Resenha Crítica | Manifesto (2015)

Manifesto, de Julian Rosefeldt

O alemão Julian Rosefeldt é famoso há 20 anos pelos projetos transformados em vídeoinstalações expostos ao redor do mundo. Para esse formato, pensou em fazer uma série de monólogos em que importantes manifestos artísticos são levemente reorganizados com a intenção de ter uma narração mais fluida, conseguindo com a inestimável colaboração de Cate Blanchett a possibilidade de concebê-la apropriadamente.

Situado em Melbourne, o Australian Centre for the Moving Image foi o primeiro lar da vídeoinstalação, se transformando em um sucesso imediato que atiçou inclusive a curiosidade de turistas. Para tanto, vem agora uma versão em que os 13 monólogos, antes separados, são agora reunidos para formar um longa-metragem.

Ainda que traga a presença hipnótica de uma das maiores atrizes do cinema em atividade se virando dentro dos mais diversos tipos, “Manifesto”, como cinema, não é de fácil digestão. Mesmo a edição de Bobby Good, que busca interligar os segmentos o máximo possível, não é capaz de amortecer o peso de uma narrativa ininterrupta com declarações sobre o estado da arte, o seu fazer, a sua relevância e até mesmo o modo questionável como é usada.

Tal consequência se dá muito como Rosefeldt opera os seus monólogos, mais preocupado por uma simetria, por uma apropriação absoluta de uma cenografia que se expande além do plano, muito mais criativa do que o modo como subverte os textos que tem em mãos. Felizmente, um dinamismo mais evidente vem quando conseguimos nos habituar com o formato da proposta, vindo especialmente com um tom quase satírico antes ausente.

Como no monólogo de Claes Oldenburg, vindo do pop art, em que é dito como uma oração à mesa por Cate Blanchett como uma mãe conservadora. Ou na melhor parte do filme, onde temos Blanchett como uma âncora e uma repórter como porta-vozes dos representantes da arte conceitual Sol LeWitt, Elaine Sturtevant e Adrian Piper. Antes do encerramento, é também divertido ver a atriz como uma professora recitando as regras do Dogma 95, criadas pelos cineastas Lars von Trier e Thomas Vinterberg.

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Lançamento em streaming:
Disponível a partir do dia 1º de fevereiro
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Resenha Crítica | A Repartição do Tempo (2016)

A Repartição do Tempo, de Santiago Dellape

.:: 40ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

A fórmula que vem assegurando o sucesso da comédia brasileira nos últimos anos é a exploração das crises financeiras, profissionais e matrimoniais da classe média brasileira, justamente o público que mais vai ao cinema para os males espantar dando risada daquilo com o que se identifica. Primeiro longa-metragem de Santiago Dellape, “A Repartição do Tempo” será lançado no circuito comercial como se fosse um exemplar alternativo do nosso cinema, mas merecia centenas de cópias não somente pelo seu apelo, como também pelo seu humor incisivo.

É, portanto, superior a tudo o que Roberto Santucci já fez. Não apenas se comunica com o espectador, mas é realmente muito bom. Guardadas às devidas proporções, lembra muito o que Alexandre Machado e Fernanda Young fizeram com acidez nos sete episódios de “Os Aspones” nos idos 2004, com uma dose extra de imaginação ao inserir a história no campo do fantástico.

Protagonista da história, Jonas (Edu Moraes) se vê inserido em uma rotina de desencantos com outros colegas de trabalho em uma repartição pública em Brasília identificada como REPI: Registro de Patentes e Invenções. É para ela que vai o protótipo de uma máquina do tempo do Dr. Brasil (Tonico Pereira) para registro, usado às escondidas pelo chefe do local, Lisboa (Eucir de Souza), com a intenção de fazer com o que os resultados de produtividade subam.

