Ary Rosa, Café com Canela

Entrevista com Ary Rosa, codiretor e roteirista de “Café com Canela”

+ Resenha crítica sobre “Café com Canela”

Trabalho de estreia de Ary Rosa e Glenda Nicácio, “Café com Canela” fez um belo percurso por festivais. Com première na 21ª Mostra Tiradentes, a realização também fez parte da programação da 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, do XIII Panorama Internacional Coisa de Cinema e também da 9ª Semana dos Realizadores.

Agora, chegou a vez de ganhar todo o público com o lançamento comercial. A estreia aconteceu no dia 16 de agosto em uma sala de Salvador. Já a partir do dia 23, outros 11 municípios receberam “Café com Canela”, entre os quais São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília.

Codiretor e roteirista, Ary Rosa concedeu para o Cine Resenhas uma entrevista, compartilhando com os leitores os temas pelo qual o seu filme trafega, a idealização das cenas mais complexas e sobre o seu próximo projeto futuro, também realizado em parceria com Glenda Nicácio.

 

Como se estabeleceu a parceria entre vocês para a realização de “Café com Canela”? Quais as virtudes particulares cada um carrega e que são fundamentais para a atuação como uma dupla atrás das câmeras?

Nós nos conhecemos em 2010 no curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) na cidade de Cachoeira, no Recôncavo Baiano. Nossa afinidade foi tão grande que, em 2011, fundamos a produtora Rosza Filmes com sede na região baiana. Quando começamos a desenvolver o projeto do “Café com Canela”, já tínhamos em mente que dirigiríamos juntos o longa. Primeiramente, entender que são dois olhares diferentes para o mesmo filme (referências diferentes, histórias diferentes, entendimentos de mundo diferentes); entendido isso, trabalhamos juntos para a construção do filme, e a obra tende a ganhar pela pluralidade de olhares.

No curso da narrativa, algo delicado vai orbitando entre os personagens: o luto. E não há somente a perda de entes queridos, como também aquela morte em vida, como testemunhamos acontecer com Margarida. Como o tema repercute em vocês ao ponto de torná-lo uma das pautas centrais do filme?

O luto é uma pauta central na vida de todos, e é interessante você pontuar que o que orbita o filme é o luto e não a morte. Nós falamos dessa vida que fica após a morte, e as diferentes formas com que se trabalha algo que é tão natural à vida de todos. É importante também quebrar com o estereótipo de uma “Bahia feliz”, quase um fardo a ser carregado, e apresentar uma Bahia humana, onde há felicidade, prazer, alegria, mas há também dor, perda, luto, depressão.

Violeta é uma mulher comovente, no sentido de emanar uma energia positiva e de nunca anular o seu instinto natural de cordialidade com o próximo, mesmo com a resposta a princípio explosiva de Margarida e questões particulares que poderiam fragilizá-la, como o estado de sua avó. Seria ela uma inspiração direta de uma região em que muitos conduzem as suas vidas com simplicidade e da qual vocês tão bem conhecem?

Acreditamos que sim. Violetas são muitas: mulheres fortes, que também se abalam, mas logo precisam seguir (como tantas mulheres do Recôncavo). Não foi por acaso que escolhemos Aline Brune para fazer o papel de Violeta. Aline foi escolhida no teste de elenco principalmente por ser tão integrada à comunidade de Cachoeira e poder representar essa personagem tão específica.

Café com Canela

Há em “Café com Canela” uma cena muito curiosa em que se quebra a quarta parede enquanto Violeta e Margarida compartilham os seus encantos pelo cinema. Trata-se de um momento que inclusive parece tecer um comentário sobre como certos indivíduos e geografias são invisibilizados dentro do que se vê na produção brasileira. O que pensam sobre essa impressão?

É uma cena que toca muito o público comum (aquele que é espectador, e não crítico, ou cineasta), e causa um forte reconhecimento de sentimentos e percepções. Hoje lemos um texto da Amanda Aouad para o Cine Pipoca Cult: “É como se ‘Café com Canela’ requisitasse aqui o direito à cinefilia dessas mulheres [mulheres negras]. Também capazes de se emocionar e se modificar pelas experiências da tela grande”. É também disso que o filme trata, e é nessa hora que selamos de vez o pacto com o espectador, como quem diz nós estamos pensando em você, estamos te vendo.

