Em 97 Era Assim

Resenha Crítica | Em 97 Era Assim (2017)

Em 97 Era Assim, de Zeca Brito

A partir dos anos 1980, os americanos se viram mais libertos para começar a produzir uma onda de besteirois sobre a perda da virgindade. Em um registro mais recente, o cinema brasileiro também passou a se comunicar com os adolescentes tratando dessa descoberta sexual tão definitiva em nossas vidas. É exclusivamente sobre ela que se trata “Em 97 Era Assim”.

O que o diretor Zeca Brito também pretende explorar (do formidável documentário “A Vida Extra-Ordinária de Tarso de Castro“, também lançado recentemente), no entanto, são as particularidades noventistas. Particularmente, da Rio Grande do Sul que viveu quando ainda tinha 11 anos.

Era um tempo em que o meio privilegiado que circulava testemunhava as bancas de jornais e videolocadoras rodeadas de pornografia. A internet estava em poucos lares e era discada. Os aparelhos de celular, outra coisa ostentado por poucos, eram o que hoje relembramos como “tijolos”.

Em pleno ensino médio, o quarteto jovem formado pelos atores Fredericco Restori, João Pedro Corrêa Alves, Pedro Diana Moraes e Julio Estevan sente a pressão de fazer sexo. A questão é que as garotas da turma não estão dispostas a algo meramente casual. Busca assim complementar a mesada com tarefas remuneradas para contratar o serviço de prostitutas.

O tema é daqueles fáceis de cair e de se encerrar na vulgaridade. Ainda mais em um país com nomes como Danilo Gentili (“Como Se Tornar o Pior Aluno da Escola“) e Rafinha Bastos (“Internet: O Filme“) que vê adolescentes como imbecis.

Zeca Brito tem repertório mais denso e ao menos consegue fazer com que estabelecemos uma empatia razoável com os seus personagens. Contar com a participação especial de um artista do calibre de Jean-Claude Bernardet confirma as boas intenções.

O problema é a limitação da proposta, reforçada pelo texto de Leo Garcia. O sexo é uma parte essencial para a formação de nossa identidade, mas “Em 97 Era Assim” não há nada de muito substancial além disso. Seria interessante outros conflitos para estabelecer maior senso de amizade, bem como privilegiar mais as presenças femininas.

Além do mais, “Em 97 Era Assim” é desprovido de nostalgia. Mesmo com o cuidado cênico, há uma ausência de signos que emperra a criação da atmosfera de um período glorioso que não voltará jamais. Sem dizer que o orçamento claramente limitado parece impedir uma playlist mais elaborada, com repetições de canções óbvias como “Alright”, do Supergrass, e “Até a Hora de Parar”, do Acústicos & Valvulados.

Sicario: Dia do Soldado

Resenha Crítica | Sicario: Dia do Soldado (2018)

Sicario: Day of the Soldado, de Stefano Sollima

Muito além da brutalidade com a qual encenava o plano de derrocada dos cartéis de drogas entre a fronteira do México com os Estados Unidos, “Sicario: Terra de Ninguém” encontrou na protagonista de Emily Blunt os olhos da plateia e o centro moral de todos os dilemas. Era em Kate Macer, uma agente do FBI, que se concentrava a ponta final de um ciclo de desolação permanente.

Em “Sicario: Dia do Soldado”, não há mesmo razão para o retorno de Kate. A sua jornada se encerrou em “Terra de Ninguém”, sem perspectiva positiva de resolução. Mas talvez falte nesta continuação também escrita por Taylor Sheridan uma nova adição de personagem que se corrompa no processo.

Há aqui uma série de ataques terroristas. As motivações parecem de cunho religioso, mas não é o que pensa o agente da CIA Matt Graver (Josh Brolin). Com o aval do Secretário de Defesa James Riley (Matthew Modine) e supervisão da diretora da CIA Cynthia Foards (Catherine Keener), ele deduz que há um novo cartel partindo para o massacre de civis americanos.

O plano é estabelecer na surdina um conflito entre grupos que visa anulá-los. Vem assim os serviços informais de Alejandro (Benicio Del Toro), que forja o sequestro da adolescente Isabel Reyes (Isabela Moner), filha do mais influente chefão das drogas.

