Os Melhores Filmes de 2018 | Primeiro Semestre

Como tradicionalmente é preparado neste endereço a cada fim de um semestre, trago para este mês de julho que se despede do calendário aqueles filmes que despontaram como os melhores de 2018. Considerando tanto os lançamentos no circuito de cinema quanto aqueles que vão direto para o mercado de homevideo e streaming, a seleção a seguir se mostrou naturalmente diversa.

Nela, há filmes que começaram com o pé direito a sua trajetória em festivais, depois finalmente alcançando um público mais amplo com sucesso. Como é o caso do primeiro colocado, “Três Anúncios Para Um Crime”. Outros merecem uma chance após serem misteriosamente rejeitado pelas distribuidoras para exibição na tela grande, como o provocador “Happy End” e o fascinante documentário “78/52”, que destrincha cada um dos detalhes da famosa cena do chuveiro de “Psicose”.

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OUTROS DESTAQUES:

50 São os Novos 30A Repartição do TempoA Vida Extra-Ordinária de Tarso de CastroAuto de ResistênciaMe Chame Pelo Seu Nome • Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississippi • O Motorista de Táxi • Os Estranhos: Caçada Noturna

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#10. Em Pedaços, de Fatih Akin +

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#9. As Aventuras de Paddington 2, de Paul King +

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#8. The Post: Guerra Secreta, de Steven Spielberg +

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#7. O Sacrifício do Cervo Sagrado, de Yorgos Lanthimos +

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#6. Happy End, de Michael Haneke +

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#5. Réquiem Para Sra. J, de Bojan Vuletić +

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#4. Projeto Flórida, de Sean Baker

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78/52

#3. 78/52, de Alexandre O. Philippe +

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Sem Amor

#2. Sem Amor, de Andrey Zvyagintsev +

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#1. Três Anúncios Para Um Crime, de Martin McDonagh +

78/52

Resenha Crítica | 78/52 (2017)

78/52, de Alexandre O. Philippe

Morto há 38 anos, Alfred Hitchcock tem sido nas últimas semanas uma das principais tendências culturais dos paulistanos com a exposição “Hitchcock – Bastidores do Suspense”, atualmente em cartaz no MIS – Museu da Imagem e do Som. O que pode ter passado batido é a disponibilidade do documentário “78/52” na Netflix, um ano após a sua exibição no festival É Tudo Verdade.

O diretor Alexandre O. Philippe centra o seu interesse naquela que é uma das cenas mais emblemáticas de toda a história do cinema: o assassinato de Marion Crane (Janet Leigh) enquanto toma uma ducha em “Psicose”. Concebido no período de uma semana por Hitchcock e a sua equipe, o feito empregou 78 planos distintos e 52 cortes.

Ainda hoje apavorante, a cena do chuveiro é também uma das mais referenciadas e parodiadas que se tem notícias. Mas há muitas possibilidades de discussão que vão além da complexidade de sua realização. É como se um sem número interpretação surgisse em cada revisão.

Para tanto, O. Philippe convocou um misto interessante de artistas para compartilhar apontamentos sobre esse trecho específico de “Psicose”, que dura segundos. Entre eles, temos o escritor Bret Easton Ellis (“Psicopata Americano”), a cineasta Karyn Kusama (“O Convite“), a atriz Illeana Douglas (“Cabo do Medo”), Mick Garris (que conduziu para a tevê “Psicose IV: A Revelação”), entre outros.

Há duas participações que se destacam entre as demais. A primeira é do compositor Danny Elfman, que refez a partitura de Bernard Herrmann para o remake dirigido por Gus Van Sant (que, segundo O. Philippe, preferiu não participar do documentário por desejar guardar consigo as suas impressões sobre ambas as versões – mas você pode saber um pouco sobre elas aqui). A segunda é de ninguém menos que Jamie Lee Curtis, que prestou homenagem à mãe Janet Leigh na série “Scream Queens”.

Acertando ao fazer uma coleta mais descontraída dos depoimentos, “78/52” tem aquele poder de aumentar a percepção diante da contemplação de uma obra fílmica, confirmando que cada segundo é rico de informações quando se trata do audiovisual. Em 91 minutos, O. Philippe ministra uma aula que vale muito mais que um semestre todo de escola de cinema.

Sem Amor

Resenha Crítica | Sem Amor (2017)

Nelyubov, de Andrey Zvyagintsev

.:: 41ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Desde “O Retorno” (2003), longa-metragem de estreia laureado com o Leão de Ouro no Festival de Veneza, que o cineasta Andrey Zvyagintsev vem diagnosticando a falência da família como instituição e a constituição de uma sociedade operada a partir de suas divergências sociais e éticas. O melhor é o progresso que demonstrou como realizador autoral, entregando desde “Elena” um drama superior ao anterior.

