Gabriela Souza

Entrevista com Gabriela Souza, sobre o projeto Selo BLACK

Especializada na produção e na distribuição audiovisual brasileiras, a Elo Company vem se destacando no mercado sobretudo por representar uma fatia considerável do que hoje podemos acompanhar da face mais autoral de nossa cinematografia, por vezes desenvolvendo iniciativas que facilitam a viabilização e o acesso a esses projetos. Como o Selo ELAS, que busca priorizar o desenvolvimento de filmes em que a direção é feminina.

Em algumas praças, incluindo São Paulo, o público pode ter acesso a alguns títulos com ingressos a preços mais populares no Projeta às 7, ideia também criada pela Elo Company em parceria com a Rede Cinemark: é exibido um filme brasileiro em que a entrada pode ser adquirida por até R$ 12, em sessões que acontecem de segunda a sexta , sempre às 19h.

A novidade divulgada neste fim de ano é a criação do Selo BLACK, em que a prioridade será dar maior visibilidade para profissionais negros que desejam debutar ou dar continuidade na carreira de direção. Gerente de projetos e financiamento da Elo Company, Gabriela Souza é quem coordena o Selo Black. Com ela, realizamos uma entrevista em que nos revela a realidade do cenário audiovisual atual, em que a representatividade de minorias aos poucos vem ganhando mais força. Ao fim da conversa, saiba quais são os primeiros projetos já confirmados com o Selo BLACK. A comédia “Na Rédea Curta”, com direção de Glenda Nicácio e Ary Rosa (a dupla responsável por “Café com Canela” e “Ilha” – temos entrevistas com Ary sobre ambos os filmes aqui e aqui), deverá ser o primeiro a chegar aos cinemas, com previsão de exibição para 2020.

.

A Elo Company é responsável pela criação do Selo ELAS, que visa dar mais oportunidades para vozes femininas atrás das câmeras. O êxito dessa iniciativa auxiliou no desenvolvimento do Selo Black ou fatores externos foram mais influentes?

Os dois projetos partem do mesmo ponto, que é a pesquisa divulgada pela ANCINE em 2016 na qual diz que há poucas mulheres dirigindo e roteirizando e que não havia nenhuma mulher negra entre as diretoras que foram contabilizadas no ano de 2014. Partem dessa reflexão do porquê dessas pessoas não estarem produzindo. Também percebemos uma demanda com parceiros e clientes com os quais trabalhamos. Existe o público, mas não existe o produto.

Com vasta experiência no mercado, tem testemunhado uma mudança no cenário quanto a representatividade negra?

Sim, ele é bem diferente. Não que esses projetos não tenham sido feitos, a exemplo do “Café com Canela”, uma codireção com uma realizadora negra, o que não tínhamos visto até o momento. Neste ano, tivemos ” A História de um Sonho: Todas as Casas do Timão”, codirigido por Marcela Coelho. Diferente dos anos anteriores, tais projetos têm sido feitos e chegado ao circuito comercial. Eles sempre existiram. Um exemplo é o Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul, que acontece no Rio de Janeiro anualmente numa reunião entre África, Brasil e Caribe, exibindo muitos materiais e filmes feitos por pessoas negras, mas eles não chegam em nosso circuito comercial.

Conte-me um pouco mais sobre a gênese do Selo BLACK e os nomes com os quais você une forças para fazê-lo acontecer.

Ele realmente parte do Selo ELAS, pois entrei na Elo Company me atentando a essa questão de diversidade, na sequência surgindo a oportunidade de desenvolver um outro projeto voltado para a população e os realizadores negros. Tenho buscado alguns parceiros e profissionais para somar comigo. Como coordenadora, abarco o projeto e há consultores como a Carolina Gomes, do FAMA/Avon (Fundo Avon de Mulheres no Audiovisual) e o Alberto Pereira Jr., da Academia de Filmes.

Como vocês pretendem trabalhar os estágios iniciais dos projetos que irão compor o Selo Black?

A ideia da consultoria e de qual forma abraçaremos esses projetos virão com a visão da distribuidora para avaliar as consequências comerciais e escolhas artísticas, isso conectado com esses realizadores com visões e vivências diferentes, pois só eles podem colocar na tela as suas experiências. É trabalhando esses materiais que eles vão analisar comercialmente com nossos parceiros, havendo roteiristas, produtores executivos e diretores que dirão se funcionam para o mercado e avaliarão questões ideológicas e raciais. Da minha parte, também verei as questões financeiras desses projetos, como onde seria mais interessante captar um valor que estiver faltando no orçamento, em quais festivais ele pode entrar para ter maior visibilidade. Acompanhar toda essa trajetória do filme, desde o argumento até a exibição, dando esses toques de profissionais do mercado.

E quanto ao momento de finalmente exibir os filmes para o público? Pretendem avaliar festivais para a construção da carreira dessas obras? 

Respeitamos muito qual é o desejo do produtor e diretor com o seu filme. Tem produtores que não estão muito interessados em festivais, há outros que sim. Trabalhamos aqui na Elo Company com toda a cadeia e vida de um filme, iniciando pelos festivais, depois salas comerciais, VOD, e o que mais a gente entender, junto a outros parceiros comerciais, onde podem caber essas obras. Há um departamento dentro de Vendas que lida especificamente com festivais, fazendo uma triagem e identificando quais as nossas opções no Brasil e no mundo que têm a ver com aquelas obras.

