Resenha Crítica: Trouble (2019), de Mariah Garnett

Com traços andrógenos, Mariah Garnett usa da linguagem audiovisual para fazer os seus experimentos artísticos, mas é a primeira vez em que abraça o formato documental em longa-metragem com uma proposta mais linear para assim ampliar o seu campo de possibilidades com a entrada pelo circuito de festivais.

Mas, como o próprio título sugere, o seu foco aqui poderia acarretar em uma longa exposição de conflitos de identidade. Afinal, “Trouble” apresenta como fio condutor a curiosidade de Garnett, encostando os 40 anos, em investigar a história de vida de seu pai David, ausente em quase toda a sua vida e do qual descobre indícios de seu passado a partir de uma aparição dele em um documentário televisivo produzido em 1971.

Vem aí mais uma serventia do título para a obra, que também alude ao conflito na Irlanda do Norte, período em que David era um jovem protestante em um relacionamento com uma garota católica: uniões inter-religiosas eram proibidas naquele contexto. Entre as consequências, houve o rompimento não apenas com o país, mas também com familiares e amigos.

O documentário parece perder as suas características pessoais para compreender, com olhos estrangeiros, que fim deu um território que superou o seu período de fundamentalismos extremos, o que faz o espectador ficar um tanto disperso em seus rumos e intenções. Além do mais, Mariah Garnett, que tem claro perfil introspectivo, não parece confortável em sua própria escolha de dublar para a câmera os depoimentos em áudio de David. ★★

Resenha Crítica: Nardjes A. (2020), de Karim Aïnouz

Ao mesmo tempo em que exibia “A Vida Invisível”, talvez a sua ficção de maior êxito comercial, Karim Aïnouz também teve os seus pensamentos ocupados com a produção de dois documentários com forte teor político que faziam paralelamente o circuito dos festivais de cinema.

Lançado nas plataformas digitais do Brasil no início da pandemia, “Aeroporto Central” acompanhava imigrantes refugiados na Alemanha incertos quanto ao destino. Tem também caráter de denúncia o seu mais recente “Nardjes A.”, que acompanha a personagem-título em um período de 24 horas pelas ruas tomadas por protestos na Argélia.

A data da gravação do documentário se deu em 8 de março de 2019. Poucas semanas depois, viria a queda do presidente Abdelaziz Bouteflik, figura central do golpe militar na Argélia nos anos 1960 e que ocupou por anos a liderança do pais sob escândalos de repressão, fraudes nas urnas e corrupção.

O suporte digital autoriza Karim Aïnouz a caminhar com liberdade pelas ruas povoadas, bem como a captar nuances tendo Nardjes como o seu fio condutor. Por outro lado, o projeto, que partiu do interesse pessoal do realizador em se conectar com as suas raízes paternas, tardou na escolha do momento ideal para captar as tensões argelinas.

Nardjes é flagrada em várias circunstâncias preocupada com os seus colegas de ativismo, mas nada realmente ameaçador é explicitado. Também é abordada as abdicações pessoais que faz em prol das manifestações, mas isso não soa tão significativo quando o seu dia é concluído em celebração em um bar. A luta continua, embora “Nardjes A.” não seja tão incisivo ao documentar isso. ★★

Eliane Coster, Meio Irmão

Entrevista com Eliane Coster, diretora de “Meio Irmão”

Além da carreira como fotógrafa, Eliane Coster é uma curtametragista veterana, tendo debutado na função em 1995 com “Instruções Para Dar Corda no Relógio”. A oportunidade para trabalhar com o formato de ficção em longa-metragem, no entanto, é mais recente. Tendo ganhado os festivais em 2018, “Meio Irmão” somou elogios e prêmios. Na 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, por exemplo, recebeu o Prêmio Petrobras de Cinema e o Prêmio Abbracine, além de finalista ao Troféu Bandeira Paulista.

Agora em cartaz, “Meio Irmão” é uma ótima contribuição do cinema dramático aqui produzido para compreender a atual geração jovem, no qual a cineasta aponta ter uma “perspectiva curta de futuro” por certa invisibilidade de organismos que formam a sociedade. É um dos aspectos aprofundados na entrevista a seguir, concedida por e-mail pela diretora e roteirista.

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+ Entrevista com Natalia Molina, atriz de “Meio Irmão”

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“Meio Irmão” versa principalmente sobre uma geração que parece estagnada em um contexto em que não é assistida por adultos ou que encontra barreiras para mostrar quem verdadeiramente é. Como foi o seu processo de investigação dessa juventude que retrata?

Eu comecei observando o comportamento da minha própria filha, que tinha 13 anos quando eu estava fazendo o roteiro. Depois eu fui a campo para fazer entrevista com jovens da periferia que trabalhavam no centro de São Paulo em lojas em sua maioria. Conversei bastante e entendi que eles tinham um horizonte muito curto de futuro. Eles achavam que a sociedade, ou seja, políticos, governo, instituições como escolas, justiça, polícia, não os enxergavam. Entendiam a sociedade como um lugar contra eles, só que muito forte e grande, contra o qual eles não poderiam lutar. Por isso a desesperança, o alienamento (que é uma defesa nesse caso), essa perspectiva curta de futuro e muito individualismo. Para mim, isso teve um ápice em 2013, que refletiu no nosso cenário político atual e agora começa a mudar com o surgimento de um novo cenário de relações comunitárias, ainda tímido, mas que espero ver crescer em breve.

A Zona Leste de São Paulo é uma personagem importante em sua narrativa, nebulando com o seu cinza uma perspectiva de um futuro mais positivo para Sandra e Jorge. O quão importante e difícil foi para você explorar esse ambiente urbano?

Eu não sou da Zona Leste, mas gosto muito dos ambientes periféricos, pois acredito que, pela vulnerabilidade, ainda há espaço para relações humanas e de coletividade, que são importantíssimas. Quando há carência, se ela não for impeditiva (não for miséria realmente), as pessoas tendem a se aproximar para aumentar justamente a força individual. Essa aproximação é o melhor que há na sociedade. Não estou defendendo que tenha que haver desigualdade e população pobre para haver relações humanas, não é isso, estou somente dizendo que a inventividade surge desses espaços periféricos mais vulneráveis. Inventividade inclusive de modelos de sociedade e de relações humanas. No centro, as estratégias já estão cristalizadas e capturadas pelas instituições de controle dos comportamentos.

Como foi o processo para encontrar Natália Molina e Diego Avelino? Quais as dinâmicas estabeleceu para que encontrassem química como protagonistas que se encontram quando a narrativa de “Meio Irmão” já está em um estágio avançado de desenvolvimento?

Fizemos uma produção de elenco grande com jovens do teatro amador ou do profissional em centros culturais da periferia, como o Pombas Urbanas, na Cidade Tiradentes, e a Casa do Zezinho, no Capão Redondo. Pesquisamos também atores jovens que já estavam atuando em filmes e séries. Esse lugares tinham professores e alunos que divulgaram o teste e no boca a boca testamos cerca de 150 jovens. A interação entre Diego e Natália foi imediata. Um dos testes era fazer jogos com duplas de possíveis “meios-irmãos”. Diego e Natália se conectaram imediatamente. Pareciam irmãos. Tivemos outras boas duplas juntas e muitos atores fantásticos passaram pelo teste que não pudemos aproveitar, tais como o Lucas Andrade e o Diogo Cintra (que chegou a filmar, mas a cena dele caiu na montagem). Mas Natália e Diego nos surpreenderam desde o primeiro momento.

Meio-Irmão

Você tem uma longa carreira como fotógrafa e vejo o seu filme flertar sobre observação e vigilância a partir de imagens de câmeras que operam à distância dos acontecimentos. Quais os comentários que deseja tecer a partir dessa escolha?

