Resenha Crítica: Dias (2020), de Tsai Ming-liang

Hayao Miyazaki, Steven Soderbergh, David Lynch e, futuramente, Quentin Tarantino. Pode ter certeza de que se um diretor um dia anunciar publicamente uma aposentadoria de seu ofício, é provável que essa decisão será logo mais revista.

Artista com sensibilidade à flor da pele, o malaio Tsai Ming-liang disputou o Leão de Ouro em 2013 no Festival de Veneza com “Cães Errantes”. Para todos ali presentes, contou que seria seu último filme. Quando o filme foi apresentado na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo daquela época, os ingressos foram os mais disputados de toda a programação.

Talvez fosse melhor ter parado ali mesmo. “Dias” é um retorno ao formato de ficção de longa-metragem ensaiado há sete anos preenchidos com curtas, médias (um deles, “Jornada ao Oeste”, chegou a receber lançamento comercial no Brasil) e um longa documental.

Em essência, “Dias” fermenta o inevitável encontro entre dois personagens, Kang (Lee Kang-sheng) e Non (Anong Houngheuangsy). Em comum, há a solidão que os devasta e um desejo mútuo em aplacá-lo. Sobretudo da parte de Kang, que habita sem nenhuma outra companhia uma casa espaçosa e que atravessa uma fase de dores físicas de origem desconhecida.

Como o esperado, Ming-liang privilegia aqui os planos longos, mas que nada de realmente relevante parece comunicar sobre esses homens e os espaços que ocupam. O melhor do filme acaba sendo o esperado encontro sexual entre ambos.

Curioso inclusive como o diretor a encena, sem a fetichização tão habitual quando o cinema capta o contato entre dois corpos masculinos. O êxtase é o tato de Non sobre um Kang de bruços na cama de um hotel, como se suas mãos curassem temporariamente a sua enfermidade. No avanço para um ápice, parecem praticantes da gouinage, tornando tudo ainda mais romântico.

Mas é só. O diretor perdeu a habilidade de construir imagens que tanto sugerem mesmo com personagens quase intactos em cena. Para ser bem franco, algumas chegam até a ser mal fotografadas. Longe de sugerir uma aposentadoria, mas um hiato às vezes é sempre bem-vindo para resolver a falta de novidades ou as crises criativas. ★★

Os 10 Melhores Filmes da 42ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Uma sucessão de eventos quase impediu que o Cine Resenhas fizesse a cobertura integral da 42ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Mesmo com a ausência nos últimos dias, nos quais só foi possível prestigiar a exibição em homenagem ao brasileiro “Central do Brasil”, foram mais de 60 filmes da programação assistidos até o fechamento desta publicação.

O ranking a seguir disponível é a celebração não somente de uma edição que já se despediu, como também uma possibilidade de concentração de todo um grupo de amigos que tornam o tradicional festival de cinema um dos mais empolgantes de se frequentar e de se promover.

Se tudo der certo, até a 43ª Mostra!

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10º Lugar
3 Faces, de Jafar Panahi
30 pontos | 5 menções

Tem sido muito gratificante acompanhar a trajetória do cinema de Jafar Panahi, a despeito das circunstâncias que o fizeram mudar o curso do seu trabalho. A cada novo filme, o diretor, que já esteve detido na cadeia, passou por prisão domiciliar e hoje está impossibilitado de deixar o Irã, busca se reinventar, mas ainda assim consegue aludir a sua própria condição, mesmo que de modo espelhado, como tenta fazer aqui. + [Rafael CarvalhoMoviola Digital]

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Culpa9º Lugar
Culpa, de Gustav Möller
30 pontos | 4 menções

Agora um dos mais populares da programação da 42ª edição da Mostra e em exibição no circuito americano (no Brasil, o lançamento é esperado para 20 de dezembro), “Culpa” é ainda um forte concorrente ao Oscar 2019 de Melhor Filme Estrangeiro como representante da Dinamarca. Não à toa: o exercício de imaginação que promove é ainda mais eficaz que o de “Buscando…“, somente para citar outro exemplar recente que encontra no confinamento o seu fio condutor. + [Alex Gonçalves, Cine Resenhas]

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8º Lugar
Assunto de Família, de Hirokazu Kore-eda
30 pontos | 8 menções

