Literatura & Cinema | Baseado em Fatos Reais | Delphine de Vigan & Roman Polanski

D’après une histoire vraie, de Roman Polanski

Presente na Seleção Oficial do Festival de Cannes de 2017, o novo filme de Roman Polanski vem a ser uma adaptação conjunta com Olivier Assayas do romance “Baseado em Fatos Reais”, escrito por Delphine de Vigan. Fascinante, o texto da escritora francesa estabelece com o seu leitor um jogo em que fatos reais e imaginários se confundem, permitindo um mergulho muito curioso ao universo criativo de um escritor, capaz dos subterfúgios inesperados para vender a sua história.

Já em sua forma cinematográfica, esse jogo do que é verdade ou não parece se perder, devendo em dubiedade e até mesmo na tradução de mídias, pois Polanski, um cineasta notável, pouco faz em manter com recursos audiovisuais o que de Vigan pôde confundir tão bem em sua encarnação literária. É um dos aspectos dessa edição inaugural da seção Literatura & Cinema, feita com exclusividade para o canal do Cine Resenhas no YouTube e com a qual conto com a participação ilustre de Paula C. Ferraz, uma das nossas assessoras mais queridas. À frente da Sinny Assessoria, foi Paula inclusive quem me introduziu ao romance antes do lançamento de sua adaptação nos cinemas.

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Baseado em Fatos Reais

Delphine de Vigan (Tradução: Carolina Selvatici)

Editora Intrínseca

Páginas: 256

Resenha Crítica | Tudo Que Quero (2017)

Please Stand By, de Ben Lewin

Portador de poliomielite desde a sua infância, o cineasta nascido na Polônia Ben Lewin pôde com o seu “As Sessões” mostrar uma figura real em um estágio muito mais agravante de sua condição, o jornalista e poeta Mark O’Brien. Sem autopiedade e com até mesmo certa dose de humor, fez um drama inclusivo especial principalmente pelo modo como desconstruiu valores ainda sustentados sobre indivíduos com deficiência e até mesmo sobre sexo.

É de modo natural com o qual se envolve em “Tudo Que Quero”, desta vez dando protagonismo a uma personagem com autismo. Interpretada pela sempre excelente Dakota Fanning, Wendy tem 21 anos e passou a viver em um lar especial assim que a sua mãe faleceu. A sua estratégia é mudar a mentalidade de sua irmã Audrey (Alice Eve), que, por sua vez, se vê despreparada para inseri-la em sua casa e na família que está construindo.

Para mostrar que o autismo não a impede de ser uma pessoa capaz de caminhar com as próprias pernas, Wendy aproveita o seu fanatismo por “Star Trek” para se inscrever em um concurso da Paramount Pictures, que está recebendo roteiros escritos por fãs para dar continuidade à franquia. Com um texto com quase 500 páginas concluído, ela parte para Los Angeles com apenas alguns dólares no bolso, um bloco de notas e o seu cãozinho de estimação.

A melhor escolha de Ben Lewin, ancorado pelo roteiro de Michael Golamco, está em conferir um tom afável a uma história densa. Por um lado, “Tudo Que Quero” jamais se furta de mostrar a realidade de um autista, como a maneira particular que se socializa e organiza a sua rotina com um rigor incomum. Por outro, o curso da breve aventura que Wendy desbrava tem desdobramentos quase fantasiosos, inclusive com a música do brasileiro Heitor Pereira exercendo grande influência para efetivar essa intenção, que resulta em um filme agradável para todos os públicos.

Resenha Crítica | 1945 (2017)

1945, de Ferenc Török

.:: 41ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Existia uma máxima em Hollywood de que as produções com histórias ambientadas na Segunda Guerra Mundial automaticamente ganhavam o clamor não somente do público, quanto também dos integrantes de importantes comitês de premiações de cinema. Os americanos esgotaram a fonte de possibilidades, mas os estrangeiros seguem encontrando narrativas de interesse para rediscutir um episódio obscuro na história recente da humanidade.

