Marc Dourdin

Entrevista com Marc Dourdin, diretor do documentário “Ultraje”

Francês radicado no Brasil, Marc Dourdin trabalhou como assistente de Toni Venturi há 12 anos com o ótimo documentário sobre a grande Rita Cadillac, “A Lady do Povo”. Já por conta própria, seguiu demonstrando o interesse por figuras curiosas, como no curta-metragem “A Passagem” (2011), em que apresentava a carpideira Itha Rocha, uma pessoa contratada para chorar em velórios.

Oito anos depois (e um prêmio de público na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo por “Monstros do Ringue”), Marc agora reúne arquivos e depoimentos da banda “Ultraje a Rigor”, que estourou entre o fim dos anos 1980 e a metade de 1990 com letras que usavam um verniz cômico para contestar o estado das coisas.

Em entrevista cedida por e-mail, Marc revela cada etapa do processo de construção do documentário, ainda em cartaz em algumas salas dentro do Projeta às 7, iniciativa da Rede Cinemark que visa ofertar ao público a produção brasileira alternativa a preços populares.

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Em sua filmografia, há o envolvimento com documentários que tratam de figuras como Rita Cadillac, a carpideira Itha Rocha e até mesmo os astros de telecatch em “Monstros do Ringue”. Como é em “Ultraje” adentrar o universo da música?

Desde criança gosto muito de música, nasci no final de 1978 e vivi minha infância e começo da adolescência nos anos 80 e início dos 90. A música sempre fez parte da minha vida, e ao escutar um disco ou alguma canção, naturalmente associo à algum momento da minha história ou fase pela qual estava passando. Em todos os meus filmes, tive uma preocupação enorme com a produção das trilhas e o sentimento que cada uma deveria passar para o momento da história que estava sendo contada.

O “Ultraje” de alguma forma marcou minha infância e adolescência com suas músicas, assim como tantas outras bandas que admiro e que fizeram parte do BRock. De alguma forma, acredito que essas bandas fizeram a trilha sonora de uma geração. Fazer o filme do “Ultraje” me trouxe muitas lembranças de volta. Acho que filmes musicais têm esse poder e atingem as pessoas de uma forma diferente, ainda mais quando o assunto é uma banda que teve um sucesso tão grande com músicas que marcaram uma época e que são relevantes até hoje.

Qual era o seu envolvimento com o “Ultraje a Rigor” antes da produção do documentário e como o grupo o impactou durante a sua juventude?

Meu envolvimento com a banda até o dia em que pensei na possibilidade de fazer o filme era simplesmente como um fã, eu admiro a obra do “Ultraje” e acho que ela marcou uma geração. Me lembro ainda criança da primeira vez em que ouvi “Marylou”, achei aquilo muito divertido, foi um sucesso entre as crianças da minha idade. Tempos depois, já mais maduro no começo dos anos 90, passei a reparar nas letras e ver que tinha muita coisa por trás daquelas músicas que até então só me pareciam divertidas e engraçadas. Comecei a reparar nas críticas feitas de forma bem humorada e ácida, e na visão particular sobre o Brasil que elas traziam. Isso me fez curtir ainda mais o som da banda, fui em muitos shows deles ao longo dos anos 90.

“Ultraje” apresenta um arquivo definitivamente riquíssimo, o qual cobre toda a trajetória da banda e ainda inclui a coleta de depoimentos recentes de Roger Moreira e companhia. Como foi estabelecer o roteiro com Daniel Chaia e a montagem com Vitor Alves Lopes a partir de todo o material bruto? 

Posso dizer que o roteiro e a montagem foram um longo processo e fundamental para o resultado final do filme. Em um documentário, o roteiro muda muito, uma vez que quando você começa a mergulhar no assunto e no universo retratado, inúmeras pessoas, materiais e ideias começam a surgir. Especialmente no filme do “Ultraje”, havia toda uma cena, um contexto político e social, e uma estética que influenciou muito a banda, e isso, na minha opinião, precisava ser mostrado no filme. Conforme o Daniel Chaia e eu formos mergulhando nesse universo, fazendo pré-entrevistas informais com os potenciais depoentes, o universo foi se abrindo frente a nossos olhos e fomos percebendo o que nos parecia ser um caminho legal a ser seguido para contarmos essa história.

Já na fase de montagem, com boa parte das filmagens concluídas, junto com o montador Vitor Alves Lopes, fomos fazendo as conexões e traçando o caminho final que o material captado nos apresentava. Muito material de arquivo foi descoberto ao longo desse processo, e isso influenciou muito a montagem final do filme. Muitas coisas inéditas, feitas pela própria banda com câmeras pessoais, estavam guardadas com os integrantes e ex-integrantes, principalmente com o Roger. Esse material é único e serviu para ilustrar momentos de grande impacto no documentário. Momentos com falas registradas na época, como no show surpresa na marquise de um shopping na Avenida Paulista, além de inúmeras gravações de bastidores de shows, momentos de intimidade da banda em deslocamentos de ônibus durante turnês nos anos 80 e registros de shows feitos pela produção da banda nos anos 90. Tudo isso enriqueceu muito visualmente o documentário. Procuramos trazer no filme coisas que não se acham em extras de um DVD sobre a banda, ou mesmo informações que você não encontra na internet dando um google, essa era a ideia, entrar no universo da banda de uma forma singular.

