Eliane Coster, Meio Irmão

Entrevista com Eliane Coster, diretora de “Meio Irmão”

Além da carreira como fotógrafa, Eliane Coster é uma curtametragista veterana, tendo debutado na função em 1995 com “Instruções Para Dar Corda no Relógio”. A oportunidade para trabalhar com o formato de ficção em longa-metragem, no entanto, é mais recente. Tendo ganhado os festivais em 2018, “Meio Irmão” somou elogios e prêmios. Na 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, por exemplo, recebeu o Prêmio Petrobras de Cinema e o Prêmio Abbracine, além de finalista ao Troféu Bandeira Paulista.

Agora em cartaz, “Meio Irmão” é uma ótima contribuição do cinema dramático aqui produzido para compreender a atual geração jovem, no qual a cineasta aponta ter uma “perspectiva curta de futuro” por certa invisibilidade de organismos que formam a sociedade. É um dos aspectos aprofundados na entrevista a seguir, concedida por e-mail pela diretora e roteirista.

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+ Entrevista com Natalia Molina, atriz de “Meio Irmão”

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“Meio Irmão” versa principalmente sobre uma geração que parece estagnada em um contexto em que não é assistida por adultos ou que encontra barreiras para mostrar quem verdadeiramente é. Como foi o seu processo de investigação dessa juventude que retrata?

Eu comecei observando o comportamento da minha própria filha, que tinha 13 anos quando eu estava fazendo o roteiro. Depois eu fui a campo para fazer entrevista com jovens da periferia que trabalhavam no centro de São Paulo em lojas em sua maioria. Conversei bastante e entendi que eles tinham um horizonte muito curto de futuro. Eles achavam que a sociedade, ou seja, políticos, governo, instituições como escolas, justiça, polícia, não os enxergavam. Entendiam a sociedade como um lugar contra eles, só que muito forte e grande, contra o qual eles não poderiam lutar. Por isso a desesperança, o alienamento (que é uma defesa nesse caso), essa perspectiva curta de futuro e muito individualismo. Para mim, isso teve um ápice em 2013, que refletiu no nosso cenário político atual e agora começa a mudar com o surgimento de um novo cenário de relações comunitárias, ainda tímido, mas que espero ver crescer em breve.

A Zona Leste de São Paulo é uma personagem importante em sua narrativa, nebulando com o seu cinza uma perspectiva de um futuro mais positivo para Sandra e Jorge. O quão importante e difícil foi para você explorar esse ambiente urbano?

Eu não sou da Zona Leste, mas gosto muito dos ambientes periféricos, pois acredito que, pela vulnerabilidade, ainda há espaço para relações humanas e de coletividade, que são importantíssimas. Quando há carência, se ela não for impeditiva (não for miséria realmente), as pessoas tendem a se aproximar para aumentar justamente a força individual. Essa aproximação é o melhor que há na sociedade. Não estou defendendo que tenha que haver desigualdade e população pobre para haver relações humanas, não é isso, estou somente dizendo que a inventividade surge desses espaços periféricos mais vulneráveis. Inventividade inclusive de modelos de sociedade e de relações humanas. No centro, as estratégias já estão cristalizadas e capturadas pelas instituições de controle dos comportamentos.

Como foi o processo para encontrar Natália Molina e Diego Avelino? Quais as dinâmicas estabeleceu para que encontrassem química como protagonistas que se encontram quando a narrativa de “Meio Irmão” já está em um estágio avançado de desenvolvimento?

Fizemos uma produção de elenco grande com jovens do teatro amador ou do profissional em centros culturais da periferia, como o Pombas Urbanas, na Cidade Tiradentes, e a Casa do Zezinho, no Capão Redondo. Pesquisamos também atores jovens que já estavam atuando em filmes e séries. Esse lugares tinham professores e alunos que divulgaram o teste e no boca a boca testamos cerca de 150 jovens. A interação entre Diego e Natália foi imediata. Um dos testes era fazer jogos com duplas de possíveis “meios-irmãos”. Diego e Natália se conectaram imediatamente. Pareciam irmãos. Tivemos outras boas duplas juntas e muitos atores fantásticos passaram pelo teste que não pudemos aproveitar, tais como o Lucas Andrade e o Diogo Cintra (que chegou a filmar, mas a cena dele caiu na montagem). Mas Natália e Diego nos surpreenderam desde o primeiro momento.

Meio-Irmão

Você tem uma longa carreira como fotógrafa e vejo o seu filme flertar sobre observação e vigilância a partir de imagens de câmeras que operam à distância dos acontecimentos. Quais os comentários que deseja tecer a partir dessa escolha?

Estamos literalmente rodeados desses dispositivos que são uma ambiguidade entre a proteção e a vigilância. Isso diz muito de nossa sociedade, pois por um lado somos todos observadores “voyeurs”. Precisamos observar para aprender. Essa é uma das formas que a gente tem de conhecer a realidade desde os tempos remotos. Homens da nossa pré-história já eram desenhistas exímios nas cavernas, de cenas que eles observavam no seu cotidiano. O problema é quando essa observação implica em uma relação de poder. É isso que acontece com as câmeras cada vez mais. Então, quem tem poder usa a imagem para controlar aqueles que sustentam o seu poder. E isso ocorre em uma escala global superssofisticada, mas não está fora do sujeito, está dentro dele. É isso o que eu tentei falar com a narrativa das câmeras: nós temos uma relação ambígua com a imagem, com a nossa representação nos dispositivos de imagem (cinema, televisão, redes), pois estamos dentro e fora dele. Ou melhor: eles estão dentro e fora de nós.

Antes de estrear comercialmente, “Meio Irmão” atravessou uma jornada de aproximadamente um ano por festivais, sendo premiado inclusive na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em 2018. O que reflete sobre toda essa jornada na direção de seu primeiro longa-metragem de ficção? 

Os festivais são essenciais para dar visibilidade para o público, mas também para produzir debate de qualidade, tanto sobre os filmes quanto sobre o mercado de cinema. A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo é o maior panorama da produção mundial a qual temos acesso no Brasil. Para quem faz cinema e quem gosta de cinema e cultura, ela é essencial, pois justamente traz filmes que não veremos de outra forma. São filmes em línguas estrangeiras que a maioria de nós não fala (búlgaro, chinês, lingala, polonês etc). E que a Mostra traduz em português. “Meio Irmão” participar da Mostra foi uma honra, pois nos colocou junto com esse panorama diverso e excelente que ela produz. E ganhar dois prêmios na Mostra foi incrível, pois é o reconhecimento de um trabalho intenso e árduo que só foi possível com uma série enorme de parceiros, desde o primeiro momento da escritura do roteiro até o lançamento comercial com a O2Play, e a contribuição dos cinemas que abriram espaço para o filme ser exibido.

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*a foto da realizadora é um registro de Mario Miranda Filho/agenciafoto.com.br

Natália Molina, Meio Irmão

Entrevista com Natalia Molina, atriz de “Meio Irmão”

Como Sandra, a personagem central de “Meio Irmão”, Natalia Molina apresenta um desempenho típico de uma atriz que compreende muito bem o riscado do cinema. O acúmulo de talento, no entanto, veio todo do teatro, o qual faz desde os 13 anos.

Nascida de Piracicaba e com 21 anos que serão completados em abril, ela participou de um processo de seleção que envolveu dezenas de outras garotas. A estreia no cinema foi bem recepcionada pelos festivais, ganhando em dois deles, o Festival de Cinema de Caruaru e o Festival Internacional de Cinema da Fronteira, prêmios por sua interpretação.

Com “Meio Irmão” em exibição no circuito comercial, Natalia relembra alguns aspectos da experiência de trabalhar com Eliane Coster, do processo de imersão no papel até sobre os diálogos que estabeleceu com a diretora e roteirista sobre a realidade de Sandra e algumas resoluções que podem deixar interrogações no espectador. A entrevista foi concedida por e-mail.

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+ Entrevista com Eliane Coster, diretora e roteirista de “Meio Irmão”

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Natalia, “Meio Irmão” é a sua estreia como atriz no cinema. Como as vivências anteriores, especialmente no teatro, a prepararam para esse momento em uma mídia diferente?

Primeiramente, fiquei muito feliz com o convite pra essa entrevista, muito obrigada! Bom, eu faço teatro desde os meus 13 anos. E desde sempre prezei pela intensidade em tudo o que faço, e com o teatro/cinema não foi diferente. Já fiz algumas peças de gêneros variados (o que acabou sendo muito positivo pra mim quanto atriz). Meu primeiro professor/diretor, o Vanderlei Carneosso, trabalhava com dois métodos que me auxiliaram muito, corpo e laboratório. Esses dois estudos com certeza me ajudaram a criar a Sandra. As aulas eram no Centro Cultural de Valinhos, a maioria dos alunos ia uma ou duas vezes por semana, e como atuar era a melhor parte do meu dia, eu acabava indo cinco (risos). E quando soube que iria interpretar a Sandra, eu me deparei com a melhor preparadora de elenco que poderia ter, a Luciana Barboza, que fez o seu trabalho da melhor forma possível.