O diretor e roteirista Ferenc Török se volta em “1945” para um contexto pouco explorado na ficção: o período em que o domínio nazista se enfraquecia. Na Hungria aqui registrada, estamos precisamente em agosto de 1945, um mês antes do fim da guerra. Com isso, faz um drama muito mais interessado em flagrar a moralidade de seus personagens do que necessariamente ao conflito armado.

Em um panorama com inúmeros personagens, as lentes de Török se voltam inicialmente para um evento que move o vilarejo que todos habitam, sendo os preparativos para o casamento de Árpád (Bence Tasnádi) e Kisrózsi (Dora Sztarenki). A naturalidade com a qual a união está prestes a ser celada é arranhada com a presença de dois judeus ortodoxos, que são pai e filho (interpretados por Ivan Angelus e Marcell Nagy).

A partir disso, “1945” começa a se aprofundar na dinâmica privada dos personagens que orbitam nesse ambiente, deflagrando mentiras, traições e perversidades até então invisíveis. A condução é quase a mesma de “A Fita Branca”, da adoção da fotografia em preto e branco de Elemér Ragályi (vencedor do Emmy pelo telefilme da HBO “Rasputin”) até de uma frieza que impossibilita um mínimo de envolvimento emocional.

Resenha Crítica | Pagliacci (2018)

Pagliacci, de Chico Gomes, Julio Hey, Luiz Villaça, Luiza Villaça e Pedro Moscalcoff

Exibido nos cinemas ano passado, a ficção “Os Pobres Diabos” partiu de um tom cômico para ao final trazer uma triste constatação sobre a arte do palhaço, hoje distante do velho modelo que gerações passadas conheciam e prestigiavam das itinerâncias. Hoje, parece não existir mais o espaço público para esse exercício do fazer rir, com as companhias confinadas no tablado do teatro para espetáculos destinados a uma audiência que se reduziu.

Uma das figuras de maior interesse do documentário “Pagliacci”, o artista Fernando Sampaio concebeu junto com Domingos Montagner (falecido em setembro de 2016) e a esposa deste, Luciana Lima, a companhia LaMínima, em atividade desde 1997. Toma a tela um histórico de realizações moldado a partir de imagens de arquivo, bem como depoimentos dos mais importantes nomes que definem o que é ser um palhaço e as crises hoje atravessadas.

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Carla Candiotto, Erica Stoppel, Fernando Cavarozzi e Marcelo Lujan são algumas das figuras entrevistas, mas é Alice Viveiros de Castro quem compartilha as impressões mais oportunas sobre o tema, como a de considerar o artista caracterizado como o palhaço um meio possível para o público rir de si mesmo. Já Fernando Sampaio é quem assume o protagonismo de estripulias criadas muitas vezes nos ensaios.

Porém, ainda que o documentário seja válido principalmente como uma homenagem a esses artistas, há certa desordem no modo como a narrativa vai se construindo. Talvez seja as divergências inevitáveis em um projeto com tantos nomes assinando a sua condução, evidentes na mudança abrupta de temas debatidos ou mesmo em autorias visuais (há sequências completas de ensaios fotografadas sem foco). Admiradores ou não de Domingos Montagner devem se emocionar com o seu maravilhoso monólogo que fecha “Pagliacci”.

Resenha Crítica | Todo Clichê do Amor (2018)

Todo Clichê do Amor, de Rafael Primot

Seja com um único diretor à frente da empreitada ou com vários dispostos a preservar as suas personalidades para costurar uma colcha de retalhos, talvez não exista um exemplar notável dentro do modelo dos segmentos, em que breves histórias buscam dar forma a um longa-metragem, algo muito parecido com o que também testemunhamos na literatura dos contos, esta evidentemente com maiores êxitos. Porém, “Todo Clichê do Amor” pouco se esforça para figurar ao menos no grupo dos razoáveis.

É curiosa a mudança radical adotada pelo diretor, roteirista e intérprete paulista Rafael Primot comparado ao seu debute com “Gata Velha Ainda Mia“. Por um lado, persiste o interesse em centralizar a(s) história(s) em um único ambiente, medida para driblar limitações orçamentárias e focar ainda mais na construção de personagens. De outro, a densidade do universo criativo de uma escritora amarga cede aqui espaço para um registro mais descompromissado.