Presença que crescia em “Terra de Ninguém”, Benicio Del Toro é agora o centro em que orbita “Sicario: Dia do Soldado”. Do misterioso implacável, o seu Alejandro é agora um homem que às vezes deixa a emoção ditar os seus passos. Vê em Isabel uma reprodução da filha que perdeu e surge em sua fuga até mesmo um casal surdo que humaniza o seu desejo ainda não concluído de vingança.

Stefano Sollima não consegue igualar a tensão magistral orquestrada pelo canadense Denis Villeneuve na obra original. Em contrapartida, a estética particular para o cenário de barbárie prossegue com a fotografia de Dariusz Wolski (substituindo Roger Deakins), assim como a teia de relações complexas entre personagens e organizações de poder.

O realizador italiano esteve inclusive envolvido nos dois anos na série “Gomorra”, além de outros exemplares criminais feitos para a tevê. Portanto, parece uma escolha acertada para algo que em sua segunda metade evidencia as intenções de se estender para uma trilogia.

+ leia a análise de “Sicario: Terra de Ninguém”

Auto de Resistência

Resenha Crítica | Auto de Resistência (2018)

Auto de Resistência, de Natasha Neri e Lula Carvalho

Um dos maiores descasos do Brasil é cometido com a comunidade negra que habita as favelas e periferias do país, automaticamente estigmatizada como criminosa quando vítima da intervenção policial criminosa. Estima-se que mais de 1300 indivíduos foram mortos apenas no Rio de Janeiro em 2017, muitos inocentes baleados sob a alegação de auto de resistência, como se denomina a legítima defesa.

Essa realidade foi tema de longa pesquisa realizada por Natasha Neri como universitária e agora é convertido em documentário em que a direção é compartilhada com o seu marido Lula Carvalho, o diretor de fotografia de José Padilha. E aqui há um envolvimento além das estatísticas, apostando em uma proximidade com as mães ainda enlutadas em busca de justiça.

Como Ana Paula de Oliveira, que em 2014 teve o seu filho, Johnata Oliveira, morto com um tiro nas costas após visitar a avó e se despedir da namorada. E Janaina Mattos Alves, que revive em protestos a memória de Jhonata Dalber Mattos Alves, seu filho de 16 anos baleado na cabeça enquanto estava na rua para comprar um saco de pipoca.

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Entrevista com a diretora de “Auto de Resistência” Natasha Neri

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Além dos registros das manifestações e de policiais sendo julgados, uma exceção em uma realidade em que 98% dos casos de auto de resistência sequer vão a tribunal, o documentário reforça o seu teor de denúncia expondo imagens de arquivo por vezes aterradoras. Os vídeos amadores cobrem desde tiroteios até cenas dos crimes sendo manipuladas por agentes.

Trata-se de um filme não apenas oportuno em um tempo em que os autos de resistência atingem números recordes, como também para contribuir aos debates sobre a violência policial com a falta de resolução quanto a execução em 14 de março deste ano de Marielle Franco. Inclusive, a vereadora é uma das figuras a surgir nas imagens, advogando por mães sem os seus filhos.

Baronesa + Travessia

Resenha Crítica | Baronesa + Travessia (2017)

Baronesa, de Juliana Antunes
Travessia, de Safira Moreira

Atuante na direção de segunda unidade de “Arábia“, Juliana Antunes desenvolvia paralelamente um projeto a princípio concebido como um trabalho universitário. Intrigada pelos bairros periféricos de Belo Horizonte serem batizados com nomes femininos, a jovem fez uma imersão de seis meses em um deles após um largo período de pesquisa para acompanhar duas mulheres.

Elas são Andreia e Leid. A primeira está construindo por conta própria um novo lar para morar. A segunda, cuida dos filhos enquanto aguarda que o seu marido presidiário conclua a pena pelo crime que cometeu. Aos poucos, vai se desenhando a relação de ambas com um ambiente hostil, em que as mulheres estão com os seus destinos nas mãos dos homens que as rondam e da violência das quais são autores.

