O Homem Perfeito

Resenha Crítica | O Homem Perfeito (2018)

O Homem Perfeito, de Marcus Baldini

Com o avanço do feminismo, o homem está reaprendendo a desempenhar o seu papel em inúmeros contextos, com isso se desnudando de velhos vícios principalmente na abordagem com as mulheres, seja do mero flerte até dentro da estabilidade de um relacionamento. Ao batizar a sua obra como “O Homem Perfeito”, Marcus Baldini já antecipa que ambos os gêneros deverão refletir sobre essa questão em meio aos risos que promove.

Afastada do cinema há quase quatro anos, Luana Piovani encontra no papel de Diana Prado a sua primeira chance em um modelo de protagonista em que todos os dilemas e contradições estão nela centralizados. É ela quem pavimenta os desdobramentos da história a partir de uma ação bem planejada e questionável.

Trata-se o de criar uma identidade virtual daquilo que compreende como um homem perfeito. Diana o faz com toda a criatividade de uma ghost writer e a intenção é perturbar o relacionamento assumido pelo seu ex-marido Rodrigo (Marco Luque) com a bailarina de 23 anos Mel (Juliana Paiva). Explica-se: inconformada com a felicidade alheia, Diana quer testar se Rodrigo é mesmo um homem de qualidades iludindo Mel com um perfil no Facebook de um homem bem-sucedido em todos os quesitos, do profissional ao estético.

Mesmo sem a assinatura no roteiro, Baldini assume “O Casamento do Meu Melhor Amigo” como a sua principal influência, pois aqui também lida com uma mulher que tarda a se reconhecer como a vilã da história. O diferencial é trazer essa premissa para o tempo moderno no qual vivemos, em que o comportamento humano foi modificado com o advento de vidas virtuais diferentes daquela que sustentamos na realidade.

.

Coletiva de imprensa de “O Homem Ideal” com a presença de Luana Piovani

.

Luana é uma ótima atriz e dá conta com muita facilidade da complexidade de Diana, que vai recebendo novas camadas especialmente pelo modo como enfrenta Caique (Sergio Guizé), um músico presunçoso e o cliente que a contrata para escrever a sua autobiografia. Mas a graça mesmo está contida justamente nas trocas de mensagens instantâneas entre o fake criado por Diana e Mel, encenadas de modo bem crível e visualmente interativo por Baldini.

Uma pena que a questão que levanta sobre comportamentos emperra “O Homem Perfeito” nos quesitos morais. Mesmo que Diana se manifeste duas ou três vezes diante de contextos machistas, o texto se desdobra justamente para esse fim quando as consequências começam a se desenhar. O comportamento da personagem de Juliana Paiva ao clímax é, por sinal, um dos mais vergonhosos já vistos na comédia romântica recente.

10 Segundos Para Vencer

Resenha Crítica | 10 Segundos Para Vencer (2018)

10 Segundos Para Vencer, de José Alvarenga Jr.

Desde que debutou no cinema em 1988 com a direção de “Os Heróis Trapalhões: Uma Aventura na Selva”, José Alvarenga Jr. tem sido um dos nomes mais importantes do país a fortalecer a comédia como gênero a atrair multidões à tela grande. Fez o mesmo com aqueles que preferem a televisão, como comprovam os marcos globais “Os Normais”, “Sai de Baixo” e “A Diarista”.

Ao contrário de alguns nomes mais contemporâneos, nunca foi um mero realizador de aluguel, injetando autenticidade em textos que versavam sobre casamento, abismos sociais, funcionalismo público, crise da meia idade e tantos outros temas identificáveis para qualquer público. Portanto, não causa estranheza a sua associação em “10 Segundos para Vencer”, o primeiro drama de sua filmografia.

A partir de um roteiro elaborado por Thomas Stavros e Patrícia Andrade, a cinebiografia acompanha a trajetória do pugilista Éder Jofre, nome conhecidíssimo por nossos pais e avós, mas um tanto misterioso para as gerações mais recentes. Apelidado de Galinho de Ouro, é reconhecido como um dos maiores atletas dos ringues, inclusive em esfera internacional.

.

Entrevista com Daniel de Oliveira e Osmar Prado sobre “10 Segundos Para Vencer”

.

