Resenha Crítica | Árvores Vermelhas (2017)

Red Trees, de Marina Willer

A geração que sobreviveu ao Holocausto assegurou a sua continuidade e agora está envelhecida, buscando nos estágios finais da existência alguma paz e conforto depois de estarem diante de uma das maiores atrocidades já testemunhadas na história da humanidade. Daí a propagação de registros ficcionais e documentais moldados a partir das memórias desses sobreviventes, por vezes compartilhados como testamentos para uma contemporaneidade que protagoniza as suas próprias guerras.

A cineasta Marina Willer, que em 2000 codirigiu um curta-metragem dedicado ao cartunista Henfil e hoje mais conhecida com o seu trabalho como designer, faz a sua contribuição a esse recorte partindo de algo muito particular no documentário “Árvores Vermelhas”. Afinal, a história aqui contada é a de seu pai, Alfred Willer, arquiteto com 87 anos que desde a juventude vive no Brasil.

A razão de sua permanência no país se deve ao período em que escapara do governo nazista, tendo antes encontrado refúgio em Praga. Entre os checos, os Willer foram uma das somente doze famílias sobreviventes do Holocausto. Ainda assim, viveram em estado de alerta e desapego, recompensados no Brasil com uma chance de recomeço e prosperidade.

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Alfred Willer, cujo daltonismo é razão do nome do documentário, é um senhor adorável. Com uma duração mais enxuta, a sua presença magnética, junta à exposição de imagens de arquivo, seria mais que adequada para moldar “Árvores Vermelhas”, mas Marina faz escolhas desnecessárias na busca de engrandecer o seu registro.

Com um time de respeito em sua equipe, como César Charlone como o fotógrafo dos registros brasileiros e Karen Harley como uma das montadoras, Marina busca por uma poesia que soa mais redundante do que bela, indo da captação de trapos em um varal até o desenvolvimento de um terceiro ato que contém um sem número de promessas de conclusão. O maior equívoco, entretanto, foi trazer o finado ator britânico Tim Pigott-Smith como a voz da narração em off para substituir os relatos mais informais de seu pai Alfred.

Resenha Crítica | Górgona (2016)

Górgona, de Fábio Furtado e Pedro Jezler

Muito mais conhecida pela sua trajetória nos palcos do que na televisão ou cinema, a atriz Maria Alice Vergueiro passou a ser um nome mais popular para o grande público com o mais incomum de suas colaborações. Produzido há 12 anos, o curta-metragem “Tapa na Pantera” foi um dos primeiros virais na internet em um período em que o YouTube ainda engatinhava para ser a maior plataforma de vídeos do mundo.

Hoje com 83 anos, a veterana está em um estágio avançado de Parkinson, já identificado quando iniciou as apresentações em 2010 da peça “As Três Velhas”, da autoria de Alejandro Jodorowsky. Também diretora do espetáculo, Maria não apenas se apresentou em cadeira de rodas e com dificuldades em decorar o texto, como buscou recursos por conta própria para viabilizá-lo.

É durante o período de quatro anos da encenação de “As Três Velhas” que os realizadores Fábio Furtado e Pedro Jezler buscam desenhar um perfil de Maria sem necessariamente corresponder aos padrões das biografias documentais. Em “Górgona”, o público identifica quem é Maria a partir de seu ofício artístico, sem em nenhum momento precisar conhecer a sua intimidade para fora dos espaços que abrigam “As Três Velhas”.

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Trata-se de um registro duro não somente pela claustrofobia característica do ambiente teatral alternativo, mas pelo tom respeitoso em que acompanha uma artista que insiste em fazer o que acredita, mesmo que o seu corpo frágil não corresponda mais aos comandos emitidos por uma mente sem o vigor de outrora, ainda que extremamente lúcido. Algo que Maria autoriza captar sem sustentar filtros, como se cada dia guerrilhasse em um campo de batalha.

Com tudo isso, “Górgona” ainda faz pensar como se dá hoje o apoio à produção cultural no país, sabotando a materialização daquilo que não corresponde aos rótulos esperados por uma visão politicamente correta da arte. Algo que se esclarece não somente com a dificuldade de Maria em pagar as contas, mas também na posição que se vê ocupando em um tablado de indiferenças ao seu trabalho.

