Resenha Crítica | Ciganos da Ciambra (2017)

A Ciambra, de Jonas Carpignano

Pequena comunidade romana situada na Calábria, Ciambra bem que poderia ser qualquer outro ponto desfavorecido da Alemanha, Brasil, Estados Unidos, França ou Suécia, todos países com nomes que viabilizam este filme de Jonas Carpignano, entre os quais o cineasta Martin Scorsese e o produtor brasileiro Rodrigo Teixeira. E isso se dá pela escolha de seu realizador em fazer um híbrido, onde a realidade reflete diretamente a ficção que se encena.

Chamado Pio tanto em “Ciganos da Ciambra” quanto do lado de cá, esse garoto de 14 anos vive de pequenos trambiques e roubos para sobreviver. Morando em um lar que abriga uma família com os mais diversos parentescos, passa os dias nas ruas e em ambientes públicos sem ser assistido por responsáveis, às vezes agindo sozinho ou em gangues envolvidas com roubos de peças de automóveis ou drogas.

Ao longo de duas horas, o também roteirista Jonas Carpignano (aqui em uma encarnação em longa de “A Ciambra” de 2014 e também em uma espécie de continuação espiritual de seu “Mediterranea” de 2015) faz um registro propositalmente exaustivo de uma vida cuja inocência vai se desmanchando diante dos nossos olhos. É como se Pio se visse aqui em um círculo vicioso em que o crime que executa no presente vem a ser mais ousado que o prévio, assim agindo até que não passe impune.

O resultado devasta porque Carpignano é sábio ao se apropriar das bagagens que Pio e aqueles ao seu redor carregam para inserir autenticidade na encenação, preparando cada figura humana diante de sua câmera ao invés de meramente explorá-las. É como se o choro do protagonista – o único momento em que se permite fragilizar pela dureza de sua vida – e o trajeto que segue ao constatar que já não é mais puro fossem processados em forma de uma pancada ainda mais dolorosa.

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Lançamento em streaming:
Disponível a partir do dia 19 de julho
Itunes: R$ 19,90 (Venda) | R$ 11,90 (aluguel)
Google: R$ 29,90 (Venda) | R$ 9,90 (Aluguel)
Now: R$ 14,90 (aluguel)
VivoPlay: R$ 11,90 (aluguel)

Resenha Crítica | Chega de Fiu Fiu (2018)

Chega de Fiu Fiu, de Amanda Kamanchek Lemos e Fernanda Frazão

Concebida há quase cinco anos, a campanha Chega de Fiu Fiu veio como uma iniciativa de combate ao assédio sexual em espaços públicos contra as mulheres, que se dá desde o famoso assobio em forma de cantada até avanços mais agressivos. Organização por trás da iniciativa, a Think Olga consegue agora expandi-la para outras plataformas, com um documentário viabilizado por financiamento coletivo aberto no Catarse.

Embora a jornalista Juliana de Faria, a principal idealizadora da campanha, seja uma presença importante para a coleta de depoimentos, as realizadoras Amanda Kamanchek Lemos e Fernanda Frazão optaram por selecionar três figuras femininas para exibir os inúmeros tipos de situações constrangedoras e arriscadas que as mulheres passam a partir de uma abordagem masculina nos ambientes públicos. Os resultados são assombrosos, evidenciando uma cultura enraizada que resiste.

Além de pertencerem a diferentes estados do Brasil, Raquel Braga, Teresa Chaves e Rosa Cruz carregam históricos de vida dispares. Enquanto Raquel é uma negra que vive em uma comunidade humilde, Teresa vive na grande São Paulo e Rosa mata um leão por dia na posição de uma mulher trans no Distrito Federal. O documentário assim exibe que não há modelo feminino que esteja livre do assédio, ainda que essa seja uma questão às vezes secundária no filme com o destaque à Rosa, que geralmente expõe outras problemáticas.

Correto, o documentário contribui para o debate especialmente por duas decisões. A primeira é a de pedir que Raquel, Teresa e Rosa registrem em seus celulares os instantes em que são abordadas por desconhecidos. A segunda é em reunir em uma roda homens que discutem sobre os seus comportamentos em cantadas, trazendo uma falta de compreensão tão grande quanto paquera e consentimento que apenas reafirmam a importância de campanhas como a Chega de Fiu Fiu.