Atualmente com 41 anos, Daniel de Oliveira tem inúmeros desafios físicos aqui, da preparação para obtenção de massa muscular até o uso de sua jovem aparência para convencer na fase em que Éder sequer tinha 30 anos. No entanto, o seu protagonismo por vezes é cedido aqui para o grande Osmar Prado, que interpreta o seu pai, Kid Jofre.

Isso significa tudo para “10 Segundos para Vencer”, pois as convenções dos filmes de luta não moldam todo o roteiro. Assim, muito mais do que a trajetória de superação de Éder, temos aqui uma narrativa interessada na perspectiva de um pai que supervisiona os passos do próprio filho, antes avesso ao ofício que o notabilizou devido a vocação como desenhista arquitetônico.

Pode ser considerada uma visão pouco lisonjeira de quem se busca fazer tributo. Mas “10 Segundos para Vencer” não quer mexer em vespeiro e, por isso mesmo, acaba resultando esquecível (quando não enfadonho) pela adoção da estrutura episódica. Eventos dramáticos, como o casamento de Éder, a saúde frágil do irmão e a sua aposentadoria precoce, ocupam a tela sem qualquer ressonância. Alvarenga Jr. entende do riscado, contemplando o público com evidente apuro técnico e boa direção de atores, mas a sua cinebiografia se perde entre as demais produzidas em nosso cinema.

.

Entrevista com o diretor José Alvarenga Jr. e o ator Ricardo Gelli sobre “10 Segundos Para Vencer”

Coração de Cowboy

Resenha Crítica | Coração de Cowboy (2018)

Coração de Cowboy, de Gui Pereira

Gênero musical há um século presente em nossa cultura, o sertanejo atravessou eras e hoje é reformulado por jovens talentos que compõem a sua extensão universitária. A pegada é um pouco diferente daquela que aprendemos a admirar por influência das gerações de nossos pais, pois nomes como Gusttavo Lima, Luan Santana e Lucas Lucco soam mais como popstars que se articulam desapegados das duplas do sertanejo romântico de outrora.

Personagem central de “Coração de Cowboy”, Lucca (interpretado por Gabriel Sater, filho do compositor mato-grossense Almir Sater) é um sintoma dessa nova geração. A questão é que ele não é necessariamente um mero produto, mas sim um rapaz com dilemas ao seguir uma trajetória artística pouco condizente com as suas raízes.

Traumatizado por uma fatalidade familiar em que esteve diretamente ligado e com o desejo de se reconectar com o pai (Jackson Antunes, sempre excelente), Lucca abandona a sua agenda de shows e a gravação de um novo álbum para regressar a sua cidade natal no interior. A pausa é para rever a própria identidade, mas o contato com gente do passado, bem como Paula (Thaila Ayala), a nova gerente do bar em que se apresentava na infância com o seu irmão e Marcelle (Thaís Pacholek), só o deixa mais desnorteado.

.

+ Entrevista com Thaila Ayala sobre “Coração de Cowboy”

.

Paulistano com mais de uma dezena de créditos na direção de curtas-metragens, o paulistano Gui Pereira debuta no formato de longa-metragem em um filme de médio porte com apelo para conquistar espectadores que talvez não se reconheçam como um público-alvo. A leitura de um tom crítico quanto ao estado da música é possível, mas o direcionamento para a crise de identidade está mais sintonizada com os descompassos emocionais de Lucca do que necessariamente os artísticos.

Também surpreende como “Coração de Cowboy” vai aos poucos ganhando a nossa empatia. De versão adulta de um plot à lá “Gaby Estrella: O Filme” (a saída do urbano para o interior, a perseguição da agente inescrupulosa interpretada por Françoise Forton, a saúde fragilizada de um personagem chave), vai cedendo espaço para algo mais substancial e com o selo de aprovação de gente que entende do riscado, da participação de Lucas Lima na trilha sonora até as aparições de artistas como Chitãozinho & Xororó, Maurício Manieri e Rio Negro e Solimões.

.