Estamos literalmente rodeados desses dispositivos que são uma ambiguidade entre a proteção e a vigilância. Isso diz muito de nossa sociedade, pois por um lado somos todos observadores “voyeurs”. Precisamos observar para aprender. Essa é uma das formas que a gente tem de conhecer a realidade desde os tempos remotos. Homens da nossa pré-história já eram desenhistas exímios nas cavernas, de cenas que eles observavam no seu cotidiano. O problema é quando essa observação implica em uma relação de poder. É isso que acontece com as câmeras cada vez mais. Então, quem tem poder usa a imagem para controlar aqueles que sustentam o seu poder. E isso ocorre em uma escala global superssofisticada, mas não está fora do sujeito, está dentro dele. É isso o que eu tentei falar com a narrativa das câmeras: nós temos uma relação ambígua com a imagem, com a nossa representação nos dispositivos de imagem (cinema, televisão, redes), pois estamos dentro e fora dele. Ou melhor: eles estão dentro e fora de nós.

Antes de estrear comercialmente, “Meio Irmão” atravessou uma jornada de aproximadamente um ano por festivais, sendo premiado inclusive na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em 2018. O que reflete sobre toda essa jornada na direção de seu primeiro longa-metragem de ficção? 

Os festivais são essenciais para dar visibilidade para o público, mas também para produzir debate de qualidade, tanto sobre os filmes quanto sobre o mercado de cinema. A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo é o maior panorama da produção mundial a qual temos acesso no Brasil. Para quem faz cinema e quem gosta de cinema e cultura, ela é essencial, pois justamente traz filmes que não veremos de outra forma. São filmes em línguas estrangeiras que a maioria de nós não fala (búlgaro, chinês, lingala, polonês etc). E que a Mostra traduz em português. “Meio Irmão” participar da Mostra foi uma honra, pois nos colocou junto com esse panorama diverso e excelente que ela produz. E ganhar dois prêmios na Mostra foi incrível, pois é o reconhecimento de um trabalho intenso e árduo que só foi possível com uma série enorme de parceiros, desde o primeiro momento da escritura do roteiro até o lançamento comercial com a O2Play, e a contribuição dos cinemas que abriram espaço para o filme ser exibido.

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*a foto da realizadora é um registro de Mario Miranda Filho/agenciafoto.com.br

Entrevista com Eliane Coster, diretora de “Meio Irmão”

Além da carreira como fotógrafa, Eliane Coster é uma curtametragista veterana, tendo debutado na função em 1995 com “Instruções Para Dar Corda no Relógio”. A oportunidade para trabalhar com o formato de ficção em longa-metragem, no entanto, é mais recente. Tendo ganhado os festivais em 2018, “Meio Irmão” somou elogios e prêmios. Na 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, por exemplo, recebeu o Prêmio Petrobras de Cinema e o Prêmio Abbracine, além de finalista ao Troféu Bandeira Paulista.

Agora em cartaz, “Meio Irmão” é uma ótima contribuição do cinema dramático aqui produzido para compreender a atual geração jovem, no qual a cineasta aponta ter uma “perspectiva curta de futuro” por certa invisibilidade de organismos que formam a sociedade. É um dos aspectos aprofundados na entrevista a seguir, concedida por e-mail pela diretora e roteirista.

“Meio Irmão” versa principalmente sobre uma geração que parece estagnada em um contexto em que não é assistida por adultos ou que encontra barreiras para mostrar quem verdadeiramente é. Como foi o seu processo de investigação dessa juventude que retrata?

Eu comecei observando o comportamento da minha própria filha, que tinha 13 anos quando eu estava fazendo o roteiro. Depois eu fui a campo para fazer entrevista com jovens da periferia que trabalhavam no centro de São Paulo em lojas em sua maioria. Conversei bastante e entendi que eles tinham um horizonte muito curto de futuro. Eles achavam que a sociedade, ou seja, políticos, governo, instituições como escolas, justiça, polícia, não os enxergavam. Entendiam a sociedade como um lugar contra eles, só que muito forte e grande, contra o qual eles não poderiam lutar. Por isso a desesperança, o alienamento (que é uma defesa nesse caso), essa perspectiva curta de futuro e muito individualismo. Para mim, isso teve um ápice em 2013, que refletiu no nosso cenário político atual e agora começa a mudar com o surgimento de um novo cenário de relações comunitárias, ainda tímido, mas que espero ver crescer em breve.

A Zona Leste de São Paulo é uma personagem importante em sua narrativa, nebulando com o seu cinza uma perspectiva de um futuro mais positivo para Sandra e Jorge. O quão importante e difícil foi para você explorar esse ambiente urbano?

Eu não sou da Zona Leste, mas gosto muito dos ambientes periféricos, pois acredito que, pela vulnerabilidade, ainda há espaço para relações humanas e de coletividade, que são importantíssimas. Quando há carência, se ela não for impeditiva (não for miséria realmente), as pessoas tendem a se aproximar para aumentar justamente a força individual. Essa aproximação é o melhor que há na sociedade. Não estou defendendo que tenha que haver desigualdade e população pobre para haver relações humanas, não é isso, estou somente dizendo que a inventividade surge desses espaços periféricos mais vulneráveis. Inventividade inclusive de modelos de sociedade e de relações humanas. No centro, as estratégias já estão cristalizadas e capturadas pelas instituições de controle dos comportamentos.

Como foi o processo para encontrar Natália Molina e Diego Avelino? Quais as dinâmicas estabeleceu para que encontrassem química como protagonistas que se encontram quando a narrativa de “Meio Irmão” já está em um estágio avançado de desenvolvimento?

Fizemos uma produção de elenco grande com jovens do teatro amador ou do profissional em centros culturais da periferia, como o Pombas Urbanas, na Cidade Tiradentes, e a Casa do Zezinho, no Capão Redondo. Pesquisamos também atores jovens que já estavam atuando em filmes e séries. Esse lugares tinham professores e alunos que divulgaram o teste e no boca a boca testamos cerca de 150 jovens. A interação entre Diego e Natália foi imediata. Um dos testes era fazer jogos com duplas de possíveis “meios-irmãos”. Diego e Natália se conectaram imediatamente. Pareciam irmãos. Tivemos outras boas duplas juntas e muitos atores fantásticos passaram pelo teste que não pudemos aproveitar, tais como o Lucas Andrade e o Diogo Cintra (que chegou a filmar, mas a cena dele caiu na montagem). Mas Natália e Diego nos surpreenderam desde o primeiro momento.

Você tem uma longa carreira como fotógrafa e vejo o seu filme flertar sobre observação e vigilância a partir de imagens de câmeras que operam à distância dos acontecimentos. Quais os comentários que deseja tecer a partir dessa escolha?

Estamos literalmente rodeados desses dispositivos que são uma ambiguidade entre a proteção e a vigilância. Isso diz muito de nossa sociedade, pois por um lado somos todos observadores “voyeurs”. Precisamos observar para aprender. Essa é uma das formas que a gente tem de conhecer a realidade desde os tempos remotos. Homens da nossa pré-história já eram desenhistas exímios nas cavernas, de cenas que eles observavam no seu cotidiano. O problema é quando essa observação implica em uma relação de poder. É isso que acontece com as câmeras cada vez mais. Então, quem tem poder usa a imagem para controlar aqueles que sustentam o seu poder. E isso ocorre em uma escala global superssofisticada, mas não está fora do sujeito, está dentro dele. É isso o que eu tentei falar com a narrativa das câmeras: nós temos uma relação ambígua com a imagem, com a nossa representação nos dispositivos de imagem (cinema, televisão, redes), pois estamos dentro e fora dele. Ou melhor: eles estão dentro e fora de nós.