Resenha Crítica | A Câmera de Claire + O Dia Depois (2017)

La caméra de Claire & Geu-hu, de Hong Sang-soo

Se há cineastas que têm dificuldades de produzir um único longa-metragem, Hong Sang-soo definitivamente não é um deles. Talvez tenha sido o mais ativo de 2017, entregando nada menos que três filmes exibidos em festivais e lançados comercialmente no Brasil. O primeiro da leva, “Na Praia à Noite Sozinha“, foi avaliado aqui ao abrir o INDIE Festival 2017 e conquistou no Festival de Berlim o prêmio de melhor interpretação feminina para Kim Minhee.

O mais recente a chegar para os cinéfilos brasileiros é “A Câmera de Claire”. Na forma e conteúdo, é definitivamente muito simples. Por isso mesmo, extremamente gracioso. A Claire do título é interpretada por Isabelle Huppert, retomando parceria com Sang-soo cinco anos após “A Visitante Francesa“. Professora, ela visita os arredores do Festival de Cannes (onde o filme inclusive teve uma exibição especial) pela primeira vez com uma polaroid com a intenção de fotografar estranhos.

Há duas pessoas em particular que parecem se transformar quando retratadas pela câmera de Claire, logo a seguir se aproximando dela. O primeiro é o diretor de cinema interpretado por Jung Jin-young. A segunda é uma agente demitida por ele, Jeon Manhee (Kim Minhee novamente), ainda processando simultaneamente a desilusão amorosa e a frustração profissional.

Ainda resistindo nos cinemas, “O Dia Depois” concorreu à Palma de Ouro em Cannes e foi lançado na primeira quinzena de abril em território nacional. A premissa lembra muito uma comédia romântica de encontros e desencontros entre amores e amantes, mas com todas as peculiaridades do coreano. Há até uns arranjos melosos típicos de telenovela para pontuar os descompassos.

Em preto e branco, a história acompanha o editor de livros Kim Bongwan (Kwon Hae-hyo). Casado com Song Haejoo (Cho Yunhee), Kim é abandonado pela sua assistente e amante Lee Changsook (Kim Sae-byeok). As coisas começam a virar de ponta cabeça quando contrata uma nova colaboradora, Song Areum (Kim Minhee, claro), que é confundida com a amante e confrontada pela esposa de seu chefe.

Em todos esses filmes, o humor surge como uma consequência natural para a melancolia da vida, mais associada a pequenas tragédias do destino do que necessariamente uma compensação para uma vida melhor. E talvez por trabalhar tanto com essa característica dramática, Sang-soo parece finalmente encontrar uma sofisticação na escolha canhestra do plano contínuo e os zooms ao invés do tradicional plano e contraplano para registrar as interações humanas. Excelentes opções para dobradinha, mas é preferível deixar “A Câmera de Claire” como segunda sessão do dia por sua conclusão mais otimista para equilibrar o amargo final de “O Dia Depois”.

Resenha Crítica | Os Curtas-Metragens do 7º Panorama do Cinema Suíço Contemporâneo

 ★★★★ Rebobinar o Futuro, de Justin Stoneham
★★★★ A Batalha de São Romano, de Georges Schwizgebel
★★★ No Ritmo, de Johannes Bachmann
★★ Ao Largo, de Natalia Ducrey
★★ Entre Terras, de Lore Rinsoz
Casa Son Duno, de Vanessa Rüegger 

.:: 7º Panorama do Cinema Suíço Contemporâneo ::.

Em sua sétima edição, o Panorama do Cinema Suíço Contemporâneo inseriu na programação oito curtas-metragens, todos responsáveis por expandir um pouco mais a variedade de uma cinematografia que, afora em festivais, não ganha muita chance no nosso circuito comercial exibidor. Há ficção, documentário e até mesmo animação. Entre todos, apenas “Encontro às Cegas” e “Parzival” não foram assistidos.

O melhor do recorte é o registro muito pessoal de Justin Stoneham em “Rebobinar o Futuro”, em que vemos a reaproximação do realizador com a sua mãe, que do dia para a noite sofreu um acidente vascular cerebral, transformando-a em uma mulher muito diferente daquela que viu no resgate das gravações caseiras em VHS de seu pai. Comove porque Stoneham não camufla o egoísmo como um filho que agora busca uma reparação, bem como ao não manipular uma situação suficientemente dramática. Em Locarno do ano passado, venceu a categoria Golden Pardino – Leopards of Tomorrow.

