Mauro D'Addio

Entrevista com Mauro D’Addio, diretor de “Sobre Rodas”

Atualmente em cartaz em várias salas pelo Brasil, a aventura “Sobre Rodas” é uma rara inclusão de nosso cinema que tem como público-alvo o público infantojuvenil, embora a graciosidade de sua história também seja capaz de seduzir adultos. Protagonistas, Lucas e Laís são colegas de classe com 13 anos que se unem para lidar com dois entraves: a imobilidade após um acidente e a ausência de uma figura paterna.

Elogiado pelo público e crítica pelos festivais em que foi exibido mundo afora,”Sobre Rodas” é discutido pelo seu realizador Mauro D’Addio, que concede para o Cine Resenhas uma entrevista em que revela a preparação de seu primeiro filme no formato de longa-metragem. Também avalia o cenário atual para produções do segmento, ausente de representantes.

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Ainda que ambientado em uma contemporaneidade na qual as crianças e adolescentes parecem reféns dos avanços tecnológicos, “Sobre Rodas” é uma aventura que tem uma certa nostalgia não somente pelo clima de road movie interiorano, como também por privilegiar em seus protagonistas um senso de curiosidade bem lúdico. O que trouxe de suas experiências pessoais para essa história e o quanto ela é importante para o público infantojuvenil?

Cada infância e adolescência é única e singular, a tecnologia e os gadgets hoje estão muito presentes, mas o uso disso por um pré-adolescente de uma zona rural é diferente de um jovem de classe média em uma cidade grande. Além do que, nossas crianças e jovens vivem com intensidade, passam por emoções fortes, dúvidas, e são atravessados por inúmeras questões, então é importante apontarmos seu protagonismo e singularidades, não colar estereótipos ou rótulos de como achamos que eles são, para sabermos ver e ouvir suas demandas. Dito isso, claro que havia sim, no filme, um desejo de trazer essa atmosfera de roça, de cidade perdida no tempo, com sabores rurais de galinhada, goiabada, além da bela estrada de terra.

Como foi para você o processo de abordar os contextos delicados atravessados por seus personagens centrais, sendo a limitação da mobilidade do Lucas após um acidente e como Laís lida com a ausência de uma figura paterna?

Toda pessoa lida com questões difíceis, o público infantojuvenil não é diferente. Vejo no filme uma ferramenta de reflexão. Narramos uma história de descoberta, aventura, amizade, mas, sobretudo uma história de resiliência frente às adversidades, um olhar singelo sobre dois jovens que, juntos, elaboram seus lutos íntimos, a perda do movimento das pernas, no caso dele e a perda do pai, no caso dela. Estas são questões universais e humanas.

Conceber um projeto infantojuvenil é sempre difícil, desde o longo processo de escalação do elenco até as diferentes jornadas de trabalho que devem ser respeitadas, às vezes sob os olhos dos pais de seus jovens intérpretes. As suas experiências prévias o fizeram lidar com tudo isso com grande naturalidade em sua estreia no formato de longa-metragem? Como chegou até Cauã Martins e Lara Boldorini?

É preciso zelo, cuidado e, sobretudo, respeito, para produzir com e para o público infantojuvenil. Minha filosofia de trabalho é buscar um ambiente atrativo para o trabalho, motivar, brincar, inspirar. Creio que estar em cena deve ser uma deliciosa brincadeira, feita com responsabilidade, mas sem perder este frescor, acredito que isso ajuda a chegar em uma “verdade” de cena.

A seleção de elenco, para mim, era crucial, testamos cerca de 260 jovens para chegar nos quatro principais. Cauã foi uma escolha natural, ele já tinha muita experiência e nos impressionou muito nos testes de VT. Para a personagem de Laís, tivemos mais dificuldade, não achávamos, parte da equipe gostava de uma menina, eu estava em dúvida e, no último dia de testes, apareceu a Lara. Houve muito debate, mas vi, na Lara, o brilho que esperava ver na Laís, não teve jeito, e hoje agradeço essa escolha.

Também tivemos um importante processo de preparação de elenco com a Ariela Goldman e outros parceiros, que foi fundamental para chegarmos no tom que queríamos para as cenas.

