João Paulo Procópio

Entrevista com João Paulo Procópio, diretor e roteirista do filme “Marés”

Sócio da produtora brasiliense Pavirada Filmes, João Paulo Procópio já se desdobrou em várias funções na construção de curtas e longas-metragens de ficção, da montagem do premiado “O Último Cine Drive-in” (2015) a assistência de direção de “Simples Mortais” (2011, com Leonardo Medeiros no elenco). São experiências que trouxeram a segurança para se aventurar em “Marés”, em que assume pela primeira vez o comando de um filme nos postos de direção e roteiro.

Terceiro título da nova temporada do Projeta às 7, uma iniciativa da Cinemark com a distribuidora Elo Company que oferta cinema brasileiro por um preço acessível sempre às 19h de segunda a sexta-feira – e que segue em cartaz em mais de 20 cinemas da rede -, o drama acompanha Valdo (Lourinelson Vladmir, revelado em “Para Minha Amada Morta“), um fotógrafo em um processo autodestrutivo oriundo de seu alcoolismo. Em entrevista concedida por e-mail, João Paulo Procópio conta sobre o que o motivou a contar essa história, a influência da tensão política diária e sobre projetos futuros.

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Você é responsável há alguns anos pela produtora Pavirada Filmes e se desdobrou em funções como editor e diretor assistente. Debutar recentemente como diretor e roteirista de longa-metragem com “Marés” era uma intenção que sempre esteve em seus objetivos profissionais ou foi uma consequência natural a partir do envolvimento com outras unidades de atuação em projetos cinematográficos?

Olá Alex! Primeiro, muito obrigado pelo interesse em dialogar sobre o “Marés”. De fato, o filme é a minha primeira experiência em direção de longas, mas nesses 18 anos de experimentos audiovisuais dirigi outros trabalhos, entre documentários, curtas, publicidade e institucionais. Então partir para a direção de longas era também um objetivo dentro dessas buscas. Acontece que ao longo dos anos fui sendo demandado para outras funções dentro dessa cadeia produtiva. Adoro assumir a montagem das obras, e também fui ganhando a confiança própria e de outros diretores para assumir as produções. Nisso, produzi e montei alguns filmes que muito me orgulham, pelos processos e resultados. Mas a direção obviamente muda a relação com a obra. São experiências que se somam, que me fortalecem na intenção de dirigir próximos projetos autorais, mas também me prepara melhor para exercer as funções que venho experimentando com maior frequência nesses últimos anos.

Em “Marés”, acompanharemos Valdo, o protagonista de sua história, lutando contra o vício do alcoolismo. Todos nós temos em nossos círculos sociais alguém que passa pelo mesmo revés e me pergunto se o tema te ocorreu a partir de uma vivência pessoal ou mais pela curiosidade em explorá-lo por seu potencial dramatúrgico.

É difícil alguém que não tenha alguma relação com o alcoolismo. É uma questão que afeta toda a sociedade, todas as famílias. Originalmente o tema apareceu por ouvir histórias via de regra engraçadas em minha roda familiar, onde invariavelmente os envolvidos estavam bêbados. Sai em minha pesquisa a partir dessas construções de cenas e personagens, e fui entrevistar amigos de copos e familiares de alguns boêmios. Nas entrevistas, ficou clara uma linha: os amigos de copo narravam histórias engraçadas, absurdas; ao passo que esposas e filhos narraram histórias com camadas claramente melancólicas. Então esse potencial dramatúrgico foi o que primeiro me interessou. Passei para uma pesquisa meticulosa por este universo do alcoolismo, e passei a frequentar reuniões de Alcoólicos Anônimos, sempre me identificando como roteirista e ouvinte. E daí me deparei com algo muito potente, de pessoas que reconhecem um problema e o enfrentam. Vários estigmas foram desfeitos nesse mergulho.

Desde que estourou com a sua fabulosa atuação em “Para Minha Amada Morta”, Lourinelson Vladmir vem trabalhando sem parar. Como foi o processo para auxiliá-lo a adentrar esse personagem, que a todo o momento parece tão vulnerável física e emocionalmente?

Eu convidei o Lourinelson para viver o Valdo dois dias depois da exibição de estreia do “Para Minha Amada Morta” no 48º Festival de Brasília. Era o lançamento dele como ator, pois atuava até então como advogado. Quer dizer, de lá pra cá ele se lançou, foi descoberto por vários outros diretores, mas fui o primeiro a convidá-lo após vê-lo em um trabalho tão arrebatador como no filme do Aly Muritiba. E tive muita sorte nessa intuição: Lourinelson é muito inteligente e comprometido, o tipo de ator que eu precisava para esta minha primeira aventura na direção de um longa. Conversávamos muito sobre essa construção, e várias de suas observações foram assimiladas também. O Valdo precisava ser um cara que tivesse um problema posto, o alcoolismo – mas que não fosse facilmente descartável. Era preciso querer dar chance a ele, mesmo frustração após frustração. Existe algo tênue e arriscado no Valdo. Já saí de sessões seguidas de debate onde tinha pessoas no público com muita raiva dele, outras que nem o consideraram um cara tão problemático assim. Daí depende muito do repertório de cada um, de que tipo de situações já viveram em relação ao alcoolismo. Acho esse o ponto mais valioso do filme.