Antes de estrear comercialmente, “Meio Irmão” atravessou uma jornada de aproximadamente um ano por festivais, sendo premiado inclusive na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em 2018. O que reflete sobre toda essa jornada na direção de seu primeiro longa-metragem de ficção? 

Os festivais são essenciais para dar visibilidade para o público, mas também para produzir debate de qualidade, tanto sobre os filmes quanto sobre o mercado de cinema. A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo é o maior panorama da produção mundial a qual temos acesso no Brasil. Para quem faz cinema e quem gosta de cinema e cultura, ela é essencial, pois justamente traz filmes que não veremos de outra forma. São filmes em línguas estrangeiras que a maioria de nós não fala (búlgaro, chinês, lingala, polonês etc). E que a Mostra traduz em português. “Meio Irmão” participar da Mostra foi uma honra, pois nos colocou junto com esse panorama diverso e excelente que ela produz. E ganhar dois prêmios na Mostra foi incrível, pois é o reconhecimento de um trabalho intenso e árduo que só foi possível com uma série enorme de parceiros, desde o primeiro momento da escritura do roteiro até o lançamento comercial com a O2Play, e a contribuição dos cinemas que abriram espaço para o filme ser exibido.

*a foto da realizadora é um registro de Mario Miranda Filho/agenciafoto.com.br

Natália Molina, Meio Irmão

Entrevista com Natalia Molina, atriz de “Meio Irmão”

Como Sandra, a personagem central de “Meio Irmão”, Natalia Molina apresenta um desempenho típico de uma atriz que compreende muito bem o riscado do cinema. O acúmulo de talento, no entanto, veio todo do teatro, o qual faz desde os 13 anos.

Nascida de Piracicaba e com 21 anos que serão completados em abril, ela participou de um processo de seleção que envolveu dezenas de outras garotas. A estreia no cinema foi bem recepcionada pelos festivais, ganhando em dois deles, o Festival de Cinema de Caruaru e o Festival Internacional de Cinema da Fronteira, prêmios por sua interpretação.

Com “Meio Irmão” em exibição no circuito comercial, Natalia relembra alguns aspectos da experiência de trabalhar com Eliane Coster, do processo de imersão no papel até sobre os diálogos que estabeleceu com a diretora e roteirista sobre a realidade de Sandra e algumas resoluções que podem deixar interrogações no espectador. A entrevista foi concedida por e-mail.

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+ Entrevista com Eliane Coster, diretora e roteirista de “Meio Irmão”

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Natalia, “Meio Irmão” é a sua estreia como atriz no cinema. Como as vivências anteriores, especialmente no teatro, a prepararam para esse momento em uma mídia diferente?

Primeiramente, fiquei muito feliz com o convite pra essa entrevista, muito obrigada! Bom, eu faço teatro desde os meus 13 anos. E desde sempre prezei pela intensidade em tudo o que faço, e com o teatro/cinema não foi diferente. Já fiz algumas peças de gêneros variados (o que acabou sendo muito positivo pra mim quanto atriz). Meu primeiro professor/diretor, o Vanderlei Carneosso, trabalhava com dois métodos que me auxiliaram muito, corpo e laboratório. Esses dois estudos com certeza me ajudaram a criar a Sandra. As aulas eram no Centro Cultural de Valinhos, a maioria dos alunos ia uma ou duas vezes por semana, e como atuar era a melhor parte do meu dia, eu acabava indo cinco (risos). E quando soube que iria interpretar a Sandra, eu me deparei com a melhor preparadora de elenco que poderia ter, a Luciana Barboza, que fez o seu trabalho da melhor forma possível.

A realizadora Eliane Coster comentou comigo que você foi a escolhida para viver Sandra após um longo processo de escalação que testou mais de uma centena de jovens. Quais as suas principais lembranças dessa etapa inicial tanto da conquista do papel quanto de se ver imersa nele?

Na época dos testes eu morava em Valinhos, interior de São Paulo. Toda vez que eu recebia uma ligação de que tinha passado pra próxima etapa de testes eu ficava realmente muito feliz, até que no terceiro dia foi anunciado que eu protagonizaria o longa. Lembro de naquele momento tomar a decisão de fazer aquela personagem da forma mais profunda que eu poderia. A Sandra acaba sendo e tendo uma vida muito diferente da minha, mas, ao mesmo tempo, ela estava ali e eu percebi isso quando comecei a me emocionar toda vez que ensaiava. Ela realmente foi um presente. Criar a vida dela era um presente, o meio irmão dela era um presente. E então me deparo com uma preparadora (Lu Barboza) que também trabalhava com laboratórios e outras mil formas de imergir o ator no seu estudo de personagem, o que me deixava mais segura a cada ensaio.

Diego Avelino e você dão vida a adolescentes que atravessam uma série de dilemas comuns na geração atual, do amadurecimento precoce dado pela ausência de adultos até a descoberta e aceitação da própria sexualidade. Estabeleceram diálogos sobre essas e outras pautas que foram essenciais para a construção da narrativa?

Em todos os ensaios nós trazíamos os assuntos mais relevantes que o filme trata, conversávamos entre todos os atores e a preparadora e ficávamos com “lições de casa” de “quão próximo essa situação está de você?” até “quão distante essa situação está de você?”. O que nos permitiu entender muita coisa. Acredito que somente o exercício de se colocar no lugar de outro indivíduo nos faça QUASE entender o que o este passa. Como já disse anteriormente, a Luciana Barboza é uma das melhores profissionais que já trabalhei, então obviamente ela traria esses assuntos pra gente pensar.

Natália Molina, Meio Irmão

Fiquei extremamente impactado com a sua entrega ao papel e gostaria de saber principalmente como foi aliar a sua fúria emocional com certa fisicalidade exigida por Sandra, das suas quedas literais até o instinto de sobrevivência que a faz invadir propriedades.

Acho que tanto a “fúria emocional e fisicalidade exigida por Sandra” que você cita são a mesma coisa, ela necessitava de tudo isso, ela é tudo isso. Eu não consigo explicar perfeitamente, mas eu seguia muito minha intuição nas cenas, uma intuição emocional. Eu ouvia o que tinha que fazer em cena e não era tão difícil achar a “fúria perfeita”. Afinal, ela precisava resolver os seus problemas, mas também estava muito dolorida. Nos momentos em set, éramos uma. Uma sem ultrapassar os limites de ninguém. Era só ela e eu.

“Meio Irmão” opta por não dar conclusões para os impasses vividos pelos protagonistas. Passados os anos, das filmagens até o lançamento comercial que acontece agora, as possibilidades de destino para Sandra são construídas em sua mente ou prefere desapegar de respostas mais concretas? 

A grande dúvida de todos no filme é “o que acontece com Suely?”. E eu tive essa dúvida até o último dia de filmagem, me recordo de perguntar muitas vezes pra Lili (diretora) até que um dia ela me disse “no último dia de filmagem eu te conto”. Dito e feito. Corta câmera e eu fui voando perguntar o que havia acontecido e ela me respondeu no ouvido como prometido. Com essa reposta, eu tenho algumas imagens da Sandra vivendo. Toda vez que assisto o filme (toda mesmo), eu penso em como Sandra estaria hoje. Quais decisões ela teria tomado. É muito louco por que algo no meu coração faz a Sandra viver em mim. Até hoje eu choro em algumas cenas do filme me lembrando exatamente do que ela sentiu do momento. Eu amo essa personagem.

O filme atravessou diversos festivais, rendendo inclusive prêmios para a sua interpretação. Qual foi o momento mais especial para você em toda essa trajetória? E há algum projeto em fecundação no qual poderemos vê-la. 