Resenha Crítica | A Maldição na Casa Winchester (2018)

Winchester, de Michael e Peter Spierig

Situada em San Jose, na Califórnia, a mansão Winchester apresenta uma anatomia que todos dizem ter nem pé e cabeça. Em seus 160 cômodos, há saídas falsas, quartos sem janelas, escadas que acabam no teto, corredores sem saída e por aí vai. Tudo exigência de sua herdeira, Sarah Winchester, que fez com que a propriedade estivesse em constante mutação nos últimos 38 anos de sua existência. A razão? Sarah acreditava que todas as almas das pessoas mortas pelas armas Winchester iam ao seu encontro para aterrorizá-la?

Loucura ou manifestação do sobrenatural? Os irmãos Michael e Peter Spierig acreditam piamente na segunda possibilidade, conforme demonstram em “A Maldição da Casa Winchester”. A entrega de um bom terror, no entanto, ficou só na promessa. As razões você pode conhecer na análise feita com exclusividade para o canal do Cine Resenhas no YouTube, em que é dada continuidade à seção Histórias Reais.

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Entrevista com o diretor Alan Oliveira, do documentário “Cinemagia: A História das Videolocadoras de São Paulo”

Muitos cinéfilos nascidos nos anos 1980 e 1990 certamente foram formados pelo acesso às videolocadoras, que ao longo desses períodos reinavam absolutas. Em cidades mais populosas, era fácil encontrar ao menos um estabelecimento em cada bairro. Essa realidade mudou com a virada do século, com alternativas que aos poucos foram quebrando o ritual de alugar filmes, sendo as primeiras a propagação da pirataria e o download virtual e agora a consagração do streaming.

É, portanto, um bom momento para assistir ao documentário “Cinemagia: A História das Videolocadoras de São Paulo”, que vem resgatar os nomes que firmaram as raízes de um modelo de negócio hoje em processo de extinção. Uma análise da realização foi publicada aqui e hoje há uma entrevista com o seu diretor, Alan Oliveira.

Além da conversa, Alan também ratifica que “Cinemagia” é um projeto que receberá outras encarnações além do cinema. Já há planos para uma série televisiva com foco em clientes de videolocadoras, bem como a publicação de um livro sobre todos os processos nessas mídias. Enquanto elas não surgem, é possível assistir ao documentário no iTunes e Google Play e encomendar a partir do próximo mês o DVD duplo com o selo da Versátil – haverá também lançamento futuro em Blu-ray e… VHS!

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Qual a sua ligação afetiva com as videolocadoras? O encerramento das atividades de um estabelecimento em especial trouxe a ideia para o documentário?
Eu frequento videolocadoras desde pequeno, quando eu tinha uns 8 anos. Nasci em 1980, então peguei o primeiro boom das lojas e consegui aproveitar bastante aquela grande novidade. Eu estudava de manhã e passava as tardes em duas lojas do bairro onde eu morava, na Zona Norte de São Paulo. Eu acompanhei ao longo dos anos as inúmeras transformações desse modelo de negócio até que em 2014 as últimas lojas da cidade começaram a fechar. Tenho comigo de que essa é uma das minhas tarefas como realizador: captar o momento. Neste caso, captar a magia! Eu não queria falar sobre o fim porque as lojas ainda existem ao redor do Brasil, elas não acabaram. Eu queria fazer uma homenagem aos donos das lojas e perpetuar suas lindas histórias em um produto que pudesse falar sobre o que foi esse mercado para as novas gerações, que pudesse propagar essa magia que tocou a minha vida e a de tantas outras pessoas. E deu certo.

O processo para a realização de “Cinemagia” totalizou três anos. Como se deu a seleção e procura dos nomes essenciais para coletar depoimentos? Foi desafiadora a construção de uma linha narrativa e cronológica diante de todo o material bruto?
Foi um mergulho profundo em inúmeras pesquisas em busca de informações sobre as primeiras lojas da cidade. O homevideo brasileiro começou aqui em São Paulo, então tudo o que nasceu aqui como formato foi replicado para os demais estados. Por mais que o tema pareça ser abrangente, não há artigos online sobre as pessoas que criaram o mercado. Sempre achei isso desrespeitoso com a história da cinefilia da cidade.
A busca começou em muitos garimpos de sebos dentro e fora de São Paulo, além das peças que cada um dos depoentes forneciam gradativamente ao logo das 55 gravações que realizamos, nos ajudando a montar esse grande quebra-cabeça. Trabalho como montador há mais de 10 anos e a edição do filme foi um grande desafio que durou cerca de 5 meses, em meio a mais de 200 horas de material bruto.