O filme refuta qualquer armadilha do dramalhão familiar e, sob o olhar sempre sensível de Kore-eda para a dinâmica humana, tramita numa linha tênue entre a ternura e o sentimentalismo, sendo que este último é assumido de peitos abertos pelo roteiro a partir do terceiro ato. Mas é uma transição que funciona muito bem e, de certo modo, está em consonância com os rumos dessa gente que sempre vive não só às margens da sociedade, como também do espírito humano. + [Yuri DeliberalliDiscurso Cinematográfico]

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7º Lugar
Guerra Fria, de Pawel Pawlikowski
34 pontos | 6 menções

Num ato final contra tudo e contra todos – Deus, o estado, as tradições – Pawlikowski acredita encontrar uma solução para a paz em Guerra Fria. Tal solução é tão trágica quanto o tempo que os personagens viveram e, talvez, o mesmo que vivemos hoje. E num cenário tão sem perspectiva, olhar do outro lado parece uma saída – o que não quer dizer que seja a única. O que acontece aqui é como um alerta, onde o diretor usa da ficção para nos fazer refletir se realmente não existe outra saída além da triste apresentada. + [Tiago Paes de Lira, Tem Um Tigre no Cinema]

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6º Lugar
A Valsa de Waldheim, de Ruth Beckermann
35 pontos | 4 menções

Embora o formato seja convencional, o filme ganha força na montagem que compõe um panorama bastante claro. O interessante é que em meio a isso tudo, não seja apresentado o candidato concorrente. Talvez porque a documentarista esteja mais preocupada em, ao mesmo tempo descortinar o absurdo daquilo tudo, mas também deixar a narrativa aberta o suficiente para que os espectadores contemporâneos possam preenchê-la com as histórias atuais de direta conservadora que, com seus nacionalismos extremistas, novamente está em ascensão na Europa. O documentário deixa bem claro que não importam as provas: a população seguirá o discurso que lhe parecer mais conveniente. + [Isabel WittmannEstante da Sala]

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5º Lugar
Eu Não Me Importo se Entrarmos para a História como Bárbaros, de Radu Jude
36 pontos | 5 menções

O cineasta romeno Radu Jude (de Aferim!) reflete sobre a importância de se acertar as contas com o passado, ao mesmo tempo em que questiona se este é um esforço em vão. Sua protagonista é Mariana (Ioana Iacob, em performance vigorosa), uma diretora teatral incubida de fazer um espetáculo em praça pública para relembrar a participação da Romênia na Segunda Guerra. Para isso, ela escolhe um recorte bastante específico: o massacre de cerca de 30 mil judeus na cidade de Odessa, ocorrido a mando das autoridades locais em outubro de 1941. + [Diego Olivares, Cinematecando]

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4º Lugar
Em Chamas, de Lee Chang-dong
41 pontos | 5 menções

Há de tudo aqui – erotismo, suspense, drama, humanismo, comentário político-social – todos construídos com ritmo dramático e imagens impactantes, que ficam nos olhos muito depois que o filme acabou. Pode-se até não sentir a passagem das 2 horas e 28 minutos, tamanho é o poder de Chang-dong de colar os olhos dos espectadores na tela, suspendendo sua respiração em torno das vicissitudes de seu frágil herói, Jongsu. O final é poderoso. + [Neusa Barbosa, Cineweb]

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A Favorita3º Lugar
A Favorita, de Yorgos Lanthimos
47 pontos | 8 menções

Para encerrar A Favorita, o diretor grego escolhe a sobreposição. Ali, de certo modo, está o que é o filme, o que é deixar algo tão tradicional na mão de alguém que narrativamente está em um outro lugar e tem outras proposições. E funciona lindamente. Segurando os arroubos criativos, nem sempre sãos, de um lado e libertando o quadradismo das histórias, principalmente as de época. + [Cecilia BarrosoCenas de Cinema]

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2º Lugar
Infiltrado na Klan, de Spike Lee
60 pontos | 8 menções