A péssima ideia envolvendo “Baronesa” é a opção por um cinema híbrido, em que a veracidade da vida se mistura com cenas ficcionais. É um vício que anda predominando mais do que deveria a cinematografia brasileira independente, que apresenta uma defesa de protagonismo de uma minoria invisível/marginalizada para ressaltar discursos.

É um trabalho de observação quase desonesto, pois a encenação parece existir porque não se consegue com a espera alguma ocorrência de risco, a exemplo de uma em que se brinca com uma arma. Afora uma conversa de laje que termina em um tiroteio imprevisto aos arredores, “Baronesa” nada de novo apresenta, mesmo com as suas inúmeras possibilidades de narrativas dentro de horas e mais horas de material bruto.

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Entrevista com a diretora de “Baronesa” Juliana Antunes:

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Para complementar a sessão de “Baronesa”, que ao todo tem somente 71 minutos de duração, a distribuidora Vitrine Filmes, dentro do quadro Sessão Vitrine Petrobras, projetará antes o curta-metragem “Travessia”. Também de 2017, aqui a diretora Safira Moreira se apropria do texto “Vozes-Mulheres”, no qual a escritora mineira Conceição Evaristo narra as suas gerações passadas e posteriores e como a condição do negro foi se modificando de um regime de escravidão para uma perspectiva de liberdade futura. A leitura de Inaê Moreira é o que vale em uma realização desprovida de virtudes.

Safári

Resenha Crítica | Safári (2016)

Safari, de Ulrich Seidl

Antes de sua estreia no circuito comercial, o documentário “Safári” foi o título selecionado para a abertura da 7ª edição da Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental. Quem resistiu até o fim, testemunhou diversos espectadores se retirando da sala no curso da projeção. A razão: há imagens explícitas de animais sendo caçados, muitos morrendo diante das câmeras de Ulrich Seidl.

O cineasta austríaco de “Import Export” e da trilogia “Paradies” é mesmo adepto a uma controvérsia e agora está aqui em um registro de é tudo verdade. Daí tal recepção, pois são inúmeras as culturas que se posicionam contra a caça de animais apenas pelo lazer de ter as suas cabeças como troféus e Seidl está disposto a expor o lado mais perverso da prática.

O ambiente é um safári da África, em que turistas desembolsam quantias exorbitantes para a caça de búfalos, cervos, zebras, girafas, entre outros. Aqui, Seidl conseguiu a autorização para acompanhar caçadores vindos da Alemanha e Áustria, estabelecendo uma relação de neutralidade para assim conseguir a aproximação necessária para o filme.

Consegue assim acompanhar todo o ritual da caça, da seleção dos trajes corretos até a observação minuciosa do ambiente e o preparo da mira para acertar certeiramente os alvos. Com os animais dados como mortos, há a tradicional foto de comemoração e os flagras dos comentários que tentam justificar algo não categorizado pela lei como um crime.

É em muitos momentos de revirar o estômago, mas “Safári” se nega a ser cúmplice das atrocidades que testemunha para fazer um comentário sobre toda a questão hierárquica nesses safáris, expondo o caçador como um ser mais selvagem que a caça e que se visualiza no topo de uma cadeia social em que negros sobrevivem de suas diversões sujas. E pensar que o Brasil não está tão longe desse cenário com a possibilidade da autorização da caça de animais silvestres…

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Lançamento em streaming de “Safári”:
Disponível a partir do dia 15 de agosto
iTunes: R$ 19,90 (venda) | R$ 11,90 (aluguel)
Google Play: R$ 29,90 (venda) | R$ 9,90 (aluguel)
Now: R$ 14,90 (aluguel)
Vivo Play: R$ 11,90 (aluguel)

Resenha Crítica | Réquiem Para Sra. J (2017)

Rekvijem za gospodju J, de Bojan Vuletic

.:: INDIE 2017 Festival Cinema ::.

No prólogo de “Réquiem Para Sra. J”, o diretor Bojan Vuletic lança todas as suas cartas. A senhora J (Mirjana Karanovic) não quer prosseguir com a sua existência. A vida perdeu o sentido desde a morte do marido, ainda que tenha duas filhas para cuidar e uma mãe que mal sai de casa. Apresenta a arma que usará em seu suicídio, que programou para acontecer no fim de semana que completará o aniversário da morte de seu amado.

