Entrevista com Natalia Molina, atriz de “Meio Irmão”

Como Sandra, a personagem central de “Meio Irmão”, Natalia Molina apresenta um desempenho típico de uma atriz que compreende muito bem o riscado do cinema. O acúmulo de talento, no entanto, veio todo do teatro, o qual faz desde os 13 anos.

Nascida de Piracicaba e com 21 anos que serão completados em abril, ela participou de um processo de seleção que envolveu dezenas de outras garotas. A estreia no cinema foi bem recepcionada pelos festivais, ganhando em dois deles, o Festival de Cinema de Caruaru e o Festival Internacional de Cinema da Fronteira, prêmios por sua interpretação.

Com “Meio Irmão” em exibição no circuito comercial, Natalia relembra alguns aspectos da experiência de trabalhar com Eliane Coster, do processo de imersão no papel até sobre os diálogos que estabeleceu com a diretora e roteirista sobre a realidade de Sandra e algumas resoluções que podem deixar interrogações no espectador. A entrevista foi concedida por e-mail.

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+ Entrevista com Eliane Coster, diretora e roteirista de “Meio Irmão”

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Natalia, “Meio Irmão” é a sua estreia como atriz no cinema. Como as vivências anteriores, especialmente no teatro, a prepararam para esse momento em uma mídia diferente?

Primeiramente, fiquei muito feliz com o convite pra essa entrevista, muito obrigada! Bom, eu faço teatro desde os meus 13 anos. E desde sempre prezei pela intensidade em tudo o que faço, e com o teatro/cinema não foi diferente. Já fiz algumas peças de gêneros variados (o que acabou sendo muito positivo pra mim quanto atriz). Meu primeiro professor/diretor, o Vanderlei Carneosso, trabalhava com dois métodos que me auxiliaram muito, corpo e laboratório. Esses dois estudos com certeza me ajudaram a criar a Sandra. As aulas eram no Centro Cultural de Valinhos, a maioria dos alunos ia uma ou duas vezes por semana, e como atuar era a melhor parte do meu dia, eu acabava indo cinco (risos). E quando soube que iria interpretar a Sandra, eu me deparei com a melhor preparadora de elenco que poderia ter, a Luciana Barboza, que fez o seu trabalho da melhor forma possível.

A realizadora Eliane Coster comentou comigo que você foi a escolhida para viver Sandra após um longo processo de escalação que testou mais de uma centena de jovens. Quais as suas principais lembranças dessa etapa inicial tanto da conquista do papel quanto de se ver imersa nele?

Na época dos testes eu morava em Valinhos, interior de São Paulo. Toda vez que eu recebia uma ligação de que tinha passado pra próxima etapa de testes eu ficava realmente muito feliz, até que no terceiro dia foi anunciado que eu protagonizaria o longa. Lembro de naquele momento tomar a decisão de fazer aquela personagem da forma mais profunda que eu poderia. A Sandra acaba sendo e tendo uma vida muito diferente da minha, mas, ao mesmo tempo, ela estava ali e eu percebi isso quando comecei a me emocionar toda vez que ensaiava. Ela realmente foi um presente. Criar a vida dela era um presente, o meio irmão dela era um presente. E então me deparo com uma preparadora (Lu Barboza) que também trabalhava com laboratórios e outras mil formas de imergir o ator no seu estudo de personagem, o que me deixava mais segura a cada ensaio.

Diego Avelino e você dão vida a adolescentes que atravessam uma série de dilemas comuns na geração atual, do amadurecimento precoce dado pela ausência de adultos até a descoberta e aceitação da própria sexualidade. Estabeleceram diálogos sobre essas e outras pautas que foram essenciais para a construção da narrativa?

Em todos os ensaios nós trazíamos os assuntos mais relevantes que o filme trata, conversávamos entre todos os atores e a preparadora e ficávamos com “lições de casa” de “quão próximo essa situação está de você?” até “quão distante essa situação está de você?”. O que nos permitiu entender muita coisa. Acredito que somente o exercício de se colocar no lugar de outro indivíduo nos faça QUASE entender o que o este passa. Como já disse anteriormente, a Luciana Barboza é uma das melhores profissionais que já trabalhei, então obviamente ela traria esses assuntos pra gente pensar.

Natália Molina, Meio Irmão

Fiquei extremamente impactado com a sua entrega ao papel e gostaria de saber principalmente como foi aliar a sua fúria emocional com certa fisicalidade exigida por Sandra, das suas quedas literais até o instinto de sobrevivência que a faz invadir propriedades.

Acho que tanto a “fúria emocional e fisicalidade exigida por Sandra” que você cita são a mesma coisa, ela necessitava de tudo isso, ela é tudo isso. Eu não consigo explicar perfeitamente, mas eu seguia muito minha intuição nas cenas, uma intuição emocional. Eu ouvia o que tinha que fazer em cena e não era tão difícil achar a “fúria perfeita”. Afinal, ela precisava resolver os seus problemas, mas também estava muito dolorida. Nos momentos em set, éramos uma. Uma sem ultrapassar os limites de ninguém. Era só ela e eu.

“Meio Irmão” opta por não dar conclusões para os impasses vividos pelos protagonistas. Passados os anos, das filmagens até o lançamento comercial que acontece agora, as possibilidades de destino para Sandra são construídas em sua mente ou prefere desapegar de respostas mais concretas? 

A grande dúvida de todos no filme é “o que acontece com Suely?”. E eu tive essa dúvida até o último dia de filmagem, me recordo de perguntar muitas vezes pra Lili (diretora) até que um dia ela me disse “no último dia de filmagem eu te conto”. Dito e feito. Corta câmera e eu fui voando perguntar o que havia acontecido e ela me respondeu no ouvido como prometido. Com essa reposta, eu tenho algumas imagens da Sandra vivendo. Toda vez que assisto o filme (toda mesmo), eu penso em como Sandra estaria hoje. Quais decisões ela teria tomado. É muito louco por que algo no meu coração faz a Sandra viver em mim. Até hoje eu choro em algumas cenas do filme me lembrando exatamente do que ela sentiu do momento. Eu amo essa personagem.

O filme atravessou diversos festivais, rendendo inclusive prêmios para a sua interpretação. Qual foi o momento mais especial para você em toda essa trajetória? E há algum projeto em fecundação no qual poderemos vê-la. 

É muito legal ir pra festivais e acompanhar todo o evento de perto, você acaba conhecendo muita gente bacana e que sempre admirou. Não posso negar que quando eu ganhei como Melhor Atriz e menção honrosa de Atriz Revelação foram momentos incríveis, mas tem um momento em especial que me marcou muito, foi quando o Diego Avelino (Jorge) ganhou como Melhor Ator no Festival de Cinema de Caruaru e eu que tive que descer pra pegar o prêmio porque ele estava em Lion na França estudando, eu queria correr e ligar pra ele no mesmo momento, eu pulsava de alegria querendo dar a notícia. Ser atriz/ator é muito complicado, no Brasil é duas vezes pior e principalmente em começos de carreira e às vezes acaba nos deixando inseguros, mas enfim, tudo deu certo e tivemos boas devolutivas. Estou com alguns projetos sim, principalmente querendo viver mais do audiovisual/cinema. Esse ano estreia a série de horror “Noturnos” pro Canal Brasil, com direção geral de Caetano Gotardo e Marco Dutra, e tive o prazer de ser convidada pra estar em um episódio com grandes atores ao meu lado. Um trabalho totalmente diferente de “Meio Irmão” e que amei fazer tanto quanto.

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