Durante o processo de filmagens, muitos acontecimentos se deram, desde o fim da fabricação do VHS pela Funai Eletric até o falecimento do jornalista Christian Petermann, um dos seus entrevistados. Como foi encontrar um ponto final em seu registro com a influência desses e outros fatos?
Não há ponto final na história das videolocadoras de São Paulo. Nem mesmo no filme “CineMagia”. Nós apenas promovemos os fatos desde o início do mercado de videolocadoras em 1976 até 2016, totalizando 40 anos de celebração dessa história. A história continua!
Ainda existem lojas abertas em São Paulo. Das 23 lojas que participam do filme, duas ainda operam normalmente: a Charada Video Club, em Sapopemba, e a Video Connection, que fica dentro do Copan, no centro da cidade. Os filmes estão nas prateleiras à espera dos clientes.
No interior do estado e fora de São Paulo, muitas lojas ainda se mantêm como alternativa para o streaming, atendendo públicos que procuram pela mídia física. O que mudou, em termos gerais, foi o hábito das pessoas na maneira como elas consomem filmes perante as transformações tecnológicas. Meu cuidado com esse tema sempre foi explícito, em especial por não abordar essa celebração como o fim de uma era.
A Funai foi a última empresa no mundo a parar de fabricar videocassete, encerrando suas atividades em julho de 2016, quando nós já havíamos encerrado as gravações do filme. O querido amigo Christian Petermann faleceu um pouco antes disso, em maio. Foi muito triste. Esses fatos só nos serviram como motor para que o projeto chegasse ao público em forma de uma homenagem necessária, como uma carta de amor às videolocadoras.

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Documentário estará disponível nas lojas a partir de maio

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Você aborda Tânia Lima, diretora executiva da UBV&G, entidade que representa o setor de entretenimento doméstico muito criticado por donos de videolocadoras que tiveram os seus negócios encerrados a partir do avanço da pirataria com a transição do VHS para o DVD. Acredita que exista uma ineficácia na aplicação das leis antipirataria ou que a vinda do streaming foi o que realmente decretou o fim das videolocadoras?
A UBV&G é uma associação que representa a indústria, os fabricantes, as distribuidoras desse mercado e tem papel fundamental no mercado de homevideo brasileiro. Ela não representa as videolocadoras. Suas operações e sua história em particular não são temas do filme. A diretora executiva Tânia Lima trabalha nesse mercado há mais de 30 anos e seus relatos para o filme revelam a emoção que ela promoveu nos cargos que ela exerceu em sua trajetória profissional. Foram inúmeras batalhas travadas contra a pirataria no Brasil, tanto pelos donos das videolocadoras quanto pela UBV&G.
Nenhuma dessas batalhas venceu o hábito e o costume das pessoas em baixar filmes pela internet ou comprar filmes gravados em discos de DVD nas ruas. Mais do que ter leis antipirataria, essa é uma questão que envolve a educação e a cultura de uma sociedade que é movida à tecnologia, que é estimulada a depender cada vez mais de serviços digitais. É também uma questão de transformação global de comportamento, de tendências, da evolução do sistemas de consumo.
Nada disso decretou o fim das videolocadoras. Como disse anteriormente, elas não acabaram, ainda existem. O que mudou foi o hábito das pessoas e a forma que consumimos filmes. Temos que ter respeito com essas pessoas que continuam perpetuando esse história com suas lojas abertas. São seus negócios, seus sonhos.