“Sem Amor” é a sua mais exemplar demonstração de excelência até aqui, em parte reconhecida com o Prêmio do Júri no Festival de Cannes do ano passado e com indicações ao Oscar, Bafta e Globo de Ouro a Melhor Filme Estrangeiro. Não à toa, a sua única exibição na 41ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo rendeu alvoroço entre o público na bilheteria.

Boris (Aleksey Rozin) e Zhenya (Maryana Spivak) estão com o casamento desfeito e já sustentam relacionamentos com outros companheiros, o primeiro com uma mulher a qual engravidou e a segunda, com um homem mais velho e bem-sucedido. Os elos que restaram são o apartamento que habitam e Alyosha (Matvey Novikov), o filho de 12 anos em que estão desinteressados em lutar pela custódia.

Sem deixar vestígios, Alyosha desaparece. A desolação bate para Boris e Zhenya, mas as discussões são muito mais pautadas sobre a culpa que um transfere para o outro pela irresponsabilidade como pais do que necessariamente sobre as pistas que podem ter sido deixadas para trás e que devem contribuir para as buscas.

A frieza é reforçada por uma fotografia de Mikhail Krichman amparada pelo cinza das arquiteturas e do clima invernal permanente. Há também um microcosmo que se desenha e que recebe grandes proporções principalmente com a música de Evgueni Galperine e Sacha Galperine, que nada ficam a dever a Philip Glass, de quem Zvyagintsev se apropriou em oportunidades anteriores.

Com isso, “Sem Amor” vai avaliando um estado de indiferença que parece contaminar uma nação, comentário que explicita principalmente com o modo como os seus personagens seguem com o seu cotidiano sendo alheios às pequenas tragédias ao fundo noticiadas em rádios. Indiferença essa que é inclusive capaz de deletar de todo um contexto uma presença humana indesejada que por um período ali habitou.

A Festa

Resenha Crítica | A Festa (2017)

The Party, de Sally Potter

A realizadora britânica Sally Potter costuma ser bem relacionada com atores de alto gabarito. Para tanto, os seus últimos filmes valem mais pela reunião de um time respeitado de intérpretes e a capacidade de segurar o interesse por uma história do que necessariamente por sua direção convencional e ausente de picos dramáticos.

Foi o que aconteceu com “Rage” (2009, inédito no Brasil) e “Ginger & Rosa” (2012). O mesmo poderia se suceder com “A Festa”, mas Potter opta por um quase minimalismo que funciona. Com somente sete integrantes em todo o elenco, um único cenário, duração enxuta de 71 minutos e a fotografia em preto e branco do russo Aleksei Rodionov,  há ainda maior evidência de um bom texto segurando as rédeas.

Para comemorar o cargo político que assumirá, Janet (Kristin Scott Thomas, felizmente desistindo da aposentadoria) organiza uma pequena festa para amigos ao lado de seu marido Bill (Timothy Spall), que parece não estar em um bom dia. Os casais formados por April (Patricia Clarkson, dona da melhor personagem) e Gottfried (Bruno Ganz) e Martha (Cherry Jones) e Jinny (Emily Mortimer) são os primeiros a chegar.

Mesmo com as observações sempre sarcásticas de April e a passividade de Bill em sua poltrona, as coisas só começam a ficar fora do eixo mesmo com a vinda de Tom (Cillian Murphy). Além de não estar acompanhado por sua esposa, há todo o momento visita o banheiro para cheirar cocaína e manuseia uma arma que esconde dentro do terno.

A sensação para alguns será a de teatro filmado, mas há certa informalidade na operação da câmera de Sally Potter mais condizente com a linguagem cinematográfica e o elenco se apropria do espaço restrito com uma liberdade oposta ao engessamento das marcações. São virtudes que colaboram para a fluência da narrativa, dessas que literalmente nos pregam surpresas até o seu último segundo.

Alguma Coisa Assim

Resenha Crítica | Alguma Coisa Assim (2017)

Alguma Coisa Assim, de Esmir Filho e Mariana Bastos

Premiado no Festival de Gramado, o curta-metragem “Alguma Coisa Assim” foi produzido em 2006 exibindo um jovem casal de amigos em processo de autodescoberta dentro da noite paulistana. Caio (André Antunes) não é bem resolvido com a sua sexualidade e Mari (Caroline Abras) parece inquieta com a expressão do seu desejo por ele.