É igualmente bom a breve animação de Georges Schwizgebel, “A Batalha de São Romeno”. Com apenas três minutos de duração, o artista faz um looping por uma pintura emblemática de Paolo Uccello, parte de uma “trilogia” concebida no século XV. Também mostra a que veio “No Ritmo”, em que Johannes Bachmann conta a história de um pai que se propõe a um desafio para que o seu filho não reprise a sua vida como operário.

Somente regulares, “Ao Largo” e “Entre Terras” têm uma conexão, ainda que o primeiro seja ficção e o segundo, a realidade nua e crua: o sentimento de se sentir estrangeiro. No curta de Natalia Ducrey, duas amigas que vivem em uma ilhota ao largo da costa da França passam por situações que remodelam as suas personalidades. O problema é a sensação de que não estamos indo para lugar algum. A coisa se repete em “Entre Terras”, que flagra sem novidades a condição de duas meninas refugiadas na Grécia.

Por fim, sabe aquele filme que pouco evoca com as suas imagens e que usa letreiros informativos mais como muletas do que qualquer outra coisa? É o que acontece em “Casa Son Duno”. A câmera de Vanessa Rüegger vagueia pelos espaços de um abrigo suíço hoje abandonado sem nenhuma narrativa ou atmosfera obter, sendo totalmente dependente de um histórico de costumes e ocorrências do ambiente exibidos no prólogo e epílogo. Um pastel de vento.

Resenha Crítica | Copiar Colar Deletar (2017)

Copy Paste Delete, de Christoph Rahm

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Na velocidade de um estalar de dedos, a nossa relação com a imagem mudou drasticamente. Hoje, ter um smartphone no bolso é o suficiente para registrar qualquer cena do cotidiano, de uma selfie ao flagra de alguma fatalidade que consequentemente viralizará em plataformas de compartilhamento de vídeos e redes sociais. Um progresso ou uma banalização?

“Copiar Colar Deletar”, longa-metragem experimental de Christoph Rahm, é todo concentrado no personagem de Moritz Wyss, um homem fazendo um inventário de sua vida e que se perde em um emaranhado de arquivos na busca pela última foto de sua vida. A partir disso, a narrativa se apresenta em cinco capítulos: infância, juventude, adolescência, vida adulta e morte iminente.

A desorganização da vida do protagonista é refletida em uma estrutura narrativa confusa, com a opulenta voz de Wyss, que é mais conhecido pela sua atuação como músico, operando como devaneios sobre o poder da imagem. Reflexo da relação de Rahm com a abundância de equipamentos e capturas que o rondaram em sua articulação prévia como realizador e montador de seus próprios projetos na empresa de comunicação que gerencia.

A inquietação com o relacionamento entre as pessoas e as imagens que são autores ou que recepcionam gera um filme enfadonho, entretanto. Afora os raros instantes em que há alguma cadência, com sequências que mais parecem videoclipes, a sensação é a mesma de visitar um arquivo morto com registros aleatórios que devem surtir algum efeito somente em seu egocêntrico realizador.

Resenha Crítica | Golias (2017)

Goliath, de Dominik Locher

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A vinda do século XXI permitiu uma série de progressos quanto a paradigmas comportamentais, hoje com as questões de preconceito e representatividade sendo discutidas com uma liberdade não testemunhada em gerações passadas. Entre as principais pautas, há o modo como o homem se apresenta ao mundo, ainda carregando todos aqueles conceitos do que muitos dizem constituir o tal “macho alfa”, impondo a sua autoridade às vezes recorrendo à violência.

Segundo longa-metragem de Dominik Locher, “Golias”, que ano passado concorreu no Festival Internacional de Cinema de Locarno em sua categoria principal e também à Mostra Internacional de Cinema em São Paulo na Competição Novos Diretores, trata muito sobre como se constitui um machista em um indivíduo já adulto. No entanto, o processo vem como uma resposta às circunstâncias quando David (Sven Schelker) – ou melhor, Davi – não responde com a bravura que a sua mulher grávida Jessy (Jasna Fritzi Bauer) esperava em uma noite fora de casa.

Ao se atracar em um banheiro de uma balada, o casal é retirado à força do estabelecimento, com o segurança deixando fortes hematomas no braço de Jessy sem que David tenha intervindo. Minutos depois, ela leva um soco de um estranho que provoca em um metrô. David tenta defendê-la, mas perde rapidamente o embate físico.

Bastaram os dois episódios para David se converter em Golias, buscando por um colega de trabalho para ajudá-lo nos treinos na academia e a providenciar esteroides para acelerar o crescimento de seus músculos.  A primeira coisa a ser afetada é a vida sexual do casal com a impotência de David. Depois, vem a reação física diante de desentendimentos verbais. Quase uma mutação sem volta, que se agrava com o os estágios da gestação de Jessy.