É muito legal ir pra festivais e acompanhar todo o evento de perto, você acaba conhecendo muita gente bacana e que sempre admirou. Não posso negar que quando eu ganhei como Melhor Atriz e menção honrosa de Atriz Revelação foram momentos incríveis, mas tem um momento em especial que me marcou muito, foi quando o Diego Avelino (Jorge) ganhou como Melhor Ator no Festival de Cinema de Caruaru e eu que tive que descer pra pegar o prêmio porque ele estava em Lion na França estudando, eu queria correr e ligar pra ele no mesmo momento, eu pulsava de alegria querendo dar a notícia. Ser atriz/ator é muito complicado, no Brasil é duas vezes pior e principalmente em começos de carreira e às vezes acaba nos deixando inseguros, mas enfim, tudo deu certo e tivemos boas devolutivas. Estou com alguns projetos sim, principalmente querendo viver mais do audiovisual/cinema. Esse ano estreia a série de horror “Noturnos” pro Canal Brasil, com direção geral de Caetano Gotardo e Marco Dutra, e tive o prazer de ser convidada pra estar em um episódio com grandes atores ao meu lado. Um trabalho totalmente diferente de “Meio Irmão” e que amei fazer tanto quanto.

As Melhores Atrizes no Cinema em 2019

O conteúdo de retrospectiva do ano preparado pelo Cine Resenhas em um formato bem diferente daquele visto desde a concepção deste site está chegando ao fim. Com um vídeo sobre melhores filmes brasileiros de 2019 já publicado no canal do YouTube e outro sobre melhores filmes de qualquer nacionalidade em processo de edição, pegamos o intervalo para agora trazer aquelas que foram as grandes atrizes do último ano.

A partir de um top 10, comentamos brevemente sobre cada uma das escolhas, que trazem talentos femininos que apresentam as faces mais obscuras, divertidas e comoventes de mulheres vistas em circunstâncias bem distintas, estabelecendo um choque entre emoções da ficção com aquelas da realidade. Boa leitura!

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10. Samal Yeslyamova, Ayka

O mundo cinéfilo foi pego de surpresa quando Samal Yeslyamova recebeu o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes de 2018. Uma análise mais detalhada entregará que não havia opção à altura da cazaque, que antes só havia trabalhado em “Tulpan”, obra de 2008 do mesmo Sergei Dvortsevoy que a dirige em “Ayka”. No registro cru em forma e conteúdo, Samal interpreta uma imigrante que parece mais preocupada em conseguir um trabalho para sobreviver e quitar uma dívida do que com o bebê que carrega em seu ventre, abandonado-o assim que se vê em condições de fugir do hospital. Uma jornada extremamente difícil, que graças à Samal conta com a nossa completa cumplicidade.

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9. Isabelle Huppert, Obsessão

Ao ser indicada ao Oscar por “Elle“. Isabelle Huppert voltou a cair no radar de realizadores fora da França. Em tempos mais recentes, protagonizou em inglês projetos como “Frankie” (que chega aos cinemas brasileiros nos próximos dias) e a minissérie “The Romanoffs”. Quando iniciava o percurso na temporada de prêmios pelo filme de Paul Verhoeven e também por “O Que Está Por Vir“, Neil Jordan já tinha assegurado a maior atriz do cinema europeu no papel de Greta Hideg, talvez a primeira vez em que ela vive uma vilã de modo mais frontal. Algumas dimensões estão ausentes para integrar a personagem de Greta. Isabelle Huppert tem ciência disso, virando uma chave que a faz se divertir à beça em uma bobagem que lembra aqueles thrillers de stalkers do início dos anos 1990. Se não bastasse, o público ainda recebe o bônus de testemunhar Huppert cuspindo uma goma de mascar nos cabelos de Chloë Grace Moretz. É o suficiente.

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8. Rebecca Ferguson, Doutor Sono

Nascida na Suécia, Rebecca Ferguson teve a chamada grande chance ao viver na tevê uma encarnação diferente da Rainha Elizabeth na minissérie “The White Queen”, que rendeu para ela uma indicação ao Globo de Ouro. Não foi tão vista e comentada pelo público em 2013, mas foi o suficiente para os olheiros de Hollywood a convocarem em papéis importantes em filmes como “A Garota no Trem“, “O Rei do Show” e três episódios da franquia “Missão: Impossível”. O seu melhor será visto como a vilã de “Doutor Sono”, Rose Cartola. É uma das melhores coisas na encarnação em texto da continuação de “O Iluminado” e o realizador Mike Flanagan amplia o seu território para evidenciar a sua tridimensionalidade.

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7. Jennifer Lopez, As Golpistas

Admito adorar quando um artista consegue dar a volta por cima após não conseguir se desvincular de uma repercussão negativa que se deu por algumas escolhas equivocadas na construção de sua carreira. Mas, excetuando a exposição que se autorizou a lançar durante o seu relacionamento com Ben Affleck, as motivações de Jennifer Lopez hoje parecem nobres mesmo com resultados aquém das boas intenções, como a de desejar protagonizar comédias românticas porque não via latinas representadas nesse gênero. Também franca foi a felicidade que expressou com os vários louros recolhidos com “As Golpistas”, uma perspectiva feminina sobre a crise econômica que abateu a América há um pouco mais de 10 anos na qual inclusive assume o papel de produtora executiva. A sua Ramona é um estouro em cena, dona de um dos melhores diálogos concebidos pelo roteiro e ainda com camadas de vulnerabilidade que reforçam que a celebridade J-Lo é, acima de tudo, uma boa intérprete dramática.

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6. Ana de Armas, Entre Facas e Segredos

Nós começamos a notar a existência da columbiana Ana de Armas há cinco anos, quando fez o seu primeiro trabalho em inglês, “Bata Antes de Entrar”, aquela atualização bem esquecível do Eli Roth para o também esquecível “Death Game”, thriller dos mais baratos produzido em 1977. Uma das jovens atrizes mais belas atualmente, passou a receber oportunidades mais interessantes desde sua intensa presença em “Blade Runner 2049“. Ainda assim, a escolha do diretor, roteirista e produtor Rian Johnson em escalar Ana para o papel central de “Entre Facas e Segredos” soava bem arriscada. Ainda bem que apostou todas as suas fichas nela. Ana não somente é uma personagem muito mais bacana que a do investigador agathacristiano Benoit Blanc (interpretado por Daniel Craig), como ainda coloca todo o elenco de apoio no bolso, de Jamie Lee Curtis a Chris Evans. A sua Marta Cabrera é comovente, engraçada e até mesmo dúbia. Vai ser difícil bolar uma sequência de “Entre Facas e Segredos” com uma protagonista (e atriz) à altura.

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5. Julia Stockler, A Vida Invisível

O que mais se falou sobre “A Vida Invisível” foi como a conclusão da história emociona, sobretudo pela presença especial de Fernanda Montenegro. Pelo visto, eu sou um dos poucos que passou incólume por essa etapa final da narrativa de Karim Aïnouz, que se dá a partir de uma elipse no mínimo desconfortável. Até lá, ainda estava sob uma hipnose provocada por Julia Stockler, o verdadeiro coração do drama, dando vida a uma irmã que tem de matar um leão por dia pelo abandono de um amor estrangeiro e pelo desprezo do pai. Com um currículo amparado por participações em curtas-metragens e projetos televisivos, hoje Julia recebe várias propostas, como para estar na adaptação cinematográfica para a peça teatral “Os Últimos Dias de Gilda”. Mal posso esperar pelo que está por vir.

