barbieri exibe em seu “Cora Coralina: Todas as Vidas”, em que atrizes de gerações e carreiras tão distintas quanto Beth Goulart, Zezé Mota e Camila Márdila desempenham para as câmeras a leitura das poesias de Cora.

O limite ao tentar corresponder a uma escritora multifacetada como Cora Coralina vem justamente da escolha de Barbieri pela repetição de uma estrutura que quebra a ilusão de corresponder a atos bem definidos. Quando a quarta grua se aproxima com música incidental excessiva anunciando a leitura de um novo texto, o registro perde em interesse.

Melhor quando o documentário passa a se interessar mais pelo legado de Cora Coralina e menos pela leitura por vezes artificial, capturando a sua essência humilde e hospitaleira com raras imagens de arquivos e dos testemunhos que a asseguram como uma doceira de mão cheia. É certo que tanto os admiradores quanto aqueles que desconhecem a trajetória de Cora se interessarão muito mais por esses momentos reservados para a etapa final da realização.

Resenha Crítica | Professor Marston e as Mulheres-Maravilhas (2017)

Professor Marston & the Wonder-Women, Angela Robinson

.:: 25º Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade ::.

Após inúmeras tentativas frustradas ao longo dos anos, o cinema oriundo das histórias de quadrinhos finalmente encontrou com “Mulher-Maravilha” aquele representante tão esperado de uma heroína no centro de uma aventura com toques fantásticos. A receptividade foi tão positiva que a realização de Patty Jenkins é hoje um modelo respeitoso dentro do malfadado universo da DC na tela grande, além, claro, de representar para os fãs um importante manifesto feminista.

Por tudo isso, é inacreditável que “Professor Marston e as Mulheres-Maravilhas”, aqui narrando a história real de como foi concebida a princesa Diana de Themyscira, tenha passado praticamente batido em seu lançamento comercial nos Estados Unidos e que desembarque aqui no Brasil com publicidade praticamente zero. Sem dizer que a diretora e roteirista Angela Robinson faz muito mais que “Mulher-Maravilha”, exibindo que as heroínas das fantasias devem as suas existências às mulheres do lado de cá, singulares na luta por igualdade e independência.

Muito antes de criar a personagem que rivalizaria com outros heróis dos gibis como o Capitão América, William Moulton Marston (Luke Evans, fácil no melhor papel de sua carreira) foi o criador não recompensado pela criação do detector de mentiras e psicólogo que ministrava aulas ao mesmo tempo em que caçava por voluntários para os seus experimentos. Com a sua esposa Elizabeth (Rebecca Hall), uma mulher muito à frente de seu tempo, eles abordam Olive Byrne (Bella Heathcote).

De personalidade aparentemente ingênua e frágil, Olive, de quem os Marston descobrem ser filha da ativista Ethel Byrne, logo se entrega a um jogo de emoções manipuladas que se converterá em um triângulo amoroso muito bem resolvido. Entretanto, mantido em completo sigilo e encontrando reflexo com a nossa contemporaneidade, não absolutamente afastada do conservadorismo dos anos 1940.

Responsável pelos tolos “D.E.B.S.: As Super Espiãs” e “Herbie: Meu Fusca Turbinado”, Robinson lida com descompromisso em “Professor Marston e as Mulheres-Maravilhas” de modo mais oportuno, uma vez que a leveza que insere na condução de sua narrativa naturaliza uma relação de fato bela no modo como se constrói e se efetiva. E o fato de tudo resultar na concepção de Mulher-Maravilha só vem a dignificar o que ela representa no imaginário coletivo: um símbolo de destreza e esperança.

Resenha Crítica | Em Busca de Fellini (2017)

In Search of Fellini, de Taron Lexton

Mais conhecida por dar voz a Bart Simpson na série animada “Os Simpsons” do que por qualquer outro crédito, Nancy Cartwright se volta hoje com os seus 60 anos para dentro de si para testar novos terrenos como artista, respondendo pela produção executiva e coautoria do roteiro de “Em Busca de Fellini” a partir de uma experiência particular em sua juventude. Uma viagem em férias à Itália, revista agora como uma história sobre apego e liberdade.