+ Entrevista com a atriz Thaís Pacholek e o diretor Gui Pereira
+ Entrevista com Guile Branco e Gabriel Sater

O Banquete & Vazante

Resenha Crítica | Vazante & O Banquete (2017/2018)

Vazante & O Banquete, de Daniela Thomas

Após oito projetos coassinados com Walter Salles (entre longas, curtas e documentários) e outro com Felipe Hirsch (“Insolação“), Daniela Thomas finalmente assumiu sozinha a liderança de dois longas-metragens. Mas as repercussões e o azar do destino de algum modo arranharam a apresentação ao público de “Vazante” e “O Banquete” ao ponto de deixar a realizadora em uma encruzilhada de polêmicas.

Quando ainda cumpria com a agenda de exibições de “Vazante” em 2017 antes de lançá-lo comercialmente em novembro, Daniela teve a sua obra estigmatizada por um debate controverso no Festival de Cinema de Brasília um pouco mais de um mês antes. Segundo uma convidada presente, é um filme sobre o período da escravidão no Brasil em que a subjetividade dos personagens negros não é atendida.

Já “O Banquete” foi removido da programação do último Festival de Gramado às pressas com a notícia de uma fatalidade: o falecimento do jornalista Otavio Frias Filho. A decisão foi assumida porque Daniela não nega as influências da figura pública na composição de Mauro, personagem interpretado por Rodrigo Bolzan.

.

Coletiva de imprensa sobre o filme “Vazante”:

.

A questão da representatividade é uma pauta urgente, mas não parece totalmente justa a defesa de que “Vazante” nada mais é do que a correspondência de uma perspectiva branca e privilegiada quando esta na ficção assume a posição do explorador. As suas fragilidades são muito mais por uma condução narrativa do que essencialmente ideológica.

Por adotar uma posição mais observadora e menos intrusiva diante do próprio texto que escreveu em parceria com Beto Amaral, Daniela adentra um contexto histórico sem conseguir estabelecer vínculos com as figuras que nele habita – Luana Nastas sequer parece posicionada como uma protagonista na pele de Beatriz. A bela fotografia de Inti Briones tinge todos como iguais e os cortes abruptos constroem um estilo que se revela impactante ao final, mas é pouco.

Pior ainda é “O Banquete”. Um time de excelentes atores (entre os quais Drica Moraes, Fabiana Gugli, Mariana Lima, Caco Ciocler e Gustavo Machado) é todo refém de um texto menos perspicaz e ácido como julga ser, além de uma mise-en-scène realmente desastrosa: reparem a câmera que recua sempre que ameaça ser refletida na parede espelhada da sala de jantar onde todos se encontram.

A inspiração para o filme parte de um episódio no qual Otavio Frias Filho endereçou uma carta de teor crítico ao presidente Fernando Collor. Na ficção, tudo se concentra na noite em que é ameaçado de ser preso, aguardando o pior enquanto se reúne com amigos embriagados e dissimulados. Faz melhor quem for assistir o britânico “A Festa“, de Sally Potter e ainda em cartaz nos cinemas.

Benzinho

Resenha Crítica | Benzinho (2018)

Benzinho, de Gustavo Pizzi

Desde a sua retomada, o que não tem faltado no cinema brasileiro é o registro de histórias sobre gente como a gente, cujos conflitos surgem na sobrevivência do dia a dia. Nenhuma novidade, principalmente em uma cultura em que as telenovelas atingem as massas com maior eficácia.

No entanto, é um movimento recente dessas narrativas encenadas sem filtros, com intérpretes desprendidos de qualquer glamour ocupando espaços periféricos, estes finalmente exibidos além do eixo Rio-São Paulo. E que maravilhosa notícia que seja justamente a face de Karine Teles o centro de todas essas questões em “Benzinho”, o que de melhor o Brasil ofereceu no último ano para tentar concorrer a uma vaga ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro – a comissão da Academia Brasileira de Cinema optou pelo malfadado “O Grande Circo Místico”.

Se em “Que Horas Ela Volta?” a atriz carioca era a personagem que servia de reflexo pouco lisonjeiro da fatia mais abastada da sociedade brasileira, ela é em “Benzinho” o lado oposto, o invisível e invisibilizado da mulher que mata um leão por dia para ao fim ter o seu lugar ao Sol. Trata-se de Irene, esposa, mãe, dona de casa, empregada em serviços informais, estudante, sonhadora.

.

Entrevista com Karine Teles e Gustavo Pizzi sobre “Benzinho”:

.