A partir dessa premissa, Dellape se deixa nortear por obras oitentistas que certamente são essenciais para a formação de qualquer cineasta que ambiciona por uma carreira na comédia, de “Os Trapalhões” a “De Volta Para o Futuro”. Com as inspirações, visualiza rumos inusitados para o progresso da narrativa, fazendo Lisboa duplicar os seus subordinados com a máquina do tempo para que as cópias usurpem os seus lugares enquanto confina os originais em um departamento subterrâneo para trabalharem pesado em caráter de licença-prêmio.

É também um excelente diretor de elenco, exibindo atores pouco conhecidos que funcionam perfeitamente em conjunto e cada um com grandes cenas que comprovam como são craques no humor, com destaque especial para Bidô Galvão como Betânia, veterana no REPI. Há até uma participação especial de Dedé Santana, aqui com um personagem diferente do que estamos habituados a vê-lo.

O melhor, contudo, é a perícia de um realizador que sabe muito bem o ambiente que está registrando. Também um funcionário público, Dellape encontra nos pequenos detalhes um potencial cômico enorme, da burocracia do serviço público (as ligações telefônicas prolongadas, os inúmeros procedimentos para o atendimento de uma solicitação) ao sentimento de estar preso em atribuições inúteis que sugam a vitalidade dos personagens, encontrando nas confraternizações regadas a Cereser e na fila para bater cartão um refúgio. A melhor comédia nacional em muito tempo.

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+ Entrevista com o diretor e roteirista Santiago Dellape

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Lançamento em streaming:
Disponível a partir do dia 22 de março | 
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Resenha Crítica | As Aventuras de Paddington 2 (2017)

Paddington 2, de Paul King

Querido pelos britânicos, Paddington poderia muito bem ir para os cinemas tendo dificuldades de conquistar as inúmeras plateias pelo mundo. De fato, a sequência anda amargando uma bilheteria fraca nos Estados Unidos e as demais arrecadações não se equiparam com aquela obtida no Reino Unido. Êxito comercial à parte, quem arriscar terá uma experiência ainda mais doce comparada com a proporcionada pelo original, que já era ótimo.

De certo modo, há um tom de homenagem na história singela para Michael Bond, criador do personagem que faleceu aos 91 anos sem ter visto a segunda vez do urso que ama marmelada no cinema. Nela, Paddington (dublado no original por Ben Whishaw e no Brasil por Bruno Gagliasso) se mete em apuros quando faz um pé de meia para comprar um livro pop up de Londres para a sua tia Lucy (Imelda Staunton), que jamais saiu da floresta.

Acontece que tal exemplar contém enigmas em suas páginas que direcionam para um local que possui um tesouro em forma de acessórios banhados em ouro. E é nele que Phoenix Buchanan (Hugh Grant, indicado ao Bafta pela interpretação), um ator no ostracismo e vilão da vez, está de olho, executando o roubo do livro em um antiquário ao passo que consegue incriminar Paddington pelo que fez.

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Claramente voltado para o público infantil, “As Aventuras de Paddington 2” tem em sua versão nacional uma melhora no time de dublagem. Além de Gagliasso ser uma voz muito mais profissional que a de Danilo Gentili (que fez o personagem no original), o jurado do MasterChef Henrique Fogaça dá conta do recado ao dublar Knuckles McGinty (Brendan Gleeson), o cozinheiro do presídio para o qual Paddington é mandado. Duro de engolir apenas Márcio Garcia como a voz brasileira de Hugh Grant, em um trabalho sem nenhuma das nuances maliciosas do galã inglês.

Entretanto, o mais bacana de reconhecer é não apenas o fato de Paddington divertir também os adultos com um humor nada imbecilizado e das belas rimas visuais concebidas pelo diretor Paul King e o seu fotógrafo Erik Wilson, mas o enaltecimento da bondade como um valor a ser praticado nas relações humanas. Não emociona apenas o esforço dos Brown para provar a inocência de Paddington, mas também o poder natural deste em despertar em quem o cerca a capacidade de ser mais cordial e aberto para a vida. Parece pouco, mas há muito não se via um programa família tão afetuoso nessa abordagem.