Além da cena citada na pergunta anterior, “Café com Canela” é repleto de outras que buscam traduzir visualmente os perfis e anseios dos personagens de um modo complexo, do split screen que exibe Violeta se comunicando com três pessoas diferentes dentro de suas casas ao instante em que a cozinha de Margarida se apequena diante dos nossos olhos. Como se deu a idealização desses momentos?

Havia entre nós o desejo de poder conversar com o espectador e apresentar a intimidade do Recôncavo, da vida das personagens. Possibilitar um mergulho junto com Violeta e Margarida que fosse capaz de caminhar por temas complexos, porém com aquela simplicidade de quem chama para perto, ou melhor, para dentro. Essa cena das três portas revela muito disso, um cinema de dentro de casa.

“Café com Canela” é o debute de vocês como diretores em um longa-metragem de ficção. Como têm abraçado a receptividade do público e da crítica da itinerância do filme pelos festivais até o lançamento comercial que agora se concretiza? Um segundo projeto já é discutido entre vocês?

“Café com Canela” é um projeto muito especial na nossa vida, em todas as suas etapas, da escrita do roteiro até as salas de cinema agora. Fomos crescendo com ele, aprendendo muito de cinema e da própria vida também. E esse momento do público, especialmente o das salas de cinema, é um momento lindo, onde o filme pode finalmente concretizar a sua finalidade, que é ser visto. E quando emociona, então, é mais bonito ainda. Estamos com o nosso segundo longa-metragem, “Ilha” (Ary Rosa e Glenda Nicácio, 2018), iniciando a exibição em festivais (selecionado para o 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro), continuando com a parceria entre nós e com o cinema em que acreditamos.

Histórias Que Nosso Cinema (Não) Contava

Resenha Crítica | Histórias Que Nosso Cinema (Não) Contava (2017)

Histórias Que Nosso Cinema (Não) Contava, de Fernanda Pessoa

Mesmo sob a mira do regime militar, o cinema brasileiro viveu nos anos 1970 e 1980 o ápice de seu erotismo politicamente incorreto. Esse momento seria logo batizado como pornochanchada, termo que muitos cineastas classificam como pejorativo. É um amplo recorte cultural de uma época que não volta mais, só que há muitos interessa.

Em seu primeiro projeto para cinema, Fernanda Pessoa fez extensa pesquisa do período, resultando primeiro na exposição Prazeres Proibidos (abrigada pelo MIS em 2016) e agora no documentário “Histórias Que Nosso Cinema (Não) Contava”, onde 28 títulos da pornochanchada são picotados para compor uma colcha de retalhos por vezes ressignificada. É um experimento desafiador, como se tivesse aproximadamente 40 horas de material bruto – supondo, claro, que cada filme contenha uma duração aproximada de 90 minutos.

É, portanto, um esforço em que grande parte dos seus méritos (e poréns) devem ser creditados ao montador Luiz Cruz, que faz uma composição parecida com a de “Cinema Novo”. No entanto, enquanto aquele experimento de Eryk Rocha havia uma preocupação maior com as combinações visuais, as fusões de “Histórias Que Nosso Cinema (Não) Contava” são mais narrativas.

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Entrevista com a diretora Fernanda Pessoa sobre o documentário “Histórias Que Nosso Cinema (Não) Contava”:

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Assim sendo, Fernanda Pessoa enfatiza em sua decupagem a representatividade feminina e a exploração de sua nudez, os anseios de personagens que refletiam um contexto demarcado pela censura e principalmente os textos subliminares que contestavam o cenário político à época. Tudo moldado a partir das obras como “19 Mulheres e Um Homem” (de David Cardoso), “Amante Muito Louca” (de Denoy de Oliveira), “Bonitas e Gostosas” (de Carlo Mossy), “Noite em Chamas” (de Jean Garret), “O Bom Marido” (de Antônio Calmon), entre outras relacionadas abaixo.