A realizadora Eliane Coster comentou comigo que você foi a escolhida para viver Sandra após um longo processo de escalação que testou mais de uma centena de jovens. Quais as suas principais lembranças dessa etapa inicial tanto da conquista do papel quanto de se ver imersa nele?

Na época dos testes eu morava em Valinhos, interior de São Paulo. Toda vez que eu recebia uma ligação de que tinha passado pra próxima etapa de testes eu ficava realmente muito feliz, até que no terceiro dia foi anunciado que eu protagonizaria o longa. Lembro de naquele momento tomar a decisão de fazer aquela personagem da forma mais profunda que eu poderia. A Sandra acaba sendo e tendo uma vida muito diferente da minha, mas, ao mesmo tempo, ela estava ali e eu percebi isso quando comecei a me emocionar toda vez que ensaiava. Ela realmente foi um presente. Criar a vida dela era um presente, o meio irmão dela era um presente. E então me deparo com uma preparadora (Lu Barboza) que também trabalhava com laboratórios e outras mil formas de imergir o ator no seu estudo de personagem, o que me deixava mais segura a cada ensaio.

Diego Avelino e você dão vida a adolescentes que atravessam uma série de dilemas comuns na geração atual, do amadurecimento precoce dado pela ausência de adultos até a descoberta e aceitação da própria sexualidade. Estabeleceram diálogos sobre essas e outras pautas que foram essenciais para a construção da narrativa?

Em todos os ensaios nós trazíamos os assuntos mais relevantes que o filme trata, conversávamos entre todos os atores e a preparadora e ficávamos com “lições de casa” de “quão próximo essa situação está de você?” até “quão distante essa situação está de você?”. O que nos permitiu entender muita coisa. Acredito que somente o exercício de se colocar no lugar de outro indivíduo nos faça QUASE entender o que o este passa. Como já disse anteriormente, a Luciana Barboza é uma das melhores profissionais que já trabalhei, então obviamente ela traria esses assuntos pra gente pensar.

Natália Molina, Meio Irmão

Fiquei extremamente impactado com a sua entrega ao papel e gostaria de saber principalmente como foi aliar a sua fúria emocional com certa fisicalidade exigida por Sandra, das suas quedas literais até o instinto de sobrevivência que a faz invadir propriedades.

Acho que tanto a “fúria emocional e fisicalidade exigida por Sandra” que você cita são a mesma coisa, ela necessitava de tudo isso, ela é tudo isso. Eu não consigo explicar perfeitamente, mas eu seguia muito minha intuição nas cenas, uma intuição emocional. Eu ouvia o que tinha que fazer em cena e não era tão difícil achar a “fúria perfeita”. Afinal, ela precisava resolver os seus problemas, mas também estava muito dolorida. Nos momentos em set, éramos uma. Uma sem ultrapassar os limites de ninguém. Era só ela e eu.

“Meio Irmão” opta por não dar conclusões para os impasses vividos pelos protagonistas. Passados os anos, das filmagens até o lançamento comercial que acontece agora, as possibilidades de destino para Sandra são construídas em sua mente ou prefere desapegar de respostas mais concretas? 

A grande dúvida de todos no filme é “o que acontece com Suely?”. E eu tive essa dúvida até o último dia de filmagem, me recordo de perguntar muitas vezes pra Lili (diretora) até que um dia ela me disse “no último dia de filmagem eu te conto”. Dito e feito. Corta câmera e eu fui voando perguntar o que havia acontecido e ela me respondeu no ouvido como prometido. Com essa reposta, eu tenho algumas imagens da Sandra vivendo. Toda vez que assisto o filme (toda mesmo), eu penso em como Sandra estaria hoje. Quais decisões ela teria tomado. É muito louco por que algo no meu coração faz a Sandra viver em mim. Até hoje eu choro em algumas cenas do filme me lembrando exatamente do que ela sentiu do momento. Eu amo essa personagem.

O filme atravessou diversos festivais, rendendo inclusive prêmios para a sua interpretação. Qual foi o momento mais especial para você em toda essa trajetória? E há algum projeto em fecundação no qual poderemos vê-la. 

É muito legal ir pra festivais e acompanhar todo o evento de perto, você acaba conhecendo muita gente bacana e que sempre admirou. Não posso negar que quando eu ganhei como Melhor Atriz e menção honrosa de Atriz Revelação foram momentos incríveis, mas tem um momento em especial que me marcou muito, foi quando o Diego Avelino (Jorge) ganhou como Melhor Ator no Festival de Cinema de Caruaru e eu que tive que descer pra pegar o prêmio porque ele estava em Lion na França estudando, eu queria correr e ligar pra ele no mesmo momento, eu pulsava de alegria querendo dar a notícia. Ser atriz/ator é muito complicado, no Brasil é duas vezes pior e principalmente em começos de carreira e às vezes acaba nos deixando inseguros, mas enfim, tudo deu certo e tivemos boas devolutivas. Estou com alguns projetos sim, principalmente querendo viver mais do audiovisual/cinema. Esse ano estreia a série de horror “Noturnos” pro Canal Brasil, com direção geral de Caetano Gotardo e Marco Dutra, e tive o prazer de ser convidada pra estar em um episódio com grandes atores ao meu lado. Um trabalho totalmente diferente de “Meio Irmão” e que amei fazer tanto quanto.

Gabriela Souza

Entrevista com Gabriela Souza, sobre o projeto Selo BLACK

Especializada na produção e na distribuição audiovisual brasileiras, a Elo Company vem se destacando no mercado sobretudo por representar uma fatia considerável do que hoje podemos acompanhar da face mais autoral de nossa cinematografia, por vezes desenvolvendo iniciativas que facilitam a viabilização e o acesso a esses projetos. Como o Selo ELAS, que busca priorizar o desenvolvimento de filmes em que a direção é feminina.

Em algumas praças, incluindo São Paulo, o público pode ter acesso a alguns títulos com ingressos a preços mais populares no Projeta às 7, ideia também criada pela Elo Company em parceria com a Rede Cinemark: é exibido um filme brasileiro em que a entrada pode ser adquirida por até R$ 12, em sessões que acontecem de segunda a sexta , sempre às 19h.

A novidade divulgada neste fim de ano é a criação do Selo BLACK, em que a prioridade será dar maior visibilidade para profissionais negros que desejam debutar ou dar continuidade na carreira de direção. Gerente de projetos e financiamento da Elo Company, Gabriela Souza é quem coordena o Selo Black. Com ela, realizamos uma entrevista em que nos revela a realidade do cenário audiovisual atual, em que a representatividade de minorias aos poucos vem ganhando mais força. Ao fim da conversa, saiba quais são os primeiros projetos já confirmados com o Selo BLACK. A comédia “Na Rédea Curta”, com direção de Glenda Nicácio e Ary Rosa (a dupla responsável por “Café com Canela” e “Ilha” – temos entrevistas com Ary sobre ambos os filmes aqui e aqui), deverá ser o primeiro a chegar aos cinemas, com previsão de exibição para 2020.

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A Elo Company é responsável pela criação do Selo ELAS, que visa dar mais oportunidades para vozes femininas atrás das câmeras. O êxito dessa iniciativa auxiliou no desenvolvimento do Selo Black ou fatores externos foram mais influentes?

Os dois projetos partem do mesmo ponto, que é a pesquisa divulgada pela ANCINE em 2016 na qual diz que há poucas mulheres dirigindo e roteirizando e que não havia nenhuma mulher negra entre as diretoras que foram contabilizadas no ano de 2014. Partem dessa reflexão do porquê dessas pessoas não estarem produzindo. Também percebemos uma demanda com parceiros e clientes com os quais trabalhamos. Existe o público, mas não existe o produto.

Com vasta experiência no mercado, tem testemunhado uma mudança no cenário quanto a representatividade negra?

Sim, ele é bem diferente. Não que esses projetos não tenham sido feitos, a exemplo do “Café com Canela”, uma codireção com uma realizadora negra, o que não tínhamos visto até o momento. Neste ano, tivemos ” A História de um Sonho: Todas as Casas do Timão”, codirigido por Marcela Coelho. Diferente dos anos anteriores, tais projetos têm sido feitos e chegado ao circuito comercial. Eles sempre existiram. Um exemplo é o Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul, que acontece no Rio de Janeiro anualmente numa reunião entre África, Brasil e Caribe, exibindo muitos materiais e filmes feitos por pessoas negras, mas eles não chegam em nosso circuito comercial.

Conte-me um pouco mais sobre a gênese do Selo BLACK e os nomes com os quais você une forças para fazê-lo acontecer.

Ele realmente parte do Selo ELAS, pois entrei na Elo Company me atentando a essa questão de diversidade, na sequência surgindo a oportunidade de desenvolver um outro projeto voltado para a população e os realizadores negros. Tenho buscado alguns parceiros e profissionais para somar comigo. Como coordenadora, abarco o projeto e há consultores como a Carolina Gomes, do FAMA/Avon (Fundo Avon de Mulheres no Audiovisual) e o Alberto Pereira Jr., da Academia de Filmes.

