Resenha Crítica: Dias (2020), de Tsai Ming-liang

Hayao Miyazaki, Steven Soderbergh, David Lynch e, futuramente, Quentin Tarantino. Pode ter certeza de que se um diretor um dia anunciar publicamente uma aposentadoria de seu ofício, é provável que essa decisão será logo mais revista.

Artista com sensibilidade à flor da pele, o malaio Tsai Ming-liang disputou o Leão de Ouro em 2013 no Festival de Veneza com “Cães Errantes”. Para todos ali presentes, contou que seria seu último filme. Quando o filme foi apresentado na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo daquela época, os ingressos foram os mais disputados de toda a programação.

Talvez fosse melhor ter parado ali mesmo. “Dias” é um retorno ao formato de ficção de longa-metragem ensaiado há sete anos preenchidos com curtas, médias (um deles, “Jornada ao Oeste”, chegou a receber lançamento comercial no Brasil) e um longa documental.

Em essência, “Dias” fermenta o inevitável encontro entre dois personagens, Kang (Lee Kang-sheng) e Non (Anong Houngheuangsy). Em comum, há a solidão que os devasta e um desejo mútuo em aplacá-lo. Sobretudo da parte de Kang, que habita sem nenhuma outra companhia uma casa espaçosa e que atravessa uma fase de dores físicas de origem desconhecida.

Como o esperado, Ming-liang privilegia aqui os planos longos, mas que nada de realmente relevante parece comunicar sobre esses homens e os espaços que ocupam. O melhor do filme acaba sendo o esperado encontro sexual entre ambos.

Curioso inclusive como o diretor a encena, sem a fetichização tão habitual quando o cinema capta o contato entre dois corpos masculinos. O êxtase é o tato de Non sobre um Kang de bruços na cama de um hotel, como se suas mãos curassem temporariamente a sua enfermidade. No avanço para um ápice, parecem praticantes da gouinage, tornando tudo ainda mais romântico.

Mas é só. O diretor perdeu a habilidade de construir imagens que tanto sugerem mesmo com personagens quase intactos em cena. Para ser bem franco, algumas chegam até a ser mal fotografadas. Longe de sugerir uma aposentadoria, mas um hiato às vezes é sempre bem-vindo para resolver a falta de novidades ou as crises criativas. ★★

Resenha Crítica: Antena da Raça (2020), de Luís Abramo e Paloma Rocha

Transmitido de fevereiro de 1979 a maio de 1980, o programa “Abertura” teve repercussão mesmo ganhando o mundo em um período em que a TV Tupi caminhava para o seu fim. Em seu ápice, atingiu 15 pontos de audiência.

Razão disso foi o seu diálogo franco sobre política em um contexto em que o Brasil ainda vivia sob o regime militar. Além de uma série de personalidades, o programa também continha pautas em que a voz do público era expressa.

Um dos nomes mais inusitados presentes na equipe foi do cineasta Glauber Rocha. Filha do maior expoente do Cinema Novo, Paloma Rocha, em parceria com Luís Abramo, se aproveitou do restauro do material para a feitura do documentário “Antena da Raça”, selecionado para ser o filme de encerramento do 9º Olhar de Cinema.

A dupla de cineastas preferiu não fazer um registro convencional, no sentido de produzir intervenções que reafirmassem a importância do programa. Elas vão de paralelos do material de arquivo com trechos de filmes de Glauber Rocha com a coleta de novos depoimentos.

O resultado final ainda assim não entusiasma, especialmente por decisões equivocadas quanto ao aproveitamento ou escalação de nomes convidados. Caetano Veloso e Zé Celso são destacados enquanto Helena Ignez é emudecida. E é sério que os documentaristas não tinham cogitado alguém mais adequado que José Dirceu para discursar sobre o cenário político que se desenhou desde o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff? ★★

5 bons curtas-metragens brasileiros vistos no 9º Olhar de Cinema

Chão de Rua, de Tomás von der Osten
Montador de um dos títulos também presentes na programação do 9º Olhar de Cinema, “A Mulher que Sou”, Tomás von der Osten comprova com “Chão de Rua” ter uma visão muito singular para desenhar com a construção ou a organização de imagens alguns dados que nem sempre são explicitados pela dramaturgia econômica de um curta-metragem. Embora a sua obra se desenvolva a partir do reencontro entre os meios-irmãos Alberto e Valéria durante uma única noite, os gestos sutis (como as mãos que apalpam um chão em que estão sepultadas memórias da infância) e os corpos em movimento na penumbra sugerem as razões de distanciamento entre os protagonistas. ★★★★

Noite de Seresta, de Muniz Filho e Sávio Fernandes
Codiretor, Sávio Fernandes já tinha provado a sua ótima mão para o humor com a direção de outros dois curtas, “Who’s the Man?” (2017) e “Tommy Brilho” (2018). Além de uma energia contagiante em suas performances de karaokê, Kátia, o alvo central de “Noite de Seresta”, é também carregada de descontração ao falar de si em contextos mais mundanos de sua vida e ainda se permite a protagonizar algumas brincadeiras visuais, como se estivesse inserida em um videoclipe brega. Um filme tão vibrante quando a sua personagem. ★★★

Seremos Ouvidas, de Larissa Nepomuceno
Se acessibilidade no cinema é algo que está longe de ser resolvido, pior é a ausência de registros que dão protagonismo para personagens, reais ou ficcionais, que apresentam alguma deficiência. Larissa Nepomuceno traz à tona algo que muitas pessoas provavelmente nunca refletiram em seus pensamentos: os entraves que mulheres mudas atravessam ao reportar episódios de assédio dos quais foram vítimas. Registro urgente que merece ter o seu acesso ampliado após sua trajetória por festivais. ★★★