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4. Mary Kay Place, A Vida de Diane

Somando mais de 100 créditos no cinema e na tevê desde 1973, a americana Mary Kay Place se conformou com papéis secundários de mães ou de um componente em um círculo de amizade de uma protagonista. Estreante na direção de longa-metragem de ficção, Kent Jones provavelmente viu os trabalhos mais substanciais de Mary, escalando-a para o grande papel-título de seu drama, registrando uma mulher que parece ter deixado de lado a construção de uma vida mais plena. Diane só passa a ser vista pelo público em seu próprio lar quando a narrativa já está em estágio avançado. É também flagrada pedindo desculpas a todos ao seu redor, bem como perdendo amigos e familiares na mesma faixa de idade que a sua. Mary não precisa de um grande grito para expressar a dor que a corrói. Está tudo expresso em sua face.

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3. Melissa McCarthy, Poderia Me Perdoar?

Não tenho dúvidas de que Melissa McCarthy tenha um casamento maravilho. Tanto que dele tem vindo as parcerias que impedem que a carreira da atriz alce voos mais altos. Se Paul Feig mostrou a comediante brilhante que é Melissa com os seus papéis em “Missão Madrinha de Casamento” e “A Espiã que Sabia de Menos“, Falcone exibe a sua esposa como uma mulher histriônica. A redenção veio recentemente com “Poderia Me Perdoar?”, no qual foi indicada ao Oscar 2019 na categoria de interpretação. É a grande chance para o público conhecer as suas habilidades dramáticas, que tinham sido manifestadas em pequenas doses em “Um Santo Vizinho”. E o melhor: nos faz ter uma empatia imediata com uma figura real antes que qualquer julgamento possa ser estabelecido sobre os seus atos. Pena que com o marido já tenha outros dois filmes no forno pra estrear ao longo deste ano…

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2. Glenn Close, A Esposa

Amamos Olivia Colman, mas Glenn Close sem um Oscar por sua interpretação em “A Esposa” é algo que ainda causa comoção. Especialmente pelo dado de que a grande veterana detém um recorde nada nobre: no histórico da premiação, é a atriz que mais acumula indicações sem uma conversão em vitória – sete ao todo. Neste drama acima da média do sueco Björn Runge, há da parte de Close uma interpretação extremamente sutil antes das esperadas explosões emocionais, expressando em faces de arrependimento o modo como negligenciou a si mesma em detrimento do sucesso do marido. O sonho de vê-la com uma estatueta talvez aconteça em 2022: a versão musical de “Sunset Boulevard” contou com a atriz em duas encarnações na Broadway e a versão cinematográfica está em pré-produção.

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1. Nicole Kidman, O Peso do Passado

Atualmente com 52 anos, Nicole Kidman viveu na pele a maldição dos 40 anos, em que a oferta de bons papéis começa a rarear em Hollywood. Houve mesmo algumas falhas em alcançar êxitos artísticos, mas Nicole deu a volta por cima. Voltou a encarar com mais regularidade o papel de produtora e mantém firme a promessa de trabalhar com mais cineastas mulheres. Karyn Kusama foi uma delas, que submeteu a australiana a uma transformação devastadora, comprovando o seu empenho em abraçar cada personagem com uma entrega que poucas atrizes em atividade estão dispostas. Nicole encara a sordidez do filme como um ambiente familiar, sobretudo como incorpora as cicatrizes físicas e emocionais da detetive Erin Bell, que passa a ser confrontada por um passado traumático que explica a decadência que a sucumbiu. Mesmo pouco visto, “O Peso do Passado” se destaca com “Obsessão” e “Segredos de Sangue” como as melhores interpretações da década de Nicole.

Melhores Atores 2019

Os Melhores Atores no Cinema em 2019

Saudações cinéfilas!

O ano de 2019 foi tão tumultuado em minha vida que muitas prioridades precisaram ser revistas. Uma delas foi a alimentação do Cine Resenhas como site, pois admito que ultimamente tenho flertado muito mais com a sua encarnação como canal no YouTube, onde publico entrevistas e vídeo comentários com maior regularidade.

Como intenção de voltar a gerar mais conteúdo textual, faço a primeira publicação de 2020 inaugurando uma maratona que farei celebrando os melhores de 2019, hoje apresentando a vocês quais foram para mim as grandes interpretações masculinas, devidamente comentadas.

Contem-me o que acharam e até a próxima!

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10. Ethan Hawke, Fé Corrompida

Ethan Hawke é um tipo de ator que qualquer diretor independente pode contratar sem que a qualidade de sua interpretação seja comprometida pelo cachê limitado. Foi o que fez Paul Schrader, que com “Fé Corrompida” não entrega somente aquele que é o seu melhor filme em mais de 10 anos, como vai além do automático na direção de seu elenco, no qual Hawke assume o protagonismo vivendo um padre  não muito confiante de suas certezas que vai paulatinamente sucumbindo à angústia.

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9. Asier Etxeandia, Dor e Glória

Já chegaremos a Antonio Banderas, mas a primeira metade de “Dor e Glória” certamente não seria tão excepcional se o astro, agora indicado ao Oscar, não tivesse como seu principal parceiro de cena Asier Etxeandia, que interpreta Alberto Crespo, ator que caiu em desgraça após um desentendimento que durou três décadas com o diretor que o descobriu e que ajuda a compreender, com drama e humor, alguns dos tormentos do próprio Pedro Almodóvar. Até então, o espanhol era mais conhecido por seus papéis na tevê. Hoje finalista ao Goya de Melhor Ator Coadjuvante pelo filme de Almodóvar, talvez passe a ser uma presença mais reconhecida na tela grande.

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8. Zain Al Rafeea, Cafarnaum

É sempre um perigo trabalhar com crianças, especialmente se for uma que não é um ator profissional e que tem uma vida parecida com a do personagem miserável que interpreta. “Cafarnaum” tem lá seus problemas morais, mas quando emociona, é por conta do gigantismo de seu pequeno protagonista Zain Al Rafeea, que habita uma realidade em que o obriga a sobreviver como se fosse um adulto. A diretora Nadine Labaki assegurou que a vida de Zain mudou após o seu filme, hoje vivendo com sua família na Noruega, onde frequenta uma escola pela primeira vez após uma infância nas favelas de Beirute.

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7. Jim Cummings, Thunder Road

“Thunder Road” teve umas três ou quatro sessões na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em 2018 e poucos o viram quando foi lançado nos streamings brasileiros. Pois vale a pena descobrir essa pérola feita por meros 191 mil dólares, especialmente por Jim Cummings, protagonista, diretor, roteirista e editor de uma comédia com toques dramáticos muito críveis sobre um policial que precisa encarar os fracassos de sua vida com o luto pela morte de sua mãe e um divórcio. É um personagem cheio de erros e pelo qual criamos uma simpatia imediata graças ao empenho que Cummings emprega ao papel. “The Werewolf”, seu próximo longa-metragem, começa a pipocar nas telas americanas em março deste ano.

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6. Robert De Niro, O Irlandês

Dá uma tristeza ver um veterano que amamos como Robert De Niro hoje sustentando uma carreira na base de filmes patéticos, quando não vergonhosos. Mas dá para entender, pois talvez as coisas alcancem um estágio em que o desgaste emocional para dar vida a personagens complexos aparece para clamar por projetos mais descompromissados. No entanto, se não fosse um ou outro projeto isolado (como os conduzidos por David O. Russell), talvez a gente não testemunhasse mais em vida o De Niro dos bons tempos. Ainda bem que a Netflix bancou o gordo orçamento de “O Irlandês”, permitindo uma reencontro tardio com Martin Scorsese (com quem não trabalha desde “Cassino”) e ainda a divisão de espaço com Al Pacino (esse é um que não via tão bom ator desde “O Mercador de Veneza”, de 2004), Joe Pesci e Harvey Keitel. A melancolia que expressa no ato final desse épico faz ser considerado um crime o fato de não estar concorrendo ao Oscar de Melhor Ator.