Como vocês pretendem trabalhar os estágios iniciais dos projetos que irão compor o Selo Black?

A ideia da consultoria e de qual forma abraçaremos esses projetos virão com a visão da distribuidora para avaliar as consequências comerciais e escolhas artísticas, isso conectado com esses realizadores com visões e vivências diferentes, pois só eles podem colocar na tela as suas experiências. É trabalhando esses materiais que eles vão analisar comercialmente com nossos parceiros, havendo roteiristas, produtores executivos e diretores que dirão se funcionam para o mercado e avaliarão questões ideológicas e raciais. Da minha parte, também verei as questões financeiras desses projetos, como onde seria mais interessante captar um valor que estiver faltando no orçamento, em quais festivais ele pode entrar para ter maior visibilidade. Acompanhar toda essa trajetória do filme, desde o argumento até a exibição, dando esses toques de profissionais do mercado.

E quanto ao momento de finalmente exibir os filmes para o público? Pretendem avaliar festivais para a construção da carreira dessas obras? 

Respeitamos muito qual é o desejo do produtor e diretor com o seu filme. Tem produtores que não estão muito interessados em festivais, há outros que sim. Trabalhamos aqui na Elo Company com toda a cadeia e vida de um filme, iniciando pelos festivais, depois salas comerciais, VOD, e o que mais a gente entender, junto a outros parceiros comerciais, onde podem caber essas obras. Há um departamento dentro de Vendas que lida especificamente com festivais, fazendo uma triagem e identificando quais as nossas opções no Brasil e no mundo que têm a ver com aquelas obras.

Como citou, há festivais específicos para celebrar o cinema produzido por profissionais negros ou mesmo com temáticas caras a esse público-alvo. Esses eventos também serão considerados? Tais títulos podem também se integrar a outras iniciativas da empresa, como o Projeta às 7?  

Temos uma curadoria específica para o Projeta às 7. Alguns podem se encaixar nele. Isso só ocorre quando a obra está pronta. Vai depender muito do que vai acontecer com o filme, pois ele muda muito, podendo se transformar diante do que foi planejado previamente. Fazemos diversos lançamentos em diferentes salas. Vai depender muito do perfil de cada título.

Tenho uma grande preocupação, na posição de espectador, quanto ao destino de filmes brasileiros independentes, ainda mais em uma realidade na qual a sala de cinema não é acessível a todos. Pretendem ir além da disponibilização desses filmes em plataformas streaming?

Sim, pois como tratam de temáticas bem específicas, com diretores com experiências próprias, terão uma demanda diferenciada. No entanto, já temos salas que trabalham para atender a esse público específico, promovendo o debate ao fim da exibição, algo mais corriqueiros em obras autorais. Temos o circuito SPCine. Estamos nos aproximando dele. Mas dependerá realmente do momento em que todos os filmes estiverem prontos, pois tudo é muito volátil. Tanto a negociação para streaming e tevê paga quanto para onde o exibiremos após a estreia dependerá muito do desempenho do filme em sua trajetória prévia. Por mais que tenhamos uma ideia do que pode acontecer, tudo dependerá de quando esses filmes estarão prontos, em qual cenário estaremos vivendo e assim determinar o caminho de cada um.

Dentro de uma perspectiva mais pessoal, o que a impulsiona a coordenar o Selo Black e quais resultados pretende atingir?

Parto da ideia de que sou uma mulher negra, que trabalha no audiovisual e que está inserida no mercado. É muito diferente para quem está nessas companhias atuando comercialmente daqueles que fazem trabalhos mais autorais, fora do circuito. A intenção é trazer esses realizadores e abrir as portas para esse nicho mais comercial. O que me impulsiona é também poder me ver tanto na tela quanto atrás das câmeras. E não ser só eu. Não é somente eu representar alguém, mas trazer pessoas que também queiram se representar.

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Filmes confirmados do Selo BLACK

Na Rédea Curta

NA RÉDEA CURTA
Comédia em desenvolvimento
Produção: Rosza Filmes Produções LTDA ME
Direção: Glenda Nicácio e Ary Rosa
Sinopse: Da periferia de Salvador, criado apenas pela mãe, Junio, aos 20 anos, descobre que vai ser pai e decide, a partir disso, ir atrás de seu pai. Mainha, mãe super protetora, se vê obrigada a revelar a identidade do pai de Júnio, que mora no interior do Recôncavo da Bahia, na cidade de Cachoeira. Inicia-se então uma divertida viagem de Mainha e Júnio em busca do pai, numa aventura repleta de confusões que no fim só servem para aproximar mais mãe e filho. Afinal, para Júnio, Mainha é insubstituível, e não há nada nem ninguém no mundo capaz de ocupar o seu lugar.

BUSCA E APREENSÃO
Documentário em desenvolvimento – captação de recursos
Produção: Encantamento Filmes
Direção: Everlane Moraes
Sinopse: No ano de 1991, pai e mãe brigam judicialmente pela custódia da filha, quando fica decidido que o pai será oficialmente o responsável pelos cuidados com a menor, sendo-lhe concedido a guarda definitiva.
Dividida entre as famílias, a cineasta, solicita a reabertura do processo judicial de custódia da qual foi vítima na infância, com a intenção de reconstruir seu passado e resolver as tensões familiares do presente.
O resultado dessa ação são reflexões sobre a justiça, a absolvição simbólica de todos os acusados e o encontro inédito entre duas mães, a adotiva e a biológica.

MENINA MULHER DA PELE PRETA
Drama em captação de recursos
Produção: Dandara Produções Culturais e Audiovisuais
Direção: Renato Cândido de Lima
Sinopse: Ao trabalhar a questão de afetividade, ancestralidade e protagonismo da mulher negra, Menina Mulher da Pele Preta traz cinco histórias ficcionais de cinco mulheres negras de diferentes gerações e perfis sociais.

É TEMPO DE AMORAS
Drama em captação de recursos
Produção: Aranhas Films
Direção: Anahí Borges
Sinopse: “É tempo de amoras” conta a história de uma tentativa de adoção inusitada. Petrolina, apelidada Pety, 10 anos de idade, ressente-se do fato de não ter uma avó. Pasqualina, 81 anos, vive no asilo pois não possui parentes vivos. A trajetória das personagens se cruzam e Pety tentará adotar Pasqualina.

NARCISO RAP
Comédia dramática em captação de recursos
Produção: Buda Filmes
Direção: Jeferson De
Sinopse: Narciso é um garoto que vive em orfanato, o seu maior desejo é encontrar uma família que o adote, e a cada ano que passa este sonho fica mais distante. Na véspera de Natal um de seus melhores amigos lhe dá uma velha lâmpada, o garoto a esfrega e um gênio surge. Narciso pede para o gênio uma família.

Entrevista com Daniel Gonçalves, diretor do documentário “Meu Nome é Daniel”

Após um ano de passagens por festivais, como o Olhar de Cinema, a Mostra e o Festival do Rio, o documentário “Meu Nome é Daniel” chega enfim ao circuito comercial. O lançamento é um capítulo histórico na cinematografia nacional: é a primeira vez que se tem registro no país de um longa-metragem a ganhar a tela grande em que a sua direção foi assumida por uma pessoa com deficiência. Isso alguns meses após Julia Katharine conseguir encaixar o seu curta-metragem “Tea for Two” nas exibições de “Lembro Mais dos Corvos”, tornando-se assim a primeira cineasta trans no Brasil a exibir um filme comercialmente.

Em entrevista transcrita de áudio, Daniel Gonçalves reflete sobre os prós e contras de tal pioneirismo, mas também sobre a sua relação com o cinema, o desejo em ser o contador de sua própria história e acessibilidade nas salas de cinema. Acompanhe a seguir.

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No documentário, os registros domésticos e a sua narração entregam que grande parte de sua vocação como diretor foi oriunda de seu pai. Conte-me um pouco mais de sua relação com a arte audiovisual e a escolha dela para compartilhar a sua história.

Apesar de meu pai sempre ter me filmado muito quando era criança e adolescente, não me lembro de ter vontade de filmar ou fazer cinema. A minha relação com o cinema veio mais tarde, durante a faculdade, onde passei a me interessar mais. Primeiro através da edição. Depois, migrando para a realização de documentários como diretor. Na infância, gostava muito de contar histórias, mas não necessariamente através de vídeos. Como dito, não tinha vontade de filmar ou de pedir uma câmera. Se aconteceu, foi muito pontual, não tenho memórias sobre isso. Tudo começou durante ou após um estágio como editor na TVPUC, onde estudei jornalismo. Fiz a faculdade para trabalhar com jornalismo esportivo e a oportunidade mudou o meu caminho em direção ao cinema. A partir daí, fiz um curso de montagem na Escola de Cinema Darcy Ribeiro, além de um curso de extensão em produção executiva para cinema e televisão e pós-graduação em cinema documental. Foi assim que essa coisa de contar história através do audiovisual se consolidou.