Quatro histórias moldam “Todo Clichê do Amor”. O pontapé é dado por uma em que Giovana Zotti é a protagonista, uma maquiadora apaixonada por um astro de produções pornográficas. Depois, há o reencontro e a tentativa de reconciliação de Maria Luísa Mendonça com a sua enteada Amanda Mirásci no funeral de seu marido. Adiante, há as peripécias do próprio Rafael Primot em conquistar o coração da garçonete de Débora Falabella e, por fim, as confusões que Eucir de Souza se mete nas mãos de uma stripper interpretada por Marjorie Estiano.

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A intenção de Primot com o gerenciamento desses núcleos é a de quebrar os chavões justamente com a estranheza que provoca com a criação de contextos absurdos para só depois aceitar as reconciliações e tragédias que costumamos aguardar em histórias românticas. Estabelece como conexão a ficção dentro da realidade ou vice-versa e o despreparo de seus indivíduos para relacionamentos representado com a ausência de sentidos – Amanda Mirásci tem problemas auditivos, Eucir de Souza não tem paladar, Débora Falabella também dá aulas de libras e por aí vai.

A gravidade da coisa é que, das quatro histórias, duas se revelam totalmente perdidas em “Todo Clichê do Amor”, sendo os da maquiadora e a da madrasta. De tão ruins, chegam a ser solenes e quase anulam todo o conjunto. Falta também amadurecimento na elaboração de reviravoltas e senso de ironia em algo que está a todo o momento contestando os clichês narrativos.

Mas nem tudo é descartável. Marjorie Estiano e Eucir de Souza (que fez o vilão de “A Repartição do Tempo“) funcionam perfeitamente juntos, sendo responsáveis pelos únicos momentos engraçados de “Todo Clichê do Amor” e também do núcleo que melhor resolve a ligação da história dentro da história. Há também achados na fotografia de Kaue Zilli, extraindo principalmente da presença de Débora Falabella uma beleza e ternura que nenhum outro foi capaz até aqui.

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+ Entrevista com o diretor, roteirista e ator Rafael Primot
+ Entrevista com as atrizes Gilda Nomacce e Amanda Mirásci

Resenha Crítica | Quase Memória (2016)

Quase Memória, de Ruy Guerra

Mesmo que “Quase Memória” seja mais um filme a comprovar o gravíssimo problema atual do cinema nacional do largo intervalo que se estabelece muitas vezes entre a finalização e o lançamento comercial de um projeto, essa mais recente obra assinada pelo veterano Ruy Guerra (a sua primeira desde “O Veneno da Madrugada”, de 2005) chega até nós em um momento oportuno. Falecido em janeiro deste ano, o escritor Carlos Heitor Cony tem aqui o seu romance homônimo de 1995 adaptado, à época um sucesso com quase 500 mil exemplares vendidos.

Um sapo solitário em um pântano com devaneios narrados pelo próprio Ruy Guerra serve de elemento introdutório ao drama vivido por Carlos, o qual acompanharemos em conflito consigo em sua versão jovem e idosa, respectivamente vividas por Charles Fricks e Tony Ramos. Enquanto buscam decifrar qual deles existe e qual vem a ser idealizado, flashbacks com Ernesto (João Miguel), o pai de Carlos, são encenados.

Ruy Guerra está claramente tocando “Quase Memória” com um baixo orçamento, buscando em soluções criativas um meio de não se conformar com os limites do cenário, ora dando uma sensação de amplitude com planos holandeses, ora investindo em uma mise-en-scène em que os atores são banhados com uma iluminação que se transmuta no ato.

Mesmo assim, não há como pensar que a adaptação talvez tivesse melhor destino no tablado do teatro. É como se as reflexões sobre o modo como nos relacionamos com o nosso passado e o que a nossa memória nos autoriza a reter no curso de nossa existência fossem arranhada pela adoção de um texto engessado e pela orientação a João Miguel e Mariana Ximenes em adotar desempenhos intencionalmente histriônicos.