O resultado vai além da mera colagem e volta a atrair atenção para uma parte de nosso cinema hoje restrita aos festivais especiais e canais fechados – isso quando totalmente inacessíveis principalmente por nossa preservação questionável. Ainda assim, falta a sensação de unidade, de que estamos vendo a algo realmente (re)construído do zero. Nem tudo se conecta harmoniosamente, por vezes trazendo o efeito de tevê sendo zapeada.

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+ Todos os filmes citados em “Histórias Que Nosso Cinema (Não) Contava”:

• “1001 Posições do Amor” (1978), de Carlo Mossy
• “19 Mulheres e Um Homem” (1977), de David Cardoso
• “A Super Fêmea” (1973), de Anibal Massaini Neto
• “Amadas e Violentadas” (1976), de Jean Garret
• “Amante Muito Louca” (1973), de Denoy de Oliveira
• “Árvore dos Sexos” (1977), de Sílvio de Abreu
• “Aventuras Amorosas de Um Padeiro” (1975), de Waldir Onofre
• “Bonitas e Gostosas” (1978), de Carlo Mossy
• “Cada Um Dá o Que Tem” (1975), de Adriano Stuart, John Herbert e Sílvio de Abreu
• “Café na Cama” (1973), de Alberto Pieralisi
• “Colegiais e Lições de Sexo” (1980), de Juan Bajon
• “Corpo Devasso” (1980), de Alfredo Sternheim
• “E Agora José – A Tortura do Sexo” (1979), de Ody Fraga
• “Elas São do Baralho” (1977), de Sílvio de Abreu
• “Eu Transo, Ela Transa” (1972), de Pedro Camargo
• “Gente Fina é Outra Coisa” (1977), de Antônio Calmon
• “Histórias Que Nossas Babás Não Contavam” (1979), de Osvaldo de Oliveira
• “Inseto do Amor” (1980), de Fauzi Mansur
• “Manicures a Domicílio” (1978), de Carlo Mossy
• “Noite em Chamas” (1977), de Jean Garret
• “Nos Embalos de Ipanema” (1978), de Antônio Calmon
• “O Bom Marido” (1978), de Antônio Calmon
• “O Enterro da Cafetina” (1971), de Alberto Pieralisi
• “Os Mansos” (1973), de Braz Chediak
• “Palácio de Vênus” (1980), de Ody Fraga
• “Porão das Condenadas” (1979), de Francisco Cavalcanti
• “Terror e Êxtase” (1979), de Antônio Calmon
• “Vítimas do Prazer – Snuff” (1977), de Cláudio Cunha

Café com Canela

Resenha Crítica | Café com Canela (2017)

Café com Canela, de Ary Rosa e Glenda Nicácio

Celebrado pelos festivais em que foi exibido, “Café com Canela” finalmente chega ao circuito comercial com uma proposta singela e honesta que desafia o monopólio das produções Rio-São Paulo ao qual estamos habituados. Vinda de Salvador, a realização consegue dar destaque para personagens gente como a gente, com duas mulheres negras de diferentes gerações atuando como as principais engrenagens da narrativa.

Violeta (Aline Brune) é a quem recebe mais realce. Jovem muito bem resolvida e com família constituída, ela se reveza entre as tarefas diárias e os cuidados da avó inválida (interpretada por Dona Dalva Damiana de Freita) e tem embutida em si um tipo de generosidade raro hoje em dia, sendo benevolente com aqueles que a cercam sem esperar nada em troca. Isso é comprovado principalmente quando esbarra em Margarida (Valdinéia Soriano), que fora sua professora.

Além de Violeta e Margarida, há Ivan (o versátil Babu Santana, que interpretou a versão mais velha de Tim Maia) para fechar um ciclo de indivíduos que lidam (ou lidarão) com a dor da perda, uma pauta que vai se tornando cada vez mais central em “Café com Canela”. Assim, tanto eles como o público refletirão sobre o vazio permanente deixado por um ente que partiu ou mesmo dessa morte em vida que nos priva do mundo exterior.

Quem assume o comando de “Café com Canela” é a dupla Ary Rosa e Glenda Nicácio. É uma bela estreia, por vezes empenhada em estabelecer rimas visuais realmente criativas. Há desde um split screen que evoca a conexão entre essas figuras quase como uma família desconstruída até a mutação de um cômodo que vai ficando cada vez mais claustrofóbico para Valdinéia.