Como citou, há festivais específicos para celebrar o cinema produzido por profissionais negros ou mesmo com temáticas caras a esse público-alvo. Esses eventos também serão considerados? Tais títulos podem também se integrar a outras iniciativas da empresa, como o Projeta às 7?  

Temos uma curadoria específica para o Projeta às 7. Alguns podem se encaixar nele. Isso só ocorre quando a obra está pronta. Vai depender muito do que vai acontecer com o filme, pois ele muda muito, podendo se transformar diante do que foi planejado previamente. Fazemos diversos lançamentos em diferentes salas. Vai depender muito do perfil de cada título.

Tenho uma grande preocupação, na posição de espectador, quanto ao destino de filmes brasileiros independentes, ainda mais em uma realidade na qual a sala de cinema não é acessível a todos. Pretendem ir além da disponibilização desses filmes em plataformas streaming?

Sim, pois como tratam de temáticas bem específicas, com diretores com experiências próprias, terão uma demanda diferenciada. No entanto, já temos salas que trabalham para atender a esse público específico, promovendo o debate ao fim da exibição, algo mais corriqueiros em obras autorais. Temos o circuito SPCine. Estamos nos aproximando dele. Mas dependerá realmente do momento em que todos os filmes estiverem prontos, pois tudo é muito volátil. Tanto a negociação para streaming e tevê paga quanto para onde o exibiremos após a estreia dependerá muito do desempenho do filme em sua trajetória prévia. Por mais que tenhamos uma ideia do que pode acontecer, tudo dependerá de quando esses filmes estarão prontos, em qual cenário estaremos vivendo e assim determinar o caminho de cada um.

Dentro de uma perspectiva mais pessoal, o que a impulsiona a coordenar o Selo Black e quais resultados pretende atingir?

Parto da ideia de que sou uma mulher negra, que trabalha no audiovisual e que está inserida no mercado. É muito diferente para quem está nessas companhias atuando comercialmente daqueles que fazem trabalhos mais autorais, fora do circuito. A intenção é trazer esses realizadores e abrir as portas para esse nicho mais comercial. O que me impulsiona é também poder me ver tanto na tela quanto atrás das câmeras. E não ser só eu. Não é somente eu representar alguém, mas trazer pessoas que também queiram se representar.

.

Filmes confirmados do Selo BLACK

Na Rédea Curta

NA RÉDEA CURTA
Comédia em desenvolvimento
Produção: Rosza Filmes Produções LTDA ME
Direção: Glenda Nicácio e Ary Rosa
Sinopse: Da periferia de Salvador, criado apenas pela mãe, Junio, aos 20 anos, descobre que vai ser pai e decide, a partir disso, ir atrás de seu pai. Mainha, mãe super protetora, se vê obrigada a revelar a identidade do pai de Júnio, que mora no interior do Recôncavo da Bahia, na cidade de Cachoeira. Inicia-se então uma divertida viagem de Mainha e Júnio em busca do pai, numa aventura repleta de confusões que no fim só servem para aproximar mais mãe e filho. Afinal, para Júnio, Mainha é insubstituível, e não há nada nem ninguém no mundo capaz de ocupar o seu lugar.

BUSCA E APREENSÃO
Documentário em desenvolvimento – captação de recursos
Produção: Encantamento Filmes
Direção: Everlane Moraes
Sinopse: No ano de 1991, pai e mãe brigam judicialmente pela custódia da filha, quando fica decidido que o pai será oficialmente o responsável pelos cuidados com a menor, sendo-lhe concedido a guarda definitiva.
Dividida entre as famílias, a cineasta, solicita a reabertura do processo judicial de custódia da qual foi vítima na infância, com a intenção de reconstruir seu passado e resolver as tensões familiares do presente.
O resultado dessa ação são reflexões sobre a justiça, a absolvição simbólica de todos os acusados e o encontro inédito entre duas mães, a adotiva e a biológica.

MENINA MULHER DA PELE PRETA
Drama em captação de recursos
Produção: Dandara Produções Culturais e Audiovisuais
Direção: Renato Cândido de Lima
Sinopse: Ao trabalhar a questão de afetividade, ancestralidade e protagonismo da mulher negra, Menina Mulher da Pele Preta traz cinco histórias ficcionais de cinco mulheres negras de diferentes gerações e perfis sociais.

É TEMPO DE AMORAS
Drama em captação de recursos
Produção: Aranhas Films
Direção: Anahí Borges
Sinopse: “É tempo de amoras” conta a história de uma tentativa de adoção inusitada. Petrolina, apelidada Pety, 10 anos de idade, ressente-se do fato de não ter uma avó. Pasqualina, 81 anos, vive no asilo pois não possui parentes vivos. A trajetória das personagens se cruzam e Pety tentará adotar Pasqualina.

NARCISO RAP
Comédia dramática em captação de recursos
Produção: Buda Filmes
Direção: Jeferson De
Sinopse: Narciso é um garoto que vive em orfanato, o seu maior desejo é encontrar uma família que o adote, e a cada ano que passa este sonho fica mais distante. Na véspera de Natal um de seus melhores amigos lhe dá uma velha lâmpada, o garoto a esfrega e um gênio surge. Narciso pede para o gênio uma família.