As Melhores Atrizes no Cinema em 2019

O conteúdo de retrospectiva do ano preparado pelo Cine Resenhas em um formato bem diferente daquele visto desde a concepção deste site está chegando ao fim. Com um vídeo sobre melhores filmes brasileiros de 2019 já publicado no canal do YouTube e outro sobre melhores filmes de qualquer nacionalidade em processo de edição, pegamos o intervalo para agora trazer aquelas que foram as grandes atrizes do último ano.

A partir de um top 10, comentamos brevemente sobre cada uma das escolhas, que trazem talentos femininos que apresentam as faces mais obscuras, divertidas e comoventes de mulheres vistas em circunstâncias bem distintas, estabelecendo um choque entre emoções da ficção com aquelas da realidade. Boa leitura!

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10. Samal Yeslyamova, Ayka

O mundo cinéfilo foi pego de surpresa quando Samal Yeslyamova recebeu o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes de 2018. Uma análise mais detalhada entregará que não havia opção à altura da cazaque, que antes só havia trabalhado em “Tulpan”, obra de 2008 do mesmo Sergei Dvortsevoy que a dirige em “Ayka”. No registro cru em forma e conteúdo, Samal interpreta uma imigrante que parece mais preocupada em conseguir um trabalho para sobreviver e quitar uma dívida do que com o bebê que carrega em seu ventre, abandonado-o assim que se vê em condições de fugir do hospital. Uma jornada extremamente difícil, que graças à Samal conta com a nossa completa cumplicidade.

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9. Isabelle Huppert, Obsessão

Ao ser indicada ao Oscar por “Elle“. Isabelle Huppert voltou a cair no radar de realizadores fora da França. Em tempos mais recentes, protagonizou em inglês projetos como “Frankie” (que chega aos cinemas brasileiros nos próximos dias) e a minissérie “The Romanoffs”. Quando iniciava o percurso na temporada de prêmios pelo filme de Paul Verhoeven e também por “O Que Está Por Vir“, Neil Jordan já tinha assegurado a maior atriz do cinema europeu no papel de Greta Hideg, talvez a primeira vez em que ela vive uma vilã de modo mais frontal. Algumas dimensões estão ausentes para integrar a personagem de Greta. Isabelle Huppert tem ciência disso, virando uma chave que a faz se divertir à beça em uma bobagem que lembra aqueles thrillers de stalkers do início dos anos 1990. Se não bastasse, o público ainda recebe o bônus de testemunhar Huppert cuspindo uma goma de mascar nos cabelos de Chloë Grace Moretz. É o suficiente.

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8. Rebecca Ferguson, Doutor Sono

Nascida na Suécia, Rebecca Ferguson teve a chamada grande chance ao viver na tevê uma encarnação diferente da Rainha Elizabeth na minissérie “The White Queen”, que rendeu para ela uma indicação ao Globo de Ouro. Não foi tão vista e comentada pelo público em 2013, mas foi o suficiente para os olheiros de Hollywood a convocarem em papéis importantes em filmes como “A Garota no Trem“, “O Rei do Show” e três episódios da franquia “Missão: Impossível”. O seu melhor será visto como a vilã de “Doutor Sono”, Rose Cartola. É uma das melhores coisas na encarnação em texto da continuação de “O Iluminado” e o realizador Mike Flanagan amplia o seu território para evidenciar a sua tridimensionalidade.

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7. Jennifer Lopez, As Golpistas

Admito adorar quando um artista consegue dar a volta por cima após não conseguir se desvincular de uma repercussão negativa que se deu por algumas escolhas equivocadas na construção de sua carreira. Mas, excetuando a exposição que se autorizou a lançar durante o seu relacionamento com Ben Affleck, as motivações de Jennifer Lopez hoje parecem nobres mesmo com resultados aquém das boas intenções, como a de desejar protagonizar comédias românticas porque não via latinas representadas nesse gênero. Também franca foi a felicidade que expressou com os vários louros recolhidos com “As Golpistas”, uma perspectiva feminina sobre a crise econômica que abateu a América há um pouco mais de 10 anos na qual inclusive assume o papel de produtora executiva. A sua Ramona é um estouro em cena, dona de um dos melhores diálogos concebidos pelo roteiro e ainda com camadas de vulnerabilidade que reforçam que a celebridade J-Lo é, acima de tudo, uma boa intérprete dramática.