Os Cinco Filmes Prediletos de Yuri Deliberalli

Yuri foi mais um cinéfilo que conheci por intermédio da saudosa Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos, ainda que ele também more em São Paulo. E desde o primeiro encontro matinal entre os membros em uma edição da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, temos nos esbarrado com alguma frequência em sessões de outros festivais, como o INDIE ou aqueles promovidos pelo CineSesc de cineastas e vanguardas.

Entre os intervalos, sempre discutimos não somente sobre os filmes que acabamos de assistir, como todos os demais que compõem ou não as nossas bagagens. A dificuldade é entrarmos em um acordo. Aí está uma singularidade em nossas interações, pois as divergências sempre se dão com respeito, por vezes em tom de brincadeira mesmo.

Parte disso está em pontos de vista bem fundamentados, também expressos em sua escrita, que pode ser prestigiada no Discurso Cinematográfico, o seu blog pessoal de cinema. Como redator, Yuri também atua no projeto coletivo Multiplot! e deve ser acompanhado no Letterboxd.

A seguir, Yuri contou para o Cine Resenhas quais são os seus cinco filmes prediletos hoje.

 

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O Portal do Paraíso, de Michael Cimino (Heaven’s Gate, 1980)

Talvez o filme mais representativo da verdadeira natureza do sonho americano. Desolação e melancolia impregnam cada um dos frames e tornam a experiência cinematográfica profundamente brutal sobre o espírito de prosperidade, liberdade e esperança que o filme tanto nega ao espectador. É um filme todo elaborado em ciclos, desde a ingenuidade da dança de formatura até a violência da dança da cavalaria durante o massacre final, num sentido de que o rumo da história (e do país que a modulou) pode girar, mas sempre voltará ao mesmo lugar. Vi na tela do Cinesesc numa retrospectiva do Cimino há uns anos e não há como ficar ileso.

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Um Dia Quente de Verão, de Edward Yang (Gu ling jie shao nian sha ren shi jian, 1991)

Uma paixão que veio em uma dessas sessões icônicas que a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo proporciona de tempos em tempos. Um restauro primoroso de um filme sobre a selvageria de um contexto e seu impacto violento sobre a formação do indivíduo. A invasão ocidental sobre a cultura oriental e a consequente deturpação de costumes e tradições ao ponto em que a violência – esse ato mais instintivo – torna-se a única via possível. São quatro horas de cuidado e maturidade narrativa.

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A Palavra, de Carl Theodor Dreyer (Ordet, 1955)

O Alex tem influência direta neste aqui, uma vez que decorreu de uma lista jamais publicada na finada Sociedade dos Blogueiros Cinéfilos sobre os vencedores de Veneza. Foi meu primeiro Dreyer e causou espanto pelo quão cirúrgica ou mesmo matemática é sua maneira de filmar, em que cada movimento de câmera, posicionamento de atores e cada corte parecem milimetricamente calculados, mas sem que isso reduza o filme a uma excessiva formalidade. E isso casa muito bem com essa perspectiva da fé como um evento inumano e psicológico; de pura crença em um poder reconciliador que é sobrenatural e se manifesta pelas mãos humanas.

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O Leopardo, de Luchino Visconti (Il gattopardo, 1963)

Visconti é meu favorito e não poderia deixar de mencionar um filme dele por aqui. A incompreensão do Príncipe Salinas com as mudanças sociais ao seu redor jamais se torna um elemento de exposição textual, mas sim um fator de estruturação cênica. São as paredes, os lustres pomposos e os móveis intactos que denunciam a decadência e o fim das tradições seculares de uma sociedade que não vê mais espaço para algo tão obsoleto quanto a aristocracia. E sendo Visconti, a elegância jamais é um véu protocolar.