Muito além de contar detalhadamente a gênese do “Ultraje a Rigor”, o seu documentário também aborda a ascensão de outras bandas, tanto mainstreams quanto alternativas, que desenharam um universo oitentista particular para o rock nacional, desde o modo como se promoviam até como contestavam o status quo. Cogitou em alguma etapa de “Ultraje” reunir depoimentos desses demais artistas?

Sim, cogitei, até porque essas bandas e esse universo todo me fascinam. 80% do filme se passa nos anos 80, período que foi o auge do “Ultraje”. Conforme a produção e a pesquisa foram caminhando, me dei conta que para contar a história do “Ultraje” eu já teria muitos depoimentos de ex-integrantes que foram fundamentais para a trajetória da banda, além de pessoas importantíssimas do mercado fonográfico, como André Midani, Pena Schmidt, Liminha e, num segundo momento do filme, o Rafael Ramos. De certa forma, o Pena já trazia um pouco sobre os bares e locais onde essas bandas tocavam. Temos também um grande representante dessa cena que circulou por muitas dessas bandas, que é o Edgard Scandurra, que foi integrante do “Ultraje” e nos conta muitas histórias que nos situam nesse momento do rock brasileiro com bastante propriedade. Dessa forma, achei que a cena, as bandas e o momento estavam devidamente representados e contextualizados no filme, somados aos depoimentos dos integrantes do “Ultraje” na época.

De certo modo, há poucos representantes desta geração que promovem um impacto parecido com aquele obtido pelo “Ultraje a Rigor” lá atrás, com letras marcadas por um humor subversivo que desafiava principalmente a censura televisiva. Como avalia o cenário musical de hoje?

De certa forma, vamos contextualizando no filme a trajetória do “Ultraje” a partir de mudanças marcantes na sociedade e no mercado fonográfico. Algumas reflexões do André Midani, do Rafael Ramos, do Pena Schmidt e do próprio Roger nos levam a entender um pouco como as coisas foram mudando e como a indústria foi evoluindo ao longo do tempo. Acho que o cenário que temos hoje é reflexo, entre outras coisas, da evolução da indústria da música, que muitas vezes procura por um hit, e não em desenvolver a carreira de um artista. Dessa forma, temos cada vez mais artistas de um sucesso só, que depois de um tempo somem. Não sou um especialista em música, mas me parece que nossas grandes referências, pelo menos no universo do Rock, continuam sendo em sua maioria essas bandas que surgiram nos anos 80: “Paralamas”, “Legião”, “Ira!”, “Titãs”, “Capital Inicial”, “Ultraje”…

Outro ponto importante no cenário musical de hoje é que é muito mais fácil para as bandas se mostrarem, o digital possibilitou que muita gente tivesse acesso a equipamentos para gravarem suas demos e publicarem seus trabalhos na internet. Ao mesmo tempo, sinto falta de um trabalho de “curadoria” que ajude o grande público a chegar nos artistas que têm obras mais consistentes e maduras para serem lançadas e trabalhadas comercialmente.

A Esposa

Resenha Crítica | A Esposa (2017)

The Wife, de Björn Runge

A americana Glenn Close, que completará 72 anos de vida no dia 19 de março, é hoje a atriz que detém o recorde de indicações ao Oscar, somadas nas categorias de protagonista e coadjuvante, sem nenhuma vitória. A sétima é marcada pela sua interpretação em “A Esposa˜. É a favorita nesta edição do Oscar, cuja cerimônia acontece no dia 24 de fevereiro. Antes tarde do que nunca, pois Glenn sem uma estatueta dourada é um crime que há muito já deveria ser reparado.

O melhor de tudo é que essa consagração não é acompanhada por uma interpretação pertencente a um filme no máximo razoável, causando o sentimento de mero prêmio de consolação. Mesmo levando 14 anos para ser viabilizado, “A Esposa” segue atual em sua abordagem sobre mulheres em circunstâncias que as forçaram a desempenhar o papel de sombra de seus maridos e que encontram um limite tolerável para finalmente dar um basta na situação. Glenn reproduz o enclausuramento de sua personagem com gestos sutis que comunicam tudo, em parte por mérito da direção do sueco Björn Runge, então um nome pouco conhecido pelos cinéfilos que logo trabalhará em seu segundo longa-metragem falado em inglês.

Assista o meu comentário na íntegra sobre “A Esposa” no vídeo a seguir:

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