As filmagens aconteceram em 2017, mas você escolhe ambientar “Marés” exatamente em um momento político muito delicado em nossa história recente: o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Quais as motivações e comentários que busca estabelecer ao aproximar o seu protagonista de um contexto em que o debate político chega a assumir o protagonismo de algumas cenas?

Estamos em um contexto da história do Brasil que naturalmente impregna o nosso dia a dia, ainda mais numa criação artística. Para mim tinha naquele momento algo no ar que pairava e que, independente da posição política e polarizada, estavam todos entorpecidos, gritando para surdos. Muita coisa ruindo, muitos com muitas certezas mas sem saber direito o que fazer com aquilo pois não se sabia para onde íamos. Sinto que nesse paralelo, hoje estamos todos experimentando uma ressaca muito forte. Gosto de ver o filme agora em seu lançamento, em pleno 2019, onde o absurdo parece ter alcançado um ápice (e já tivemos essa sensação antes nos últimos anos).

Já passando o frio da barriga advindo de uma estreia, tem planos de se aventurar na direção e roteiro de um novo longa-metragem?

Trabalho o roteiro de uma minissérie chamada “Rastros”, sobre as memórias de um ex-agente secreto da ditadura militar brasileira; e um roteiro de longa ainda sem nome definido sobre um colunista social que começa a ficar mais envaidecido com as repercussões de suas matérias quando publica, porventura, reportagens mais verdadeiras e reveladoras. Mas agora o que mais me instiga e muito me honra é assumir a produção executiva de “Eu Vou Tirar Você Desse Lugar”, filme que marcará a estréia em direção de longas da maravilhosa Marcélia Cartaxo. É de fato um projeto que me enche de entusiasmo, e muito feliz de nesse momento da minha carreira carregar essa responsabilidade.

Silvio Tendler

Entrevista com Silvio Tendler, diretor do documentário “Alma Imoral”

Publicado em 1998, “A Alma Imoral”, do rabino Nilton Bonder, tem mais de 300 mil exemplares vendidos. Anos depois, teve a sua fama ampliada com uma adaptação teatral, que completou 13 anos de palcos e foi assistida por mais de meio milhão de espectadores.

Era natural uma encarnação para o cinema, em que o documentarista Silvio Tendler, mais afeito a estudos sobre episódios políticos do país, busca com Bonder dialogar com nomes transgressores no campo das artes e dos pensamentos críticos e filosóficos. Entre os entrevistados, há intelectuais como Noam Chomsky e Rebecca Goldstein, o pintor polonês naturalizado brasileiro Frans Krajcberg (que faleceu em 2017) e o jornalista Uri Avnery.

A seguir, leia a breve entrevista que Silvio Tendler concedeu por e-mail para o Cine Resenhas. “Alma Imoral” segue em exibição nos cinemas paulistanos.

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“Alma Imoral” vem a ser a encarnação cinematográfica do best-seller de Nilton Bonder, que já havia recebido uma versão teatral. Poderia compartilhar o seu relacionamento inicial com este material?

Conheci o texto quando fui assistir a peça. Li o livro e achei que tinha uma pegada cinematográfica. Propus o filme.

Em sua vasta filmografia, predomina um interesse especial de avaliar cenários políticos, passados ou presentes, do país. A transgressão não se dissocia desse tema que tanto pautou a sua carreira, mas aqui o espectador terá acesso a algo mais existencial, filosófico. Qual a principal motivação para transformar “Alma Imoral” em cinema?

Me considero um transgressor e fui buscar na minha tribo os transgressores que ajudaram a melhorar o mundo rompendo com os tabus. É uma viagem nova minha e sempre acreditei que devemos nos renovar permanentemente. Assim nasceu “Alma Imoral”, o filme.

Como veio a ideia de estabelecer os respiros narrativos, aqui impostos com as coreografias da Cia. de Danças Debora Colker e as narrações de Bel Kutner, Júlia Lemmertz, Letícia Sabatella, Mateus Solano e Osmar Prado?