É daí que vem então a força do desfecho do filme, cujos múltiplos finais envoltos em tantas propostas – homenagem ao gênero, triunfo do cinema e, claro, o retorno à atualidade – reiteram uma continuidade dos valores abordados e tão urgentes aos dias de hoje. “Infiltrado na Klan” é uma obra que preza acima de tudo pela reafirmação da resistência ao ódio, ao medo e à opressão dentro do momento contemporâneo em que se situa, e Lee sabe o nível de importância de sua mensagem o suficiente para martelá-la à exaustão até ser ouvido. + [Pedro StrazzaB9]

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1º Lugar
Roma, de Alfonso Cuarón
80 pontos | 11 menções

Candidato do México para uma indicação na categoria de Melhor Filme Estrangeiro no próximo Oscar, a produção também se destaca pela arte e outros departamentos técnicos que ambientam o público, desde o afiador passando na rua e a agitação do centro da cidade ao vislumbre da TV local e cinema da época. O furor nas ruas com manifestações de estudantes e a repressão de milícias do governo não serve apenas de contexto e acaba ganhando proporções maiores no último ato do longa. No entanto, em uma história fundamentada em discutir questões de classe e raciais, é a maternidade e os laços familiares que se tornam a alma desta obra. + [Nayara ReynaudNervos]

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Os 10 melhores filmes da 42ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo segundo Alex Gonçalves, editor do Cine Resenhas:

01. A Casa que Jack Construiu, de Lars von Trier
02. Infiltrado na Klan, de Spike Lee
03. Selvagem, de Camille Vidal-Naquet
04. A Guerra de Anna, de Aleksey Fedorchenko
05. Holiday, de Isabella Eklöf
06. O Mau Exemplo de Cameron Post, de Desiree Akhavan
07. CoinCoin e os Inumanos, de Bruno Dumont
08. Utøya: 22 de Julho, de Erik Poppe
09. Poderia Me Perdoar?, de Marielle Heller
10. Guerra Fria, de Pawel Pawlikowski

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Os convidados:

Adriano Garrett | Cine Festivais

01. A Árvore dos Frutos Selvagens, de Nuri Bilge Ceylan
02. Temporada, de André Novais Oliveira
03. A Valsa de Waldheim, de Ruth Beckermann
04. 3 Faces, de Jafar Panahi
05. Amanda, de Mikhaël Hers
06. Vidas Duplas, de Olivier Assayas
07. Uma Terra Imaginada, de Yeo Siew Hua
08. Futebol Infinito, de Corneliu Porumboiu
09. Grass, de Hong Sang-soo
10. Vermelho Sol, de Benjamín Naishtat

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Barbara Demerov | AdoroCinema

01. Roma, de Alfonso Cuarón
02. A Favorita, de Yorgos Lanthimos
03. Guerra Fria, de Pawel Pawlikowski
04. Infiltrado na Klan, de Spike Lee
05. Uma Mulher em Guerra, de Benedikt Erlingsson
06. Vidas Duplas, de Olivier Assayas
07. O Mau Exemplo de Cameron Post, de Desiree Akhavan
08. A Madeline de Madeline, de Josephine Decker
09. Cafarnaum, de Nadine Labaki
10. Assunto de Família, de Hirokazu Kore-eda

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Cecilia Barroso | Cenas de Cinema

01. Eu Não Me Importo se Entrarmos para a História como Bárbaros, de Radu Jude
02. Assunto de Família, de Hirokazu Kore-eda
03. A Valsa de Waldheim, de Ruth Beckermann
04. Em Chamas, de Lee Chang-dong
05. Roma, de Alfonso Cuarón
06. A Favorita, de Yorgos Lanthimos
07. Guerra Fria, de Pawel Pawlikowski
08. 3 Faces, de Jafar Panahi
09. Uma Terra Imaginada, de Yeo Siew Hua
10. Vidas Duplas, de Olivier Assayas

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Diego Olivares | Cinematecando

01. Roma, de Alfonso Cuarón
02. Em Chamas, de Lee Chang-dong
03. A Favorita, de Yorgos Lanthimos
04. Culpa, de Gustav Möller
05. Eu Não Me Importo se Entrarmos para a História como Bárbaros, de Radu Jude
06. A Casa que Jack Construiu, de Lars von Trier
07. A Madeline de Madeline, de Josephine Decker
08. Infiltrado na Klan, de Spike Lee
09. Diamantino, de Daniel Schmidt e Gabriel Abrantes
10. Uma Mulher em Guerra, de Benedikt Erlingsson