“Sobre Rodas” estreia comercialmente no Brasil após passagens por vários festivais, incluindo internacionais. Quais têm sido as questões mais curiosas diante da sua proximidade com as plateias estrangeiras?

“Sobre Rodas” foi eleito o melhor filme pelo público no TIFF Kids – Festival de Toronto (Canadá), melhor filme pelo júri no Chicago International Children’s Film Festival (EUA) e na Mostra Geração, do Festival do Rio, ganhou prêmio SIGNIS, na Alemanha, além de outras premiações no Canadá, Chile, Peru e Brasil. Foi selecionado para mais de 20 festivais ao redor do mundo, lançado comercialmente na Romênia, Bélgica e vendido para territórios como China e EUA. No Brasil, o filme foi exibido nas Mostras infantojuvenis dos festivais de Gramado, Brasília, Rio, BH, FICI, Tiradentes, Panorama Coisa de Cinema, entre outros.

Tive a oportunidade de ver o filme em plateias muito distintas, geralmente em salas lotadas com centenas de adolescentes, no Canadá, EUA, Alemanha, Suécia, Polônia, Chile e até na Bahia, é lindo de ver pois é um público muito sincero, eles reagem, torcem, vibram, respondem imediatamente ao filme. É interessante como algumas coisas funcionam de modo diferente para cada cultura, mas há uma universalidade no filme que o faz se comunicar com todos esses públicos, apesar das diferenças culturais. A pergunta padrão dos debates é, “Vai ter ‘Sobre Rodas 2’?”.

Mesmo com a aguardada vinda de uma versão live-action de “Turma da Mônica” e das encarnações cinematográficas do trio de “Detetives do Prédio Azul”, cujos dois filmes foram um dos poucos de nossa cinematografia a bater a marca de 1 milhão de espectadores nos últimos anos, o cinema brasileiro ainda carece de produções que tenham crianças e adolescentes como o público-alvo. Por que há essa lacuna e como visualiza a sua contribuição com ˜Sobre Rodas” em preenchê-la?

Concordo que existe uma lacuna importante a ser preenchida, se desejamos futuro para nossas produções, precisamos ter mais foco na formação de público. Vejo uma somatória de questões que contribuem para um cenário difícil, para além das conhecidas desigualdades de competitividade com a produção estrangeira, sinto muito desconhecimento, poucas iniciativas trabalham com foco em escolas, estruturando um cenário forte para produções de qualidade atingirem um público que demanda alguma mediação familiar ou de educadores para acessar este conteúdo.

Muitos distribuidores, exibidores e produtores têm medo, consideram um público sem poder aquisitivo e autonomia decisória, além do risco envolvido, toda questão fica mais delicada neste tipo de produção, a classificação indicativa pode acabar com uma obra. É preciso também um olhar específico com políticas públicas e regulatórias sólidas de incentivo à produção e veiculação destas obras.

São muitas questões, mas a que mais me incomoda é esse olhar pejorativo, de “filminho”, “livrinho”, “mostrinha”, esse tipo de visão que rotula a produção para infância e juventude como algo menor, menos importante. Isso tem inclusive impacto bem real, alguém de 12, 13 anos não vai na mostrinha, sabe? Se considera desrespeitado, pois não se vê mais como “criancinha”. Sofremos um pouco com isso no Brasil. “Sobre Rodas” é um filme para crianças e jovens de todas as idades, temos espectadores de 3 até 80 anos gostando do filme. Gosto muito disso, esse caráter intergeracional nos aproxima. Creio que precisamos nos aproximar de nossa juventude e oferecer obras diversas, para além dos formatos super comerciais, que devem existir, mas podemos oferecer outros perfis de obras também, esse é o lugar do “Sobre Rodas”, um lugar de encantamentos.

Igor Souza Maria Carolina da Silva

Entrevista com Maria Carolina da Silva, codiretora do documentário “Diários de Classe”

Um dos primeiros filmes do calendário 2019 do Projeta às 7, iniciativa da Rede Cinemark e da distribuidora Elo Company que visa ofertar ao público um recorte do cinema brasileiro independente e alternativo a preços populares, o documentário ˜Diários de Classe” estreia comercialmente em um período oportuno e conturbado, trazendo questões que aquecem o debate sobre os sistemas de ensino e carcerário do país, bem como todas as mazelas sociais que atingem principalmente as mulheres negras da periferia, devidamente representadas por três figuras reais acompanhadas pelas câmeras dos realizadores Maria Carolina da Silva e Igor Souza.