Após esse ritual, veremos uma personagem que não apresenta dúvidas quanto a sua decisão extrema. A lápide já foi providenciada. As burocracias para o seguro de vida caminham para uma resolução, o que incluirá uma visita ao seu antigo trabalho. Até mesmo as pendências mais banais, como a faxina da casa e a alimentação, estão devidamente programadas para serem executadas antes de sua despedida.

Pois é exatamente o que iremos acompanhar ao longo de um pouco mais de uma hora e meia de “Réquiem Para Sra. J”: os passos derradeiros de uma mulher que perdeu o encanto por tudo ao seu redor, ilustrado por um cenário captado com uma simetria perfeita e com tintas acinzentadas que tingem a sua melancolia. Uma daquelas contagens regressivas de causar calafrios.

Porém, antes que se efetive qualquer coisa, o também roteirista Bojan Vuletic impõe a essa jornada silenciosa rumo ao fim uma dose sutil de humor, não autorizando que o clima lúgubre contamine uma narrativa que vai encontrando em um cotidiano sem encantos aqueles descompassos familiares que nos fazem reconsiderar a vontade de tudo desistir. Esse instinto natural é transferido para J, por quem passamos a clamar para que resista ao seu tormento interno.

Da promessa de dramalhão, “Réquiem Para Sra. J” vai assim fazendo jus a esse notável cinema sérvio que tão pouco temos acesso. Com première no Festival de Berlim em 2017 e candidato de seu país para tentar uma vaga como Melhor Filme Estrangeiro no último Oscar, essa belíssima obra irradia uma esperança que poucos são capazes de reproduzir em crônicas sobre o luto (que final!) e obtém de Mirjana Karanovic uma das interpretações mais extraordinárias já vistas nos últimos tempos.

Vingança

Resenha Crítica | Vingança (2017)

Revenge, de Coralie Fargeat

Às vezes, o melhor filme é aquele que entrega exatamente o que se espera, sem tirar e nem por. É exatamente o que acontece em “Vingança”, a estreia em longa-metragem da diretora francesa Coralie Fargeat, 15 anos após atuar nas filmagens de segunda unidade de “Paixões Paralelas” e “Uma História a Três”.

Ao longo de 108 minutos (que bem poderiam ser uns 93, é verdade), Coralie desenvolve um contexto básico, mas horripilante: a violência contra a sua protagonista e a possibilidade dela se rebelar contra os seus algozes. Quatro personagens, uma mansão como ponto de encontros e uma vasta paisagem deserta sem testemunhas à vista são os componentes centrais de seu filme.

A crítica tem exaltado o olhar feminino conferido por Fargeat nessa premissa. Jen (Matilda Anna Ingrid Lutz) passa por várias transformações de personalidade, da bela moça que exibe as curvas para satisfação sexual de seu namorado casado, Richard (Kevin Janssens), até a guerreira que se empodera para punir a ele e aos seus amigos de caça, Stan (Vincent Colombe) e Dimitri (Guillaume Bouchède), por ter sido estuprada e quase perdido a vida em uma queda de penhasco. Além disso, há também o modo como os corpos são aqui expostos. Sem muitos detalhes, o ato final é resolvido com a nudez frontal do ator Kevin Janssens, invertendo as expectativas do brilhante pega-pega que é encenado.

Com tudo isso considerado, “Vingança” ainda assim não vai muito além da variação do conceito do clássico “Aniversário Macabro”, de Wes Craven. O que definitivamente não é um problema, especialmente pelo modo bem particular como Fargeat tem na construção da tensão, bem como a violência explícita que faz explodir o neon na tela.

A Vida Extra-Ordinária de Tarso de Castro

Resenha Crítica | A Vida Extra-Ordinária de Tarso de Castro (2017)

A Vida Extra-Ordinária de Tarso de Castro, de Leo Garcia e Zeca Brito

Produzido a partir de 1969, o semanário O Pasquim é uma das publicações alternativas mais discutidas durante a graduação em jornalismo. Não somente pela sua popularidade (em meados dos anos 1970, chegava a vender mais de 200 mil exemplares), mas por apresentar um conteúdo desafiador para a censura à época e permitir que os seus leitores discutissem temas polêmicos.