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Hélio Flores | Mostreiro

01. Eu Não Me Importo se Entrarmos para a História como Bárbaros, de Radu Jude
02. Roma, de Alfonso Cuarón
03. John McEnroe: No Império Na Perfeição, de Julien Faraut
04. Uma Mulher em Guerra, de Benedikt Erlingsson
05. Ilha, de Ary Rosa e Glenda Nicácio
06. Selvagem, de Camille Vidal-Naquet
07. Trem das Vidas ou A Viagem de Angélique, de Paul Vecchiali
08. Assunto de Família, de Hirokazu Kore-eda
09. O Hotel às Margens do Rio, de Hong Sang-soo
10. Amanda, de Mikhaël Hers

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Isabel Wittmann | Estante da Sala

01. A Valsa de Waldheim, de Ruth Beckermann
02. Infiltrado na Klan, de Spike Lee
03. O Mau Exemplo de Cameron Post, de Desiree Akhavan
04. A Casa que Jack Construiu, de Lars von Trier
05. Almofada de Alfinetes, de Deborah Haywood
06. Poderia Me Perdoar?, de Marielle Heller
07. Eu Não Me Importo se Entrarmos para a História como Bárbaros, de Radu Jude
08. Meio Irmão, de Elaine Coster
09. Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos, de João Salaviza e Renée Nader Messora
10. Rosas Selvagens, de Anna Jadowska

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Marcelo Ferreira | CINESe7e

01. Piedade, de Babis Makridis
02. Infiltrado na Klan, de Spike Lee
03. A Árvore dos Frutos Selvagens, de Nuri Bilge Ceylan
04. Ága, de Milko Lazarov
05. Roma, de Alfonso Cuarón
06. O Anjo, de Luis Ortega
07. Limonada, de Ioana Uricaru
08. Selvagem, de Camille Vidal-Naquet
09. Cafarnaum, de Nadine Labaki
10. A Favorita, de Yorgos Lanthimos

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Nayara Reynaud | Nervos

01. Culpa, de Gustav Möller
02. A Terceira Esposa, de Ash Mayfair
03. A Favorita, de Yorgos Lanthimos
04. Guerra Fria, de Pawel Pawlikowski
05. Roma, de Alfonso Cuarón
06. Fuga, de Agnieszka Smoczynska
07. Temporada, de André Novais Oliveira
08. Vida Selvagem, de Paul Dano
09. Sofia, de Meryem Benm’Barek-Aloïsi
10. O Mau Exemplo de Cameron Post, de Desiree Akhavan

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Neusa Barbosa | Cineweb

01. Em Chamas, de Lee Chang-dong
02. Roma, de Alfonso Cuarón
03. A Árvore dos Frutos Selvagens, de Nuri Bilge Ceylan
04. 3 Faces, de Jafar Panahi
05. Vermelho Sol, de Benjamín Naishtat
06. A Favorita, de Yorgos Lanthimos
07. Verão, de Kirill Serebrennikov
08. Culpa, de Gustav Möller
09. Deslembro, de Flávia Castro
10. A Quietude, de Pablo Trapero

Pedro Strazza | B9

01. Amor Até as Cinzas, de Jia Zhang-ke
02. A Valsa de Waldheim, de Ruth Beckermann
03. Infiltrado na Klan, de Spike Lee
04. Trem das Vidas ou A Viagem de Angélique, de Paul Vecchiali
05. Eu Não Me Importo se Entrarmos para a História como Bárbaros, de Radu Jude
06. Roma, de Alfonso Cuarón
07. John McEnroe: No Império Na Perfeição, de Julien Faraut
08. 3 Faces, de Jafar Panahi
09. Assunto de Família, de Hirokazu Kore-eda
10. O Hotel às Margens do Rio, de Hong Sang-soo

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Rafael Carvalho | Moviola Digital