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Suspiria, de Dario Argento (idem, 1977)

Adição mais recente aos meus favoritos. Lembro de não ter achado grande coisa na primeira vez, mas a revisão no IMS recentemente alavancou a experiência e demonstrou o quão problemático é o início de cinefilia. Acima de tudo, cores como personagens onipresentes e como um elemento intensificador do horror que se esconde por trás da porta. Em um filme sobre aparências, a busca incessante pela compreensão do que acontece ao redor torna a realidade um sonho e o sonho em uma experiência demoníaca.

Resenha Crítica | Os Iniciados (2017)

Inxeba, de John Trengove

.:: INDIE 2017 Festival Cinema ::.

Hoje semifinalista ao Oscar 2018 de Melhor Filme Estrangeiro, “Os Iniciados” traz aquele tipo de curiosidade cultural que geralmente atinge em cheio os membros da Academia. Representante da África do Sul, este primeiro longa-metragem de John Trengove (companheiro do cineasta brasileiro Marco Dutra) põe em foco um costume em que muitos jovens são submetidos que nos permite debater como determinados comportamentos ainda se configuram em nossa contemporaneidade.

No caso, os ritos de circuncisão Xhosa, na qual um grupo de adolescente são circuncidados do modo mais primitivo possível em uma convivência de alguns dias em um acampamento para “testes” de masculinidade. São assim inclusive preparados para uma vida heteronormativa que deverão corresponder quando saírem do isolamento como adultos precoces.

No centro dessa história, há Xolani (Nakhane Touré), que já passou pelo ritual e hoje exerce um papel de monitor para os novatos, desta vez se encarregando de seguir cada passo de Kwanda (Niza Jay). Vindo de Joanesburgo, Kwanda questiona os preceitos desses homens, mas também evidencia que o próprio Xolani vive uma vida de mentira, pois logo o veremos em uma relação secreta com Vija (Bongile Mantsai), eleito como o líder do acampamento.

Ao invés de tratar o enredo como um subterfúgio para construir um filme sobre um amor proibido e as suas barreiras, John Trengove, que tem no texto a colaboração de Malusi Bengu e Thando Mgqolozana, prefere corresponder à crueza da realidade, inclusive nas cenas tórridas entre Xolani e Vija em que há uma entrega que se dá mais por desejos reprimidos e menos por alguma paixão recíproca. Mesmo a resolução levemente calculada não reduz as virtudes de uma realização que contesta o cenário em que homens recorrem às ações extremas para mascarar quem verdadeiramente são em uma sociedade conservadora.

Resenha Crítica | Me Chame Pelo Seu Nome (2017)

Call Me By Your Name, de Luca Guadagnino

.:: 25º Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade ::.

Ao mesmo tempo em que o primeiro amor é sempre rememorado por nós com muita ternura, não há nada mais devastador do que conviver com a sua ruptura. E não importa quanto a sua finitude. Se a sua duração foi de uma longa existência ou de um mero lance de uma temporada do ano. O sentimento que fica é que as sensações experimentadas jamais podem ser reprisadas com outros parceiros, mesmo que o amor volte inúmeras vezes a nos consolar.

Por tudo isso, é compreensível que “Me Chame Pelo Seu Nome” esteja tocando de modo especial a plateia desde a sua primeira passagem pela tela grande, no Festival de Sundance de 2017. Não somente porque há dois protagonistas inquestionavelmente belos que atiçam as fantasias dentro de uma relação homoafetiva, mas porque o que eles passam juntos durante um verão na Itália em 1983 é definitivamente implacável.

Jovem de 17 anos, Elio (Timothée Chalamet) é filho de um arqueólogo (Michael Stuhlbarg) que convida um de seus ex-alunos, Oliver (Armie Hammer), de 24 anos, para dar um suporte em um estudo acadêmico. A princípio, Elio o recepciona com indiferença, mas existe claramente um interesse físico por ele, denotado pelo modo como é incapaz de desviar o olhar quando Oliver está aproveitando os seus intervalos no jardim de sua casa.