O descaso cometido por professores é a falta de crédito ao jornalista Tarso de Castro, que fundou O Pasquim com Jaguar, Sérgio Cabral e Ziraldo e outros veículos terminados em “im”, como o Folhetim e o Enfim. Pois a dupla de diretores Leo Garcia e Zeca Brito sentiu essa necessidade de resgate de uma figura fascinante, culminando na realização do ótimo documentário “A Vida Extra-Ordinária de Tarso de Castro”.

Ao mesmo tempo em que era considerado um jornalista excepcional, Tarso de Castro conduzia a sua vida de modo boêmio. Colecionou amantes (incluindo até mesmo a atriz americana Candice Bergen), admiradores e desafetos. Também era teimoso quando a abandonar o alcoolismo, desviando de todas as investidas de amigos mais próximos em colocá-lo em reuniões dos Alcoólicos Anônimos.

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Entrevista com o diretor de “A Vida Extra-Ordinária de Tarso de Castro” Zeca Brito:

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Muito além de apresentar uma trajetória quase completa dessa figura irreverente, o documentário é certeiro ao abandonar a formalidade da coleta de depoimentos, em que os entrevistados sentam diante de uma câmera para falas benevolentes. Aqui, o clima é o mesmo de uma boa conversa de bar, com amigos, colegas de trabalho e familiares relembrando com afetuosidade e sem meias palavras de um homem que partiu cedo demais e que seria decisivo para o jornalismo hoje praticado.

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Lançamento em streaming:
Disponível a partir do dia 19 de julho
iTunes: R$ 11,90 (Aluguel HD) | R$ 12,90 (Compra SD) |  R$ 19,90 (Compra HD)
Google Play: R$ 6,90 (Aluguel HD) | R$ 19,90 (Compra SD) | R$ 24,90 (Compra HD)
NET: R$ 14,90
Oi Play: R$ 12,90
Vivo Play: R$ 11,90

Resenha Crítica | Anna Karenina: A História de Vronsky (2017)

Anna Karenina. Istoriya Vronskogo, de Karen Shakhnazarov

Entre longas, minisséries e até novelas, o IMDb computa mais de 20 adaptações de “Anna Karenina”, romance que se encontra ao lado de “Guerra e Paz” entre mais queridos da autoria do escritor russo Leo Tolstoy. A trágica heroína já foi vivida por atrizes como Greta Garbo (1935), Vivien Leigh (1948), Sophie Marceau (1997) e Keira Knightley (2012), mas nenhuma dessas e outras versões podem ser consideradas como definitiva.

O veterano realizador Karen Shakhnazarov (de “Assassinato do Tzar”, “Palata N°6” e “Tigre Branco”) tem a vantagem sobre os demais diretores de viver e ambientar a sua adaptação na pátria de Tolstoy. Tenta também uma intervenção narrativa curiosa: integrar à história o conto “Notas de um Médico sobre a Guerra Russo-Japonesa”, este escrito por Vikenty Veresaev.

Portanto, há dois períodos narrativos aqui. No primeiro, temos o conde Vronsky (Max Matveev) em plena guerra na Manchúria de 1904. Ferido em combate, ele recebe os cuidados de Sergey Karenin (Kirill Grebenshchikov), que surge com uma motivação bem específica: interrogá-lo sobre as razões que levaram a sua mãe ao suicídio em uma estação de trem.

Como o esperado, o segundo período narrativo entra em curso, onde ficamos sabendo que a tal figura materna foi Anna Karenina (Elizaveta Boyarskaya, que há 14 anos debutou com “A Queda! As Últimas Horas de Hitler”). Encena-se aí a história já conhecida de cor e salteado, onde Anna se apaixona por Vronsky enquanto ainda era casada com Karenin (Vitaliy Kishchenko).