01. Em Chamas, de Lee Chang-dong
02. 3 Faces, de Jafar Panahi
03. O Hotel às Margens do Rio, de Hong Sang-soo
04. Como Fernando Pessoa Salvou Portugal, de Eugène Green
05. Roma, de Alfonso Cuarón
06. Assunto de Família, de Hirokazu Kore-eda
07. Trem das Vidas ou A Viagem de Angélique, de Paul Vecchiali
08. Amanda, de Mikhaël Hers
09. A Árvore dos Frutos Selvagens, de Nuri Bilge Ceylan
10. A Madeline de Madeline, de Josephine Decker

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Tiago Paes de Lira | Tem Um Tigre no Cinema

01. Roma, de Alfonso Cuarón
02. Infiltrado na Klan, de Spike Lee
03. A Favorita, de Yorgos Lanthimos
04. Guerra Fria, de Pawel Pawlikowski
05. Assunto de Família, de Hirokazu Kore-eda
06. Garotas em Fuga, de Virginie Gourmel
07. A Casa que Jack Construiu, de Lars von Trier
08. Verão, de Kirill Serebrennikov
09. The Man Who Killed Don Quixote, de Terry Gilliam
10. Sofia, de Meryem Benm’Barek-Aloïsi

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Vitor Búrigo | CINEVITOR

01. Culpa, de Gustav Möller
02. Vida Selvagem, de Paul Dano
03. Roma, de Alfonso Cuarón
04. Guerra Fria, de Pawel Pawlikowski
05. Infiltrado na Klan, de Spike Lee
06. Em Chamas, de Lee Chang-dong
07. O Mau Exemplo de Cameron Post, de Desiree Akhavan
08. A Favorita, de Yorgos Lanthimos
09. Assunto de Família, de Hirokazu Kore-eda
10. Vidas Duplas, de Olivier Assayas

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Yuri Deliberalli | Discurso Cinematográfico

01. Amanda, de Mikhaël Hers
02. Extinção, de Salomé Lamas
03. Como Fernando Pessoa Salvou Portugal, de Eugène Green
04. Trem das Vidas ou A Viagem de Angélique, de Paul Vecchiali
05. Imagem e Palavra, de Jean-Luc Godard
06. O Hotel às Margens do Rio, de Hong Sang-soo
07. A Imagem que Você Perdeu, de Donal Foreman
08. Belmonte, de Federico Veiroj
09. Assunto de Família, de Hirokazu Kore-eda
10. Temporada, de André Novais Oliveira

Intimidade Entre Estranhos

Resenha Crítica | Intimidade Entre Estranhos (2018)

Intimidade Entre Estranhos, de José Alvarenga Jr.

.:: 42ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

José Alvarenga Jr. havia sinalizado com “Divã“, uma adaptação honesta do texto da cronista Martha Medeiros, um desejo de inclinação por um material diferente das comédias com as quais fez a sua carreira. Não deu muito certo quando finalmente saiu de sua zona de conforto com o drama “10 Segundos para Vencer“, recentemente exibido nos cinemas.
 
Melhor sorte tem com ˜Intimidade Entre Estranhos”, que rodou sem qualquer alarde no ano passado e que pretende lançar comercialmente em dezembro deste ano. Também não poderia ser diferente dentro da dinâmica de projeto independente em que desejou se lançar, trazendo rostos pouco populares diante do grande público em papéis centrais.
 
Encarnando com muita propriedade a sua primeira protagonista no cinema, Rafaela Mandelli interpreta Maria, que parte para o Rio de Janeiro para passar mais tempo ao lado de seu marido Pedro (Milhem Cortaz), um quarentão que segue insistindo na carreira de ator atualmente no elenco de uma produção religiosa – há uma pegadinha, pois o onipresente Cortaz está em “A Terra Prometida”, da Record.
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Entrevista com o diretor José Alvarenga Jr. e os atores Rafaela Mandelli e Gabriel Contente sobre “Intimidade Entre Estranhos”:

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Deixada de segundo plano, Maria acaba aplacando o tédio buscando amizade com Horácio (o estreante no cinema Gabriel Contente). Se a princípio não se bicava com o adolescente, que vem a ser o único vizinho e também proprietário do edifício que habita, ela acaba encontrando sintonia com alguém que compartilha dores íntimas compatíveis com aquelas que ainda não superou, como o sentimento de que não é correspondida à altura no relacionamento e a perda precoce de seu pai.
 