É muito sábia a escalação de Sven Schelker (que participou da quinta temporada de “Homeland”) para viver o protagonista. Com 26 anos na época das filmagens, o ator tem uma feição de garoto em puberdade e vai assumindo uma transformação surpreendente ao longo do filme. Uma peça essencial para fazer funcionar um drama que às vezes derrapa na elaboração de conflitos nem sempre consistentes e que se esquece de emperrar alguns departamentos pessoais da vida de David, que prossegue usufruindo de um invejável status social mesmo penalizado profissionalmente.

Resenha Crítica | Para Ter Onde Ir (2016)

Para Ter Onde Ir, Jorane Castro

Há quem diga que o fazer cinematográfico não tem gênero. Ainda que alguém dotado de sensibilidade seja mesmo capaz de reproduzir em uma narrativa perfis do sexo oposto, são necessários os protestos por maior representatividade em uma arte em que homens e mulheres não trabalham em pé de igualdade. E o que a diretora e roteirista Jorane Castro faz em “Para Ter Onde Ir” (antes batizado como “Amores Líquidos”) atinge momentos muito sublimes no modo como exibe os anseios de suas três personagens.

Elas são Eva (Lorena Lobato), Keithylennye (Keila Gentil) e Melina (Ane Oliveira). Mulheres de personalidades extremamente opostas, mas que encontraram uma sintonia especial para partir juntas a uma viagem em um ponto distante do Pará, onde iniciarão uma jornada individual para acertarem alguns descompassos do passado.

Eva, profissional de uma corporação responsável pela logística de navios de grande porte, vem como uma protagonista natural no trio ao assumir o volante do veículo que as levam e depois fazendo a busca por uma pessoa que claramente abandonou no passado. Já Keithylennye reencontra o homem com quem teve uma filha, repensando a partir disso quanto a escolher a vida como uma cantora, compositora e dançarina de tecnomelody ao lado de seu ex-companheiro ou de se dedicar exclusivamente à filha. Por fim, há as inconstâncias de Melina no amor, frutos de sua dificuldade de se apegar a alguém.

Ainda que seja o seu debute na direção de longa-metragem, Jorane Castro tem segurança ao traduzir o seu texto para uma linguagem visual e sonora, apropriando-se ao máximo de seu cenário tomado por um clima nebuloso que ilumina o plano com tons melancólicos de cinza. Não poderia escolher melhor braço direito do que o fotógrafo Beto Martins (“A História Da Eternidade”, “Todas as Cores da Noite“), sempre autorizando que os “acidentes” do ambiente sejam captados por suas lentes, como as gotas da água que inundam o prólogo.

Isso também permite que “Para Ter Onde Ir” assuma um caráter mais contemplativo, uma vez que não muito se verbaliza quanto ao que aproximou as personagens, o modo como lidam com os seus anseios ou mesmo o ponto para onde irão. Confia assim em suas notáveis intérpretes, que ao final se transformam sem que o entorno necessariamente tenha acompanhado essa mutação.

Resenha Crítica | Animais (2017)

Tiere, de Greg Zglinski

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Com todas as suas ferramentas para manipular o público, o cinema é uma arte muito adequada para produzir experiências que funcionam quase como quebra-cabeças, convidando o espectador para decifrar um enigma que se elucidará talvez apenas na última cena, quando toda uma imagem em fragmentos for construída. Coprodução entre Suíça, Áustria e Polônia, o suspense “Animais” oferta exatamente essa proposta.

A escritora Anna (Birgit Minichmayr, de “A Fita Branca”) e o chef de cozinha Nick (Philipp Hochmair, de “A Qualquer Preço“) formam um casal que pega a estrada para uma viagem. Durante o trajeto, o carro em que estão colide com uma ovelha. Saem do acidente com leves ferimentos na testa que se curam em um dia. No entanto, alguns desdobramentos posteriores ao episódio confundem especialmente a rotina de Anna, às vezes a única testemunha dessas ocorrências.

Paralelamente, também acompanhamos Mischa (Mona Petri), jovem encarregada de cuidar do apartamento de Anna e Nick antes de partirem para um chalé suíço. Ela, que também sofreu um pequeno acidente (bateu a cabeça ao escorregar em um skate abandonado no térreo do apartamento), passa a ser confundida com Andrea por um sujeito inoportuno, Harald (Michael Ostrowski).