Pensado também para atender a mídia televisiva em formato de minissérie dividida em oito partes, Shakhnazarov proporciona algo belo de ser apreciado independente das dimensões da tela, mas a sua visão do romance soa burocrática a partir do momento em que consolida o amor entre Anna Karenina e Vronsky. O primeiro pós-sexo, com os amantes auxiliando um a vestir os trajes do outro, tem um nível de envolvimento que vai se dissipando conforme a relação se transforma em amor destrutivo.

Assim, “Anna Karenina: A História de Vronsky” vai enveredando por raízes mais novelescas, fazendo com que Anna Karenina, uma vítima do conservadorismo da sociedade que habita, se revele uma de suas encarnações mais antipáticas que já se viu. Daí vem o peso de uma história que parece se alongar mais do que o necessário, nos fazendo ter o desejo secreto de que Anna encerre logo a sua existência.

Los Territorios + The Beast

Resenha Crítica | Los Territorios + The Beast (2016/2017)

Los territorios, de Iván Granovsky
The Beast, de Michael Wahrmann e Samantha Nell

Vida Fácil” e “Daphne” são apenas dois dos títulos mais recentes a serem avaliados que tratam sobre a agora popular crise dos 30 anos, em que jovens adultos encontram dificuldades de se estabelecerem na vida em uma sociedade que cobra deles um mínimo de estabilidade, sendo ela profissional e privada. Muitos inevitavelmente identificarão essa abordagem em “Los territorios”, mas ela surge aqui com o tapa da veracidade: o registro é documental, não ficcional.

Iván Granovsky era um recém-trintão quando concluiu o documentário. O sobrenome famoso entrega: ele é filho de Martín Granovsky, influente jornalista argentino que, por sua vez, é também uma cria de um profissional da comunicação. A questão é que Iván não deseja seguir o mesmo rumo dos homens da família, nutrindo desde a juventude o sonho em ser um diretor de cinema.

Após alguns projetos como produtor e sucessivos fracassos na tentativa de se converter em cineasta, Iván iniciou uma peregrinação por países para traçar um mapeamento geopolítico, motivado a princípio pelo atentado terrorista contra a redação do jornal francês Charlie Hebdo. Porém, é evidente a sua falta de tesão para se desdobrar como jornalista, inclusive quando esteve no Brasil para entrevistar o ex-presidente Lula pré-impeachiment de Dilma Rousseff.

Em uma jornada por vezes sem rumo, o diretor vai expondo as mensagens trocadas (algumas forjadas) com os seus pais, que vão assumindo um tom mais sério conforme recebem faturas injustificáveis dos cartões de créditos deixados em suas mãos. Trata-se da exposição de um homem que autoriza que seja classificado como “fútil” na sinopse oficial de sua obra e o modo como permite se expor é extremamente negativo.

Essa leitura quase unânime se dá porque Iván não demonstra qualquer senso de sarcasmo. Enfurece a audiência porque não defende a figura de um sujeito oprimido pelo azar, pelas cobranças para ser alguém que não deseja ou até mesmo por executar tarefas em que não encontra um sentido, mas sim a de aborrecido e desinteressado em estabelecer algum vínculo com o espectador que o observa a esmo e que nada extrai dos contextos que transita.

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Possivelmente prevendo a dificuldade de vender algo tão enfadonho, a Vitrine Filmes repete uma estratégia ocorrida no início do ano, quando integrou um curta-metragem antes da projeção de “Paulistas“, também um documentário. Aqui, o satírico “The Beast” é exibido antes de “Los territorios” – a principal conexão é o crédito de Michael Wahrmann, codiretor do primeiro e produtor do segundo, mas há também a exploração de um olhar estrangeiro.

O diferencial é que as intenções aqui são mais bem resolvidas, mostrando uma comunidade de uma vila africana interagindo com turistas esnobes e encenando Shakespeare como um modo de protesto. O monólogo de Shylock em “O Mercador de Veneza”, em 2004 entoado por Al Pacino na adaptação homônima para cinema, segue impactante.

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Lançamento em streaming de “Los territorios”:
Disponível a partir do dia 26 de julho
iTunes: R$ 19,90 (venda) | R$ 11,90 (aluguel)
Google Play: R$ 29,90 (venda) | R$ 9,90 (aluguel)
Now: R$ 14,90 (aluguel)
Vivo Play: R$ 11,90 (aluguel)