Mesmo com a abordagem densa, Ary e Glenda não pesam a mão nos eventos trágicos, preferindo priorizar o processo paulatino de recuperação de algo que não necessariamente se supera, mas que vai se tornando tolerável quando uma perspectiva mais positiva sobre a existência vai florescendo internamente nos personagens. Uma leveza bem-vinda e que não se furta de deixar uma forte impressão.

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+ Entrevista com Ary Rosa, codiretor e roteirista de “Café com Canela”

Desobediência

Resenha Crítica | Desobediência (2017)

Disobedience, de Sebastián Lelio

Premiada ano passado pelo livro “O Poder”, a escritora britânica Naomi Alderman escreveu “Desobediência” quando ainda se aproximava dos 30 anos. Trata-se de uma curiosidade pertinente para a avaliação da história, atual em seu diagnóstico de uma geração intermediária presa em paradigmas ao mesmo tempo em que tenta se libertar deles.

A fotógrafa Ronit (Rachel Weisz) vive em Nova York e, já no prólogo, é notificada sobre o falecimento de seu pai (Anton Lesser), um rabino do subúrbio londrino de Hendon. Ao chegar no lar em que passou a maior parte de sua vida, nota uma hostilidade velada daqueles que a conhecem, como se algo de sua personalidade ofendesse aquela comunidade judaica.

O diretor chileno Sebastián Lelio, que acabou de levar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por “Uma Mulher Fantástica“, não tem pressa na condução de “Desobediência”, reconectando Ronit com duas figuras emblemáticas de seu passado. São Esti (Rachel McAdams, em uma interpretação que merece ser lembrada na temporada de premiações) e Dovid (Alessandro Nivola), melhores amigos da juventude de Ronit e hoje casados.

Quem assistir ao filme mesmo blindado pelos spoilers, já identificará por qualquer material promocional que Ronit e Esti tiveram um passado romântico. A tensão sexual entre essas duas mulheres pauta o desenvolvimento de uma narrativa conduzida com muita sensibilidade por Lelio – a Love Song do The Cure é toda ressignificada aqui.

É bem verdade que as resoluções podem soar brandas para um contexto implacável para aqueles que ousam infringi-la. Entretanto, a reflexão praticada em “Desobediência” não existe para a contestação de uma crença, mas sim como ela está e deve ser remodelada para a realidade que se vive em pleno século XXI.

Unicórnio

Resenha Crítica | Unicórnio (2017)

Unicórnio, de Eduardo Nunes

Roteirista de “Árido Movie” e editor de “Cafuné” (ambos de 2005), o carioca Eduardo Nunes enveredou pela direção de ficção em 2011 com “Sudoeste” já propiciando um estilo particular que certamente seria mantido com a eventualidade de novos trabalhos. Pois muitas semelhanças há entre o seu debut e “Unicórnio”, drama de difícil digestão que tentará com as estratégias de lançamento da Sessão Vitrine Petrobras encontrar o seu público.

Aqui, é confirmada a atração de Nunes pela criação de universos quase imaginários, em que o tempo é estabelecido por uma lógica praticamente fantasiosa. Em “Sudoeste”, há uma existência humana com um ciclo iniciado e acabado em um período de 24 horas. Em “Unicórnio”, o tédio do isolamento de uma pré-adolescente é o que constitui o que convencionalmente chamamos de narrativa.

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Entrevista com Patricia Pillar sobre “Unicórnio”:

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Estreante, Bárbara Luz interpreta Maria, acompanhada em dois contextos diferentes. No primeiro, ela vive com a sua mãe (Patricia Pillar, em seu primeiro papel no cinema após um hiato de 10 anos) no campo se distraindo com os afazeres domésticos e caminhando a esmo pelos arredores, tendo como local favorito a sua árvore de frutos venenosos. O outro cenário é um quarto do que parece ser uma clínica psiquiátrica em que divide um banco com o seu pai (Zécarlos Machado).

Outra vez tendo o diretor de fotografia Mauro Pinheiro Jr. como o seu braço direito, Nunes usa o formato de tela 3,66:1, em que a horizontalidade do plano desafia inclusive as extremidades do cinemascope e que renega a janela típica das imagens que se forjam como pinturas vivas. Definitivamente deslumbrante, inclusive pela paisagem diurna montanhosa parecer ser colorida com tinta óleo.