Não poderiam se corresponder de modo mais conflitante, mas logo buscam por um convívio pacífico que vai culminando em uma tensão sexual que explode com flertes e carícias que se dão quando estão afastados de qualquer potencial testemunha. Tudo encenado com um fato reconfortante: não se tem aqui dois homens em dúvida quanto a própria sexualidade ou vítimas das pressões externas, mas sim que se descobrem atraídos um pelo outro livres de tais fatores.

É excepcional a parceria que se dá aqui entre Luca Guadagnino e James Ivory. Nome que passou a ser reconhecido no cinema a partir de sua adaptação de “Cem Escovadas Antes de Ir para Cama”, Guadagnino não tem pudores no modo como registra a entrega entre dois corpos, conferindo uma carga dramática mesmo nas mais fetichistas de suas cenas. Já Ivory, com o seu vasto currículo como um diretor que sempre trabalhou as conexões amorosas, adapta um romance tão forte em palavras quanto é nas imagens fotografadas por Sayombhu Mukdeeprom, com todas as granulações que remetem a um álbum de memórias que paulatinamente parece também nos pertencer.

Resenha Crítica | Saudade (2017)

Saudade, de Paulo Caldas

sa:u.da.de: sf. 1. Lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoa ou coisa distante ou extinta. 2. Pesar pela ausência de alguém que nos é querido.

Conhecido por seus trabalhos na ficção a partir de “Baile Perfumado”, “Deserto Feliz” e “País do Desejo”, o cineasta Paulo Caldas faz em “Saudade” a sua terceira inclusão no registro documental partindo de uma curiosidade que talvez seja desconhecida por muita gente. Destacado em seu título, saudade é uma palavra que não existe fora da língua portuguesa, com outros idiomas apresentando equivalentes que não correspondem à sua riqueza de significados.

A partir disso, Caldas colhe depoimentos de artistas do Brasil, Portugal e Angola que versam sobre a saudade a partir de suas expressões. Há devaneios como os da roteirista Adriana Falcão, do artista multimídia Alex Flemming, do cantor Arnaldo Antunes, do cineasta Karim Aïnouz, entre outros. Invariavelmente, refletem, assim como todos nós, sobre como a palavra comunica a dor da perda, aquilo ou aquele que nos foi tirado e como a memória opera para manter as lembranças acesas.

A lamentar que o documentário se aproprie pouco das ferramentas audiovisuais para elaborar representações da saudade. Afora a imagem que retrocede a onda do mar que apagou a escrita da palavra na areia e alguns recortes de performances artísticas, Caldas se contenta mais com as possibilidades verbais, dando a sensação de que o seu projeto seria mais adequado como um média-metragem para a tevê do que um longa para cinema.

Gaby Estrella: O Filme

Resenha Crítica | Gaby Estrella: O Filme (2018)

Gaby Estrella: O Filme, de Cláudio Boeckel

Com o cinema brasileiro apresentando uma crise preocupante de público em 2017, no qual somente três filmes foram capazes de serem vistos por mais de um milhão de espectadores, é um pouco compreensível que alguns produtores estejam pensando no conteúdo televisivo como medida para assegurar um público previamente fidelizado. Taí “Carrossel”, “Detetives do Prédio Azul”, “Historietas Assombradas” e outros comprovando uma tendência que está longe de chegar ao fim.

Exibido no Gloob desde 2013, “Gaby Estrella” fechou o seu ciclo com três temporada, totalizando 124 episódios. Também rendeu spin-off, “Dicas de Estilo Gaby Estrella”, disponível no YouTube. A diferença da versão cinematográfica das citadas anteriormente é que a roteirista Carina Schulze ao menos pensa em decisões que não o fazem ser considerado um mero episódio alongado.