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5. Antonio Banderas, Dor e Glória

Chegamos a ele. Levou 22 anos para que Antonio Banderas e Pedro Almodóvar se reencontrassem no cinema. Depois de “Ata-me!”, houve uma ruptura resolvida somente em “A Pele que Habito“. Especulou-se que houve uma desarmonia entre ambos, talvez servindo de inspiração para a construção de “Dor e Glória”, ainda que o maior realizador espanhol hoje em atividade também tenha se desentendido com outros de seus intérpretes ao longo da carreira. Há males que vem para o bem. Almodóvar entrega o seu melhor filme desde “Volver” (de um distante 2006) e Banderas traz aqui o peso de um ator que amadureceu muito com o tempo, melhor como nunca se viu.

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4. Richard E. Grant, Poderia Me Perdoar?

Às vezes, um bom filme depende da sintonia que há entre dois atores contracenando. Se os melhores momentos de “Dor e Glória” são aqueles entre Antonio Banderas e Asier Etxeandia, “Poderia Me Perdoar?” talvez não fosse tão bom se Melissa McCarthy não contasse com um ator do calibre de Richard E. Grant como o seu principal parceiro de crime. O ator nascido em Suazilândia tem mais de 130 créditos no currículo e é desses que a gente sabe que viu a cara em um filme, mas nem sempre lembra em qual. Até diretor já foi, em “A Conquista da Liberdade”, de 2005. O humor afiado como uma navalha que impõe ao seu personagem torna ainda mais mordaz os direcionamentos dramáticos da história real. Indicado ao Oscar, perdeu para Mahershala Ali.

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3. Eddie Murphy, Meu Nome é Dolemite

Após o fracasso comercial retumbante de seus últimos filmes (“O Grande Dave“, “Imagine Só!”, “As Mil Palavras” e o drama indie “Mr. Church”), Eddie Murphy fez o que parecia certo: desapareceu por alguns anos para curtir a família, a sua fortuna e o aparecimento de algum projeto que valesse a pena um comeback. “Meu Nome é Dolemite” faz lembar aquele comediante dos velhos tempos, pelo qual nos apaixonamos por causa de “Um Príncipe em Nova York”, “Um Tira da Pesada” e tantas outras comédias memoráveis dos anos 1980/1990. A homenagem que presta para Rudy Ray Moore é emocionante, em um filme que narra os percalços do sucesso daquele jeito contagiante que Craig Brewer já havia demonstrado no igualmente ótimo “Ritmo de um Sonho”.

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2. Félix Maritaud, Selvagem

Mais novo ícone gay do cinema europeu? Félix Maritaud teve um personagem secundário de destaque em “120 Batimentos por Minuto” e, desde então, tem sido convocado para marcar presença em narrativas que encontram maior sintonia com o público LGBTQI+. “Selvagem” tem mesmo esse apelo, mas a maneira como Maritaud se entrega ao papel de um garoto de programa autodestrutivo é tão intensa que penso que qualquer um que tenha experimentado um amor não correspondido ou a ausência de afeto sairá igualmente devastado da sessão.

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1. Jonas Dassler, O Bar Luva Dourada

Jonas Dassler é um jovem de 23 anos com toda uma pinta de galã. O extremo oposto do temível e feioso Fritz Honka, assassino em série acusado pela morte de quatro prostitutas em Hamburgo quando tinha entre 35 e 40 anos. Vá entender como o realizador Fatih Akin o avaliou para o papel, mas a escolha se mostra certeira na tela. A partir de um departamento de maquiagem liderado por Daniel Schröder, Lisa Edelmann e Maike Heinlein (constantes colaboradores de Akin), Dassier definitivamente se transforma em uma criatura abominável, abraçando-a para representar o que há de mais podre não somente em um indivíduo com a maldade encarnada em seu ser, mas também nos abismos sociais bem delimitados no ambiente que habita.

Gabriela Souza

Entrevista com Gabriela Souza, sobre o projeto Selo BLACK

Especializada na produção e na distribuição audiovisual brasileiras, a Elo Company vem se destacando no mercado sobretudo por representar uma fatia considerável do que hoje podemos acompanhar da face mais autoral de nossa cinematografia, por vezes desenvolvendo iniciativas que facilitam a viabilização e o acesso a esses projetos. Como o Selo ELAS, que busca priorizar o desenvolvimento de filmes em que a direção é feminina.

Em algumas praças, incluindo São Paulo, o público pode ter acesso a alguns títulos com ingressos a preços mais populares no Projeta às 7, ideia também criada pela Elo Company em parceria com a Rede Cinemark: é exibido um filme brasileiro em que a entrada pode ser adquirida por até R$ 12, em sessões que acontecem de segunda a sexta , sempre às 19h.

A novidade divulgada neste fim de ano é a criação do Selo BLACK, em que a prioridade será dar maior visibilidade para profissionais negros que desejam debutar ou dar continuidade na carreira de direção. Gerente de projetos e financiamento da Elo Company, Gabriela Souza é quem coordena o Selo Black. Com ela, realizamos uma entrevista em que nos revela a realidade do cenário audiovisual atual, em que a representatividade de minorias aos poucos vem ganhando mais força. Ao fim da conversa, saiba quais são os primeiros projetos já confirmados com o Selo BLACK. A comédia “Na Rédea Curta”, com direção de Glenda Nicácio e Ary Rosa (a dupla responsável por “Café com Canela” e “Ilha” – temos entrevistas com Ary sobre ambos os filmes aqui e aqui), deverá ser o primeiro a chegar aos cinemas, com previsão de exibição para 2020.

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A Elo Company é responsável pela criação do Selo ELAS, que visa dar mais oportunidades para vozes femininas atrás das câmeras. O êxito dessa iniciativa auxiliou no desenvolvimento do Selo Black ou fatores externos foram mais influentes?

Os dois projetos partem do mesmo ponto, que é a pesquisa divulgada pela ANCINE em 2016 na qual diz que há poucas mulheres dirigindo e roteirizando e que não havia nenhuma mulher negra entre as diretoras que foram contabilizadas no ano de 2014. Partem dessa reflexão do porquê dessas pessoas não estarem produzindo. Também percebemos uma demanda com parceiros e clientes com os quais trabalhamos. Existe o público, mas não existe o produto.

Com vasta experiência no mercado, tem testemunhado uma mudança no cenário quanto a representatividade negra?

Sim, ele é bem diferente. Não que esses projetos não tenham sido feitos, a exemplo do “Café com Canela”, uma codireção com uma realizadora negra, o que não tínhamos visto até o momento. Neste ano, tivemos ” A História de um Sonho: Todas as Casas do Timão”, codirigido por Marcela Coelho. Diferente dos anos anteriores, tais projetos têm sido feitos e chegado ao circuito comercial. Eles sempre existiram. Um exemplo é o Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul, que acontece no Rio de Janeiro anualmente numa reunião entre África, Brasil e Caribe, exibindo muitos materiais e filmes feitos por pessoas negras, mas eles não chegam em nosso circuito comercial.

Conte-me um pouco mais sobre a gênese do Selo BLACK e os nomes com os quais você une forças para fazê-lo acontecer.

Ele realmente parte do Selo ELAS, pois entrei na Elo Company me atentando a essa questão de diversidade, na sequência surgindo a oportunidade de desenvolver um outro projeto voltado para a população e os realizadores negros. Tenho buscado alguns parceiros e profissionais para somar comigo. Como coordenadora, abarco o projeto e há consultores como a Carolina Gomes, do FAMA/Avon (Fundo Avon de Mulheres no Audiovisual) e o Alberto Pereira Jr., da Academia de Filmes.

Como vocês pretendem trabalhar os estágios iniciais dos projetos que irão compor o Selo Black?