O recorte que Teles e o seu ex-marido Gustavo Pizzi fazem de Irene é aquele em que o filho mais velho, Fernando (Konstantinos Sarris), recebe a oportunidade de ir para a Alemanha depois de se destacar no time de handebol no colégio. É um convite aceitado e que precisa ser correspondido em poucas semanas, confundindo os instintos maternos de Irene, que compreende a importância do sucesso de sua cria ao mesmo tempo em que não quer se desapegar dela.

Há outros conflitos para nebular a despedida de Fernando: o fracasso do pequeno negócio do marido Klaus (Otávio Müller), a necessidade da venda da hospedagem na praia para driblar as despesas, a arquitetura de uma nova casa enquanto a que é habitada vai ruindo, o amadurecimento precoce dos outros três filhos que precisam reconhecer a ausência de uma mãe que procura por um trabalho fixo em tempo integral, a formatura tardia, a proteção da irmã Sônia (Adriana Esteves, hoje uma de nossas atrizes mais extraordinárias) que é agredida pelo marido Alan (César Troncoso) e tantos outros impasses diários.

Escolhas repetitivas da montagem de Lívia Serpa (como as quebras estabelecidas com as intervenções dos fragmentos de Irene e Fernando abraçados em uma boia) e a falta de maior convencimento no aspecto da construção de um novo lar (de onde vem o dinheiro se ele não sobra?) não minimizam as demais virtudes de “Benzinho”, sendo a maior a de encontrar a catarse no mapa de sentimentos que se constitui o rosto de Karine Teles ao fim.

Carnívoras

Resenha Crítica | Carnívoras (2018)

Carnivores, de Jérémie & Yannick Renier

.:: Festival Varilux de Cinema Francês 2018 ::.

Respectivamente com 43 e 37 anos, os irmãos belgas Jérémie e Yannick Renier são artistas bem reconhecidos e respeitados na França, o primeiro como o favorito de cineastas como François Ozon e os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne e o segundo por uma atuação muito mais forte no teatro do que no cinema.

Com essas credenciais somadas à boa sintonia apresentada ao contracenarem juntos como irmãos em conflito em “Propriedade Privada” (2006), havia boas expectativas com a estreia como diretores. Pois elas não se cumprem em “Carnívoras”. Pior: o resultado é tão insípido que nem parece que eles aprenderam muito sobre os ofícios de direção e escrita com os grandes nomes com quem trabalharam previamente.

O cinéfilo que gosta de explorar o cinema independente encontrará ainda similaridades gritantes de “Carnívoras” com “Brilho Eterno”, thriller psicológico americano lançado ano passado em streaming no Brasil. Se naquele filme havia o reencontro tempestuoso entre as duas melhores amigas interpretadas por Mackenzie Davis e Caitlin FitzGerald porque uma alçou voos mais altos que a outra na carreira como atriz, aqui quase o mesmo se dá entre as irmãs Mona (Leïla Bekhti) e Samia (Zita Hanrot).

Samia é uma atriz badaladíssima e com família construída enquanto Mona é aquela figura solitária e generosa que topa ser a sua assistente pessoal durante as gravações do novo filme de Paul Brozek (Johan Heldenbergh), um cineasta um tanto controverso e perverso com a sua equipe. Samia, já cheia de perturbações externas, não aguenta o tranco e desaparece após a sua última diária.

O maior incômodo de “Carnívoras” é a sensação de que os Renier lidam aqui com a estrutura do mistério como se não tivessem qualquer conhecimento de causa. Além de estabelecerem uma estética sem identidade (veja o take da banheira com água azulada, por exemplo), os 98 minutos da duração soam intermináveis porque se deduz com uma distância enorme exatamente como tudo se desdobrará. Desta vez, a brincadeira de duplos não passa de uma bobagem.

Marvin

Resenha Crítica | Marvin (2017)

Marvin ou la belle éducation, de Anne Fontaine

.:: Festival Varilux de Cinema Francês 2018 ::.

.

+ Entrevista com Anne Fontaine sobre “Gemma Bovary: A Vida Imita a Arte”

.