Sem as pressões de atender ao formato convencional de uma cinebiografia como “10 Segundos para Vencer”, Alvarenga Jr. encontra aqui maior tranquilidade para dar a sua identidade ao texto da autoria de Matheus Souza, de “Ana e Vitória. Mesmo exagerando um pouquinho na metragem (o filme quase encosta nas duas horas), o seu “Intimidade Entre Estranhos” avalia os choques de gerações entre os protagonistas sem afetações e com uma densidade que nunca resvala para o melodrama.
A Favorita

Resenha Crítica | A Favorita (2018)

The Favourite, de Yorgos Lanthimos

.:: 42ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Ao contrário de muitos colegas que despontaram a partir de obras de forte impacto em seus respectivos países, Yorgos Lanthimos encontrou na língua inglesa não um impedimento para expressar com limites as suas provocações, mas sim uma possibilidade de conquistar maior alcance. “O Lagosta” e “O Sacrifício do Cervo Sagrado” resultaram ainda mais notáveis que “Dente Canino” e “Alpes”.
 
Desinformados podem embarcar em seu novo “A Favorita” aguardando por algo convencional na cobertura dos bastidores palaciais durante o reinado da Ana da Grã-Bretanha (Olivia Colman) no início do século XVIII. As consequências do seu envolvimento com a Guerra da Sucessão Espanhola, como os atritos com a França, são devidamente apropriados, mas com uma abordagem inusitada.
 
A começar pelas opções estéticas defendidas por Lanthimos e o seu diretor de fotografia Robbie Ryan, o braço direito de Andrea Arnold (“Docinho da América”, “O Morro dos Ventos Uivantes“). Closes em grande angular e planos dos ambientes com olho de peixe criam uma distorção que nunca se viu em uma produção de época, esta sempre conduzida com um rigor específico.
 
Se à época Luís XIV contraíra uma gangrena que o levou à morte em 1715, Ana foi acometida por uma gota que a deixou tremendamente vulnerável. Por isso mesmo, é fácil se concentrar na ficção em um contexto mais íntimo, no qual Lady Sarah (Rachel Weisz) exerce como amiga grande influência nas escolhas da rainha.
 
Isso até se aproximar Abigail (Emma Stone), prima distante e esquecida de Sarah aprovada para atuar como uma mera serviçal. A jovem ambiciosa logo arma um jogo de aparências para ocupar a posição de Sarah e assim ascender socialmente.
 
Embora nada convencional e divertido na medida do possível, “A Favorita” perde com a ausência do nome de Yorgos Lanthimos nos créditos do roteiro assinado por Deborah Davi e Tony McNamara. Fica a sensação de que a interferência do grego no texto, que é cheio de um coloquialismo quase anacrônico, elevaria o filme em seu sarcasmo.
Selvagem

Resenha Crítica | Selvagem (2018)

Sauvage, de Camille Vidal-Naquet

.:: 42ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Interpretado pelo extraordinário Félix Maritaud, o protagonista de “Selvagem”, Léo, é daqueles que os contadores de história adoram inventar. Sem qualquer informação sobre o seu passado, o espectador assim deve empregar um esforço redobrado para estabelecer e compreender a identidade de um jovem homem que se esvazia emocionalmente pelas constantes pauladas que a vida lhe dá.
 
Sem vínculos, Léo tem 22 anos e sobrevive como garoto de programa. De jeans e regata, fica em beira de estrada aguardando a abordagem de clientes que passam com os seus carros. Quando o dia acaba, improvisa uma cama em algum parque ou mesmo na calçada, geralmente após se drogar.
 
No ponto em que atende, nota a presença de uma figura nova, Ahd (Eric Bernard), a quem imediatamente se apresenta e se apaixona. É daqueles amores impossíveis, pois Ahd sequer se reconhece como um homossexual e se prostitui apenas como medida provisória até surgir algo ou alguém que lhe assegure estabilidade financeira.
 
A insistência de Léo em ter Ahd como um parceiro se intensifica conforme a rejeição vai se tornando agressiva. Tudo é especialmente doloroso para ele, pois sofre de uma falta de afetividade que o apodrece. Um homem que gostaríamos de abraçar para consolá-lo, mas com quase nenhum personagem em cena para cumprir com esse desejo.
 