A ideia da consultoria e de qual forma abraçaremos esses projetos virão com a visão da distribuidora para avaliar as consequências comerciais e escolhas artísticas, isso conectado com esses realizadores com visões e vivências diferentes, pois só eles podem colocar na tela as suas experiências. É trabalhando esses materiais que eles vão analisar comercialmente com nossos parceiros, havendo roteiristas, produtores executivos e diretores que dirão se funcionam para o mercado e avaliarão questões ideológicas e raciais. Da minha parte, também verei as questões financeiras desses projetos, como onde seria mais interessante captar um valor que estiver faltando no orçamento, em quais festivais ele pode entrar para ter maior visibilidade. Acompanhar toda essa trajetória do filme, desde o argumento até a exibição, dando esses toques de profissionais do mercado.

E quanto ao momento de finalmente exibir os filmes para o público? Pretendem avaliar festivais para a construção da carreira dessas obras? 

Respeitamos muito qual é o desejo do produtor e diretor com o seu filme. Tem produtores que não estão muito interessados em festivais, há outros que sim. Trabalhamos aqui na Elo Company com toda a cadeia e vida de um filme, iniciando pelos festivais, depois salas comerciais, VOD, e o que mais a gente entender, junto a outros parceiros comerciais, onde podem caber essas obras. Há um departamento dentro de Vendas que lida especificamente com festivais, fazendo uma triagem e identificando quais as nossas opções no Brasil e no mundo que têm a ver com aquelas obras.

Como citou, há festivais específicos para celebrar o cinema produzido por profissionais negros ou mesmo com temáticas caras a esse público-alvo. Esses eventos também serão considerados? Tais títulos podem também se integrar a outras iniciativas da empresa, como o Projeta às 7?  

Temos uma curadoria específica para o Projeta às 7. Alguns podem se encaixar nele. Isso só ocorre quando a obra está pronta. Vai depender muito do que vai acontecer com o filme, pois ele muda muito, podendo se transformar diante do que foi planejado previamente. Fazemos diversos lançamentos em diferentes salas. Vai depender muito do perfil de cada título.

Tenho uma grande preocupação, na posição de espectador, quanto ao destino de filmes brasileiros independentes, ainda mais em uma realidade na qual a sala de cinema não é acessível a todos. Pretendem ir além da disponibilização desses filmes em plataformas streaming?

Sim, pois como tratam de temáticas bem específicas, com diretores com experiências próprias, terão uma demanda diferenciada. No entanto, já temos salas que trabalham para atender a esse público específico, promovendo o debate ao fim da exibição, algo mais corriqueiros em obras autorais. Temos o circuito SPCine. Estamos nos aproximando dele. Mas dependerá realmente do momento em que todos os filmes estiverem prontos, pois tudo é muito volátil. Tanto a negociação para streaming e tevê paga quanto para onde o exibiremos após a estreia dependerá muito do desempenho do filme em sua trajetória prévia. Por mais que tenhamos uma ideia do que pode acontecer, tudo dependerá de quando esses filmes estarão prontos, em qual cenário estaremos vivendo e assim determinar o caminho de cada um.

Dentro de uma perspectiva mais pessoal, o que a impulsiona a coordenar o Selo Black e quais resultados pretende atingir?

Parto da ideia de que sou uma mulher negra, que trabalha no audiovisual e que está inserida no mercado. É muito diferente para quem está nessas companhias atuando comercialmente daqueles que fazem trabalhos mais autorais, fora do circuito. A intenção é trazer esses realizadores e abrir as portas para esse nicho mais comercial. O que me impulsiona é também poder me ver tanto na tela quanto atrás das câmeras. E não ser só eu. Não é somente eu representar alguém, mas trazer pessoas que também queiram se representar.

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Filmes confirmados do Selo BLACK

Na Rédea Curta

NA RÉDEA CURTA
Comédia em desenvolvimento
Produção: Rosza Filmes Produções LTDA ME
Direção: Glenda Nicácio e Ary Rosa
Sinopse: Da periferia de Salvador, criado apenas pela mãe, Junio, aos 20 anos, descobre que vai ser pai e decide, a partir disso, ir atrás de seu pai. Mainha, mãe super protetora, se vê obrigada a revelar a identidade do pai de Júnio, que mora no interior do Recôncavo da Bahia, na cidade de Cachoeira. Inicia-se então uma divertida viagem de Mainha e Júnio em busca do pai, numa aventura repleta de confusões que no fim só servem para aproximar mais mãe e filho. Afinal, para Júnio, Mainha é insubstituível, e não há nada nem ninguém no mundo capaz de ocupar o seu lugar.

BUSCA E APREENSÃO
Documentário em desenvolvimento – captação de recursos
Produção: Encantamento Filmes
Direção: Everlane Moraes
Sinopse: No ano de 1991, pai e mãe brigam judicialmente pela custódia da filha, quando fica decidido que o pai será oficialmente o responsável pelos cuidados com a menor, sendo-lhe concedido a guarda definitiva.
Dividida entre as famílias, a cineasta, solicita a reabertura do processo judicial de custódia da qual foi vítima na infância, com a intenção de reconstruir seu passado e resolver as tensões familiares do presente.
O resultado dessa ação são reflexões sobre a justiça, a absolvição simbólica de todos os acusados e o encontro inédito entre duas mães, a adotiva e a biológica.

MENINA MULHER DA PELE PRETA
Drama em captação de recursos
Produção: Dandara Produções Culturais e Audiovisuais
Direção: Renato Cândido de Lima
Sinopse: Ao trabalhar a questão de afetividade, ancestralidade e protagonismo da mulher negra, Menina Mulher da Pele Preta traz cinco histórias ficcionais de cinco mulheres negras de diferentes gerações e perfis sociais.

É TEMPO DE AMORAS
Drama em captação de recursos
Produção: Aranhas Films
Direção: Anahí Borges
Sinopse: “É tempo de amoras” conta a história de uma tentativa de adoção inusitada. Petrolina, apelidada Pety, 10 anos de idade, ressente-se do fato de não ter uma avó. Pasqualina, 81 anos, vive no asilo pois não possui parentes vivos. A trajetória das personagens se cruzam e Pety tentará adotar Pasqualina.

NARCISO RAP
Comédia dramática em captação de recursos
Produção: Buda Filmes
Direção: Jeferson De
Sinopse: Narciso é um garoto que vive em orfanato, o seu maior desejo é encontrar uma família que o adote, e a cada ano que passa este sonho fica mais distante. Na véspera de Natal um de seus melhores amigos lhe dá uma velha lâmpada, o garoto a esfrega e um gênio surge. Narciso pede para o gênio uma família.

Entrevista com Daniel Gonçalves, diretor do documentário “Meu Nome é Daniel”

Após um ano de passagens por festivais, como o Olhar de Cinema, a Mostra e o Festival do Rio, o documentário “Meu Nome é Daniel” chega enfim ao circuito comercial. O lançamento é um capítulo histórico na cinematografia nacional: é a primeira vez que se tem registro no país de um longa-metragem a ganhar a tela grande em que a sua direção foi assumida por uma pessoa com deficiência. Isso alguns meses após Julia Katharine conseguir encaixar o seu curta-metragem “Tea for Two” nas exibições de “Lembro Mais dos Corvos”, tornando-se assim a primeira cineasta trans no Brasil a exibir um filme comercialmente.

Em entrevista transcrita de áudio, Daniel Gonçalves reflete sobre os prós e contras de tal pioneirismo, mas também sobre a sua relação com o cinema, o desejo em ser o contador de sua própria história e acessibilidade nas salas de cinema. Acompanhe a seguir.