O problema está em todo o resto: mesmo em uma premissa com início, meio e fim com algum escopo, nada é realmente cinematográfico em “Gaby Estrella”. Os desdobramentos possuem inconsistências gritantes e que nos fazem questionar se o texto foi devidamente submetido para novos tratamentos. Os raros números musicais não soam pensados para a tela grande do cinema. Há até uma noção de que aspectos técnicos fundamentais foram negligenciados, como uma mixagem de som que evidencia que muitas cenas foram dubladas com pressa na pós-produção.

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Aqui, Gaby Estrella é vista em um momento de impasse em sua carreira como cantora, pois a concorrência tem se mostrado cada vez mais forte, especialmente por ter um empresário que a pressiona a pensar junto com o seu assessor Julio (Victor Lamoglia) em estratégias que a façam atingir uma popularidade maior para bater os números obtidos por Natasha (Luiza Prochet), a sua principal rival. Dá que tudo isso colide com o pedido de ir para Vale Mirim, cidade em que nasceu e para a qual regressa para vigiar a sua avó Laura (Regina Sampaio), que está com a saúde debilitada.

É evidente que “Hannah Montana” seja uma espinha dorsal para “Gaby Estrella”, configurando em um produto nacional mantido a partir de fórmulas testadas e aprovadas lá fora. Não à toa, a personagem segue rumos parecidos com os de Hannah em sua aventura no cinema, no sentido de expor um caso de família (Gaby tem uma relação conflituosa com a sua prima Rita, interpretada por Bárbara Maia) que a faz concluir que o sucesso só é possível quando somos fiéis com as nossas raízes. Convence tanto quanto a meta de se manter em alta para se apresentar no Roçafest: afinal, para quê estabelecer como desafio central da narrativa a obtenção de dois milhões de inscritos em seu canal no YouTube para ter o seu nome confirmado em um festival musical que sequer preenche a sua capacidade de público?

Resenha Crítica | A Morte Te Dá Parabéns! + Antes Que Eu Vá (2017)

Happy Death Day, de Christopher Landon
Before I Fall, de Ry Russo-Young

Produzida em 1993, a comédia “Feitiço do Tempo” segue citada como uma base popular quando se lança filmes presos ao conceito da repetição de um dia ou de um período específico. Hoje, a ideia é apropriada cada vez com maior frequência, em algumas ocasiões sendo usada somente para o pretexto de justificar uma repetição de ações que moveram o personagem central a uma moral específica.

“A Morte Te Dá Parabéns!” e “Antes Que Eu Vá” vão pelo caminho fácil de estabelecer como dia contínuo aquele em que as suas protagonistas são mortas, com o elemento fantástico se manifestando como uma oportunidade (melhor, várias delas) para acertarem as contas com o responsável direto respectivamente por um crime e por uma tragédia. Mas é também a “intervenção” para reverem as suas falhas de caráter e assim repará-las progressivamente.

Em “A Morte Te Dá Parabéns!”, Christopher Landon, com base no roteiro de Scott Lobdell, parte de um registro claramente mais descompromissado, como se tivesse satirizando não exatamente o slasher movie, mas sim o noventista teen horror, movimento instaurado por Wes Craven a partir da franquia “Pânico”. Caso inclusive fosse concebido para aquela época, é certo que “A Morte Te Dá Parabéns!” seria hoje exaltado como uma obra de culto.

Embora tenha um ser mascarado perseguindo a pueril Tree Gelbman (a excelente Jessica Rothe, que foi uma das amigas de Emma Stone em “La La Land: Cantando Estações“), o interesse aqui é em avaliar os tipos comportamentais que compõem as fraternidades americanas, das moças que ditam padrões aos menos populares. É justamente no grupo dos alunos aplicados e fechados que Tree encontrará um aliado, Carter (Israel Broussard), a partir do instante em que percebe sempre voltar ao mesmo dia em que é assassinada por um maníaco, iniciando assim uma investigação para saber quem quer matá-la e por qual razão.