Ao fim de “Cinemagia”, testemunhamos muitas videolocadoras vendendo o seu acervo para fechar permanentemente as suas portas. Pôde identificar em suas pesquisas finais quantas locadoras ainda restam em São Paulo?
Como você mesmo disse na pergunta, ainda restam videolocadoras em São Paulo. Os números oficiais de 2017 ainda não foram divulgados. Esses números mudam constantemente, justamente por conta da evolução das mídias e do acesso à tecnologia. Mas há pouco soube da história de uma pessoa que comprou um acervo de filmes de um sebo (que veio de uma videolocadora) para abrir uma loja em Ourinhos, que está em funcionamento há meses com o saldo positivo.

Com as videolocadoras tendo se transformado em um mercado extinto e as distribuidoras investindo cada vez menos na mídia física, consequência da ascensão do streaming e até mesmo do fracasso do Blu-ray no território nacional, como avalia a relação que hoje temos com o cinema em nossos lares?
O mercado não está extinto, mas sim, os distribuidores investem cada vez menos nas mídias físicas. O Blu-ray não pegou no Brasil por causa do preço, infelizmente. As mídias físicas são vistas atualmente por muitos como frutos de um “mercado de nicho”. É uma pena.
Como eu comentei em outra entrevista, a tecnologia muda tudo, sempre mudou. É apenas isso que precisamos saber. Em toda evolução perdemos alguma coisa e ganhamos outra. O que sabemos é que a forma de ver filme (em casa e nos cinemas) vai mudar constantemente, para muitos caminhos. Sempre visando o que for mais cômodo, deixando a experiência desses acessos menos sensorial, menos humana. Mas a cinefilia seguirá, firme e forte, enquanto houver histórias para contar.

Resenha Crítica | Era o Hotel Cambridge (2016)

Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé

.:: 40ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Fundado em 1950, com 15 andares e mais de 100 apartamentos, o Cambridge Hotel foi somente um dos vários endereços para hospedagens em São Paulo que foram perdendo o apelo com o avanço do tempo e da urbanização. Desprestigiado, encerrou as suas atividades em 2004, com apenas o bar localizado em seu andar térreo em funcionamento.

O destino do endereço é encenado por Eliane Caffé em “Era o Hotel Cambridge”, em que exibe, com câmeras quase documentais, um sem número de famílias tomando os espaços do edifício, inutilizado mesmo com o decreto em 2010 do então prefeito Gilberto Kassab que o categorizou como imóvel de interesse social. Ao longo de uma hora e meia, acompanhamos esses indivíduos de baixa renda ou refugiados de outros países na tensão diária de habitar uma área em que a qualquer momento podem ser chutados pelas autoridades.

Para dar veracidade ao registro, Caffé faz uma escalação de elenco que contempla desde veteranos como José Dumont e Suely Franco até atores não-profissionais, borrando ainda mais os limites entre a ficção e a realidade. Também estabelece contrapontos entre as encenações artísticas que tomam o cenário com a mobilização popular liderada pela FLM (Frente de Luta pela Moradia).

Mesmo com esse tom quase experimental, a sensação que “Era o Hotel Cambridge” provoca ao final é que os seus derradeiros minutos soam mais fortes do que todos os esforços de Caffé em igualar a realidade do contexto. Há bons flagras, como aqueles em que os refugiados conversam com os seus familiares distantes por Skype ou quando a personagem interpretada pela ativista Carmen Silva condiciona pessoas brandando “entra para a casa de vocês!” durante uma invasão noturna. Mas nada igualmente catártico quanto as imagens autênticas de manifestações e de prédios apropriados com faixas de inúmeros movimentos pela moradia.

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Lançamento em streaming:
Disponível a partir do dia 15 de março | 
Google Play (Venda: R$19,90 – Aluguel: R$11,90) | iTunes (Venda: R$19,90 – Aluguel: R$11,90)

Resenha Crítica | De Volta (2016)

Go Home, de Jihane Chouaib

Com 34 anos, Golshifteh Farahani tem se tornado a atriz iraniana mais reconhecida mundialmente desde que defendeu o papel feminino principal de “Rede de Mentiras”, thriller produzido em 2008 sob a direção de Ridley Scott e com os nomes de Leonardo DiCaprio e Russel Crowe estampando o cartaz. Melhor momento teve no ano seguinte em “Procurando Elly“, dirigido por Asghar Farhadi.