Lamentavelmente, esse apelo estético não encontra correspondência com a história que se pretende contar. Mesmo que o roteiro se aproprie livremente de dois contos de Hilda Hilst, “O Unicórnio” e “Matamoros”, o estofo aqui comportaria não mais que um curta-metragem. Do jeito que nos é apresentado, temos o típico caso de belo papel de presente para o embrulho de algo oco, sensação que Bárbara Luz ainda enfatiza com uma interpretação aborrecida, nada cativante.

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Entrevista com diretor Eduardo Nunes e o ator Lee Taylor sobre “Unicórnio”:

Como é Cruel Viver Assim

Resenha Crítica | Como é Cruel Viver Assim (2017)

Como é Cruel Viver Assim, de Julia Rezende

Quando Julia Rezende levou para o cinema a sua atração televisiva “Meu Passado Me Condena” e posteriormente investiu imediatamente em uma sequência, a impressão que passou é a de que traçaria uma carreira parecida com a de um Roberto Santucci. Estaria assim investindo exclusivamente as suas energias em comédias com fórmulas fáceis, em que dificilmente conseguiria impor alguma autoria de fato.

Felizmente, a carioca de 32 anos, filha de Sergio Rezende com a produtora Mariza Leão, contestou a impressão com “Ponte Aérea” (2015) e “Um Namorado para Minha Mulher” (2016), em que lida com pontos de originalidade sem necessariamente se desvincular de um gênero afável. Em “Como é Cruel Viver Assim”, no entanto, as qualidades de Julia estão mais perceptíveis, agora flertando com o drama quando as resoluções do texto rumam para caminhos mais obscuros.

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Entrevista com os atores Marcelo Valle e Fabiula Nascimento sobre “Como é Cruel Viver Assim”:

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Aqui, a diretora se apropria da peça homônima de Fernando Ceylão (encenada em 2014) para exibir a formação de um quarteto que topa participar do sequestro de um figurão. Taxista recém-desempregado, Vladimir (Marcelo Valle, o único a reprisar o papel dos palcos) convence a sua esposa Clivia (Fabiula Nascimento), dona de uma lavanderia mequetrefe, a participar do crime, em seguida também recrutando Regina (Debora Lamm) e Primo (Silvio Guindane).

O problema aqui é que nenhum deles sabe muito bem o que está fazendo, arquitetando um plano com mil chances de dar errado. Isso faz “Como é Cruel Viver Assim” assumir um ponto de partida curioso, pois a história não se concentra em um sequestro, mas em sua fermentação.

Verdade que os 107 minutos ficam pesados para a digestão, principalmente em um segundo ato de ritmo claudicante. Ainda assim o carisma e química do elenco central fazem a diferença, cada um personificando tipos pitorescos que não resvalam para o humor fácil.

Também é curioso perceber como o longa de Julia Rezende encontra correspondência com “Um Homem Só“, trabalho de sua colega Cláudia Jouvin. Evidentemente, o seu “Como é Cruel Viver Assim” de nada tem de ficção científica. Entretanto, o cinza da fotografia de Dante Belluti encontra nos cenários periféricos e nas faces que os habitam um sentimento de conformidade diante de existências sem perspectivas de um futuro além do cruel que dão ao todo uma singularidade inesperada.

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Entrevista com a diretora Julia Rezende e os atores Debora Lamm e Silvio Guindane sobre “Como é Cruel Viver Assim”:

Abrindo o Armário

Resenha Crítica | Abrindo o Armário (2017)

Abrindo o Armário, de Dario Menezes e Luis Abramo

Mesmo com todas as revoluções sexuais empregadas pelas últimas gerações, ainda é um tabu para o Brasil e o mundo a saída do armário, como é chamada a revelação de um indivíduo que não atende à heteronormatividade. Portanto, ainda que se apresentar como um homossexual quase ou nenhuma consequência renda a terceiros, o conservadorismo segue oprimindo aquele decidido ou não a se abrir expressando os seus desejos por alguém do mesmo sexo.