Ainda sobre as imagens de arquivo, elas contemplam mais de 10 anos de sua vida, da infância à juventude. Como foi o processo de redescobri-las e reorganizá-las com outros registros mais recentes por você dirigidos?

Foi natural. Sabia que essas imagens existiam, mas tinha visto muito pouco depois de gravadas. Quando resolvo fazer o filme, claro que essas imagens adquirem uma importância muito grande, pois através delas pude revisitar e compreender melhor essa minha trajetória, talvez com um olhar mais crítico. Entender qual é o meu lugar no mundo, como me enxergo hoje. Diria que foi um processo de terapia ver essas imagens e construir um filme a partir delas. O processo começa depois das imagens de arquivo e a partir delas estabeleci um pré-roteiro que foi um guia para grande parte das gravações que fiz. Uma coisa influenciou completamente a outra.

“Meu Nome é Daniel” chega aos cinemas divulgando o dado de que este é o primeiro longa-metragem brasileiro dirigido por uma pessoa com deficiência. Como repercute em você o peso desse pioneirismo?

Esse pioneirismo tem dois lados, um bom e outro ruim. O bom é de ser este diretor com deficiência a fazer um filme, contar a sua própria história, o que é muito representativo. O ruim é que demorou para aparecer uma pessoa com deficiência poder ter voz e oportunidade de contar a sua própria história, pois somos muitos, cerca de 24% da população têm algum tipo de deficiência, e não vemos essas pessoas pelas ruas. Muito por isso, essas pessoas não contam as suas próprias histórias. Acredito que o mais importante desse pioneirismo é poder ser o primeiro a contar uma história para, aos poucos, poder mudar a maneira como nós somos vistos. Precisamos conseguir fugir dos clichês em que somos colocados naqueles dois lugares: ou o do coitadinho ou do super-herói. A partir do momento em que começo a contar a minha história em um filme que fujo desses dois lugares, temos um bom caminho a seguir.

O seu documentário é um dos poucos títulos recentes disponíveis no aplicativo Movie Reading Brasil, que visa atender os espectadores com deficiências visual e auditiva – juntos, representam aproximadamente 5% da população no Brasil. Acredita que o sistema de exibição está muito distante de contemplar todas as audiências?

Essa questão da acessibilidade no audiovisual ainda está muito incipiente. Existe uma instrução normativa da Ancine que diz que todos os filmes precisam ter acessibilidade, mas, ao mesmo tempo, pouquíssimas salas de cinema estão preparadas para atender a esse público. Penso que o aplicativo Movie Reading chega para tentar ser uma maneira mais fácil para as pessoas que têm algum tipo de deficiência visual ou auditiva ir aos cinemas sem depender que estes tenham as ferramentas de acessibilidade.

Ao fim de “Meu Nome é Daniel”, o diagnóstico sobre a sua condição seguiu inconclusivo. Do período de finalização do documentário até esse momento da estreia comercial, alguma descoberta surgiu?

Nada mudou desde então, até porque não continuei com a busca por um diagnóstico. Não é algo que mudará a minha vida e, no momento, não tenho interesse em saber o que tenho, porque dificilmente apareceria algum remédio em que eu tomaria hoje para amanhã correr 100 metros rasos em 10 segundos, sabe? Desde então, não surgiu nenhuma novidade, muito porque essa coisa da busca é muito mais um dispositivo fílmico do que uma real necessidade minha de saber o que tenho. Sei qual é a minha condição, o quadro clínico, e o que devo fazer para poder melhorar e também para fazer as coisas com mais facilidade. Descobrir exatamente o que é, além de ser muito caro, não é urgente para mim.

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Assista ao trailer com acessibilidade:

João Paulo Procópio

Entrevista com João Paulo Procópio, diretor e roteirista do filme “Marés”

Sócio da produtora brasiliense Pavirada Filmes, João Paulo Procópio já se desdobrou em várias funções na construção de curtas e longas-metragens de ficção, da montagem do premiado “O Último Cine Drive-in” (2015) a assistência de direção de “Simples Mortais” (2011, com Leonardo Medeiros no elenco). São experiências que trouxeram a segurança para se aventurar em “Marés”, em que assume pela primeira vez o comando de um filme nos postos de direção e roteiro.

Terceiro título da nova temporada do Projeta às 7, uma iniciativa da Cinemark com a distribuidora Elo Company que oferta cinema brasileiro por um preço acessível sempre às 19h de segunda a sexta-feira – e que segue em cartaz em mais de 20 cinemas da rede -, o drama acompanha Valdo (Lourinelson Vladmir, revelado em “Para Minha Amada Morta“), um fotógrafo em um processo autodestrutivo oriundo de seu alcoolismo. Em entrevista concedida por e-mail, João Paulo Procópio conta sobre o que o motivou a contar essa história, a influência da tensão política diária e sobre projetos futuros.

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Você é responsável há alguns anos pela produtora Pavirada Filmes e se desdobrou em funções como editor e diretor assistente. Debutar recentemente como diretor e roteirista de longa-metragem com “Marés” era uma intenção que sempre esteve em seus objetivos profissionais ou foi uma consequência natural a partir do envolvimento com outras unidades de atuação em projetos cinematográficos?

Olá Alex! Primeiro, muito obrigado pelo interesse em dialogar sobre o “Marés”. De fato, o filme é a minha primeira experiência em direção de longas, mas nesses 18 anos de experimentos audiovisuais dirigi outros trabalhos, entre documentários, curtas, publicidade e institucionais. Então partir para a direção de longas era também um objetivo dentro dessas buscas. Acontece que ao longo dos anos fui sendo demandado para outras funções dentro dessa cadeia produtiva. Adoro assumir a montagem das obras, e também fui ganhando a confiança própria e de outros diretores para assumir as produções. Nisso, produzi e montei alguns filmes que muito me orgulham, pelos processos e resultados. Mas a direção obviamente muda a relação com a obra. São experiências que se somam, que me fortalecem na intenção de dirigir próximos projetos autorais, mas também me prepara melhor para exercer as funções que venho experimentando com maior frequência nesses últimos anos.

Em “Marés”, acompanharemos Valdo, o protagonista de sua história, lutando contra o vício do alcoolismo. Todos nós temos em nossos círculos sociais alguém que passa pelo mesmo revés e me pergunto se o tema te ocorreu a partir de uma vivência pessoal ou mais pela curiosidade em explorá-lo por seu potencial dramatúrgico.

É difícil alguém que não tenha alguma relação com o alcoolismo. É uma questão que afeta toda a sociedade, todas as famílias. Originalmente o tema apareceu por ouvir histórias via de regra engraçadas em minha roda familiar, onde invariavelmente os envolvidos estavam bêbados. Sai em minha pesquisa a partir dessas construções de cenas e personagens, e fui entrevistar amigos de copos e familiares de alguns boêmios. Nas entrevistas, ficou clara uma linha: os amigos de copo narravam histórias engraçadas, absurdas; ao passo que esposas e filhos narraram histórias com camadas claramente melancólicas. Então esse potencial dramatúrgico foi o que primeiro me interessou. Passei para uma pesquisa meticulosa por este universo do alcoolismo, e passei a frequentar reuniões de Alcoólicos Anônimos, sempre me identificando como roteirista e ouvinte. E daí me deparei com algo muito potente, de pessoas que reconhecem um problema e o enfrentam. Vários estigmas foram desfeitos nesse mergulho.

Desde que estourou com a sua fabulosa atuação em “Para Minha Amada Morta”, Lourinelson Vladmir vem trabalhando sem parar. Como foi o processo para auxiliá-lo a adentrar esse personagem, que a todo o momento parece tão vulnerável física e emocionalmente?

Eu convidei o Lourinelson para viver o Valdo dois dias depois da exibição de estreia do “Para Minha Amada Morta” no 48º Festival de Brasília. Era o lançamento dele como ator, pois atuava até então como advogado. Quer dizer, de lá pra cá ele se lançou, foi descoberto por vários outros diretores, mas fui o primeiro a convidá-lo após vê-lo em um trabalho tão arrebatador como no filme do Aly Muritiba. E tive muita sorte nessa intuição: Lourinelson é muito inteligente e comprometido, o tipo de ator que eu precisava para esta minha primeira aventura na direção de um longa. Conversávamos muito sobre essa construção, e várias de suas observações foram assimiladas também. O Valdo precisava ser um cara que tivesse um problema posto, o alcoolismo – mas que não fosse facilmente descartável. Era preciso querer dar chance a ele, mesmo frustração após frustração. Existe algo tênue e arriscado no Valdo. Já saí de sessões seguidas de debate onde tinha pessoas no público com muita raiva dele, outras que nem o consideraram um cara tão problemático assim. Daí depende muito do repertório de cada um, de que tipo de situações já viveram em relação ao alcoolismo. Acho esse o ponto mais valioso do filme.