Os Últimos Românticos do Mundo, de Henrique Arruda
Diretor do bom “Ainda Não lhe Fiz Uma Canção de Amor” (2015), Henrique Arruda faz uma celebração ao amor livre com uma história com toques de ficção científica, a música como personagem importante, muitas citações pop (a exemplo de “Thelma & Louise”) e uma atmosfera estilizada obtida pela fotografia de Breno César. Chega até a lembrar bastante “San Junipero”, um dos episódios mais queridos de “Black Mirror”, mas com uma brasilidade que o torna único. ★★★

Enraizadas, de Gabriele Roza e Juliana Nascimento
Leusa Araujo publicou em 2012 o “Livro do Cabelo”, um registro ilustrado muito curioso sobre como o cabelo é uma abordagem importante para investigar os costumes preservados por séculos por um sem número de comunidades que constituem a sociedade que hoje vivemos. Singelo, o curta “Enraizadas”, da dupla Gabriele Roza e Juliana Nascimento, consegue expressar em poucos minutos como os trançados sustentados por mulheres e homens pretos são um símbolo indispensável de resistência. ★★★

Resenha Crítica: Trouble (2019), de Mariah Garnett

Com traços andrógenos, Mariah Garnett usa da linguagem audiovisual para fazer os seus experimentos artísticos, mas é a primeira vez em que abraça o formato documental em longa-metragem com uma proposta mais linear para assim ampliar o seu campo de possibilidades com a entrada pelo circuito de festivais.

Mas, como o próprio título sugere, o seu foco aqui poderia acarretar em uma longa exposição de conflitos de identidade. Afinal, “Trouble” apresenta como fio condutor a curiosidade de Garnett, encostando os 40 anos, em investigar a história de vida de seu pai David, ausente em quase toda a sua vida e do qual descobre indícios de seu passado a partir de uma aparição dele em um documentário televisivo produzido em 1971.

Vem aí mais uma serventia do título para a obra, que também alude ao conflito na Irlanda do Norte, período em que David era um jovem protestante em um relacionamento com uma garota católica: uniões inter-religiosas eram proibidas naquele contexto. Entre as consequências, houve o rompimento não apenas com o país, mas também com familiares e amigos.

O documentário parece perder as suas características pessoais para compreender, com olhos estrangeiros, que fim deu um território que superou o seu período de fundamentalismos extremos, o que faz o espectador ficar um tanto disperso em seus rumos e intenções. Além do mais, Mariah Garnett, que tem claro perfil introspectivo, não parece confortável em sua própria escolha de dublar para a câmera os depoimentos em áudio de David. ★★

Resenha Crítica: Pajeú (2020), de Pedro Diógenes

Pedro Diógenes foi um dos nomes principais do coletivo Alumbramento, em muito inspirado pelo tom anárquico do cinema de invenção para promover uma série de experimentos estéticos e narrativos. Feito para audiências bem específicas, decretou o seu fim com “O Último Trago”, produzido em 2016 e lançado comercialmente apenas em 2019.

Com o afável “Inferninho”, Diógenes parecia ter se reinventado como cineasta, sem que para isso tivesse traído em nenhum momento as raízes que o notabilizaram. Avançou algumas casas apenas para voltar para o início do tabuleiro com o enfadonho “Pajeú”.

Interpretada por Fatima Muniz, a protagonista Maristela é simplesmente jogada nesta história com uma série de preocupações ecológicas que se dão mais por sonhos e consequentes reações de seu corpo a eles e muito menos por uma bagagem de vida que nos faça comprar a causa que ela passa a defender.

Professora, ela se vê empenhada em conscientizar anônimos de seu entorno a se preocupar com o riacho Pajeú, antes berço de Fortaleza e de aldeias indígenas e hoje uma correnteza de lixo.

Há circunstâncias aqui em que parecemos assistir a uma peça de propaganda de uma organização não governamental, com Maristela até mesmo ensaiando o papel de agente acompanhada por uma câmera quase documental com questionamentos sobre a existência para jovens em uma praia. ★

Resenha Crítica: Na Cabine de Exibição (2019), de Ra’anan Alexandrowicz

Incrível diagnosticar como a polarização política atravessada pelo Brasil nos últimos 10 anos tem contaminado inclusive o fazer artístico. Hoje em dia, até um filme pode ser tachado como “de esquerda” ou “de direita” – lembram da briga entre “Aquarius” e “Pequeno Segredo” na disputa entre ambos para representar o Brasil na categoria de Melhor Filme Estrangeiro do Oscar 2017?

Embora o documentarista Ra’anan Alexandrowicz seja israelense e faça uma obra coproduzida por americanos, “Na Cabine de Exibição” é perfeito para nós em debates sobre perspectivas de mundo, o poder do convencimento e como discursos podem ser impenetráveis em mentes inflexíveis quanto aquilo que acreditam, mesmo com imagens que tentam convencê-las do oposto.

Neste experimento, Alexandrowicz escalou algumas pessoas para descrever em voz alta as suas impressões sobre os intermináveis conflitos entre Israel e Palestina concentrados em registros amadores projetados em uma cabine privada. Maia Levi foi convocada meses depois para voltar, pois foi a única a defender opiniões que iam de encontro às certezas do diretor.

Entre risos nervosos e questionamentos sobre a veracidade de cenas dominadas pela violência, Maia se revela aqui uma representação perfeita de como a audiência hoje em dia se comporta diante de manifestos audiovisuais.

São tempos difíceis e os narradores visuais parecem desarmados ao fazer com que os seus discursos sejam comprados fora de suas bolhas. ★★★