A seguir, Maria concede para o Cine Resenhas uma entrevista em que aborda o processo de filmagem de “Diários de Classe”, que registrou passagens por festivais como o 50º Festival de Brasília, XIII Panorama Internacional Coisa de Cinema e o 7º Olhar de Cinema e que segue em exibição nos cinemas.

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Ao que deve a parceria por trás das câmeras de “Diários de Classe”? Quais os rumos que atravessaram até o encontro para a realização do projeto como dupla?

Eu, Maria Carolina, trabalho há cerca de 20 anos no audiovisual como produtora e assistente de direção para cineastas como João Jardim e Edgard Navarro. Nesse período, dei os primeiros passos para assumir a direção, roteiro e montagem dos meus filmes, curtas-metragens que fiz na época em que cursava o Bacharelado Interdisciplinar em cinema da UFBA e coordenava um projeto de formação de cineclubes em escolas públicas, o Projeto Lanterninha. Igor Souza vem de uma formação em arquitetura, mas ainda na faculdade começou a trabalhar como cenógrafo em peças de teatro e acabou indo também para o audiovisual como diretor de arte de filmes de ficção e animação. Em 2012, a gente se encontra e começa a pensar em um trabalho juntos, é quando surge o curta de animação “Entroncamento”, a princípio pensado para ser filmado com atores, mas como queríamos trabalhar os aspectos mais simbólicos do nosso personagem e de sua trajetória, acabamos optando por realizá-lo em animação. Depois desse primeiro curta, que passou por diversos festivais, entre eles o Animamundi, desenvolvemos um piloto para uma série de animação infantil “Aventuras de Amí” e conseguimos captar para a realização do “Diários de Classe”. Já víamos então trabalhando juntos nesses projetos e fomos entendendo como funcionava a nossa parceria, como nossos percursos poderiam se somar para fazer esses trabalhos. No “Diários de Classe”, desenhamos uma parceria que nos pareceu mais orgânica, em que eu estava mais próxima das personagens na condução das cenas e Igor, mais atento à construção da imagem.

No documentário, somos apresentados a três mulheres de Salvador em circunstâncias muito distintas. Como foi o processo de busca até a escolha dessas personagens reais?

Pelo experiência de 5 anos com formação de cineclubes em escolas públicas, eu e Daiane Silva, pesquisadora do filme e que também fora coordenadora pedagógica do Projeto Lanterninha, já sabíamos que os professores seriam os nossos aliados na busca pelas salas de aula que pudesse expressar o conteúdo que estávamos buscando. Então, primeiro encontramos essas salas: uma sala de aula em um presídio, já que estamos falando de educação como prática de liberdade, uma sala de aula em que estudassem empregadas domésticas (classe de trabalhadoras mais afastada da escola) e uma sala de aula em que uma jovem transgênera estivesse em processo de alfabetização. Escolhidas as salas, utilizamos a estratégia de exibir filmes como geradores de conteúdos e, dessa forma, pudemos chegar mais perto dos alunos e deixá-los mais à vontade para se expressar, deixando sempre claro o que estávamos fazendo. É aí que surgem Maria José (empregada doméstica), Vânia Costa (que estudava na escola do presídio) e Tifany Moura (adolescente trans moradora de um abrigo para menores). Um encontro entre quem quer falar e quem quer escutar. Mulheres que precisavam falar o que pensam, expor suas experiências de vida e que se juntaram a nós para contar essas histórias no filme.

No núcleo em que as atenções são centradas em Vânia Costa, há um acesso revelador sobre o contexto penal que atravessa. Qual a complexidade de registrar a sua história dentro do enclausuramento?

