Entrevista com Eliane Coster, diretora de “Meio Irmão”

Além da carreira como fotógrafa, Eliane Coster é uma curtametragista veterana, tendo debutado na função em 1995 com “Instruções Para Dar Corda no Relógio”. A oportunidade para trabalhar com o formato de ficção em longa-metragem, no entanto, é mais recente. Tendo ganhado os festivais em 2018, “Meio Irmão” somou elogios e prêmios. Na 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, por exemplo, recebeu o Prêmio Petrobras de Cinema e o Prêmio Abbracine, além de finalista ao Troféu Bandeira Paulista.

Agora em cartaz, “Meio Irmão” é uma ótima contribuição do cinema dramático aqui produzido para compreender a atual geração jovem, no qual a cineasta aponta ter uma “perspectiva curta de futuro” por certa invisibilidade de organismos que formam a sociedade. É um dos aspectos aprofundados na entrevista a seguir, concedida por e-mail pela diretora e roteirista.

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+ Entrevista com Natalia Molina, atriz de “Meio Irmão”

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“Meio Irmão” versa principalmente sobre uma geração que parece estagnada em um contexto em que não é assistida por adultos ou que encontra barreiras para mostrar quem verdadeiramente é. Como foi o seu processo de investigação dessa juventude que retrata?

Eu comecei observando o comportamento da minha própria filha, que tinha 13 anos quando eu estava fazendo o roteiro. Depois eu fui a campo para fazer entrevista com jovens da periferia que trabalhavam no centro de São Paulo em lojas em sua maioria. Conversei bastante e entendi que eles tinham um horizonte muito curto de futuro. Eles achavam que a sociedade, ou seja, políticos, governo, instituições como escolas, justiça, polícia, não os enxergavam. Entendiam a sociedade como um lugar contra eles, só que muito forte e grande, contra o qual eles não poderiam lutar. Por isso a desesperança, o alienamento (que é uma defesa nesse caso), essa perspectiva curta de futuro e muito individualismo. Para mim, isso teve um ápice em 2013, que refletiu no nosso cenário político atual e agora começa a mudar com o surgimento de um novo cenário de relações comunitárias, ainda tímido, mas que espero ver crescer em breve.

A Zona Leste de São Paulo é uma personagem importante em sua narrativa, nebulando com o seu cinza uma perspectiva de um futuro mais positivo para Sandra e Jorge. O quão importante e difícil foi para você explorar esse ambiente urbano?

Eu não sou da Zona Leste, mas gosto muito dos ambientes periféricos, pois acredito que, pela vulnerabilidade, ainda há espaço para relações humanas e de coletividade, que são importantíssimas. Quando há carência, se ela não for impeditiva (não for miséria realmente), as pessoas tendem a se aproximar para aumentar justamente a força individual. Essa aproximação é o melhor que há na sociedade. Não estou defendendo que tenha que haver desigualdade e população pobre para haver relações humanas, não é isso, estou somente dizendo que a inventividade surge desses espaços periféricos mais vulneráveis. Inventividade inclusive de modelos de sociedade e de relações humanas. No centro, as estratégias já estão cristalizadas e capturadas pelas instituições de controle dos comportamentos.

Como foi o processo para encontrar Natália Molina e Diego Avelino? Quais as dinâmicas estabeleceu para que encontrassem química como protagonistas que se encontram quando a narrativa de “Meio Irmão” já está em um estágio avançado de desenvolvimento?

Fizemos uma produção de elenco grande com jovens do teatro amador ou do profissional em centros culturais da periferia, como o Pombas Urbanas, na Cidade Tiradentes, e a Casa do Zezinho, no Capão Redondo. Pesquisamos também atores jovens que já estavam atuando em filmes e séries. Esse lugares tinham professores e alunos que divulgaram o teste e no boca a boca testamos cerca de 150 jovens. A interação entre Diego e Natália foi imediata. Um dos testes era fazer jogos com duplas de possíveis “meios-irmãos”. Diego e Natália se conectaram imediatamente. Pareciam irmãos. Tivemos outras boas duplas juntas e muitos atores fantásticos passaram pelo teste que não pudemos aproveitar, tais como o Lucas Andrade e o Diogo Cintra (que chegou a filmar, mas a cena dele caiu na montagem). Mas Natália e Diego nos surpreenderam desde o primeiro momento.

Meio-Irmão

Você tem uma longa carreira como fotógrafa e vejo o seu filme flertar sobre observação e vigilância a partir de imagens de câmeras que operam à distância dos acontecimentos. Quais os comentários que deseja tecer a partir dessa escolha?

Estamos literalmente rodeados desses dispositivos que são uma ambiguidade entre a proteção e a vigilância. Isso diz muito de nossa sociedade, pois por um lado somos todos observadores “voyeurs”. Precisamos observar para aprender. Essa é uma das formas que a gente tem de conhecer a realidade desde os tempos remotos. Homens da nossa pré-história já eram desenhistas exímios nas cavernas, de cenas que eles observavam no seu cotidiano. O problema é quando essa observação implica em uma relação de poder. É isso que acontece com as câmeras cada vez mais. Então, quem tem poder usa a imagem para controlar aqueles que sustentam o seu poder. E isso ocorre em uma escala global superssofisticada, mas não está fora do sujeito, está dentro dele. É isso o que eu tentei falar com a narrativa das câmeras: nós temos uma relação ambígua com a imagem, com a nossa representação nos dispositivos de imagem (cinema, televisão, redes), pois estamos dentro e fora dele. Ou melhor: eles estão dentro e fora de nós.

Antes de estrear comercialmente, “Meio Irmão” atravessou uma jornada de aproximadamente um ano por festivais, sendo premiado inclusive na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em 2018. O que reflete sobre toda essa jornada na direção de seu primeiro longa-metragem de ficção? 

Os festivais são essenciais para dar visibilidade para o público, mas também para produzir debate de qualidade, tanto sobre os filmes quanto sobre o mercado de cinema. A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo é o maior panorama da produção mundial a qual temos acesso no Brasil. Para quem faz cinema e quem gosta de cinema e cultura, ela é essencial, pois justamente traz filmes que não veremos de outra forma. São filmes em línguas estrangeiras que a maioria de nós não fala (búlgaro, chinês, lingala, polonês etc). E que a Mostra traduz em português. “Meio Irmão” participar da Mostra foi uma honra, pois nos colocou junto com esse panorama diverso e excelente que ela produz. E ganhar dois prêmios na Mostra foi incrível, pois é o reconhecimento de um trabalho intenso e árduo que só foi possível com uma série enorme de parceiros, desde o primeiro momento da escritura do roteiro até o lançamento comercial com a O2Play, e a contribuição dos cinemas que abriram espaço para o filme ser exibido.

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*a foto da realizadora é um registro de Mario Miranda Filho/agenciafoto.com.br

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