10 anos depois, Esmir Filho e Mariana Bastos retomam esses personagens em raro modelo de continuidade em longa-metragem. Agora, Caio é casado e Mari está estabelecida em Berlim ocupando os apartamentos em que atua como designer de interiores. É para o que mora atualmente que Mari convida Caio para compartilhar enquanto ele avança com um projeto universitário no consultório de Sven (Clemens Schick, de “Praia do Futuro”).

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Entrevista com Mariana Bastos e Esmir Filho, diretores de “Alguma Coisa Assim”

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Ainda que a distância imponha uma crise no relacionamento de Caio, o desenvolvimento de “Alguma Coisa Assim” pressiona os sentimentos de Mari, que vai assumindo uma posição mais evidente no protagonismo da história. É ela quem parece aprisionada em um armário, por vezes provocando um envolvimento mais físico com o amigo e paixão secreta de longa data.

Como o aguardando de uma extensão mais polpuda, os realizadores utilizam muito bem algumas ferramentas sonoras e visuais para enfatizar os tormentos sobretudo de Mari. A música com acordes quase disformes de Lucas Santtana reforça os desconfortos expressos pelos protagonistas e o fotógrafo Juan Sarmiento G. oferta imagens impactantes em textura, na apropriação de um espaço e na exploração da intimidade.

Além do mais, o excelente entrosamento desenvolvido previamente entre André Antunes e Caroline Abras fortalece a relação encenada, crível da troca de diálogos aos gestos retidos ou externalizados. Fica agora a curiosidade para que o futuro reserve um novo capítulo para Caio e Mari. Possibilidades não faltam.

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Entrevista com Caroline Abras e André Antunes, protagonistas de “Alguma Coisa Assim”

Resenha Crítica | Hannah (2017)

Hannah, de Andrea Pallaoro

Mesmo ciente do jogo comercial envolvendo cinema, como o de promover o projeto que participa e o de oferecer o seu nome e face para uma campanha promocional, um verdadeiro intérprete é aquele que reconhece que é apenas um dos vários mecanismos de um filme, sempre a disposição para atender à visão de seu realizador. No entanto, é impossível não afirmar que é na presença da veterana Charlotte Rampling que orbita todas as engrenagens de “Hannah”.

Resgatada em 2000 por François Ozon para protagonizar “Sob a Areia”, a inglesa fluente em francês tem no segundo longa-metragem do italiano Andrea Pallaoro um dos grandes desempenhos de sua notável carreira. Não à toa, saiu laureada do júri do Festival de Veneza do ano passado presidido por Annette Bening com o Volpi Cup de Melhor Atriz.

No primeiro ato silencioso de “Hannah”, vemos essa personagem-título em seu último dia no apartamento com o marido (interpretado por André Wilms), que será preso por um crime nunca elucidado explicitamente pelo texto escrito por Pallaoro e Orlando Tirado. Porém, quem parece em uma reabilitação sem chance de perdão é a própria Hannah.

Com a companhia de um cachorro que não corresponde às suas necessidades de afeto, Hannah prossegue a vida em dias insípidos. Espécie de diarista de uma mulher bem-sucedida com um filho, ela encontra no tempo livre que resta o interesse por aulas de atuação, uma clara tentativa de fuga da realidade.

Porém, o mais cruel para Hannah é a rejeição paulatina de todos que a conhecem, principalmente o seu filho Nicholas (Simon Bisschop), que passa a ignorá-la após o aparente escândalo do crime cometido por seu pai. Seria Hannah uma cúmplice? Ou foi alguém que chegou à meia-idade errando ao possivelmente viver em função de seu marido?

O espectador não precisará de respostas para essas e outras perguntas porque não há nada mais doloroso e, ao mesmo tempo, fascinante do que testemunhar a dor expressa na face de Hannah/Charlotte Rampling, que também não se furta de se desnudar para expor todas as marcas da idade. Um filme totalmente dependente de sua atriz e que definitivamente são seria tão gigante quanto é caso se negasse a essa escolha.

Resenha Crítica | 50 São os Novos 30 (2017)

Marie-Francine, de Valérie Lemercier

.:: Festival Varilux de Cinema Francês 2018 ::.

Hoje com 54 anos, a francesa Valérie Lemercier priorizou em sua carreira a atuação no humor. Mostrou-se uma atriz impagável no gênero, talvez passando a ser notada mais pelo público brasileiro a partir de “Um Lugar na Plateia”, em que foi laureada com o César de Melhor Atriz Coadjuvante. Já em “50 São os Novos 30”, é o primeira vez que a vemos com as responsabilidades de uma cineasta, ainda que tenha acumulado previamente quatro créditos na função.