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+ Entrevista com o diretor Ruy Guerra
+ Entrevista com o ator Tony Ramos

44º Festival Sesc Melhores Filmes Divulga Vencedores e Programação

Aconteceu nesta quarta-feira, 4 de abril, a cerimônia dos vencedores do 44º Festival Sesc Melhores Filmes, o mais antigo de São Paulo. Desde a sua concepção, dá espaço para o público e a crítica apontarem os seus favoritos do ano no cinema em 11 categorias, sendo sete nacionais e quatro internacionais.

Dois filmes se destacaram nas categorias nacionais. “A Glória e a Graça” recebeu quatro menções do público, nas categorias de Melhor Filme,  Melhor Roteiro, Melhor Atriz e Melhor Fotografia. Drama com toques descontraídos, levou aproximadamente 10 anos para ser produzido, chegando aos cinemas graças aos esforços de Carolina Ferraz ao assumir também o papel de produtora.

Já a crítica enalteceu “Como Nossos Pais“, vencedor em Melhor Filme, Melhor Atriz (para Clarisse Abujamra e Maria Ribeiro, marcando o primeiro empate da história do festival) e Melhor Roteiro. As escolhas do voto popular e do especializado só bateram na categoria de Melhor Direção, na qual foi premiado o trabalho da cineasta Eliane Caffé por “Era o Hotel Cambridge”.

Já nas categorias estrangeiras, foi também na categoria de Melhor Direção que o vencedor coincidiu. Diretor de “Moonlight: Sob a Luz do Luar“, Barry Jenkins foi quem teve a preferência dos votos. Um sopro de ar fresco as escolhas tanto do público quanto da crítica nas interpretações: o primeiro grupo selecionou Adèle Haenel (“A Garota Desconhecida“) e Ashton Sanders (que vive o protagonista na fase adolescente em “Moonlight: Sob a Luz do Luar”), enquanto o segundo preferiu Sandra Hüller (“Toni Erdmann“) e James McAvoy (“Fragmentado“).

Além da soberania de “A Glória e a Graça”, há de se questionar outras duas escolhas do voto popular: a presença de Daniel Furlan como Melhor Ator pelo péssimo “La Vingança” e a vitória de “Arpilleras: Atingidas Por Barragens Bordando a Resistência” em Melhor Documentário, título lançado em outubro de 2017 visto por quase ninguém e surpreendentemente aquele que mais foi escolhido entre os mais de 11 mil votos coletados. Organização de coletivos para a participação em massa na votação?

Conheça os vencedores:

CATEGORIA

PÚBLICO

CRÍTICA

FILME BRASILEIRO

A Glória e a Graça

Como Nossos Pais

DIRETOR
BRASILEIRO

Eliane Caffé
Era o Hotel Cambridge

Eliane Caffé
Era o Hotel Cambridge

ATRIZ
BRASILEIRA

Carolina Ferraz
A Glória e a Graça

Clarisse Abujamra & Maria Ribeiro
Como Nossos Pais

ATOR
BRASILEIRO

Daniel Furlan
La Vingança

Nelson Xavier
Comeback

FOTOGRAFIA
BRASILEIRA

Gustavo Hadba
A Glória e a Graça

Pierre de Kerchove
Joaquim

ROTEIRO BRASILEIRO

Lusa Silvestre & Mikael Albuquerque
A Glória e a Graça

Laís Bodanzky & Luis Bolognesi
Como Nossos Pais

DOCUMENTÁRIO BRASILEIRO

Arpilleras: Atingidas Por Barragens Bordando a Resistência

Martírio

FILME INTERNACIONAL

Com Amor, Van Gogh

Corra!

DIRETOR INTERNACIONAL

Barry Jenkins
Moonlingt: Sob a Luz do Luar

Barry Jenkins
Moonlingt: Sob a Luz do Luar

ATRIZ
INTERNACIONAL

Adèle Haenel
A Garota Desconhecida

Sandra Hüller
Toni Erdmann

ATOR
INTERNACIONAL

Ashton Sanders
Moonlingt: Sob a Luz do Luar

James McAvoy
Fragmentado

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A programação do 44º Festival Sesc Melhores Filmes, incluindo exibições especiais e atividades relacionadas, pode ser consultada aqui. Os ingressos custam até R$ 12 e todas as sessões contarão com audiodescrição e legendas open caption, recursos para incluir espectadores com deficiências visual e auditiva na experiência de cinema.