Esse debute potente do realizador Camille Vidal-Naquet, que no Festival de Cannes assegurou para Félix Maritaud o prêmio de ator estreante na Semana da Crítica, é explicito na exposição do que há de mais cruel na idealização de um amor e na prática sexual ditada por um desejo de poder. Léo é uma vítima constante das duas situações e contrariar as nossas expectativas e se recolher a uma condição de ser selvagem ao fim causa um efeito demolidor.
Com a Palavra, Arnaldo Antunes

Resenha Crítica | Com a Palavra, Arnaldo Antunes (2018)

Com a Palavra, Arnaldo Antunes, de Marcelo Machado

.:: 42ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Hoje com 58 anos, Arnaldo Antunes é um artista que acumula êxitos além do campo musical, pelo qual se notabilizou no início dos anos 1980 como integrante do “Titãs”. Além do lançamento de seis álbuns com o grupo e mais de uma dezena em carreira solo, o paulistano é também escritor, artista visual e performer.
 
É uma figura que ainda tem muito chão pela frente para exercer plenamente a sua arte, mas Marcelo Machado decidiu que este é um momento perfeito para prestar tributo com o documentário “Com a Palavra, Arnaldo Antunes”. Isolado em uma propriedade no meio do nada, é Arnaldo quem fala sobre si mesmo a partir de um roteiro que traça uma linha do tempo completa sem a presença de qualquer outro depoente.
 
A escolha, como sempre, torna óbvios os prós e contras da realização. Como aspectos positivos, temos um biografado muito aberto sobre a sua própria vida artística, revendo e comentando o seu arquivo pessoal. Trata inclusive com muita honestidade sobre o fracasso de “Nome”, um projeto multimídia pioneiro com o lançamento em pacote composto por vinil, CD, livro e VHS.
 
Por outro lado, falta o elemento de fora para compartilhar as vivências de Arnaldo Antunes, que aproximem do público o homem junto com o artista. Marcelo Machado está aqui mais no papel de amigo do que de diretor, não se interessando em abordar qualquer aspecto que não seja o de uma trajetória já conhecida por fãs de cor e salteado.
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+ Entrevista com Marcelo Machado, diretor do documentário “Com a Palavra, Arnaldo Antunes”

A Guerra de Anna

Resenha Crítica | A Guerra de Anna (2018)

Voyna Anny, de Aleksey Fedorchenko

.:: 42ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Com todo o volume de dramas centradas em eventos transcorridos na Segunda Guerra Mundial, sejam eles reais ou ficcionais, muitos cineastas têm buscado desenvolver histórias que priorizam muito mais uma perspectiva individual do que coletiva. O vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro “Filho de Saul” arrebatou o público com a encenação claustrofóbica da condição dos judeus em campos de concentração. “A Guerra de Anna” provoca um efeito ainda mais desolador.
 
O diretor russo Aleksey Fedorchenko é conhecido pelos brasileiros por “Almas Silenciosas”, produção de 2010 que chegou ao país com três anos de atraso. O seu “A Guerra de Anna” também merecia vida fora do circuito de festivais, pois é como se fizesse uma versão ainda mais cruel de “O Diário de Anne Frank”.
 
Quase sem diálogos, acompanhamos o isolamento da pequena Anna (a estreante Marta Kozlova, uma atriz simplesmente admirável) em um escritório de um comandante do Terceiro Reich. Foi a única sobrevivente de um extermínio em massa, erguendo-se envolta a um sem número de cadáveres e folhas secas em um prólogo belo e trágico.
 
Sem ninguém para ser cuidada, Anna é enviada justamente para um local estratégico do inimigo, encontrando em uma chaminé desativada da sala central um refúgio. Enquanto o ambiente é habitado por soldados e secretárias, ela se recolhe e espia o que acontece por um buraco do espelho que a protege. Quando todos partem, faz uma ronda em busca de alimentos para sobreviver, contentando-se com os restos esquecidos e a água parada em recipientes para plantas e pinceis.
 