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No documentário, os registros domésticos e a sua narração entregam que grande parte de sua vocação como diretor foi oriunda de seu pai. Conte-me um pouco mais de sua relação com a arte audiovisual e a escolha dela para compartilhar a sua história.

Apesar de meu pai sempre ter me filmado muito quando era criança e adolescente, não me lembro de ter vontade de filmar ou fazer cinema. A minha relação com o cinema veio mais tarde, durante a faculdade, onde passei a me interessar mais. Primeiro através da edição. Depois, migrando para a realização de documentários como diretor. Na infância, gostava muito de contar histórias, mas não necessariamente através de vídeos. Como dito, não tinha vontade de filmar ou de pedir uma câmera. Se aconteceu, foi muito pontual, não tenho memórias sobre isso. Tudo começou durante ou após um estágio como editor na TVPUC, onde estudei jornalismo. Fiz a faculdade para trabalhar com jornalismo esportivo e a oportunidade mudou o meu caminho em direção ao cinema. A partir daí, fiz um curso de montagem na Escola de Cinema Darcy Ribeiro, além de um curso de extensão em produção executiva para cinema e televisão e pós-graduação em cinema documental. Foi assim que essa coisa de contar história através do audiovisual se consolidou.

Ainda sobre as imagens de arquivo, elas contemplam mais de 10 anos de sua vida, da infância à juventude. Como foi o processo de redescobri-las e reorganizá-las com outros registros mais recentes por você dirigidos?

Foi natural. Sabia que essas imagens existiam, mas tinha visto muito pouco depois de gravadas. Quando resolvo fazer o filme, claro que essas imagens adquirem uma importância muito grande, pois através delas pude revisitar e compreender melhor essa minha trajetória, talvez com um olhar mais crítico. Entender qual é o meu lugar no mundo, como me enxergo hoje. Diria que foi um processo de terapia ver essas imagens e construir um filme a partir delas. O processo começa depois das imagens de arquivo e a partir delas estabeleci um pré-roteiro que foi um guia para grande parte das gravações que fiz. Uma coisa influenciou completamente a outra.

“Meu Nome é Daniel” chega aos cinemas divulgando o dado de que este é o primeiro longa-metragem brasileiro dirigido por uma pessoa com deficiência. Como repercute em você o peso desse pioneirismo?

Esse pioneirismo tem dois lados, um bom e outro ruim. O bom é de ser este diretor com deficiência a fazer um filme, contar a sua própria história, o que é muito representativo. O ruim é que demorou para aparecer uma pessoa com deficiência poder ter voz e oportunidade de contar a sua própria história, pois somos muitos, cerca de 24% da população têm algum tipo de deficiência, e não vemos essas pessoas pelas ruas. Muito por isso, essas pessoas não contam as suas próprias histórias. Acredito que o mais importante desse pioneirismo é poder ser o primeiro a contar uma história para, aos poucos, poder mudar a maneira como nós somos vistos. Precisamos conseguir fugir dos clichês em que somos colocados naqueles dois lugares: ou o do coitadinho ou do super-herói. A partir do momento em que começo a contar a minha história em um filme que fujo desses dois lugares, temos um bom caminho a seguir.

O seu documentário é um dos poucos títulos recentes disponíveis no aplicativo Movie Reading Brasil, que visa atender os espectadores com deficiências visual e auditiva – juntos, representam aproximadamente 5% da população no Brasil. Acredita que o sistema de exibição está muito distante de contemplar todas as audiências?

Essa questão da acessibilidade no audiovisual ainda está muito incipiente. Existe uma instrução normativa da Ancine que diz que todos os filmes precisam ter acessibilidade, mas, ao mesmo tempo, pouquíssimas salas de cinema estão preparadas para atender a esse público. Penso que o aplicativo Movie Reading chega para tentar ser uma maneira mais fácil para as pessoas que têm algum tipo de deficiência visual ou auditiva ir aos cinemas sem depender que estes tenham as ferramentas de acessibilidade.

Ao fim de “Meu Nome é Daniel”, o diagnóstico sobre a sua condição seguiu inconclusivo. Do período de finalização do documentário até esse momento da estreia comercial, alguma descoberta surgiu?

Nada mudou desde então, até porque não continuei com a busca por um diagnóstico. Não é algo que mudará a minha vida e, no momento, não tenho interesse em saber o que tenho, porque dificilmente apareceria algum remédio em que eu tomaria hoje para amanhã correr 100 metros rasos em 10 segundos, sabe? Desde então, não surgiu nenhuma novidade, muito porque essa coisa da busca é muito mais um dispositivo fílmico do que uma real necessidade minha de saber o que tenho. Sei qual é a minha condição, o quadro clínico, e o que devo fazer para poder melhorar e também para fazer as coisas com mais facilidade. Descobrir exatamente o que é, além de ser muito caro, não é urgente para mim.

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Assista ao trailer com acessibilidade:

Horror Expo 2019

HORROR EXPO | Voltado ao mundo de horror, evento tem sua primeira edição em São Paulo [de 18 a 20/10]

País aficionado pelo gênero horror, o Brasil mantém extremamente o mercado do gênero principalmente nos segmentos audiovisual e literário. Fãs que vivem ou estiverem em São Paulo nos próximos dias poderão aproveitar um grande evento com as estruturas de uma convenção, o que não é habitual de ser praticado por aqui. Trata-se da Horror Expo, que terá a sua primeira edição abrigada entre os dias 18 e 20 de outubro no Pavilhão de Exposições do Anhembi.

A programação trará um sem número de atrações, de debates com convidados nacionais e estrangeiros até apresentações musicais. Entre os nomes internacionais, o principal destaque é a vinda de Mick Garris. Diretor, roteirista, produtor e com créditos em outros ofícios, o americano se notabilizou especialmente pelas várias contribuições com o escritor Stephen King. São deles a minissérie “O Iluminado”, “A Dança da Morte” e “Saco de Ossos”, além dos filmes “Sonâmbulos”, “Montado na Bala” e “Desespero”. Querida pela personagem Pepper em “American Horror Story”, a atriz Naomi Grossman é outra presença confirmada, bem como Lochlyn Munro, de “Riverdale”.

Ainda em cinema, a Horror Expo contará com pré-estreia exclusiva de “Zumbilândia: Atire Duas Vezes”, uma prévia de “Doutor Sono”, uma das bonecas originais de Annabelle e uma palestra com as participações de Armando Fonseca, Kapel Furman e Raphael Borghi, especialistas em efeitos especiais. Haverá também orquestra executando famosas trilhas sonoras, trem fantasma em realidade virtual, debate com o escritor André Vianco, concurso de cosplay, maquiagem artística a serviço da Colormake, empresa do segmento há 30 anos no mercado, e muito mais.

O Cine Resenhas estará presente na Horror Expo para fazer cobertura no fim de semana. Para saber mais sobre o evento, consulte o serviço a seguir.

Serviço:
Horror Expo 2019
Datas: 18, 19 e 20 de outubro de 2019
Horário: das 12h às 22h
Local: Pavilhão de Exposições do Anhembi
Endereço: Avenida Olavo Fontoura, 1209 – Santana, São Paulo/SP, CEP: 02012-021

Ingressos: Ingresso individual por dia: 1º Lote – R$ 150,00 (meia-entrada) e R$ 300,00 (inteira)
Passaporte individual para os três dias do evento: 1º Lote – R$ 427,50 (meia-entrada) e R$ 855,00 (inteira)
Ingressos VIP: VIP Platinum: R$ 1.000,00 (por dia) ou R$ 2.700,00 (três dias) | VIP Gold: R$ 700,00 (por dia) ou R$ 1.890,00 (três dias) | VIP Silver: R$ 500,00 (por dia) ou R$ 1.350,00 (três dias)

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