Entrevista com Daniel Gonçalves, diretor do documentário “Meu Nome é Daniel”

Após um ano de passagens por festivais, como o Olhar de Cinema, a Mostra e o Festival do Rio, o documentário “Meu Nome é Daniel” chega enfim ao circuito comercial. O lançamento é um capítulo histórico na cinematografia nacional: é a primeira vez que se tem registro no país de um longa-metragem a ganhar a tela grande em que a sua direção foi assumida por uma pessoa com deficiência. Isso alguns meses após Julia Katharine conseguir encaixar o seu curta-metragem “Tea for Two” nas exibições de “Lembro Mais dos Corvos”, tornando-se assim a primeira cineasta trans no Brasil a exibir um filme comercialmente.

Em entrevista transcrita de áudio, Daniel Gonçalves reflete sobre os prós e contras de tal pioneirismo, mas também sobre a sua relação com o cinema, o desejo em ser o contador de sua própria história e acessibilidade nas salas de cinema. Acompanhe a seguir.

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No documentário, os registros domésticos e a sua narração entregam que grande parte de sua vocação como diretor foi oriunda de seu pai. Conte-me um pouco mais de sua relação com a arte audiovisual e a escolha dela para compartilhar a sua história.

Apesar de meu pai sempre ter me filmado muito quando era criança e adolescente, não me lembro de ter vontade de filmar ou fazer cinema. A minha relação com o cinema veio mais tarde, durante a faculdade, onde passei a me interessar mais. Primeiro através da edição. Depois, migrando para a realização de documentários como diretor. Na infância, gostava muito de contar histórias, mas não necessariamente através de vídeos. Como dito, não tinha vontade de filmar ou de pedir uma câmera. Se aconteceu, foi muito pontual, não tenho memórias sobre isso. Tudo começou durante ou após um estágio como editor na TVPUC, onde estudei jornalismo. Fiz a faculdade para trabalhar com jornalismo esportivo e a oportunidade mudou o meu caminho em direção ao cinema. A partir daí, fiz um curso de montagem na Escola de Cinema Darcy Ribeiro, além de um curso de extensão em produção executiva para cinema e televisão e pós-graduação em cinema documental. Foi assim que essa coisa de contar história através do audiovisual se consolidou.

Ainda sobre as imagens de arquivo, elas contemplam mais de 10 anos de sua vida, da infância à juventude. Como foi o processo de redescobri-las e reorganizá-las com outros registros mais recentes por você dirigidos?

Foi natural. Sabia que essas imagens existiam, mas tinha visto muito pouco depois de gravadas. Quando resolvo fazer o filme, claro que essas imagens adquirem uma importância muito grande, pois através delas pude revisitar e compreender melhor essa minha trajetória, talvez com um olhar mais crítico. Entender qual é o meu lugar no mundo, como me enxergo hoje. Diria que foi um processo de terapia ver essas imagens e construir um filme a partir delas. O processo começa depois das imagens de arquivo e a partir delas estabeleci um pré-roteiro que foi um guia para grande parte das gravações que fiz. Uma coisa influenciou completamente a outra.

“Meu Nome é Daniel” chega aos cinemas divulgando o dado de que este é o primeiro longa-metragem brasileiro dirigido por uma pessoa com deficiência. Como repercute em você o peso desse pioneirismo?

Esse pioneirismo tem dois lados, um bom e outro ruim. O bom é de ser este diretor com deficiência a fazer um filme, contar a sua própria história, o que é muito representativo. O ruim é que demorou para aparecer uma pessoa com deficiência poder ter voz e oportunidade de contar a sua própria história, pois somos muitos, cerca de 24% da população têm algum tipo de deficiência, e não vemos essas pessoas pelas ruas. Muito por isso, essas pessoas não contam as suas próprias histórias. Acredito que o mais importante desse pioneirismo é poder ser o primeiro a contar uma história para, aos poucos, poder mudar a maneira como nós somos vistos. Precisamos conseguir fugir dos clichês em que somos colocados naqueles dois lugares: ou o do coitadinho ou do super-herói. A partir do momento em que começo a contar a minha história em um filme que fujo desses dois lugares, temos um bom caminho a seguir.

O seu documentário é um dos poucos títulos recentes disponíveis no aplicativo Movie Reading Brasil, que visa atender os espectadores com deficiências visual e auditiva – juntos, representam aproximadamente 5% da população no Brasil. Acredita que o sistema de exibição está muito distante de contemplar todas as audiências?

Essa questão da acessibilidade no audiovisual ainda está muito incipiente. Existe uma instrução normativa da Ancine que diz que todos os filmes precisam ter acessibilidade, mas, ao mesmo tempo, pouquíssimas salas de cinema estão preparadas para atender a esse público. Penso que o aplicativo Movie Reading chega para tentar ser uma maneira mais fácil para as pessoas que têm algum tipo de deficiência visual ou auditiva ir aos cinemas sem depender que estes tenham as ferramentas de acessibilidade.

Ao fim de “Meu Nome é Daniel”, o diagnóstico sobre a sua condição seguiu inconclusivo. Do período de finalização do documentário até esse momento da estreia comercial, alguma descoberta surgiu?

Nada mudou desde então, até porque não continuei com a busca por um diagnóstico. Não é algo que mudará a minha vida e, no momento, não tenho interesse em saber o que tenho, porque dificilmente apareceria algum remédio em que eu tomaria hoje para amanhã correr 100 metros rasos em 10 segundos, sabe? Desde então, não surgiu nenhuma novidade, muito porque essa coisa da busca é muito mais um dispositivo fílmico do que uma real necessidade minha de saber o que tenho. Sei qual é a minha condição, o quadro clínico, e o que devo fazer para poder melhorar e também para fazer as coisas com mais facilidade. Descobrir exatamente o que é, além de ser muito caro, não é urgente para mim.

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Assista ao trailer com acessibilidade:

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