As filmagens aconteceram em 2017, mas você escolhe ambientar “Marés” exatamente em um momento político muito delicado em nossa história recente: o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Quais as motivações e comentários que busca estabelecer ao aproximar o seu protagonista de um contexto em que o debate político chega a assumir o protagonismo de algumas cenas?

Estamos em um contexto da história do Brasil que naturalmente impregna o nosso dia a dia, ainda mais numa criação artística. Para mim tinha naquele momento algo no ar que pairava e que, independente da posição política e polarizada, estavam todos entorpecidos, gritando para surdos. Muita coisa ruindo, muitos com muitas certezas mas sem saber direito o que fazer com aquilo pois não se sabia para onde íamos. Sinto que nesse paralelo, hoje estamos todos experimentando uma ressaca muito forte. Gosto de ver o filme agora em seu lançamento, em pleno 2019, onde o absurdo parece ter alcançado um ápice (e já tivemos essa sensação antes nos últimos anos).

Já passando o frio da barriga advindo de uma estreia, tem planos de se aventurar na direção e roteiro de um novo longa-metragem?

Trabalho o roteiro de uma minissérie chamada “Rastros”, sobre as memórias de um ex-agente secreto da ditadura militar brasileira; e um roteiro de longa ainda sem nome definido sobre um colunista social que começa a ficar mais envaidecido com as repercussões de suas matérias quando publica, porventura, reportagens mais verdadeiras e reveladoras. Mas agora o que mais me instiga e muito me honra é assumir a produção executiva de “Eu Vou Tirar Você Desse Lugar”, filme que marcará a estréia em direção de longas da maravilhosa Marcélia Cartaxo. É de fato um projeto que me enche de entusiasmo, e muito feliz de nesse momento da minha carreira carregar essa responsabilidade.

Silvio Tendler

Entrevista com Silvio Tendler, diretor do documentário “Alma Imoral”

Publicado em 1998, “A Alma Imoral”, do rabino Nilton Bonder, tem mais de 300 mil exemplares vendidos. Anos depois, teve a sua fama ampliada com uma adaptação teatral, que completou 13 anos de palcos e foi assistida por mais de meio milhão de espectadores.

Era natural uma encarnação para o cinema, em que o documentarista Silvio Tendler, mais afeito a estudos sobre episódios políticos do país, busca com Bonder dialogar com nomes transgressores no campo das artes e dos pensamentos críticos e filosóficos. Entre os entrevistados, há intelectuais como Noam Chomsky e Rebecca Goldstein, o pintor polonês naturalizado brasileiro Frans Krajcberg (que faleceu em 2017) e o jornalista Uri Avnery.

A seguir, leia a breve entrevista que Silvio Tendler concedeu por e-mail para o Cine Resenhas. “Alma Imoral” segue em exibição nos cinemas paulistanos.

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“Alma Imoral” vem a ser a encarnação cinematográfica do best-seller de Nilton Bonder, que já havia recebido uma versão teatral. Poderia compartilhar o seu relacionamento inicial com este material?

Conheci o texto quando fui assistir a peça. Li o livro e achei que tinha uma pegada cinematográfica. Propus o filme.

Em sua vasta filmografia, predomina um interesse especial de avaliar cenários políticos, passados ou presentes, do país. A transgressão não se dissocia desse tema que tanto pautou a sua carreira, mas aqui o espectador terá acesso a algo mais existencial, filosófico. Qual a principal motivação para transformar “Alma Imoral” em cinema?

Me considero um transgressor e fui buscar na minha tribo os transgressores que ajudaram a melhorar o mundo rompendo com os tabus. É uma viagem nova minha e sempre acreditei que devemos nos renovar permanentemente. Assim nasceu “Alma Imoral”, o filme.

Como veio a ideia de estabelecer os respiros narrativos, aqui impostos com as coreografias da Cia. de Danças Debora Colker e as narrações de Bel Kutner, Júlia Lemmertz, Letícia Sabatella, Mateus Solano e Osmar Prado?

As múltiplas leituras são minhas e é um recurso que já adotei em outros filme, sendo não trabalhar apenas com um narrador. Entretanto, o balé foi ideia e aporte do rabino. Trabalharia com uma bailarina e um artista plástico francês que decompõe o movimento conjugando dança e holografia com textos escritos na tela. Ficaria menos cansativo no meu entendimento, mas o Rabino Nilton Bonder, meu parceiro, preferiu assim e também ficou bom.

O documentário é construído a partir de declarações de personagens que, cada um a seu modo, buscam quebrar os paradigmas da contemporaneidade. Como foi a pesquisa para chegar aos nomes certos e essenciais e o processo de condensar em duas horas depoimentos que parecem oriundos de longas conversas estabelecidas?

Fizemos muito mais entrevistas, tivemos mais personagens. O filme é apenas o resultado final de uma busca e não seu conjunto.

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* a foto do realizador com o rabino Nilton Bonder é um registro de Ana Branco

Ricardo Ghiorzi

Entrevista com Ricardo Ghiorzi, diretor e idealizador do terror “Histórias Estranhas”

Há quase um ano, o Projeta às 7, que com a distribuidora Elo Company oferta cinema brasileiro independente em uma programação regular a preço popular, havia lançado “O Nó do Diabo”, um filme antologia com os pés fincados no terror. Agora, é a vez de “Histórias Estranhas” ganhar espaço e encontrar o seu público.

Constituído de oito segmentos, a produção, ainda em cartaz nos cinemas, traz alguns dos nomes no país que testam os seus talentos no campo do macabro e do fantástico. A proposta é parecida com a de “13 Histórias Estranhas”, realizado em 2015. Diretor e idealizador em ambos os projetos, Ricardo Ghiorzi concedeu para o Cine Resenhas uma entrevista em que fala sobre a concepção “Histórias Estranhas” e a reunião de amigos, a organização dos curtas dentro de um longa-metragem e como vê o estado e  a recepção dos filmes de terror brasileiros atualmente.

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Em 2015, você foi um dos nomes principais de “13 Histórias Estranhas”, no qual também foi formado um grupo de cineastas para moldar um filme constituído de curtas-metragens. Como foi o processo de reunir parceiros daquele projeto em “Histórias Estranhas”, como Paulo Biscaia Filho e Filipe Ferreira, ao mesmo tempo em que escalou nomes inéditos, como o de Taísa Ennes?

Antes de responder a pergunta propriamente dita, vou contar um pouco do que antecedeu o filme “13 Histórias Estranhas”. O longa começou a ser gerado em meados de 2007. Inicialmente, a proposta era fazer filme antologia com curtas de lobisomens. A ideia ficou na gaveta devido a grande dificuldade de produção. Mas o conceito de um longa antologia não saía da minha cabeça. Então, em 2014, tomei coragem, convidei alguns amigos diretores e realizamos, de modo independente, o longa, cuja temática que os unia era a utilização dos numerais e temas sobrenaturais. Na verdade, o processo de seleção dos diretores foi de maneira simples e objetiva: amigos diretores do Sul que tivessem afinidade com o gênero. Convidei diretores que já estavam na ativa, diretores que já não filmavam há anos e diretores estreantes. Queria que o filme tivesse este caráter diversificado mesmo. E neste novo “Histórias Estranhas”, convidei diretores de vários estados do Brasil.

A construção de um longa-metragem coletivo por vezes assume um resultado irregular, justamente pela autoria que cada realizador preserva a partir de uma mesma proposta, podendo assim cada um destoar radicalmente do outro. Como idealizador, quais as discussões promoveu para o encontro de uma unidade?

Inicialmente, partimos da premissa do tempo de cada curta, que deveria girar entre oito a dez minutos. E como o nome do filme já diz, as histórias deveriam realmente ser estranhas. Tentamos combinar para que todos os curtas tivessem a mesma janela de captação, mas não obtive êxito neste quesito (risos). E o principal item é que os curtas deveriam ter ótima qualidade técnica. Obviamente, há alguma disparidade de produção, pois o filme foi realizado de maneira totalmente independente. Mas nada que comprometesse o conjunto da obra. O filme ficou harmônico e interessante.

As virtudes técnicas de “Histórias Estranhas” são evidentes sobretudo em seus efeitos visuais e maquiagem. Por ser um projeto que conta com cineastas vindos dos mais diversos estados brasileiros, tenho curiosidade se integrantes da equipe foram compartilhados ou se cada segmento continha o seu núcleo exclusivo.

Pelas distâncias entre os núcleos de filmagens, não houve compartilhamento de equipes. Em projetos que virão na sequência, isso poderá ocorrer.

Enquanto segmentos como “Mulher Ltda.” e “Invisível” são amparados por interações verbalizadas ou narração, outros como “Ninguém” e “No Trovão, Na Chuva ou Na Tempestade” são quase silenciosos. Como se deu a ordem de apresentação dessas histórias na montagem?