O suspense e o humor não têm vez em “Antes Que Eu Vá”, como deixa muito clara a fotografia lúgubre de Michael Fimognari, braço direito do cineasta de horror Mike Flanagan. Nesta adaptação do romance de Lauren Oliver, que chegou aos cinemas brasileiros no primeiro semestre de 2017, a diretora Ry Russo-Young (de “Caminho Para o Coração”), também lida com uma personagem principal que não ganha do público uma empatia imediata. Pois logo Samantha (Zoey Deutch, outra atriz notável) reavalia a adolescente popular e mesquinha que se transformou ao reconhecer que reprisa o dia em que perdeu a vida em um acidente de carro, paulatinamente admitindo que ser uma pessoa amável e cordial talvez seja muito mais interessante do que meramente inferiorizar aqueles que a cercam por diferenças banais.

São assim dois exemplares que partem de um mesmo argumento para atingir resultados inesperados. Se em “A Morte Te Dá Parabéns!” temos um dos filmes mais divertidos da recente safra com todas as suas reviravoltas bem pregadas e um senso de humor nada óbvio, “Antes Que Eu Vá” discute a juventude e o bullying tão presente nela imaginando um plano de consciência, na qual a paz só é plena quando aprendemos a fazer uma transformação positiva em nossos círculos sociais. Duas surpresas do último ano definitivamente imperdíveis.

Resenha Crítica | The Square: A Arte da Discórdia (2017)

The Square, de Ruben Östlund

.:: 41ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

A mobilização contra o fazer artístico não é uma pauta em discussão somente no Brasil. Uma onda conservadora se alastra no país e no mundo e a arte tem sido um dos principais alvos de ataque. Como bem anuncia em seu subtítulo exclusivamente brasileiro, “A Arte da Discórdia”, “The Square” acalora o debate.

É um aspecto que provavelmente foi determinante para o júri do último Festival de Cannes liderado por Pedro Almodóvar conferir para o sueco Ruben Östlund a Palma de Ouro de Melhor Filme. Raciocínio parecido teve em 2015 o júri de Joel e Ethan Coen, que laureou “Dheepan: O Refúgio” em um período em que a crise de refugiados emergia.

Ambos cometeram o mesmo erro, privilegiando uma obra muito mais pelo contexto em que está inserido e menos por demais aspectos, como mesmo a relevância com o qual se constrói a partir de uma pauta atual. Soa até mesmo questionável o tom adotado por Östlund em seu “The Square: A Arte da Discórdia”, atingindo níveis de infantilidade gravíssimos.

A princípio, a via-crúcis atravessada por Christian (Claes Bang), curador de um museu de arte contemporânea, rende mesmo algumas risadas pelas situações de desconforto em que está centralizado – quando não bizarras. Há tanto a jornada que inicia para reaver um celular roubado quanto as consequências de um flerte com uma jornalista americana, Anne (Elisabeth Moss).

Tais acasos de sua vida privada confluem com a preparação de uma nova exposição, O Quadrado, que gera polêmica a partir de uma campanha publicitária lançada para o público que causa um tremendo alvoroço por envolver uma menina e uma explosão. Apenas a primeira das várias pedras de dominó que despencarão até deixar Christian em uma situação profissional muito delicada.

Com “Força Maior“, Östlund havia entregado um dos grandes filmes de 2014 ao trazer um protagonista um tanto parecido com Christian, que se via desacreditado por sua família por causa de uma atitude nada heroica em uma avalanche. Aqui, uma figura intelectual, respeitável, vai sucumbindo às circunstâncias ao ponto de se encontrar literalmente no lixo.

Fazia todo o sentido em “Força Maior” expôr a masculinidade dos homens, falsa quando estão em uma situação de sobrevivência. Em “The Square: A Arte da Discórdia”, é difícil acreditar em Christian como um homem crível, ainda que Claes Bang, dinamarquês que será visto em “A Garota na Teia de Aranha”, o interprete com a maior dignidade possível. Se não bastasse, há ainda uma conclusão desapontadora, que parece deixar a deus-dará tudo o que se fermentava previamente.

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