As múltiplas leituras são minhas e é um recurso que já adotei em outros filme, sendo não trabalhar apenas com um narrador. Entretanto, o balé foi ideia e aporte do rabino. Trabalharia com uma bailarina e um artista plástico francês que decompõe o movimento conjugando dança e holografia com textos escritos na tela. Ficaria menos cansativo no meu entendimento, mas o Rabino Nilton Bonder, meu parceiro, preferiu assim e também ficou bom.

O documentário é construído a partir de declarações de personagens que, cada um a seu modo, buscam quebrar os paradigmas da contemporaneidade. Como foi a pesquisa para chegar aos nomes certos e essenciais e o processo de condensar em duas horas depoimentos que parecem oriundos de longas conversas estabelecidas?

Fizemos muito mais entrevistas, tivemos mais personagens. O filme é apenas o resultado final de uma busca e não seu conjunto.

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* a foto do realizador com o rabino Nilton Bonder é um registro de Ana Branco

Obsessão (Greta)

Resenha Crítica | Obsessão (2018)

Greta, de Neil Jordan

Com poucas interpretações no cinema em que fala em inglês dentro de um currículo com mais de 120 créditos, Isabelle Huppert voltou a despertar a atenção dos realizadores autorais fora da Europa com a sua indicação ao Oscar de Melhor Atriz por “Elle“. “Obsessão” foi um dos primeiros projetos que logo se apresentaram enquanto coletava os louros pelo filme provocador de Paul Verhoeven (por ele, ganhou o Globo de Ouro, o Independent Spirit Awards, o César, entre muitos outros). Irlandês responsável por filmes como “Traídos Pelo Desejo” e “Entrevista com o Vampiro”, Neil Jordan é dono de um universo sombrio que de algum modo encontra correspondência com a face obscura da maior atriz francesa da história.

Em “Obsessão”, Huppert incorpora uma vilã de modo frontal, não havendo muita dubiedade em relação ao seu comportamento homicida. Em uma das inúmeras cenas icônicas, a sua Greta dança na ponta dos pés após disparar contra um investigador desavisado. Na minha favorita, a sua Greta Hideg cospe uma goma de mascar nos cabelos de Frances McCullen (Chloë Grace Moretz) quando se sente contrariada.

No entanto, é preciso afirmar que o filme não seria tão divertido sem a veterana. Caso outra atriz fosse escalada, é certo que o texto se confundiria ainda mais com o filão oitentista/noventista de protagonistas obcecados por mocinhos bem-intencionados. Huppert eleva as coisas em “Obsessão”, mas Jordan às vezes parece retraído em levar as coisas até as últimas consequências da bizarrice com o propósito de não comprometer o potencial comercial de seu suspense, que não fez muito bonito nas bilheterias.

A seguir, assista ao comentário na íntegra sobre “Obsessão” feito com exclusividade para o canal do Cine Resenhas no YouTube:

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Jovens Bruxas

Resenha Crítica | Revisitando Jovens Bruxas (1996), de Andrew Fleming

The Craft, de Andrew Fleming

Há um pouco mais de 23 anos, chegava aos cinemas americanos “Jovens Bruxas”, um sucesso formado muito mais pelo boca a boca com o seu lançamento em VHS nas locadoras e menos pelo êxito comercial no circuito. Ainda que a renda de 25 milhões não fez feio diante de um orçamento de 15 milhões, a classificação R impediu que a realização de Andrew Fleming fosse um estouro instantâneo, uma vez que o seu público-alvo, os adolescentes, não poderia vê-lo na tela grande desacompanhado dos adultos. Algo parecido aconteceu com a comédia “Romy e Michele”, que compartilha com “Jovens Bruxas” o status de obra de culto oriunda dos anos 1990.

Teen horror pré-“Pânico” (e ainda com Neve Campbell e Skeet Ulrich escalados), “Jovens Bruxas” não esconde ser um produto de sua época, mas resistiu às gerações seguintes sem soar datado. Traz quatro garotas em seu centro com tormentos internos identificáveis e ainda apresenta um ponto de virada relevante ao pontuar a questão de mudança de personalidade quando o humilhado assume a cobiçada posição de poder sobre os demais. Fleming tem uma filmografia irregular (“Sono Mortal” e “Até que os Parentes nos Separem” são fracos de doer), mas pode se orgulhar de ter uma carreira com ao menos duas obras notáveis: “Três Formas de Amar”, produzido dois anos antes e um registro muito franco sobre as dúvidas que nos sucumbem no florescer sexual, e, claro, o aqui destacado “Jovens Bruxas”, que recebeu neste ano o sinal verde para ganhar um remake, a ser escrito e dirigido por Zoe Lister-Jones.

Pode dar certo, mas é melhor não trocar o certo pelo duvidoso e assim (re)ver “Jovens Bruxas”, adicionado em agosto no catálogo da Netflix. Abaixo, a minha breve análise revisitando a produção.

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