Por isso, é importante o direcionamento que os realizadores Dario Menezes e Luis Abramo dão ao documentário “Abrindo o Armário”, focado justamente em homens que se assumiram como gays e como isso sacudiram as suas vidas. E o melhor: a costura narrativa parte de participantes diferentes em suas idades e contextos sociais.

A organização é estabelecida com declarações que intercalam figuras conhecidas a anônimas. Há desde o jornalista e escritor João Silvério Trevisan, também notório por seu ativismo LGBT, até de jovens que passaram recentemente pela experiência de se abrirem para a família e o círculo de amigos.

Alguns depoimentos em particular se sobressaem aos demais. Como o de Rodrigo Barbosa, que encerrou o relacionamento com uma mulher após toda uma vida “aprisionado” e que hoje tem a guarda de uma criança com um parceiro. Ou o de Artur Francischi, que relata a sua primeira experiência homossexual com todas aquelas dores que geralmente encurralam a maioria dos jovens na mesma situação.

Alçaria voos mais altos caso não incorresse a um problema também visto recentemente em “Chega de Fiu Fiu“, este um documentário focado no assédio provocado por outras mulheres. Ao dar mais destaque para uma personalidade de apelo como Linn da Quebrada diante das demais participações, “Abrindo o Armário” vai entrando em discursos igualmente importantes, mas que podem dispersar o espectador de seu tema central.

Medo Viral

Resenha Crítica | Medo Viral (2016)

Bedeviled, de Abel Vang e Burlee Vang

Há anos que o smartphone se tornou um item de fácil aquisição para os jovens, utilizado não somente como uma ferramenta de comunicação, como também de necessidade para a organização de suas vidas e de expô-las com mais facilidade em redes sociais. Item de dependência e conforto agora usado como premissa para filmes de terror.

Porém, se por um lado há mentes criativas que se apropriam de recursos tecnológicos para estabelecer uma ameaça que ganha formas mais complexas, a exemplo do espírito vingativo que se infiltra na comunicação coletiva via Skype no perturbador “Amizade Desfeita”, por outro há um grupo de cineastas estreantes e sem um pingo de talento e conhecimento da dinâmica virtual. Erdal Ceylan provou ser um deles há dois meses com “Selfie Para o Inferno“. Agora é a vez dos irmãos Vang.

“Medo Viral” é quase um “Medo Ponto com BR” desta década, com o prejuízo de que os Vang sequer têm o apelo estético de William Malone. Basicamente, os quase 100 minutos giram em torno de um novo aplicativo que a princípio parece exercer as funcionalidades de um empregado doméstico, encarregando-se de tarefas que envolvam o ligar e desligar de qualquer interruptor até fazer pedidos por telefone.

A questão é que a coisa é todinha fruto de uma entidade diabólica, que aos poucos vai deixando de ser esse auxiliar cordial para enfim assustar o seu usuário até que ele morra. É o que acontece com a jovem Nikki (Alexis G. Zall), encontrada morta após um ataque cardíaco para lá de questionável. Dá que Alice (Saxon Sharbino) e os demais amigos de Nikki descarregaram o aplicativo, agora também marcados para morrer.

Tedioso, “Medo Viral” ainda demonstra a incapacidade dos Vang em estabelecerem uma atmosfera de horror. A paciência que o espectador empregará ao acompanhar o fiapo de história jamais é recompensado: os jump scares são aquelas velhas batidinhas no ombro do amigo que surge sem aviso prévio, as mortes sempre são em off screen e as ameaças que se materializam desaparecem do campo de visão dos personagens desobedecendo qualquer lógica. Eis mais um filme a figurar com facilidade em uma lista de piores do ano.

Acrimônia: Ela Quer Vingança

Resenha Crítica | Acrimônia: Ela Quer Vingança (2018)

Acrimony, de Tyler Perry

Excetuando a direção de “I Can Do Bad All By Myself”, a participação como ator coadjuvante em “Garota Exemplar” e a como produtor de “Preciosa: Uma História de Esperança“, a crítica americana nunca foi favorável a Tyler Perry. Já a resposta do público tem sido inversa: o sucesso não somente viabilizou a existência da The Tyler Perry Company, como torna o artista uma pauta interessante quanto a representatividade negra no cinema.