A cineasta Anne Fontaine adora explorar personagens em situações cercadas de dilemas após a conformidade que então pautavam as suas existências. Basta relembrar “Lavagem a Seco“, “Nathalie X”, “A Garota de Mônaco” e “Gemma Bovery: A Vida Imita a Arte“, algumas de suas obras mais populares em que os impasses dramáticos acometiam sobretudo cônjuges então estabelecidos.

A diretora e roteirista francesa lida com uma abordagem diferente em “Marvin”, no entanto. O protagonista, Marvin Bijoux, já é visto na idade madura (e incorporado por Finnegan Oldfield) com questões superadas quanto ao seu passado, agora buscando investir em uma vocação artística ao invés de se ver quebrando paradigmas.

Acontece que quando pequeno (fase em que é interpretado por Jules Porier), Marvin passou por poucas e boas quando teve a sua orientação sexual reconhecida, sofrendo agressões físicas e verbais diariamente em sua escola. Em casa, o ambiente também não era acolhedor. Restou para o garoto se descobrir nas aulas de teatro, em que externava as suas dores ao ponto de conseguir com isso crescer e obter a sua independência.

Esses flashbacks da infância do personagem-título são notáveis e correspondem aos melhores momentos do filme. Já no tempo atual, Anne Fontaine e o seu parceiro de escrita Pierre Trividic se perdem em alguns desdobramentos, como o relacionamento com Roland (Charles Berling), um homem mais velho e influente que apresenta Marvin à Isabelle Huppert – sim, a atriz interpreta a si mesmo.

De qualquer modo, o interesse não se dissipa em sua totalidade. Não somente pela presença curiosa de Huppert, mas pelo texto avaliar os comportamentos dissimulados da família de Marvin quanto este finalmente passa a ter a sua veia artística explorada com sucesso. A aceitação passa assim a ser de caráter mais individual do que necessariamente dependente de terceiros.

Camocim

Resenha Crítica | Camocim (2017)

Camocim, de Quentin Delaroche

Se o período de eleições pavimenta por semanas as grandes metrópoles do Brasil com os seus candidatos promovendo passeatas, adesivaços e distribuições de santinhos, nos pequenos municípios a coisa toma proporção de blocos de carnaval. É exatamente esse clima de festa que impera no registro de Quentin Delaroche em seu “Camocim’.

Cidadezinha do Pernambuco com um pouco mais de 18 mil habitantes, Camocim de São Félix se viu bem agitada em 2016. Na multidão, Delaroche identificou Mayara Gomes, uma jovem de 23 anos que abraçou a função de cabo eleitoral do vereador e amigo César Lucena, do PMDB.

Pertence à ela o protagonismo do documentário, com uma câmera que acompanha a sua peregrinação em um contexto político em que predominam a ação da oposição, os cultos religiosos intensificados e uma mobilização juvenil ainda não contaminada com as regras do jogo eleitoral. Mayara vem como uma figura persistente, afastada dos discursos conservadores de onde habita e convicta de que pode reverter as falcatruas da velha política, como a compra de voto.

.

Entrevista com Mayara Gomes e Quentin Delaroche sobre “Camocim”:

.

Trata-se de um documentário que chega em boa hora, um pouco superior diante do movimento empenhado em conceber híbridos (com a manifestação da ficção quando o verídico não oferta o impacto que realizadores pouco honestos ambicionam) e com uma estratégia de lançamento a preço popular e a inclusão de debates (é o filme de setembro da Sessão Vitrine Petrobras) que pode atingir um público além do restrito.

Falta somente um olhar mais incisivo e menos contemplativo dessa realidade de “Camocim”, algo que o realizador francês consegue com sucesso somente no encaminhamento para o encerramento de sua obra, quanto a polarização é ilustrada com uma perfeita simetria entre azuis e vermelhos. “Gretchen Filme Estrada” é uma obra relacionada superior, por exemplo.

O Homem que Parou o Tempo

Resenha Crítica | O Homem que Parou o Tempo (2018)

O Homem que Parou o Tempo, de Hilnando SM

Alguns teóricos do cinema classificam como pós-terror a narrativa de horror que tem em sua essência fatores dramáticos que se sobressaem a uma gramática em que se priorizava o mero susto ou a manifestação física e imediata de um perigo. Logo deverão avaliar também a condição atual da ficção científica, em que o fantástico nem sempre é explícito.