Superprotegida, Lucy (Ksenia Solo) passou os 20 anos de sua existência em uma bolha, longe de qualquer coisa com o potencial mínimo de deixar uma ferida emotiva. Mesmo a morte de seus animais de estimação Lucy sequer ficou sabendo, pois a sua mãe Claire (Maria Bello) sempre camuflou com cartões-postais esse e outros revezes. Mas chega um momento em que preservar a pureza da menina já não é mais possível, precisando abrir as portas do mundo e, consequentemente, deixando que ela experimente as coisas boas e ruins que são proporcionadas pelas pessoas e os acasos.

A princípio, Lucy contempla o seu entorno com o encanto e ingenuidade de uma Amélie Poulain, algo que se intensifica quando passa a ter como meta conhecer Roma ao se apaixonar pelos filmes de Federico Fellini, que oferecem para ela uma visão mais realista das relações humanas. Com Claire enfrentando um câncer mantido em segredo, Lucy assim parte para essa terra estrangeira obstinada a conhecer o Maestro, talvez encontrando respostas para perguntas existenciais que sequer teve a vivência para formular.

Nascido na África do Sul e com uma filmografia então composta por curtas, Taron Lexton debuta na ficção em longa-metragem fazendo uma homenagem que soa mais oportunista do que sincera a Fellini, pois carregar o nome do cineasta italiano em seu projeto certamente é bem sedutora para os mercados de circuito alternativo. Na prática, a encenação da jornada de Lucy encontra pouca correspondência com a obra de Fellini.

Isso, entretanto, não é lá um demérito completo, pois Lexton faz assim algo com uma personalidade mais identificável, provando ter um senso estético particular, alternando a fotografia em tom sépia da Itália como concebedora instantânea de paisagens para se gravar na memória com o azul deprimido de um lar em que Claire definha. É inclusive nessa conexão entre filha e mãe que “Em Busca de Fellini” funciona melhor, não deixando que o apreço pelo cinema corrompa a relação dessas duas mulheres que moldam o coração do filme.

Resenha Crítica | O Acampamento (2016)

Killing Ground, de Damien Power

Se há todo um movimento no terror que está resgatando a tradição dos anos 1970 e 1980 existente em histórias de cunho sobrenatural, o cinéfilo mais assíduo pelo gênero provavelmente notou também uma geração de jovens realizadores adeptos pelo slasher, que teve como o seu maior expoente o clássico “O Massacre da Serra Elétrica”. A ameaça vem a ser mais física e, por isso mesmo, nua e crua.

Em seu primeiro longa-metragem de ficção, o realizador Damien Power está claramente sintonizado com esse filão, mas com toda uma visão mais extrema da crueldade humana típica de um sujeito que nasceu na Austrália, na ilha da Tasmânia. É o que precisa ser dito para alertar que “O Acampamento” será uma experiência no mínimo perturbadora, em que a nossa natureza selvagem e o instinto de sobrevivência são potencializados pela presença em um contexto quase primitivo.

Casal prestes a assumir um rumo mais sério no relacionamento, Ian (Ian Meadows) e Samantha (Harriet Dyer) decidem juntos passar a virada do ano acampando em um matagal próximo a uma cachoeira. Decidem erguer a barraca ao lado de uma outra que parece pertencer a uma família. Porém, como bem propõe a alternância dos tempos narrativos, alguma coisa parece não ter dado certo com os desconhecidos que ocuparam o espaço algumas horas antes.

Sem ir muito adiante, pode-se dizer que Power está muito mais interessado em encenar comportamentos do que necessariamente construir personagens íntegros em camadas. Assumir essa escolha traz prejuízos para “O Acampamento”, no sentido de que o progresso de sua violência às vezes depende mais de certa estupidez assumida pelas vítimas e algozes do que por uma resposta mais racional. É extremamente natural agir sem pensar diante do perigo, mas isso passa a ser uma constante no curso dos eventos.

Ainda bem que Power é não somente brilhante na arquitetura do medo (o que dizer do plano em que Samantha caminha enquanto um bebê a acompanha sem a sua ciência há alguns metros de distância?), como na de uma crueldade que quase transforma os protagonistas em um verdadeiro estudo de caso, com um homem assumindo uma postura nada heroica enquanto uma mulher se mostra cada vez mais forte na preservação de seus instintos. Em um nicho de estereótipos cansados, “O Acampamento” se torna ainda melhor com a sua determinação em revê-los.

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Lançamento em streaming:
Disponível a partir do dia 7 de dezembro
NOW (R$11,90) / VIVO PLAY (R$ 11,90) / Google Play (Compra R$ 29,90 Aluguel R$9,90) / iTunes (Compra US$6.99 Aluguel US$2.99)