A transição por cinematografias culminou em 2012 no seu banimento em seu país natal pelo Ministério Iraniano da Cultura e Orientação Islâmica, que viu com olhos horrorizados a sua imagem nua em uma campanha da revista Madame Le Figaro. O acontecimento de modo algum interrompeu o fluxo de sua carreira, alternando com sucesso entre os blockbusters como “Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar” e “Êxodo: Deuses e Reis“, os indies americanos como “Paterson” e “118 Dias” e e as produções europeias como “A Pedra de Paciência” e “Frango com Ameixas”.

É a presença de Golshifteh que inclusive justifica e é usada como maior chamariz para o lançamento comercial no Brasil do drama “De Volta”. Trata-se justamente do único atrativo da realização dirigida e roteirizada por Jihane Chouaib, na qual interpreta Nada, libanesa que vive em Paris e que retorna à cidade onde nasceu. No regresso, depara-se com o seu lar em ruínas e sem uma resposta concreta sobre o desaparecimento do avô que a criou.

No processo de reerguer uma propriedade devastada pela guerra civil, vai se sentindo como uma verdadeira estrangeira nas interações com todos que a cercam, com muitos expressando o desejo de expurgá-la imediatamente, recepcionando-a com a pichação de “go home!”, expressão usada para afugentar imigrantes. Pena que esse sentimento de deslocamento não consiga expressar a maior preocupação de Chouaib: o de cutucar um coletivo empenhado em deletar permanentemente às barbáries de um passado recente.

Resenha Crítica | Tomb Raider: A Origem (2018)

Tomb Raider, de Roar Uthaug

Dirigido em 2001, “Lara Croft: Tomb Raider” estava longe de ser um grande filme, mas é inegável que abriu algumas portas dentro deste jovem século. Norteou não somente a produção de outras adaptações de games para o cinema, como também provou que é possível atrair a atenção do público para os filmes de ação com uma mulher no centro de sua história. Recebeu até mesmo uma sequência dois anos depois, “Lara Croft: Tomb Raider – A Origem da Vida”, mas o desinteresse por esse retorno da heroína, fruto de escolhas bem bisonhas de seu diretor Jan de Bont (o soco no tubarão!) matou a possibilidade de novos capítulos.

15 anos depois, Lara Croft volta ao cinema remodelada, agora com uma história de origem. Com 29 anos, a vencedora do Oscar por “A Garota Dinamarquesa” Alicia Vikander é a nova atriz com a responsabilidade de dar uma face diferente à Lara Croft, tentando se transformar sem muito sucesso em uma presença gigante na tela com os seus meros 1,66 m de altura. A sueca faz o que pode, mas dá saudade de Angelina Jolie.

Os problemas, no entanto, residem muito mais no roteiro insípido de Alastair Siddons e Geneva Robertson-Dworet e na condução sem imaginação de Roar Uthaug, que teve mais êxito em sua Noruega natal na direção de “Presos no Gelo” e “A Onda”. Trata-se de uma produção que vem com uma marca já testada e aprovada em outra mídia, mas que aqui se revela uma experiência esquecível que sequer funciona muito bem como uma matinê descompromissada, uma vez que as suas duas horas de duração não descem redondo.

Aqui, o pai de Lara Croft, o bilionário Richard Croft (Dominic West), está desaparecido há tantos anos que foi dado como morto. Resta que Lara, a sua única herdeira, o decrete como tal, mas ela continua firme na crença de que ele ainda vive, assim negando toda a sua fortuna e tentando se virar como entregadora de comida oriental com a sua bicicleta. Antes que decida jogar a toalha, Lara tem acesso a um karakuri, artefato japonês parente do cubo mágico que contém pistas sobre o seu pai, fazendo-a embarcar em uma jornada para traçar os seus últimos passos.

De bom neste “Lara Croft: A Origem”, só mesmo essa ausência paterna assombrando a protagonista. Mesmo se descobrindo no processo uma arqueóloga e de até perder algumas lutas (como a de boxe que abre o filme), temos uma heroína que apresenta mais habilidades para fugir do perigo do que para enfrentá-lo, disparando não mais que meia dúzia de flechas e com paupérrimos combates na mão. Aqui, Lara Croft sequer se esforça para se equiparar a um Indiana Jones ou Allan Quatermain.