Quando ficou definido os oito curtas para o longa, ao analisar o dinamismo de cada um deles, decidimos que o curta “Ninguém”, do Rodrigo Brandão, seria o primeiro, pois começa de maneira lenta, contemplativa e introspectiva (mesmo tendo uma explosão de violência no final). Deixamos o curta “Mulher Ltda”, de Taisa Ennes, no meio, pois tem uma pegada mais cômica, o que daria o caráter de alívio e impulso para os demais. Para o fim, decidimos pelo curta “Apóstolos”, de Marcos DeBrito, pelo impacto visual das cenas finais. E por ele ter características fortemente religiosas, acomodamos o meu curta “Sete Minutos Para a Meia-noite”, antecedendo e fazendo uma dobradinha, pois este também tem uma alta carga religiosa.

Mesmo que o horror americano seja um dos gêneros mais lucrativos no Brasil, parece existir uma incomunicabilidade da nossa audiência com a produção nacional do segmento, ainda que ela tenha se tornada mais ampla nos últimos 10 anos. Por qual razão isso acontece? Encaixar “Histórias Estranhas” em uma programação regular a preço popular é uma das possíveis soluções para esse impasse?

Por enquanto, isto é um grande enigma. Encaixar o longa “Histórias Estranhas”, um filme independente e de guerrilha, na programação de cinema de um shopping, demonstra que a “coisa” está mudando. Bem devagar, mas está mudando. Sempre salientando que esta iniciativa se deve a competência e garra da distribuidora Elo Company. Tenho um pouco de medo em afirmar isso, mas acho que o público gosta e assimila bem os efeitos especiais digitais dos filmes de terror americanos. E se acostuma com isso. O que no nosso caso, é usado excepcionalmente nas produções nacionais. É muito estranho, mas o preconceito ainda é muito forte com produções brasileiras de gênero. Já foi pior. Acho que estamos trilhando o caminho certo para desfazer essa incomunicabilidade do público com nossas produções, com bons roteiros, bons efeitos, fotografia esmerada, direções competentes, enfim, tudo aquilo que um filme de qualidade deve ter.

Entrevista com Rafael Gomes, diretor de “45 Dias Sem Você”

Junto com Esmir Filho e Mariana Bastos, Rafael Gomes produziu o curta-metragem cômico mais cultuado da cinematografia brasileira recente, “Tapa na Pantera”, um fenômeno de visualizações quando o YouTube ainda não era moda. 12 anos depois, construiu um currículo composto por outros curtas, roteiros para outros realizadores, alguns projetos televisivos e a consagração no teatro, onde adaptou “Um Bonde Chamado Desejo”, de Tennessee Williams, e “Gota d’Água”, de Chico Buarque e Paulo Pontes. É também a etapa em sua carreira em que se lança a um novo desafio: o debute como diretor em longa-metragem.

Em cartaz nos cinemas e disponível em streaming, “45 Dias Sem Você” é um divertido road movie no qual Rafael Gomes utiliza como matéria-prima algumas experiências de vida – o elenco é formado por nomes como Julia Corrêa, Fábio Lucindo, Ícaro Silva e Mayara Constantino, que praticamente interpretam eles mesmos. Em entrevista concedida por e-mail, Gomes comenta sobre o processo de unir a realidade com a ficção, a decisão de lançar o seu filme em um modelo ainda não praticado com frequência no Brasil e a idealização de uma trilogia.

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O modelo de estreia de “45 Dias Sem Você”, no qual o lançamento nos cinemas é simultâneo à sua chegada nas plataformas digitais, é comum no mercado americano, mas pouco recorrente em nosso país. Quais as discussões teve com os seus coprodutores até a decisão de oferecer mais de uma opção para o público assistir ao filme?

A proposta por esse modelo de lançamento veio da nossa distribuidora, a O2 Play. Como tínhamos um filme que desde sua origem era muito pequeno, tendo sido feito com financiamento próprio e equipe mínima, a ideia soou absolutamente condizente com a natureza da obra. Ou seja, para um filme feito numa forma de produção que se pode dizer “alternativa”, a distribuição de uma maneira alternativa parecia mesmo a melhor estratégia.

O que eu acho notável, nesse caso, é pensar que esse modelo de um filme chegar simultaneamente às salas e às plataformas digitais, nesse momento histórico que vivemos, ainda seja considerado “alternativo”.

O roteiro é baseado em suas próprias experiências, brincando com os limites da ficção e da realidade inclusive com os personagens sendo batizados com os nomes de seus respectivos intérpretes. Quais as barreiras dramatúrgicas atravessadas no processo de se apropriar de vivências pessoais e como foi trazer Rafael de Bona para esta dinâmica como um alterego?

É curioso perceber que, com essa pergunta, é a primeira vez que eu penso nesse processo em termos de “barreiras”. Porque me parece a exata antítese do que de fato se deu. A minha grande proximidade com os atores que são assunto do filme (Julia, Fábio e Mayara) fizeram justamente com que as barreiras fossem mínimas. A proposta sempre foi colocada clara desde o início: “É um filme sobre vocês! Mas não exatamente vocês, e sim recriações ficcionais de vocês. Topam?”. Eles toparam. E ao topar, tudo transcorreu com fluidez. Lembro de poucos momentos em que houve um impeditivo, do tipo “não vamos falar sobre isso”. Dentro da lógica de um jogo (porque é um jogo), a adesão do elenco foi completa.

A entrada mais desafiadora, nesse caso, sem dúvida era a do De Bona. Porque ele sim era um estrangeiro a todos esses universos (os geográficos e os afetivos) e precisava desenvolver um trabalho de ator, no sentido mais estrito, em uma circunstância pouco confortável para esse trabalho – qual seja, conhecer seus parceiros de cena no dia de filmar com eles, forjando momentos e relações de grande intimidade.

Por fim, pode soar estranho dizer isso, mas eu nunca pensei no Rafael como um alterego, não no sentido da direção. Quando ele estava atuando diante da câmera, ele era esse personagem Rafael que eu tinha criado (ou transmutado da realidade para uma versão ficcional, assim como os demais), e que portanto deveria ser abordado como um personagem, apenas. E não como reflexo direto do diretor.

Em um pouco mais de 90 minutos, “45 Dias Sem Você” passa por cinco países e, talvez excetuando o Brasil, você se apropria o máximo possível dos ambientes em que transita Rafael. Como os cenários interferiam na narrativa e até mesmo na escolha dos suportes de captação? Houve espaço para improvisos nas interações em tomadas externas?

A vontade sempre foi que o filme fosse sentido e apreendido pelo público como quem acompanha um “álbum de viagens”. Assim, os cenários eram muito determinantes. Tanto na imagem, numa busca de sempre que possível capturar personagens inseridos na paisagem, quanto na dramaturgia. Cada capítulo do filme, a meu ver, respira de um modo. E essa respiração é reflexo claro de cada personagem que comanda o capítulo em questão, mas antes disso é necessário pensar que esses personagens respiram de acordo com o lugar que escolheram para viver. A vida em Coimbra é incomparável à vida em Londres, por exemplo. Os tempos de existência são outros. Então os tempos e sensações do filme, em cada um desses lugares, precisavam também ser distintos entre si.

Quanto ao suporte de captação, ele só varia nos momentos de deslocamento, quando Rafael de fato está em trânsito entre uma cidade e outra, e em toda a sequência de Paris, que por motivos logísticos e orçamentários (mas também por uma escolha estética!) tiveram que ser registrados inteiramente com um celular.

Em algumas tomadas externas, notavelmente quando cada um dos amigos fala para Rafael sobre como é viver naquela cidade, ou sobre os motivos que os levaram a tal, houve abertura para improviso. Mais do que “improviso”, eu chamaria de “relato” – um momento de colher um depoimento menos ensaiado.

É corriqueiro no gênero romântico acompanharmos protagonistas que buscam em terras estrangeiras uma cura para as suas dores de amores, oriundas de traições, rompimentos ou do desejo de mudança dentro de um relacionamento. Quais as distinções buscou em “45 Dias Sem Você” para dar novos ares a essa premissa clássica?

A maior distinção que havia (e há), a meu ver, é a própria premissa de dramaturgia desse filme em específico, que aborda o que eu chamo de “personagens documentais”, dentro de uma história de ficção. O fato de haver três pessoas morando naqueles lugares e que abriram suas vidas para a história, esse pra mim era o ponto de partida e o grande ponto de interesse.

A história do coração partido que vai ser regenerado em paisagens estrangeiras é quase um mcguffin. Porque importa menos, no panorama geral. Justamente porque é algo mais corriqueiro, em termos narrativos. E também porque essa circunstância dos amigos é que determinou a própria existência do roteiro tal qual ele é. Querendo dizer que eu não decidi por Londres, Coimbra e Buenos Aires, foram Julia, Fábio e Mayara que decidiram, antes. Se eles estivessem em Johanesburgo, Santiago e Madrid, era para lá que o filme teria ido.

Isso chega a ser uma distinção grande em relação a uma premissa clássica? Talvez não. Mas é uma singularidade que me pareceu suficiente.