No curso da narrativa, algumas revelações são lançadas. Como a infidelidade de Nick, logo nos primeiros minutos de “Animais” flagrado se despedindo de Andrea quando esta está abatida em seu sofá. Mas o que pavimenta o mistério é mesmo a série de fenômenos estranhos que assolam principalmente Anna. Há aqui desde a falta de noção da passagem dos dias, a leitura em jornal de um destino não concretizado, pesadelos envolvendo homicídios e até a “amizade” com um gato falante.

Em seu terceiro longa-metragem, o polonês Greg Zglinski tem inegável domínio de direção e, com o auxílio de seu corroteirista Jörg Kalt, acrescenta toques de humor bem-vindos ao texto. Há inclusive algumas rimas visuais muito boas, como a promessa de Anna em parar de fumar seguida da solada que dá no cigarro consumido minutos depois. Porém, por bolar algo tão dependente de uma resolução, “Animais” desaponta ao final, dando espaço a uma confusão oriunda de uma mente criativa e assim limitando as possibilidades de linhas de interpretação.

Resenha Crítica | Depois da Guerra (2017)

Dopo la guerra, de Annarita Zambrano

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Há seis anos, o diretor e ator Robert Redford havia levado para o cinema o romance de Neil Gordon “Sem Proteção“, onde tratou do Weather Underground a partir de um ataque fictício. De esquerda, o grupo terrorista entrou para a história a partir de atos promovidos ao final dos anos 1960, geralmente contra símbolos do capitalismo e do governo que à época operava.

Guardadas às devidas proporções, a cineasta estreante Annarita Zambrano faz um equivalente dessa premissa, desencadeando as tensões de “Depois da Guerra” a partir de um assassinato de um professor cometido em Bolonha, Itália. Estamos em 2002 e o ato está diretamente ligado a um crime do passado cometido contra um juiz, o que nos faz chegar a Marco Lamberti (Giuseppe Battiston), italiano que encontrou asilo político na França.

A vinda da jornalista Marianne (Maryline Canto) deixa tudo mais claro para a filha de Marco, a adolescente Viola (Charlotte Cétaire), e, consequentemente, para o público. É ele o principal suspeito por ordenar a morte da autoridade pública e o governo italiano exige agora a sua extradição. Temendo o seu destino, estuda a possibilidade de fugir para outro país, algo que Viola não está disposta a fazer.

A autenticidade de Annarita Zambrano, que escreve o seu roteiro em parceria com Delphine Agut, está em encenar as consequências de um passado bárbaro que parecia esquecido de um modo mais pessoal, no sentido de a sua trama ser ditada muito mais pelas tensões familiares do que as externas. Além disso, acertou na escalação do elenco, especialmente de Giuseppe Battiston, ator com um histórico cômico na cinematografia italiana exemplar em um papel denso.

Resenha Crítica | Diário da Minha Cabeça (2018)

Journal de ma tête, de Ursula Meier

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Como um bom filme com somente 70 minutos de duração, “Diário da Minha Cabeça” já lança grande parte de suas cartas em seu prólogo. Após o que soa como uma tentativa de assalto que resulta frustrada, descobrimos que o jovem Benjamin Feller (Kacey Mottet Klein), na realidade, havia cometido previamente um crime bárbaro: o assassinato de seus pais.

Porém, o que o roteiro da diretora Ursula Meier, que conta com a parceria de Antoine Jaccoud, revela é o interesse por uma personagem secundária na vida de Benjamin. Trata-se da sua professora de francês. Esther Fontanel (Fanny Ardant), para quem direciona um diário repleto de confissões.

Aos poucos, vamos compreendendo superficialmente como era a dinâmica do jovem assassino com os seus pais, mas a câmera está concentrada quase integralmente em Esther. O que Benjamin viu de tão especial ao ponto de considerá-la sua única confidente? Houve algo em sua didática que despertou os instintos mais irracionais no rapaz? Esther deve carregar o peso de assumir o papel de uma espécie de guardiã para ele.

Ursula Meier já havia extraído grandes desempenhos de Isabelle Huppert em “Home” e de Léa Seydoux em “Minha Irmã”. Desta vez, é a vez de Fanny Ardant brilhar, vista aqui um pouco longe do perfil glamouroso em que estamos habituados a prestigiar em seus trabalhos mais recentes. A sua Esther é os olhos do público, assumindo posturas coerentes dentro da encruzilhada em que é inserida a contragosto.