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6. Ana de Armas, Entre Facas e Segredos

Nós começamos a notar a existência da columbiana Ana de Armas há cinco anos, quando fez o seu primeiro trabalho em inglês, “Bata Antes de Entrar”, aquela atualização bem esquecível do Eli Roth para o também esquecível “Death Game”, thriller dos mais baratos produzido em 1977. Uma das jovens atrizes mais belas atualmente, passou a receber oportunidades mais interessantes desde sua intensa presença em “Blade Runner 2049“. Ainda assim, a escolha do diretor, roteirista e produtor Rian Johnson em escalar Ana para o papel central de “Entre Facas e Segredos” soava bem arriscada. Ainda bem que apostou todas as suas fichas nela. Ana não somente é uma personagem muito mais bacana que a do investigador agathacristiano Benoit Blanc (interpretado por Daniel Craig), como ainda coloca todo o elenco de apoio no bolso, de Jamie Lee Curtis a Chris Evans. A sua Marta Cabrera é comovente, engraçada e até mesmo dúbia. Vai ser difícil bolar uma sequência de “Entre Facas e Segredos” com uma protagonista (e atriz) à altura.

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5. Julia Stockler, A Vida Invisível

O que mais se falou sobre “A Vida Invisível” foi como a conclusão da história emociona, sobretudo pela presença especial de Fernanda Montenegro. Pelo visto, eu sou um dos poucos que passou incólume por essa etapa final da narrativa de Karim Aïnouz, que se dá a partir de uma elipse no mínimo desconfortável. Até lá, ainda estava sob uma hipnose provocada por Julia Stockler, o verdadeiro coração do drama, dando vida a uma irmã que tem de matar um leão por dia pelo abandono de um amor estrangeiro e pelo desprezo do pai. Com um currículo amparado por participações em curtas-metragens e projetos televisivos, hoje Julia recebe várias propostas, como para estar na adaptação cinematográfica para a peça teatral “Os Últimos Dias de Gilda”. Mal posso esperar pelo que está por vir.

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4. Mary Kay Place, A Vida de Diane

Somando mais de 100 créditos no cinema e na tevê desde 1973, a americana Mary Kay Place se conformou com papéis secundários de mães ou de um componente em um círculo de amizade de uma protagonista. Estreante na direção de longa-metragem de ficção, Kent Jones provavelmente viu os trabalhos mais substanciais de Mary, escalando-a para o grande papel-título de seu drama, registrando uma mulher que parece ter deixado de lado a construção de uma vida mais plena. Diane só passa a ser vista pelo público em seu próprio lar quando a narrativa já está em estágio avançado. É também flagrada pedindo desculpas a todos ao seu redor, bem como perdendo amigos e familiares na mesma faixa de idade que a sua. Mary não precisa de um grande grito para expressar a dor que a corrói. Está tudo expresso em sua face.

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3. Melissa McCarthy, Poderia Me Perdoar?

Não tenho dúvidas de que Melissa McCarthy tenha um casamento maravilho. Tanto que dele tem vindo as parcerias que impedem que a carreira da atriz alce voos mais altos. Se Paul Feig mostrou a comediante brilhante que é Melissa com os seus papéis em “Missão Madrinha de Casamento” e “A Espiã que Sabia de Menos“, Falcone exibe a sua esposa como uma mulher histriônica. A redenção veio recentemente com “Poderia Me Perdoar?”, no qual foi indicada ao Oscar 2019 na categoria de interpretação. É a grande chance para o público conhecer as suas habilidades dramáticas, que tinham sido manifestadas em pequenas doses em “Um Santo Vizinho”. E o melhor: nos faz ter uma empatia imediata com uma figura real antes que qualquer julgamento possa ser estabelecido sobre os seus atos. Pena que com o marido já tenha outros dois filmes no forno pra estrear ao longo deste ano…

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2. Glenn Close, A Esposa

Amamos Olivia Colman, mas Glenn Close sem um Oscar por sua interpretação em “A Esposa” é algo que ainda causa comoção. Especialmente pelo dado de que a grande veterana detém um recorde nada nobre: no histórico da premiação, é a atriz que mais acumula indicações sem uma conversão em vitória – sete ao todo. Neste drama acima da média do sueco Björn Runge, há da parte de Close uma interpretação extremamente sutil antes das esperadas explosões emocionais, expressando em faces de arrependimento o modo como negligenciou a si mesma em detrimento do sucesso do marido. O sonho de vê-la com uma estatueta talvez aconteça em 2022: a versão musical de “Sunset Boulevard” contou com a atriz em duas encarnações na Broadway e a versão cinematográfica está em pré-produção.