“45 Dias sem Você” é anunciado como o início de uma trilogia, que é integrada por “Música Para Cortar os Pulsos” e “Meu Álbum de Amores”. Poderia comentar sobre esses dois projetos e quando o público terá acesso a eles?

Esses três filmes de fato constituem uma trilogia dentro de um corpo de obra que eu venho desenvolvendo, porém no sentido mais informal. Porque não se trata de uma continuidade de histórias, nem de personagens, mas sim de uma forte ligação temática entre os longas. Além da recorrência de determinados dispositivos de dramaturgia, ou de formas de olhar para o mundo.

Os três filmes são sobre amor na juventude, os três colocam personagens LGBT no centro da ação, e os três elaboram situações e sentimentos a partir da arte como educação sentimental, notavelmente a música. Tanto é que o segundo filme é de certa forma sobre música, e o terceiro é um musical, com canções originais compostas para a trama e com personagens que as interpretam em cena. Além disso há uma unidade humana, já que parte da equipe e alguns atores estão nas três produções e vários estão em pelo menos duas.

“Música Para Cortar os Pulsos” deve estrear ainda em 2019, no segundo semestre. E “Meu Álbum de Amores” tem lançamento previsto para 2020.

Mathias Mangin

Entrevista com Mathias Mangin, diretor do filme “Horácio”

Filho da escritora e psicanalista Betty Milan, Mathias Mangin estabeleceu nos Estados Unidos a sua estreia como diretor a partir da realização do curta-metragem “The Chance”, produzido e lançado em 2007. 10 anos depois, tem o Brasil como palco de seu debute no formato de longa-metragem. Precisamente, São Paulo, praticamente um personagem de “Horácio”.

Desde 11 de abril em cartaz, este drama criminal com tintas de neo noir e com muitas intervenções de humor negro, tem sido comentado sobretudo por marcar o primeiro protagonista nos cinemas de Zé Celso, por anos o principal expoente do Teatro Oficina. Na entrevista a seguir, Mathias Mangin comenta como convenceu o veterano a viver o personagem-título Horácio, além dos aspectos narrativos de uma obra em que também assina o roteiro, a produção e a montagem.

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São Paulo é uma metrópole com espaços, sejam eles públicos ou privados, perfeitos para ambientar uma narrativa sórdida como a de “Horácio”, que às vezes até parece um neo noir sob a luz do dia com todos os seus personagens amorais e as circunstâncias que os entrelaçam. Poderia contar sobre como a cidade e outras características por ela abrigada foram determinantes para a concepção de seu filme?

Apesar de ser colorido, o filme é um neo-noir muito inspirado em obras como “Sunset Boulevard”, de Billy Wilder, e outros longas americanos da mesma época. No caso do filme “Horácio”, o universo onde os personagens circulam é o espelho da decadência que eles atravessam. O fabuloso apartamento do contrabandista, entre rococó e cafona, ilustra o contraponto que o filme constantemente busca, entre humor e drama, entre riso e sórdido, entre excesso e minimalismo.

A cidade de São Paulo e, mais precisamente, o bairro do Bixiga não são personagens em si, mas são o quadro simbólico da história, a imagem dessa decadência que ronda todos os personagens. Uma cidade gigantesca, um emaranhamento de ruas que perdem o espectador, pássaros de mau agouro planando por cima do concreto, sons amedrontadores. Essas características da cidade que mostramos no começo do filme dão o tom da obra que vai começar, são essenciais para contextualizar os personagens e entendermos que vamos entrar num universo desconfortável.

“Horácio” é a sua estreia no formato de longa-metragem e, ao contrário do que costuma se dar em muitos debutes, você parece exercer um controle criativo absoluto sobre a obra. Além de estar por trás das câmeras como diretor e produtor, é ainda autor do roteiro e também editor. Como avalia a autonomia diante da realização e o que foi preciso abdicar para assegurar a própria autoria?

Busquei ter um controle sobre as diversas etapas da obra, mas constantemente acompanhado por pessoas nas quais eu confio e sem as quais teria sido impossível tecer esse filme do jeito como imaginava. Como roteirista, dividi muito o roteiro com Marcelo Maximo, o outro produtor do filme, com a escritora Betty Milan, a minha mãe, e com os atores para aperfeiçoar os diálogos.

Na produção, Marcelo Maximo fez um desenho de equipe que permitiu que o filme fosse feito com um orçamento extremamente enxuto. Eu ajudei em diversos aspectos, como convencer os atores, trazer recursos e locações.

Na hora de dirigir e de fotografar, escutei muito Diego Garc, o diretor de foto do filme com quem estávamos numa forte sintonia. Eu sabia onde queria ir, queria um filme que fosse uma pintura filmada de perto com lentes que deformassem os rostos, trouxesse essa estranheza que caracteriza os personagens do universo de Horácio. Eu tinha uma visão estética do filme, mas cinema, como sabemos, é uma obra coletiva e o meu foco era me nutrir das ideias da equipe, buscar constantemente elementos que poderiam tornar a obra que estava sendo feita mais próxima da minha visão estética do filme.

Nessa conversa constante com a equipe do filme – do roteiro à direção -, acho que abdiquei de pouca coisa, pois eu soube escutar e fazer minhas as enormes limitações que tivemos. Uma coisa que muitas pessoas questionaram na época foi o fato de editar o filme. Sugeriram que um editor entrasse no filme, mas nisso fui firme, eu precisava editar a obra, pois acredito que o último que bota a mão na massa – o editor – é aquele que faz o filme. Não queria que a história fosse deturpada, pois uma boa parte do meu processo criativo mora na edição.

Tenho curiosidade quanto a etapa de pós-produção. Mesmo com o roteiro sempre atuando como essa bússola que a todos guia, como foi a sua relação com ele no processo de montagem, da organização de uma estrutura previamente estabelecida no papel? Você se viu testando novos caminhos para assegurar a harmonia do conjunto ou tudo resultou com fidelidade diante do que mapeou em sua mente desde a feitura do texto?

O roteiro foi evoluindo ao longo da filmagem, eu comecei a pré-produção do filme com um roteiro e terminei a filmagem com outro. Além de diálogos, fui mudando as locações, acrescentando algumas cenas, tirando outras e mudando em profundidade a relação de Faraó e Nadia, que foi se tornando mais claramente essa cumplicidade errada e desajeitada. Quando eu comecei a editar, segui à risca a última versão do roteiro do ponto de vista da estrutura narrativa e, ao longo do processo de edição, mudei poucas coisas, a não ser o começo do filme, onde era essencial criar um ritmo cativante para introduzir as diversas histórias. O que eu fui testando durante a edição foi buscar a maneira de cortar o filme e trazer harmonia para o conjunto, buscar como fazer uma edição de “jump cuts”, mas que mesclasse também um edição mais clássica, pausada.

Horácio

Ao mesmo tempo em que Zé Celso é esse monumento da nossa cultura com décadas de vivências artísticas, o cinema é uma novidade em sua carreira, sendo visto em filmes como “Encarnação do Demônio” e “Ralé” mais como participações afetuosas por parte de seus realizadores. Como foi convidar um artista com tanta bagagem e que recentemente completou 82 anos para aquele que é o seu primeiro protagonista na tela grande?

Vou nas peças do Teatro Oficina desde criança e o Zé Celso sempre fez parte do meu imaginário. Como muitas pessoas, não penso em cultura brasileira sem que o seu trabalho passe pela minha cabeça. Com a Anna Luiza Paes de Almeida, diretora de elenco do filme, e Marcelo Maximo, chegamos à conclusão que o melhor ator para fazer esse papel de um bandido que vai se transformando em mulher era o Zé Celso. Então liguei pra ele e, após algumas tentativas, consegui marcar um encontro e levar o roteiro. O que o Zé gosta mesmo é fazer teatro e eu cheguei lá com um projeto que não tinha muito a ver com ele, um roteiro com uma cara de chanchada estranha. Foram muitas conversas noturnas e algumas taças de vinho tinto que o levaram a aceitar. O Marcelo Drummond, que faz lindamente o papel do Milton, o Ricardo Bittencourt e a Sylvia Prado, que arrasam nos papéis da dupla de chantagistas, trabalham com o Zé há muitos anos e me ajudaram a convencê-lo!

O trabalho com ele foi fácil. Passei horas no telefone com ele, ouvindo textos do Stanislwasky e sua visão do que era atuação, direção de ator. No set, Zé foi muito gentil, ajudou a criar o personagem do Horácio improvisando e entendendo o que eu queria. Claro, Zé Celso é um ator de teatro, mas aos poucos foi entrando na atuação mais contida do cinema.

Chama muito a atenção como representa o feminino em “Horácio”. Ainda que as personagens de Maria Luísa Mendonça e Sylvia Prado sejam oprimidas pelo modo de vida que levam, Horácio comprova não somente uma falta de traquejo com elas, como se deixa possuir pelas roupas e maquiagem de sua falecida esposa. Isso sem falar do papel interpretado por Marcelo Drummond, um braço-direito de Horácio que tem a sua fragilidade testada a partir das ligações telefônicas da prostituta trans vivida por Daniela Glamour Garcia. O que reflete dessas inversões de valores que compõem os gêneros?