O título brasileiro para “Marie-Francine” não é uma unanimidade, mas sintetiza muito bem a premissa que Lemercier desenvolveu em parceria com Sabine Haudepin. Trata-se do recomeço que as circunstâncias forçam uma mulher a assumir: cinquentona, Marie-Francine se vê, sem aviso prévio, sem marido, emprego e lar.

Agora, ela depende exclusivamente de seus pais (interpretados por Philippe Laudenbach e Hélène Vincent), dando a ela um teto e uma ocupação como a única vendedora em uma loja de cigarros eletrônicos recém-inaugurada. O inferno astral que se instaurou em sua vida só não a consome porque percebe ao conhecer Miguel (Patrick Timsit, o carisma em pessoa), um cozinheiro que atua no restaurante ao lado de seu trabalho, que ainda há dentro de si um poder de sedução que parecia dissipado em seu relacionamento com Emmanuel (Denis Podalydès), que a largou para namorar uma jovem garota.

Enxuta, a comédia romântica é dessas que descem redondo justamente por algumas escolhas que dinamizam o fluxo narrativo. Exemplo disso é como Valérie Lemercier apresenta soluções em que o didatismo não é um elemento atuante, especialmente no primeiro ato em que Marie-Francine se descobre traída e desempregada. É também digna de aplausos por ainda acumular um papel secundário como a irmã gêmea da protagonista, Marie-Noëlle.

O melhor de “50 São os Novos 30”, no entanto, é a ternura com o qual tece o encontro de duas pessoas de idade avançada sem a independência plena conquistada, extraindo graça não pela situação mal sucedida que se encontram, mas sim de como se fortalecem quando abraçam as suas inadequações e assim se refortalecerem. Definitivamente, não há nada mais romântico do que anotar em um limão o número de telefone para a pessoa com a qual se teve uma tarde agradável.

O Amante Duplo

Resenha Crítica | O Amante Duplo (2017)

L’Amant double, de François Ozon

.:: Festival Varilux de Cinema Francês 2018 ::.

Enquanto “O Amante Duplo” segue em exibição nos cinemas brasileiros, François Ozon já finaliza o seu novo trabalho, “Alexandre”. É um hábito na carreira do realizar francês o ritmo acelerado de trabalho, promovendo um projeto quando já pensa no próximo.

Melhor: Ozon trafega por gêneros sem jamais abandonar a sua autoria, proporcionando uma experiência em que quase sempre se desafia ao invés de se conformar com uma zona de conforto. Porém, com “O Amante Duplo” parece chutar o pau da barraca, com a possibilidade de não atender a qualquer uma das expectativas que costumam cercá-lo.

Pode-se considerar até mesmo uma afronta divertida a sua inscrição para concorrer à Palma de Ouro do Festival de Cannes de 2017, onde saiu sem honrarias e com a crítica extremamente divisiva. Aqui, ele se apropria livremente de um romance da americana Joyce Carol Oates, publicado em 1987 e com natureza pro si só misteriosa com sua autoria sob o pseudônimo de Rosamond Smith.

A história é centrada em Chloé (Marine Vacth, revelada pelo próprio Ozon em “Jovem & Bela“). Jovem de 25 anos, trabalha como vigia em um museu parisiense e busca por tratamento terapêutico para aliviar uma dor física provavelmente oriunda de uma desordem psicossomática. 

Ela parece encontrar a solução para o problema na forma do atencioso Paul (Jérémie Renier), psicólogo que interrompe as consultas assim que assumem um relacionamento. As dores voltam e, ao acaso, Chlóe descobre a existência do irmão gêmeo de seu amado, Louis (Jérémie Renier, claro), que revela um temperamento transgressivo que confunde as suas certezas.

O que inicia como um jogo de aparências, reforçada por uma cenografia repleta de espelhos e espirais, se transforma em sua segunda metade em um suspense que muitas vezes abandona as suas propriedades psicológicas para materializar em cena mutações associada por muitos com o cinema do canadense David Cronenberg.

As reações serão as mais opostas possíveis. Por um lado, há quem defenderá que a junção de bizarrices eleva “O Amante Duplo” a patamares provocativos e refrescantes. Outros talvez se sintam insultados com algo que parece ter em sua essência um tom de ridicularização. É um ame ou odeie com inegável poder de penetração.

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Lançamento em streaming de “O Amante Duplo”:
Disponível a partir do dia 22 de agosto
iTunes: R$ 19,90 (venda) | R$ 11,90 (aluguel)
Google Play: R$ 29,90 (venda) | R$ 9,90 (aluguel)
Now: R$ 14,90 (aluguel)
Vivo Play: R$ 11,90 (aluguel)