O principal atrativo dos games, em algum grau transportado na encarnação de Angelina Jolie, era justamente a motivação de Lara Croft em desvendar um mistério, às vezes de teor sobrenatural, o que incrementava a história com enigmas e perigos divertidíssimos. Neste “A Origem”, sequer há esse senso de aventura e curiosidade, programando somente para o ato final uma imersão em um cenário repleto de armadilhas que são elucidadas com uma capacidade de raciocínio inverossímil em que o espectador lamentavelmente não é convidado a participar.

Resenha Crítica | Maria Madalena (2018)

Mary Magdalene, de Garth Davis

Em pleno século XXI, soa absurdo como os textos sagrados contidos na Bíblia sejam pouco contestados após tanto tempo de evolução humana, com valores arcaicos e uma visão de mundo plenamente masculina pautando o comportamento da sociedade contemporânea. Ao menos ainda há a liberdade de expressão e também a artística que autorizam a manifestação de pensamentos que provocam rachaduras em verdades sobre uma divindade que por todos estaria olhando.

Em “Maria Madalena”, o cineasta Garth Davis (de “Top of the Lake” e “Lion: Uma Jornada Para Casa“) parte de um roteiro assinado por duas mulheres, Helen Edmundson e Philippa Goslett, para encenar os últimos momentos de Jesus de Nazaré (Joaquin Phoenix) pela perspectiva, como entrega o título, de Maria Madalena (Rooney Mara), a princípio flagrada como uma mulher acusada por seu irmão Daniel (Denis Ménochet, que viveu o pai e marido aterrador de “Custódia”) de ser possuída por forças malignas e depois como uma discípula do filho de Deus.

Citada um pouco mais que uma dúzia de vezes na Bíblia, Maria não foi tida somente como um dos discípulos mais queridos de Jesus, como a primeira pessoa que teria testemunhado a sua ressurreição três dias após a sua crucificação. Um fato segundo pesquisadores intolerável em um mundo patriarcal desde a sua existência e que também será controverso para alguns espectadores de “Maria Madalena”.

No entanto, mesmo que seja fascinante ver a mulher em uma posição decisiva no testemunho dos ensinamentos e milagres de Jesus de Nazaré – posição esta sabotada por dois milênios com acusações de que seria inclusive uma prostituta e que só em 2016 passou a ser tratada como a apóstola dos apóstolos pelo Vaticano, falta brilho e apelo emocional da parte de Garth Davis na encenação de acontecimentos sabidos de cor e salteado. Afora um primeiro ato exemplar na apresentação de Maria e uma conclusão catártica, falta novidade diante da perspectiva feminina sobre a jornada dos apóstolos e a via crucis de Jesus.

Em tempo: inúmeros países, incluindo o Brasil, terão acesso a “Maria Madalena” muito antes que os Estados Unidos, pois lá o lançamento do filme está congelado devido os direitos de distribuição pertencerem a Weinstein Company, que entrou com pedido de falência após as acusações de assédio ao seu cofundador Harvey Weinstein. Já a belíssima trilha sonora é coassinada pelo islandês Jóhann Jóhannsson, em seu último trabalho antes de falecer em fevereiro deste ano.

Resenha Crítica | Operação Red Sparrow (2018)

Red Sparrow, de Francis Lawrence

Feito raro no cinema, o cineasta Francis Lawrence e a sua protagonista Jennifer Lawrence (que não apresentam parentesco, apesar do mesmo sobrenome) conseguiram encerrar uma das poucas franquias com uma mulher no centro da história. Entretanto, com “Operação Red Sparrow” prometeram uma reunião não exatamente destinada aos fãs de “Jogos Vorazes“, com uma trama de espionagem mais voltada ao público adulto do que juvenil.

A proposta de alçar voos mais altos é bem-intencionada, mas, desta vez, o resultado é, com muita boa vontade, médio. Além de um bom elenco, com um time secundário trazendo veteranos como Charlotte Rampling, Jeremy Irons e Ciarán Hinds, “Operação Red Sparrow” tem excelente acabamento. Há tempos não se ouvia James Newton Howard numa composição tão atmosférica. A fotografia do belga Jo Willems reveste a imagem com uma tonalidade típica dos thrillers europeus. E Maria Djurkovic (indicada ao Oscar pela cenografia de “O Jogo da Imitação“) aproveita ao máximo as locações na Bulgária.