Eu fiz esse filme para revelar do meu jeito a maneira como vejo as relações humanas no Brasil. Como sou franco-brasileiro, sempre observo o Brasil com um olhar de fora. Quando vim morar no Brasil uns 10 anos atrás, uma das coisas que me chamou atenção foi a brutalidade das relações entre homens e mulheres. A França, como bem sabemos, tem inúmeros problemas sociais e manifestações de xenofobia, mas no quesito das relações entre homens e mulheres é um mundo mais doce. Eu queria fazer um filme onde pudéssemos sentir a opressão que as mulheres vivem, a opressão da heterossexualidade sobre as outras formas de sexualidade. Por isso, todos os personagens são ambíguos, todos são homens e mulheres. Por debaixo do corpo masculino ou feminino, fui buscar o que nos unifica na perversão e também na busca do amor. É um filme sobre a perpetuação do mal e o fato que só o amor pode romper esse ciclo vicioso.

Mauro D'Addio

Entrevista com Mauro D’Addio, diretor de “Sobre Rodas”

Atualmente em cartaz em várias salas pelo Brasil, a aventura “Sobre Rodas” é uma rara inclusão de nosso cinema que tem como público-alvo o público infantojuvenil, embora a graciosidade de sua história também seja capaz de seduzir adultos. Protagonistas, Lucas e Laís são colegas de classe com 13 anos que se unem para lidar com dois entraves: a imobilidade após um acidente e a ausência de uma figura paterna.

Elogiado pelo público e crítica pelos festivais em que foi exibido mundo afora,”Sobre Rodas” é discutido pelo seu realizador Mauro D’Addio, que concede para o Cine Resenhas uma entrevista em que revela a preparação de seu primeiro filme no formato de longa-metragem. Também avalia o cenário atual para produções do segmento, ausente de representantes.

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Ainda que ambientado em uma contemporaneidade na qual as crianças e adolescentes parecem reféns dos avanços tecnológicos, “Sobre Rodas” é uma aventura que tem uma certa nostalgia não somente pelo clima de road movie interiorano, como também por privilegiar em seus protagonistas um senso de curiosidade bem lúdico. O que trouxe de suas experiências pessoais para essa história e o quanto ela é importante para o público infantojuvenil?

Cada infância e adolescência é única e singular, a tecnologia e os gadgets hoje estão muito presentes, mas o uso disso por um pré-adolescente de uma zona rural é diferente de um jovem de classe média em uma cidade grande. Além do que, nossas crianças e jovens vivem com intensidade, passam por emoções fortes, dúvidas, e são atravessados por inúmeras questões, então é importante apontarmos seu protagonismo e singularidades, não colar estereótipos ou rótulos de como achamos que eles são, para sabermos ver e ouvir suas demandas. Dito isso, claro que havia sim, no filme, um desejo de trazer essa atmosfera de roça, de cidade perdida no tempo, com sabores rurais de galinhada, goiabada, além da bela estrada de terra.

Como foi para você o processo de abordar os contextos delicados atravessados por seus personagens centrais, sendo a limitação da mobilidade do Lucas após um acidente e como Laís lida com a ausência de uma figura paterna?

Toda pessoa lida com questões difíceis, o público infantojuvenil não é diferente. Vejo no filme uma ferramenta de reflexão. Narramos uma história de descoberta, aventura, amizade, mas, sobretudo uma história de resiliência frente às adversidades, um olhar singelo sobre dois jovens que, juntos, elaboram seus lutos íntimos, a perda do movimento das pernas, no caso dele e a perda do pai, no caso dela. Estas são questões universais e humanas.

Conceber um projeto infantojuvenil é sempre difícil, desde o longo processo de escalação do elenco até as diferentes jornadas de trabalho que devem ser respeitadas, às vezes sob os olhos dos pais de seus jovens intérpretes. As suas experiências prévias o fizeram lidar com tudo isso com grande naturalidade em sua estreia no formato de longa-metragem? Como chegou até Cauã Martins e Lara Boldorini?

É preciso zelo, cuidado e, sobretudo, respeito, para produzir com e para o público infantojuvenil. Minha filosofia de trabalho é buscar um ambiente atrativo para o trabalho, motivar, brincar, inspirar. Creio que estar em cena deve ser uma deliciosa brincadeira, feita com responsabilidade, mas sem perder este frescor, acredito que isso ajuda a chegar em uma “verdade” de cena.

A seleção de elenco, para mim, era crucial, testamos cerca de 260 jovens para chegar nos quatro principais. Cauã foi uma escolha natural, ele já tinha muita experiência e nos impressionou muito nos testes de VT. Para a personagem de Laís, tivemos mais dificuldade, não achávamos, parte da equipe gostava de uma menina, eu estava em dúvida e, no último dia de testes, apareceu a Lara. Houve muito debate, mas vi, na Lara, o brilho que esperava ver na Laís, não teve jeito, e hoje agradeço essa escolha.

Também tivemos um importante processo de preparação de elenco com a Ariela Goldman e outros parceiros, que foi fundamental para chegarmos no tom que queríamos para as cenas.

“Sobre Rodas” estreia comercialmente no Brasil após passagens por vários festivais, incluindo internacionais. Quais têm sido as questões mais curiosas diante da sua proximidade com as plateias estrangeiras?

“Sobre Rodas” foi eleito o melhor filme pelo público no TIFF Kids – Festival de Toronto (Canadá), melhor filme pelo júri no Chicago International Children’s Film Festival (EUA) e na Mostra Geração, do Festival do Rio, ganhou prêmio SIGNIS, na Alemanha, além de outras premiações no Canadá, Chile, Peru e Brasil. Foi selecionado para mais de 20 festivais ao redor do mundo, lançado comercialmente na Romênia, Bélgica e vendido para territórios como China e EUA. No Brasil, o filme foi exibido nas Mostras infantojuvenis dos festivais de Gramado, Brasília, Rio, BH, FICI, Tiradentes, Panorama Coisa de Cinema, entre outros.

Tive a oportunidade de ver o filme em plateias muito distintas, geralmente em salas lotadas com centenas de adolescentes, no Canadá, EUA, Alemanha, Suécia, Polônia, Chile e até na Bahia, é lindo de ver pois é um público muito sincero, eles reagem, torcem, vibram, respondem imediatamente ao filme. É interessante como algumas coisas funcionam de modo diferente para cada cultura, mas há uma universalidade no filme que o faz se comunicar com todos esses públicos, apesar das diferenças culturais. A pergunta padrão dos debates é, “Vai ter ‘Sobre Rodas 2’?”.

Mesmo com a aguardada vinda de uma versão live-action de “Turma da Mônica” e das encarnações cinematográficas do trio de “Detetives do Prédio Azul”, cujos dois filmes foram um dos poucos de nossa cinematografia a bater a marca de 1 milhão de espectadores nos últimos anos, o cinema brasileiro ainda carece de produções que tenham crianças e adolescentes como o público-alvo. Por que há essa lacuna e como visualiza a sua contribuição com ˜Sobre Rodas” em preenchê-la?

Concordo que existe uma lacuna importante a ser preenchida, se desejamos futuro para nossas produções, precisamos ter mais foco na formação de público. Vejo uma somatória de questões que contribuem para um cenário difícil, para além das conhecidas desigualdades de competitividade com a produção estrangeira, sinto muito desconhecimento, poucas iniciativas trabalham com foco em escolas, estruturando um cenário forte para produções de qualidade atingirem um público que demanda alguma mediação familiar ou de educadores para acessar este conteúdo.

Muitos distribuidores, exibidores e produtores têm medo, consideram um público sem poder aquisitivo e autonomia decisória, além do risco envolvido, toda questão fica mais delicada neste tipo de produção, a classificação indicativa pode acabar com uma obra. É preciso também um olhar específico com políticas públicas e regulatórias sólidas de incentivo à produção e veiculação destas obras.

São muitas questões, mas a que mais me incomoda é esse olhar pejorativo, de “filminho”, “livrinho”, “mostrinha”, esse tipo de visão que rotula a produção para infância e juventude como algo menor, menos importante. Isso tem inclusive impacto bem real, alguém de 12, 13 anos não vai na mostrinha, sabe? Se considera desrespeitado, pois não se vê mais como “criancinha”. Sofremos um pouco com isso no Brasil. “Sobre Rodas” é um filme para crianças e jovens de todas as idades, temos espectadores de 3 até 80 anos gostando do filme. Gosto muito disso, esse caráter intergeracional nos aproxima. Creio que precisamos nos aproximar de nossa juventude e oferecer obras diversas, para além dos formatos super comerciais, que devem existir, mas podemos oferecer outros perfis de obras também, esse é o lugar do “Sobre Rodas”, um lugar de encantamentos.