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1. Nicole Kidman, O Peso do Passado

Atualmente com 52 anos, Nicole Kidman viveu na pele a maldição dos 40 anos, em que a oferta de bons papéis começa a rarear em Hollywood. Houve mesmo algumas falhas em alcançar êxitos artísticos, mas Nicole deu a volta por cima. Voltou a encarar com mais regularidade o papel de produtora e mantém firme a promessa de trabalhar com mais cineastas mulheres. Karyn Kusama foi uma delas, que submeteu a australiana a uma transformação devastadora, comprovando o seu empenho em abraçar cada personagem com uma entrega que poucas atrizes em atividade estão dispostas. Nicole encara a sordidez do filme como um ambiente familiar, sobretudo como incorpora as cicatrizes físicas e emocionais da detetive Erin Bell, que passa a ser confrontada por um passado traumático que explica a decadência que a sucumbiu. Mesmo pouco visto, “O Peso do Passado” se destaca com “Obsessão” e “Segredos de Sangue” como as melhores interpretações da década de Nicole.

Melhores Atores 2019

Os Melhores Atores no Cinema em 2019

Saudações cinéfilas!

O ano de 2019 foi tão tumultuado em minha vida que muitas prioridades precisaram ser revistas. Uma delas foi a alimentação do Cine Resenhas como site, pois admito que ultimamente tenho flertado muito mais com a sua encarnação como canal no YouTube, onde publico entrevistas e vídeo comentários com maior regularidade.

Como intenção de voltar a gerar mais conteúdo textual, faço a primeira publicação de 2020 inaugurando uma maratona que farei celebrando os melhores de 2019, hoje apresentando a vocês quais foram para mim as grandes interpretações masculinas, devidamente comentadas.

Contem-me o que acharam e até a próxima!

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10. Ethan Hawke, Fé Corrompida

Ethan Hawke é um tipo de ator que qualquer diretor independente pode contratar sem que a qualidade de sua interpretação seja comprometida pelo cachê limitado. Foi o que fez Paul Schrader, que com “Fé Corrompida” não entrega somente aquele que é o seu melhor filme em mais de 10 anos, como vai além do automático na direção de seu elenco, no qual Hawke assume o protagonismo vivendo um padre  não muito confiante de suas certezas que vai paulatinamente sucumbindo à angústia.

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9. Asier Etxeandia, Dor e Glória

Já chegaremos a Antonio Banderas, mas a primeira metade de “Dor e Glória” certamente não seria tão excepcional se o astro, agora indicado ao Oscar, não tivesse como seu principal parceiro de cena Asier Etxeandia, que interpreta Alberto Crespo, ator que caiu em desgraça após um desentendimento que durou três décadas com o diretor que o descobriu e que ajuda a compreender, com drama e humor, alguns dos tormentos do próprio Pedro Almodóvar. Até então, o espanhol era mais conhecido por seus papéis na tevê. Hoje finalista ao Goya de Melhor Ator Coadjuvante pelo filme de Almodóvar, talvez passe a ser uma presença mais reconhecida na tela grande.

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8. Zain Al Rafeea, Cafarnaum

É sempre um perigo trabalhar com crianças, especialmente se for uma que não é um ator profissional e que tem uma vida parecida com a do personagem miserável que interpreta. “Cafarnaum” tem lá seus problemas morais, mas quando emociona, é por conta do gigantismo de seu pequeno protagonista Zain Al Rafeea, que habita uma realidade em que o obriga a sobreviver como se fosse um adulto. A diretora Nadine Labaki assegurou que a vida de Zain mudou após o seu filme, hoje vivendo com sua família na Noruega, onde frequenta uma escola pela primeira vez após uma infância nas favelas de Beirute.

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7. Jim Cummings, Thunder Road

“Thunder Road” teve umas três ou quatro sessões na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em 2018 e poucos o viram quando foi lançado nos streamings brasileiros. Pois vale a pena descobrir essa pérola feita por meros 191 mil dólares, especialmente por Jim Cummings, protagonista, diretor, roteirista e editor de uma comédia com toques dramáticos muito críveis sobre um policial que precisa encarar os fracassos de sua vida com o luto pela morte de sua mãe e um divórcio. É um personagem cheio de erros e pelo qual criamos uma simpatia imediata graças ao empenho que Cummings emprega ao papel. “The Werewolf”, seu próximo longa-metragem, começa a pipocar nas telas americanas em março deste ano.