Já o roteiro, baseado no romance “Roleta Russa” de Jason Matthews, carece de autenticidade. Ambientado na Rússia, temos nele a bailarina Dominika Egorova (J-Law), que sofre um acidente grave durante uma apresentação. Impossibilitada de voltar ao ofício e mantida junto com a sua mãe doente (Joely Richardson) pelo governo, Dominika aceita de seu tio militar, Vanya Egorov (Matthias Schoenaerts), a proposta de se transformar em espiã para confirmar a identidade do detetive da CIA que estaria se infiltrando na Inteligência Russa.

Antes de cruzar o caminho de Nate Nash (Joel Edgerton), o principal suspeito, Dominika é submetida a um treinamento em que categoriza como “escola de prostituição”, ambiente capitaneado pela impenetrável Matron de Charlotte Rampling em que os jovens espiões aprendem técnicas para o seduzir inimigo. O que ela vai aos poucos constatando é que entrou num caminho sem volta, podendo inclusive sacrificar a sua própria vida para atender aos interesses de seu país.

É preciso reconhecer que Francis Lawrence encena a violência de modo que pode resultar chocante para as plateias habituadas aos blockbusters americanos com censura mais branda. Ainda assim, há uma dessintonia imperando em “Operação Red Sparrow”, como se o filme sustentasse uma personalidade que não lhe pertence.

Aqui, se americaniza o cenário apropriado, com resultados tão falsos quanto os obtidos por “Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres” e “Boneco de Neve”. Mas o pior é o descuido com o qual Dominika é construída. J-Law é uma atriz expansiva demais para incorporar uma mulher introspectiva e a sua química com Joel Edgerton, essencial para o progresso da narrativa, é mais fria que a temperatura do inverno russo. Além do mais, a personagem tem uma capacidade de autodefesa e uma inteligência para a articulação de armadilhas sem que o filme jamais lhe dê estofo para justificar tantas habilidades. Não foi dessa vez, Lawrence & Lawrence.

Resenha Crítica | Uma Espécie de Família (2017)

Una especie de familia, de Diego Lerman

.:: 41ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Realizador de “Olhar Invisível” e “Refugiado”, Diego Lerman se lança em “Uma Espécie de Família” a um projeto que traça uma estratégia que deverá ser cada vez mais habitual para a produção independente: a de permitir não apenas que produtores de nacionalidades diferentes viabilizem um filme, como também a de uma equipe de trabalho diversificada. Além da participação argentina, o longa conta também com investidores vindos do Brasil (sendo um deles Paula Cosenza, da Bossa Nova Films – assista entrevista aqui), Alemanha, Dinamarca, França e Polônia.

Os abismos sociais assumem o palco de todos esses países, mas é a Buenos Aires que é selecionada aqui para apresentá-los a partir de uma abordagem particular. Trata-se das transações ilegais no processo de adoção de recém-nascidos. em que famílias pobres, quase miseráveis, vendem os bebês de concepções indesejadas.

Incapaz de gerar uma criança, Malena (Bárbara Lennie), recebe uma ligação de que o bebê que adotou nasceu. Parte ao seu encontro acompanhada pelo marido, Mariano (Claudio Tolcachir), que às vezes não sinaliza tanto quanto ela o interesse em ter um filho.

O conflito se impõe quando os pais de Marcela (Yanina Ávila), a mãe da criança, passa a exigir que uma quantia superior a combinada seja paga por Malena e Mariano para a consolidação do acordo. Caso o contrário, entregarão o recém-nascido ao orfanato. Desenha-se assim um cenário em que a necessidade, seja ela emocional ou financeira, borra as linhas éticas, mas há também um delicado retrato sobre como a maternidade contribui para pisotear limites.

A relação entre Malena e Marcela contempla até mesmo uma influência bíblica no enredo, rendendo uma cena espetacular de nuvem de gafanhotos fazendo alusão a uma das dez pragas do Egito. São saídas visuais que somam para a autenticidade de uma narrativa liderada com força por Bárbara Lennie, uma das melhores atrizes em atividade, e Yanina Ávila, estreante com uma desenvoltura de quem entende do riscado.