Mais de duas dezenas de filmes compõem o currículo de Tyler Perry como cineasta, mas é a primeira vez que o circuito de cinema brasileiro o abraça. E a oportunidade vem com a sua investida em um gênero oposto às comédias que o notabilizaram com a sua frequente encarnação de Madea, esta uma senhorinha intransigente que tanto assombra a imprensa especializada.

Justamente a protagonista “I Can Do Bad All By Myself”, a excelente Taraji P. Henson retoma parceria com Perry para chutar o pau da barraca e entregar o desempenho mais deliciosamente caricato de sua carreira. Ela é Melinda, uma mulher que por anos a fio foi extremamente devota a Robert (Lyriq Bent), por quem foi perdendo todas as suas posses e, consequentemente, a sanidade.

Isso aconteceu paulatinamente porque Melinda, que herdou ainda jovem de sua mãe a casa da família e a quantia de 350 mil dólares, atendeu a todos os caprichos de Robert, antes um rapaz aproveitador e agora um homem maduro que não a ajuda nas finanças e nas tarefas domésticas para se dedicar exclusivamente a um experimento científico de uma bateria auto-renovável que pode lhe render milhões.

Daí o título “Acrimônia”, um substantivo para ressentimento, raiva, hostilidade, amargura, antagonismo e tantos outros que geralmente preenchem o vazio de um relacionamento rompido. Como o de Melinda e Robert, fazendo a primeira a nos ser apresentada quando está em sua primeira sessão de psicoterapia por razões que vão se elucidando.

Contra todas as expectativas negativas, Tyler Perry conduz essa história contada em flashbacks de modo envolvente. O elenco dá conta do recado (inclusive Ajiona Alexus e Antonio Madison, que interpretam as versões jovens dos protagonistas) e as divergências do que é narrado dentro daquilo que se vê ampliam o jogo de aparências e nos faz relevar deslizes primários, das coincidências do roteiro ao green screen gritante de “tomadas externas”.

Uma pena que tudo sucumba em seu ato final a algo digno de um Supercine de quinta categoria, encenando um enfrentamento físico esperado, mas patético. Pode até ser uma boa notícia para quem abraça com facilidade o humor involuntário, mas definitivamente não ajudará Tyler Perry a ser levado a sério.

Os Incontestáveis

Resenha Crítica | Os Incontestáveis (2016)

Os Incontestáveis, de Alexandre Serafini

Chegando ao circuito comercial com dois anos de atraso, “Os Incontestáveis” sinaliza em seus primeiros minutos se tratar de um projeto em que os seus principais envolvidos parecem compreender com grande intimidade. Não somente da parte de seu diretor Alexandre Serafini, como também de seus protagonistas Fabio Mozine e Will Just.

Com três curtas na bagagem, Serafini estreia em longa-metragem e coassina um roteiro com as características de um road movie, mas com as particularidades de alguém que explora as rodovias de Espírito Santo. De Mozine e Just, respectivamente baixista do Mukeka di Rato e guitarrista do The Muddy Brothers, vêm uma bagagem musical que impregna “Os Incontestáveis”.

Na premissa, os músicos vivem dois irmãos em um relacionamento cheio de rachaduras. Já no prólogo, iniciam uma viagem a bordo de um Opala 73 para rever um Maverick 77 que pertencia ao pai que os abandonou ainda na infância. Como o esperado, algumas figuras inusitadas vão cruzar o caminho de ambos, como Velho (Fernando Teixeira) e Lobo (Tonico Pereira), senhores de caráter dúbio.

A amoralidade da narrativa por vezes remete ao cinema de Russ Meyer (Faster, Pussycat! Kill! Kill!), só que com um sexismo ainda mais evidente. O problema dessa escolha é que a ausência de uma bússola moral de certo modo transforma “Os Incontestáveis” basicamente em um carro desgovernado.

Assim, o que a princípio se apresenta quase como um exercício de estilo, vai rumando para territórios confusos. Na exposição de instintos primitivos, enfrentamentos com indivíduos que detêm alguma autoridade e até o flerte com questões antropológicas de um estado marcado pela colonização, “Os Incontestáveis” logo se converte em aborrecimento, especialmente por sua sonoplastia estridente.