Nós tivemos uma acolhida muito boa dentro da penitenciária feminina, a diretora de lá é também professora de EJA. A confiança que estabelecemos com ela e com a professora foi muito importante para que circulássemos na área da escola sem maiores problemas. Porém, é um espaço bastante complexo e colocar uma câmera e um microfone requer muita consciência do que isso significa, o que significa uso das imagens daquelas mulheres. Primeiro frequentamos a sala de aula sem o aparato cinematográfico, exibimos filmes e propomos debates, ganhando mais confiança no nosso trabalho e, quando começamos a filmar, respeitamos quem queria e quem não queria ser filmado, deixando de fora do quadro as mulheres que não quiseram ter suas imagens registradas. Por isso também optamos em por a câmera no fundo da sala, como se fosse uma aluna, para expor menos as mulheres que queriam participar. Apesar da boa circulação no espaço das salas de aula, a entrada para as celas e para o pátio do presídio foi mais difícil. Entramos apenas duas vezes com hora marcada. Tínhamos que ter sempre uma agente para nos acompanhar e existiam mais mulheres que não queriam ser filmadas. Mas acredito que a equipe estava bastante atenta e pronta para o registro e a relação estabelecida com Vânia possibilitou que realizássemos as cenas que queríamos. É muito difícil estarmos nesse espaço, principalmente para as mulheres da equipe. Porque muitas mulheres estavam na mesma situação que Vânia, desorientadas, abandonadas à sua própria sorte e isso nos fazia pensar muito nessa sociedade em que vivemos, porque elas estavam ali e não nós. Mas ao mesmo tempo em que nos abatíamos com essa realidade, também tínhamos mais vontade de contar essa história.

Além de Vânia, Tifany Moura e Maria José Santana permitem que novas questões sejam expostas sobre a condição de indivíduos marginalizados pela nossa sociedade, principalmente a mulher negra da periferia. Como tem sido na trajetória por festivais e agora no lançamento comercial de “Diários de Classe” os debates sobre essas pautas?

Nossa primeira exibição foi no festival de Brasília, dentro da mostra Corpos Indóceis, a convite do então diretor artístico Eduardo Valente. Levamos parte da equipe e também Maria José e Vânia e ficamos muito felizes com o envolvimento do público e com o debate que se seguiu. Durante o fim de 2017 e em 2018, circulamos por festivais nacionais e alguns internacionais, sempre muito bem acolhidos pelo público nos debates, principalmente quando conseguimos levar nossas personagens, mulheres inspiradoras. Porque estamos nesse momento em que precisamos debater, se encontrar, trocar e acreditamos que o “Diários” nos mobiliza pra isso, porque a gente parte da educação para falar sobre a falta de acesso a ela, que vai perpassar por todo um sistema excludente e perverso de manutenção das desigualdades.

Produzido em 2017, “Diários de Classe” recebe uma relevância extra agora com as resoluções das novas diretrizes educacionais em nosso país. Continuam acompanhando Vânia, Tifany e Maria? Como têm sido afetadas nos cenários sociais e políticos que se desenham em 2019?

Vânia, Tifany e Maria se tornaram parceiras de vida, dividimos juntos o desejo de continuar falando sobre esses problemas. Percorremos com Vânia o desenrolar de todo o processo criminal que a levou a ser inocentada no final de 2018. Hoje Vânia está em busca de emprego, o que é muito difícil para uma mulher que esteve encarcerada, você perde toda a credibilidade, mesmo sendo inocentada das acusações. Me tornei madrinha social de Tifany, acompanhando ela em todos os abrigos por quais passou depois do que foi filmada, hoje ela tem 18 anos e estamos tentando que ela permaneça no Pérolas de Cristo até os 21, porque ela ainda não está alfabetizada e ainda precisa do apoio do Estado. Precisa lidar diariamente com o preconceito e tenta, apesar de tudo, se manter saudável para tentar pensar em um futuro fora das ruas. Maria José é amiga e conselheira, trabalha agora como merendeira em uma escola pública de Salvador. Tem se mostrado bastante apreensiva, ainda mais depois da tragédia da escola em Suzano. Ela e Tifany ainda frequentam a escola, essa escola que pretendem desmobilizar, esvaziar ainda mais as salas de aula com essa proposta de ensino à distância, que na modalidade da EJA chega a 80%.