Entrevista com Lucrecia Martel, diretora de “Zama”

Ausente na 41ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, a cineasta argentina Lucrecia Martel compensou vindo recentemente a cidade para promover “Zama”, o seu primeiro longa-metragem de ficção em nove anos. Não atendeu somente a imprensa, como também participou de uma exibição de “O Pântano” no Instituto Moreira Sales São Paulo fazendo comentários simultâneos, bem como das duas sessões que antecederam a estreia comercial na última quinta-feira, 29 de março.

Em uma “mesa redonda” com 40 minutos de duração, Lucrecia concedeu entrevista para um grupo de jornalistas (com o Cine Resenhas incluso) em um fim de manhã no escritório da Vitrine Filmes, distribuidora do filme em território brasileiro. Avessa às câmeras, teve como única exigência não ser filmada para que assim os seus devaneios fluíssem com mais naturalidade.

A seguir, veja as respostas para as questões que formulamos ao longo da conversa.

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Como foi a sua comunicação com o diretor de fotografia Rui Poças para conceber os planos e a estética de “Zama”? O romance de Antonio Di Benedetto forneceu a vocês a idealização de imagens ou precisaram fazer pesquisas sobre retratistas visuais da época?

Na aproximação com o diretor de fotografia, sempre há essa discussão sobre se trabalhar com mais e menos contrastes e essas palavras são muito difíceis de se interpretar na concepção das imagens. Por isso sempre houve referências além do romance, mas sempre para determinar esses contrastes, as cores. Não necessariamente selecionamos um pintor ou um fotógrafo e nos baseamos unicamente em suas obras. O que foi importante estabelecer foi trabalhar com pouca iluminação, somente com as velas e o fogo, para assim situarmos o espectador no passado.

Há onze países envolvidos na produção de “Zama”. Isso permite que a sua obra tenha um alcance nunca antes obtido em sua carreira?

Por um segundo, cheguei a pensar que sim. No entanto, os produtores internacionais não estão obrigados a exibir o filme em seus respectivos territórios. O fenômeno para haver tantos produtores em “Zama” é porque está cada vez mais difícil se envolver em um projeto com esse nível de liberdade, sem compromisso com o mercado, mas sempre com um compromisso com o espectador. Todo esse número de produtores aponta que não foi fácil conseguir dinheiro para o filme, mas não significa que ele o interessou a todos para lançá-lo em seus países.

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Registro da produtora Vania Catani

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Você faz alusões desse passado colonial com a nossa contemporaneidade, como se, guardadas as devidas proporções, fôssemos como Zama nesta busca interminável pela liberdade. Como avalia a existência humana? É parte do nosso instinto vivermos para alimentarmos esperanças?

Uma coisa que penso ser muito terrível na cultura norte-americana é essa ideia cristã sobre o final, a recompensa final, que costuma predominar toda a narrativa ocidental. Não podemos viver assim, pensando que todos os nossos dias não têm valor, que o que sempre importa é o que eles nos reservam ao final. Nós sempre trabalhamos, nunca temos tempo livre. Há um entendimento nessa matriz cultural cristã de que o corpo não vale nada, tampouco o tempo presente. A felicidade, o tempo livre, nada disso parece ser valorizado. Se você trabalha diariamente 12 horas sem parar, tem que acreditar que ao final disso tudo valerá a pena. Como assim? É como Zama diz: “Não viva de suas esperanças.” Isso é justamente dar valor ao presente. Basta de se pensar no futuro. A hora é agora, urgente, imediata. E te digo mais: há todas essas queixas como “ah, essas feministas!”. Isso se dá porque as mulheres estão cansadas agora. Elas já não querem mais pensar sobre o futuro, querem que as coisas aconteçam já. Assim como os movimentos negros estão enojados e dizendo coisas que soam extremas, mas é tudo porque estão cansados agora. Por isso que gosto de Zama, pois ele faz uma defesa contrária a esse pensamento tão persistente em nossa cultura.