Com orçamento limitado, o estreante Hilnando SM (como assina Hilnando Souto Mendes) tenta estabelecer um exercício de imaginação ao apresentar o seu protagonista João (Gabriel Pardal). Rapaz na faixa dos 30 anos, planeja executar um plano em que seja capaz de interromper o curso do tempo.

Se não o flagramos caminhando a esmo por uma Rio de Janeiro fotografada em tons de cinza por Tiago Rios, João fica isolado em um apartamento alugado cujos adereços são garrafas pet de água, anotações fixadas na parede, um colchão, peças de roupa espalhadas e um aparelho celular fora de moda que toca incessantemente.

A intenção mirabolante de João, no entanto, vai servindo somente de justificativa para uma viagem existencial, na qual reflexões buscam ser estabelecidas dentro de seu isolamento social, o mergulho em códigos de programação e algumas interações pontuais com indivíduos de fora. O seu amigo Lucas (Iuri Saraiva) e a desconhecida Mai (Camila Márdila) são alguns deles.

Seria um diagnóstico curioso sobre o enfado de uma geração às voltas com as responsabilidades mundanas assumidas em um cotidiano em que o tempo passa com a ausência de vibrações significativas. Há, entretanto, três problemas gravíssimos que desmantelam “O Homem que Parou o Tempo”.

Com uma figura central apática como João, é difícil o interesse para acompanhar a sua estagnação. Com poucas ferramentas em mãos, Hilnando SM é repetitivo na sensorialidade. Por fim, a enxuta duração de uma hora só fortalece a suspeita de extensão de algo que seria melhor alocado em um formato de curta-metragem.

Izabel Jaguaribe

Entrevista com Izabel Jaguaribe, codiretora do documentário “Tudo é Irrelevante, Helio Jaguaribe”

+ Resenha crítica de “Tudo é Irrelevante, Helio Jaguaribe”

.

Em 2000, Izabel Jaguaribe codirigiu o documentário televisivo em média-metragem “Passageiros”. Porém, antes desse crédito, a carioca já havia dado alguns passos no campo de cinema, incluindo a atuação como assistente de direção de nomes como Walter Salles (“A Grande Arte”) e Suzana Moraes (“Mil e Uma”). Somou também uma graduação em Comunicação Social e uma série de trabalhos campo da publicidade.

O tempo comprovou um interesse predominante pelo documentário. Em algum momento dessa trajetória, surgiu a ideia de realizar um em que o seu pai, o intelectual Helio Jaguaribe, fosse a figura central. Materializou-se assim “Tudo é Irrelevante, Helio Jaguaribe”, atualmente em cartaz nos cinemas – nesta quinta-feira, 6 de setembro, passará a ser exibido também no Espaço Itaú de Cinema Augusta, de São Paulo.

Confira a seguir a entrevista que Izabel concedeu ao Cine Resenhas por e-mail, em que discorre sobre como se dão os debates políticos e existenciais na nossa contemporaneidade, o efeito que Helio deve causar nos jovens e a parceria com Ernesto Baldan na direção.

.

A sua carreira forma uma grande bagagem que abriga projetos cinematográficos, televisivos e comerciais. A ideia de realizar um documentário sobre o seu pai Helio Jaguaribe era fermentada há muito? Quando ela de fato começou a tomar formas?

Sim, essa ideia vem de longa data. Sempre tive vontade de registrar as ideias de meu pai e aproveitar sua grande capacidade de eloquência e vivacidade. Comecei esse projeto em 2008, por aí você pode ver o quanto de tempo foi empregado para realizar esse filme.

Helio é parte de um grupo de intelectuais que contribuiu para que sua geração compreendesse e questionasse especialmente o contexto político que vivia. Como acredita que o seu documentário impactará a essa geração atual que agora o assiste?

Acho que o documentário veio a ser lançado em um momento muito oportuno, estamos mais do que nunca precisando debater nossa vida política. Gostaria muito que esse filme fosse visto por jovens também, fizemos inclusive um esforço de sair do terreno estético mais tradicional para tentar investir em uma linguagem mais renovadora e assim conquistar um público mais jovem. Acho importante mostrar para as novas gerações a nossa história, somos um país sem memória e é fundamental olharmos o passado para melhor traçarmos um futuro. Uma das maiores contribuições que acredito termos registrado nesse projeto é a da discussão produtiva, pessoas com ideias diferentes e pensamentos diversos conseguindo dialogar em harmonia. Acredito que hoje estamos muito inflamados e destemperados, as discussões na web adquirem carácter muito contundente e às vezes nocivo. Sou completamente favorável a termos posições convictas, o que não significa necessariamente ser impositivo e autoritário. Continuo achando que a democracia é nossa melhor opção e, portanto, um debate frutífero deve ser construído.