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6. Robert De Niro, O Irlandês

Dá uma tristeza ver um veterano que amamos como Robert De Niro hoje sustentando uma carreira na base de filmes patéticos, quando não vergonhosos. Mas dá para entender, pois talvez as coisas alcancem um estágio em que o desgaste emocional para dar vida a personagens complexos aparece para clamar por projetos mais descompromissados. No entanto, se não fosse um ou outro projeto isolado (como os conduzidos por David O. Russell), talvez a gente não testemunhasse mais em vida o De Niro dos bons tempos. Ainda bem que a Netflix bancou o gordo orçamento de “O Irlandês”, permitindo uma reencontro tardio com Martin Scorsese (com quem não trabalha desde “Cassino”) e ainda a divisão de espaço com Al Pacino (esse é um que não via tão bom ator desde “O Mercador de Veneza”, de 2004), Joe Pesci e Harvey Keitel. A melancolia que expressa no ato final desse épico faz ser considerado um crime o fato de não estar concorrendo ao Oscar de Melhor Ator.

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5. Antonio Banderas, Dor e Glória

Chegamos a ele. Levou 22 anos para que Antonio Banderas e Pedro Almodóvar se reencontrassem no cinema. Depois de “Ata-me!”, houve uma ruptura resolvida somente em “A Pele que Habito“. Especulou-se que houve uma desarmonia entre ambos, talvez servindo de inspiração para a construção de “Dor e Glória”, ainda que o maior realizador espanhol hoje em atividade também tenha se desentendido com outros de seus intérpretes ao longo da carreira. Há males que vem para o bem. Almodóvar entrega o seu melhor filme desde “Volver” (de um distante 2006) e Banderas traz aqui o peso de um ator que amadureceu muito com o tempo, melhor como nunca se viu.

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4. Richard E. Grant, Poderia Me Perdoar?

Às vezes, um bom filme depende da sintonia que há entre dois atores contracenando. Se os melhores momentos de “Dor e Glória” são aqueles entre Antonio Banderas e Asier Etxeandia, “Poderia Me Perdoar?” talvez não fosse tão bom se Melissa McCarthy não contasse com um ator do calibre de Richard E. Grant como o seu principal parceiro de crime. O ator nascido em Suazilândia tem mais de 130 créditos no currículo e é desses que a gente sabe que viu a cara em um filme, mas nem sempre lembra em qual. Até diretor já foi, em “A Conquista da Liberdade”, de 2005. O humor afiado como uma navalha que impõe ao seu personagem torna ainda mais mordaz os direcionamentos dramáticos da história real. Indicado ao Oscar, perdeu para Mahershala Ali.

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3. Eddie Murphy, Meu Nome é Dolemite

Após o fracasso comercial retumbante de seus últimos filmes (“O Grande Dave“, “Imagine Só!”, “As Mil Palavras” e o drama indie “Mr. Church”), Eddie Murphy fez o que parecia certo: desapareceu por alguns anos para curtir a família, a sua fortuna e o aparecimento de algum projeto que valesse a pena um comeback. “Meu Nome é Dolemite” faz lembar aquele comediante dos velhos tempos, pelo qual nos apaixonamos por causa de “Um Príncipe em Nova York”, “Um Tira da Pesada” e tantas outras comédias memoráveis dos anos 1980/1990. A homenagem que presta para Rudy Ray Moore é emocionante, em um filme que narra os percalços do sucesso daquele jeito contagiante que Craig Brewer já havia demonstrado no igualmente ótimo “Ritmo de um Sonho”.

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2. Félix Maritaud, Selvagem

Mais novo ícone gay do cinema europeu? Félix Maritaud teve um personagem secundário de destaque em “120 Batimentos por Minuto” e, desde então, tem sido convocado para marcar presença em narrativas que encontram maior sintonia com o público LGBTQI+. “Selvagem” tem mesmo esse apelo, mas a maneira como Maritaud se entrega ao papel de um garoto de programa autodestrutivo é tão intensa que penso que qualquer um que tenha experimentado um amor não correspondido ou a ausência de afeto sairá igualmente devastado da sessão.

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1. Jonas Dassler, O Bar Luva Dourada

Jonas Dassler é um jovem de 23 anos com toda uma pinta de galã. O extremo oposto do temível e feioso Fritz Honka, assassino em série acusado pela morte de quatro prostitutas em Hamburgo quando tinha entre 35 e 40 anos. Vá entender como o realizador Fatih Akin o avaliou para o papel, mas a escolha se mostra certeira na tela. A partir de um departamento de maquiagem liderado por Daniel Schröder, Lisa Edelmann e Maike Heinlein (constantes colaboradores de Akin), Dassier definitivamente se transforma em uma criatura abominável, abraçando-a para representar o que há de mais podre não somente em um indivíduo com a maldade encarnada em seu ser, mas também nos abismos sociais bem delimitados no ambiente que habita.