Resenha Crítica: Nardjes A. (2020), de Karim Aïnouz

Ao mesmo tempo em que exibia “A Vida Invisível”, talvez a sua ficção de maior êxito comercial, Karim Aïnouz também teve os seus pensamentos ocupados com a produção de dois documentários com forte teor político que faziam paralelamente o circuito dos festivais de cinema.

Lançado nas plataformas digitais do Brasil no início da pandemia, “Aeroporto Central” acompanhava imigrantes refugiados na Alemanha incertos quanto ao destino. Tem também caráter de denúncia o seu mais recente “Nardjes A.”, que acompanha a personagem-título em um período de 24 horas pelas ruas tomadas por protestos na Argélia.

A data da gravação do documentário se deu em 8 de março de 2019. Poucas semanas depois, viria a queda do presidente Abdelaziz Bouteflik, figura central do golpe militar na Argélia nos anos 1960 e que ocupou por anos a liderança do pais sob escândalos de repressão, fraudes nas urnas e corrupção.

O suporte digital autoriza Karim Aïnouz a caminhar com liberdade pelas ruas povoadas, bem como a captar nuances tendo Nardjes como o seu fio condutor. Por outro lado, o projeto, que partiu do interesse pessoal do realizador em se conectar com as suas raízes paternas, tardou na escolha do momento ideal para captar as tensões argelinas.

Nardjes é flagrada em várias circunstâncias preocupada com os seus colegas de ativismo, mas nada realmente ameaçador é explicitado. Também é abordada as abdicações pessoais que faz em prol das manifestações, mas isso não soa tão significativo quando o seu dia é concluído em celebração em um bar. A luta continua, embora “Nardjes A.” não seja tão incisivo ao documentar isso. ★★

Buscando… (2018), de Aneesh Chaganty

John Cho in Searching (2018)

O russo Timur Bekmambetov pode até estar desacreditado como diretor após os fiascos de “Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros” e “Ben-Hur“. O que não se pode negar é uma contribuição importante que vem exercendo como produtor. Curioso pelo uso de novas tecnologias dentro da linguagem cinematográfica, tem desde “Apollo 18: A Missão Proibida” – e com maior intensidade em “Amizade Desfeita” – explorado como suporte as câmeras digitais compactas e as telas de computadores e dispositivos móveis.

Em “Buscando…”, a tela do laptop de David Kin (John Cho) é a perspectiva que será adotada para a construção de toda a história criada por Aneesh Chaganty, realizador de apenas 27 anos de ascendência indígena em seu primeiro longa-metragem. Não somente as trocas de mensagens instantâneas e as chamadas de vídeo costuram a narrativa, como também o que é visto em redes sociais, sites de busca e arquivos pessoais.

Após um dia todo sem receber mensagens de sua filha Margot (Michelle La), David passa a vasculhar os seus rastros virtuais para tentar identificar para onde ela foi. Vai dormir acreditando que está acampando com um amigo da escola. Quando o próprio confirma no dia seguinte que não está com a companhia dela, David inicia os procedimentos para dá-la como desaparecida e assim contar com a investigação policial. Excelente em um papel em que estamos pouco habituadas a vê-la, Debra Messing interpreta a detetive que se prontifica a ajudá-lo na busca por Margot.

Aneesh Chaganty compreende perfeitamente o universo que está explorando e discute sobre a outra vida que cada um de nós encena no “plano virtual” sendo totalmente fiel ao modo como usamos os mecanismos que hoje fazem parte do nosso cotidiano. Talvez o limite seja o de forçar que o seu protagonista esteja 100% leal a eles, fazendo com que os eventos de “Buscando…” sejam totalmente reféns do formato trabalhado – “Amizade Desfeita” o fez de modo mais orgânico.

Diante de tudo isso, é curioso constatar como o desaparecimento de Margot é usado mais como um motor para “Buscando…” tecer comentários sobre as máscaras e julgamentos que sustentamos com a proteção do distanciamento da realidade do que o de propor um mistério qualquer. Bekmambetov investiu em um filão barato e com grande potencial de lucro que terá uma fase duradoura no cinema contemporâneo.

Voltando Para Casa (2002), de Agnieszka Holland

Veterana, a diretora Agnieszka Holland tem como maior virtude a sutileza e sensibilidade que abarcam para as suas obras. Independente dos assuntos que tem para abordar, ela os funde com muito esmero. Porém, a diretora do recente “O Segredo de Beethoven” necessita de muita mais energia para fazer os seus filmes arrebatarem.

Em “Voltando Para Casa”, Agnieszka orquestra o cotidiano dramático de Julie (interpretada pela atriz Miranda Otto, a Eowyn de “O Senhor dos Anéis”), esposa e mãe de irmãos gêmeos chamados Nick e Nicole (respectivamente Ryan Smith e Bianca Crudo) que flagra seu companheiro Henry (papel de William Fichtner, de “Paixões Paralelas”) na sua própria residência com outra mulher. O casal vive junto por um longo tempo, mas nunca pensou seriamente em selar o relacionamento com um casamento.

Mesmo com a impactante surpresa, Julie terá que estar ao lado de Henry, pois Nicky demonstra com grande frequência sintomas que podem ser resultantes de um câncer com poucas chances de cura. Como os medicamentos não causam efeito, ela descobre um método inusitado para tentar combater a doença de seu filho: levá-lo para outro país e deixá-lo aos cuidados de Alexei (Lothaire Bluteau), famoso curandeiro que remove enfermidades com um simples toque.

A princípio é fácil imaginar que “Voltando Para Casa” segue apenas um trilho, mas com o desenrolar de cada acontecimento a diretora polonesa tenta elaborar inúmeros temas e mensagens (Agnieszka também assina o roteiro). O filme trata sobre a importância da união familiar, o choque de credos, a necessidade de acreditar no que é até então uma incógnita, entre outras realidades edificantes. Mas chega um momento em que o filme provoca um grande incômodo.

Talvez pelo motivo de ter muito o que falar e pouco o que fazer, a produção não consegue se centrar em uma meta, deixando muitos acontecimentos serem resolvidos de modo insatisfatório, a exemplo da simplicidade em como Julie e Henry reatam, ainda que esteja sempre presente rastros de infidelidade entre ambos. O filme só ganha força quando Lothaire Bluteau entra em cena, incorporando um personagem que não terá um destino decretado. Sua atuação carismática e envolvente responde por algumas boas cenas.