É inevitável não refletir dentro de nossa contemporaneidade a presença dos debates políticos e intelectuais na plataforma virtual. Como avalia essa transferência de algo outrora presente fortemente na comunicação impressa e nas instituições de ensino para um ambiente em que qualquer um pode assegurar o seu púlpito? Idealiza a atuação de Helio nesse cenário?

Por um lado, acho muito bom termos esse ambiente virtual que nos oferece possibilidade de atingir muita gente e trocar ideias e impressões, mas temos que ter cuidado para não cairmos num círculo fechado de ideias parecidas e acharmos que todos pensam assim, pois os tais algoritmos nos levam a ver as pessoas que tendem a pensar da mesma forma. Por outro lado, quando somos expostos à diversidade de pensamento sem estarmos de corpo presente, esse “anonimato” que as redes sociais cibernéticas nos oferecem, ou até mesmo apenas o fato de estarmos mais “protegidos” por trás dos computadores, pode nos levar a uma postura arrogante, muito afirmativa e sem abrir espaço para verdadeiramente tentar ouvir o outro, o que é extremamente prejudicial, pois ao invés de um debate, ocorre uma guerra e num cenário violento acaba sendo mais fácil surgirem posições extremistas e simplificadoras, como se houvesse um salvador e infelizmente não há. Para conseguirmos mudar várias coisas, será necessário criar um consenso. Lembro de meu pai falando que em alguns momentos históricos fica mais fácil criar esse ambiente de consenso e creio que não estamos atravessando um período assim. Helio hoje está mais retirado por problemas de saúde, mas acho que quando se tem ideias claras e com respaldo histórico, sempre é possível fazer bom uso dos espaços públicos, sejam eles virtuais ou não.

Tudo é Irrelevante, Hélio Jaguaribe

Há uma estética muito particular em seu registro, notória especialmente na sobreposição de imagens e nas rolagens exibindo as transformações dos períodos históricos debatidos. Quais foram as discussões com Ernesto Baldan neste aspecto?

A presença do Ernesto Baldan foi fundamental para que o projeto se realizasse, tanto pelo ponto de vista de me dar fôlego para continuar, uma vez que ter um parceiro num trabalho tão longo e que exigiu tanta dedicação é encorajador, como do ponto de vista autoral, onde dei total liberdade de criação para ele no terreno visual. O Ernesto é um artista inventivo, que gosta de criar universos e o faz com uma proposta estética focada, imprimindo um estilo e assim conseguindo harmonizar todo o material, muitas vezes radicalmente distinto. Por termos misturado imagens de arquivo, desenhos, ilustrações e captações com diferentes câmeras (afinal foi feito ao longo de muito tempo, de maneira que houve uma mudança tecnológica que nos acompanhou ao longo desses anos), sentimos necessidade de dar uma cara para o filme, fugir do que seria uma colcha de retalhos, pois queríamos criar um universo próprio e acho que isso ele conseguiu fazer lindamente.

“Tudo é Irrelevante” é pontuado por algumas citações de Helio Jaguaribe. Qual é a mais marcante para você?

Vou falar duas (risos). Eu amo a citação que ocorre na cena das formigas caminhando: “Do ponto de vista cósmico, a vida e a morte de um homem e as de um inseto são igualmente irrelevantes.” Acho que além de ser verdadeira, tem humor, o que eu sempre prezo muito. Outra que gosto demais e concordo com ela intelectualmente é a última citação: “Independente da falta geral de sentido do cosmos, a vida do homem tem o sentido que este lhe der e o que é irrelevante é a irrelevância geral das coisas”. Ela nos reduz ao insignificante que somos, mas abre a possibilidade de tomarmos as rédeas de nossas vidas e assim ganharmos significado. Isso me dá um certo otimismo e esperança.