É desesperador e os fades que invadem a tela a todo o instante somente prolongam a situação em que Anna está enclausurada, como se lutasse para sobreviver em uma guerra que parece nunca chegar ao fim. O tratamento direto para a história não autoriza maniqueísmos, o que só contribui para a nossa imersão. O choro de Anna, num único momento em que ela se percebe como uma criança frágil e inconsolável, é o momento mais doloroso que se testemunhará em um registro implacável em sua consciência dos horrores provocados por um dos episódios mais hediondos da história da humanidade.
Seguir em Frente

Resenha Crítica | Seguir em Frente (2018)

Continuer, de Joachim Lafosse

.:: 42ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Exceto em “Os Cavaleiros Brancos”, a família é um tema recorrente na filmografia do cineasta belga de 43 anos Joachim Lafosse. No drama “Seguir em Frente”, encontra uma nova possibilidade de rever laços de sangue a partir do acesso ao romance “Continuer”, de Laurent Mauvignier.
 
Mãe e filho, Sybille (Virginie Efira, de “Elle“) e Samuel (Kacey Mottet Klein, de “Quando Se Tem 17 Anos”) sustentam há tempos um relacionamento conflituoso. Adolescente rebelde, Samuel é daqueles que encontram dificuldade inclusive de se socializar no ambiente escolar. Sybille assim vê como solução o isolamento com ele como medida para colocar as coisas em perspectiva.
 
Rumam para uma viagem ao Quirguistão, fazendo todo o trajeto a cavalo e sem qualquer conforto ou sinais para o celular de Samuel, que terá de se contentar somente com a playlist de seu iPod. Será um percurso também cheio de riscos, como deixa claro uma família que se despede dos dois deixando uma arma para se defenderem dos moradores locais mal intencionados.
 
Com paisagens belamente captadas por Jean-François Hensgens, o seu diretor de fotografia recorrente, Lafosse causa envolvimento imediato com os seus protagonistas. Uma pena que a narrativa seja simplista, sobretudo em seus conflitos, que no ato final incham e se resolvem com facilidade, de um acidente para aplacar o rancor até a leitura de um diário para preencher as lacunas.
Sem Amor (2018)

Resenha Crítica | Sem Amor (2018)

Unlovable, de Suzi Yoonessi

.:: 42ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

De modo sensual ao repulsivo, o sexo já foi retratado no cinema das mais diversas maneiras. A menos habitual delas talvez seja com uma estética quase infantil, como se uma protagonista estivesse perdida em um cenário da Hello Kitty. Pois é o que faz a diretora Suzi Yoonessi em “Sem Amor”, enchendo com muito colorido, pelúcia e corações a saga de uma viciada em sexo.

Até mesmo a personagem central interpretada por Charlene deGuzman carrega ironia em seu nome de batismo, Joy. Componente de uma trupe de um programa infantil televisivo parecido com esses feitos pela Xuxa durante a sua passagem na Globo, ela tem um relacionamento sério com um dos seus colegas de profissão boa-pinta, Ben (Paul James), mas é insaciável na cama e procura um sem número de parceiros aleatórios como se encarasse um compromisso diário.

O abismo não é somente tomar um pé na bunda de Ben e perder o emprego após uma falta: sem lembrar de absolutamente nada do que aconteceu na noite anterior, Joy acorda em uma casa em que rolou uma grande despedida de solteiro, coletando como souvenires uma série de fotos polaroid em que se vê transando com todos os caras ali presentes. A única solução que encontra é a de se enfiar em um programa de recuperação para o seu vício sexual.

Porém, o passo para a mudança é dado quando conhece nas reuniões Maddie (Melissa Leo), uma mulher recuperada de seu vício que topa a função de ser a sua guardiã, obrigando-a a se isolar no sobrado da propriedade em que vivem o seu irmão Jim (John Hawkes) e a sua vó debilitada (Ellen Geer). Por 30 dias seguidos, Joy deve negar qualquer um de seus desejos, evitando no processo o encontro com qualquer homem ou o uso de dispositivos eróticos, como vibradores.

Claro que negar a presença de Jim é impossível para Joy e “Sem Amor” passa assim a se concentrar na relação entre essas duas figuras solitárias e incompatíveis com o propósito de se ancorar em questões como autocontrole e amadurecimento. O afinco em preservar até o fim esse tom inocente torna o filme simultaneamente tolo e gracioso, assegurando um resultado final positivo graças à Charlene deGuzman e John Hawkes, aqui exercendo com plenitude o seu talento como músico.