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+ Análise crítica de “Zama”
+ Entrevista com a atriz Mariana Nunes e o ator Matheus Nachtergaele

Resenha Crítica | Arábia (2017)

Arábia, de Affonso Uchôa e João Dumans

O tempo que investimos em ocupações que asseguram os recursos para vivermos (sobrevivermos?) é o que mais preenche a nossa existência, nem sempre nos autorizando a desfrutar com plenitude o que resta para além do nosso trabalho. Taí o tempo na ficção estar mais preocupado justamente em compreender o drama de seus personagens quando eles estão outros ambientes, onde há mais campo para o isolamento ou as relações interpessoais.

Vale tal observação porque os diretores e roteiristas Affonso Uchôa (que antes dirigiu “A Vizinhança do Tigre”) e João Dumans (autor do texto de “A Cidade Onde Envelheço“) estão interessados no oposto. Aqui, toda a história de Cristiano (Aristides de Sousa) é moldada a partir de seus bicos e ofícios, na maior parte vivendo como um nômade em busca da oportunidade que lhe dará o próximo teto temporário.

O que se sabe sobre Cristiano a princípio é o seu destino final: Ouro Preto, o ponto de parada em que sucumbe a uma exaustão física que o leva a ser hospitalizado. A partir daí, temos acesso ao seu passado recente registrado em um caderno, cuja leitura é realizada por André (Murilo Caliari), adolescente que parece deslocado em “um lugar de gente velha”, nas palavras de Cristiano.

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A partir do flashback que caracteriza todo o desenvolvimento de “Arábia”, os realizadores recorrem à narrativa clássica, estabelecendo conflitos e mesmo um interesse amoroso ainda que certo pessimismo já esteja marcado em sua jornada. É que caracteriza o principal problema do filme, estabelecendo uma substituição de protagonistas a partir do segundo ato que esquece a presença de André ao mesmo tempo em que dificulta um envolvimento imediato com Cristiano.

Ainda assim, não há como não se sensibilizar com a radiografia que fazem de indivíduos aparentemente invisíveis, cada um com uma grande história de vida para compartilhar. E é definitivo para esse efeito a opção por uma visão de mundo detalhista de Cristiano sobre a via-crúcis que atravessa, manifestada a partir de uma narração em off que assegura a esse personagem uma prosa poética.

Resenha Crítica | 120 Batimentos por Minuto (2017)

120 battements par minute, de Robin Campillo

Nos anos 1980, quando a AIDS estava em seu ápice, foram poucos os realizadores que se arriscaram a retratar a questão como um tema central ou importante no cinema. Na França de 1988, Paul Vecchiali foi o primeiro a abordá-la em seu “Uma Vez Mais”, sendo alvo de controvérsias assim que o exibiu em competição no Festival de Veneza, conforme relatou nesta entrevista concedida para o Cine Resenhas.

Três década se passaram e agora esse período histórico é resgatado com maior frequência, seja na ficção ou no documentário. Sintoma de uma sensibilidade coletiva, nem sempre apta em encarar temas atuais no momento em que se transcorrem.

Pois “120 Batimentos por Minuto”, que tentou sem sorte representar a França na última corrida do Oscar, trata exatamente como as autoridades, a indústria farmacêutica e a própria sociedade agiram com indiferença com o grupo contaminado pelo vírus HIV. Se o silêncio não predominou, era porque os ativistas do ACT UP fizeram verdadeiras manifestações entre o fim dos anos 1980 e o início dos anos 1990, com muitos de seus integrantes em estado crítico de saúde.

Responsável por “Eastern Boys”, o diretor e roteirista tem plena autoridade do registro de um contexto do qual testemunhou de perto. Há principalmente um bom domínio da dinâmica como se resolve as reuniões entre os personagens, da defesa de discursos à ovação desses a partir de estalos de dedos.

O senão está na encenação com pegada quase documental e na estranheza da transição forçada para a sua narrativa ganhar um teor mais humanizado, possível somente com a adoção de Sean (o notável Nahuel Pérez Biscayart, de “Grand Central“) como a figura central do filme. Uma escolha tardia e que alonga “120 Batimentos por Minuto” mais do que o necessário, mas que ainda assim não o impossibilita de sensibilizar a plateia a partir do foco em uma comunidade que só recentemente passou a ganhar visibilidade.

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Lançamento em streaming:
Disponível a partir do dia 5 de abril
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